Apologia do mau tempo


escafandro,

Gosto do tempo frio e não desgosto do tempo cinzento. Temperaturas a rondar o zero, nuvens baixas e carregadas, neblina, vento, chuva, neve. Condições assim combinam comigo. Ou melhor: proporcionam-me uma imagem mais calorosa de mim mesmo. Fazem com que me sinta um ponto de calor perdido numa Natureza fria e hostil. E isso é agradável. Ridículo, talvez. Ligeiramente egotista. Mas agradável. Eu contra o Inverno. Molhando-me. Avançando contra o vento. Combatendo o frio nas mãos, nas orelhas e na ponta do nariz. Fintando as gripes e as constipações ou batalhando-as energicamente (bom, talvez «energicamente» seja um exagero). O tempo frio e chuvoso combina comigo porque me mostra que sou melhor do que pensava. Quentinho e acolhedor. Pelo contrário, o tempo quente não me faz sentir fresco. No Verão, eu cedo à malevolência da Natureza (temperaturas elevadas são malévolas; veja-se a habitual representação do Inferno). Transpiro, bufo, fico inerte. Quando arranjo forças para abanar uma revista à frente da cara sinto-me ridiculamente pusilânime. Como outros gestos, não passa de uma admissão de derrota. No Inverno, não. Esfrego as mãos com energia e convicção. Aqueço-as com o bafo quente que me sai dos pulmões (soprar-lhes, no Verão, é como tentar apagar um incêndio florestal com uma garrafa de quarto de litro mal cheia de água morna). Corro para evitar a chuva (no Verão, tento nem sequer me mover). Praguejo convictamente (no Verão, quando tenho forças para dizer alguma coisa, saem-me queixinhas irritantes). Sinto-me bem enfiado num sofá a ver um filme ou a ler um livro (no Verão, há agressividade na simples ideia de «sofá»). O tempo frio é estimulante. Bom, talvez isto seja outro exagero: não o será sempre e não o será para todas as pessoas. Mas, pelo menos, é mais estimulante do que o tempo quente. O cérebro humano não tem ventoinhas suficientes para arrefecer o processador quando estão quarenta graus à sombra. Aquece. Frita. Estoira. Pelo contrário, aguenta bem o frio (se estiver mesmo muito frio pode entrar em modo de hibernação mas a maior parte das pessoas nem nota a diferença).

 

É verdade que prefiro que a chuva não seja demasiado intensa. A chuva intensa é um acto pouco subtil da Natureza. Como, de resto, o calor intenso: note-se como ambos nos deixam encharcados (mas antes uma boa molha que o corpo liquefazendo-se em transpiração). Já o vento, mesmo forte, é-me simpático. Há irreverência no vento. Estraga-nos a compostura e isso é quase sempre positivo. Enfrentá-lo é como aquelas lutas bem-humoradas entre amigos. Às vezes exagera-se e a coisa descamba nuns murros a sério mas, geralmente, tudo se mantém dentro dos limiares do divertimento. E depois há o nevoeiro. Desagradável quando se conduz mas – e isto talvez seja demodé mas que se lixe (o frio quase fez sair um impropério mais colorido) – tão incrivelmente romântico. Uma capa de mistério caída sobre paisagens conhecidas. Um detonador de melancolia benigna (pelo contrário, quem é que consegue ser melancólico enquanto transpira e procura respirar debaixo de um Sol monótono?). Quando, há anos, fui a Londres fiquei desiludido por não apanhar pelo menos uns minutos de nevoeiro (retrospectivamente, talvez não tivesse sido boa ideia ir lá no início do Verão mas as estações do ano não podem servir de desculpa a uma cidade que se preze: há tradições, ainda que apenas literárias e cinematográficas, que, uma vez implantadas, merecem respeito.) Mesmo cá, exijo nevoeiro de vez em quando. O nevoeiro é uma mensagem da Natureza. Um pedido para que façamos introspecção. Sem grande sucesso porque, como todos sabemos, o ser humano deixou de prestar atenção à Natureza.

 

Podia ainda escrever sobre a neve, sobre a ondulação marítima, sobre as trovoadas (evitaria sempre o granizo, que é novamente uma manifestação demasiado agressiva e sem pinga de humor ou de poesia), mas não vale a pena alongar-me demasiado (mesmo em dias frios como este poucas pessoas lêem posts longos). No Inverno, a Natureza mostra que tem tomates (tomates metafóricos, sendo ela feminina) e pergunta-nos se também os temos (pelos comentários que ouço, parece que não). E depois há lá coisa mais bonita do que um céu limpo de uma noite de Inverno? Ou do que a luz do Sol furando as nuvens, atravessando uma atmosfera lavada pela chuva, aplicando uma demão de verniz brilhante nos edifícios, nas estradas, nos automóveis e até nas pessoas? Um – e há muito que desliguei o detector de imagens forçadas – sorriso de parabéns da Natureza pelo estoicismo demonstrado. Mostremo-nos à altura, caramba.

Nota: este post adquire pleno sentido quando é lido com os dois últimos andamentos da Sexta Sinfonia de Beethoven em fundo.

 

(Publicado aqui há pouco mais de dois anos. Republicado com alterações.)

5 comentários em “Apologia do mau tempo”

  1. “Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,

    Porque para o meu ser adequado à existência das cousas

    O natural é o agradável só por ser natural.

    Aceito as dificuldades da vida porque são o destino, como aceito o frio excessivo no alto do Inverno-

    Calmamente , sem me queixar, como quem

    meramente aceita,

    E encontra uma alegria no facto de aceitar –

    No facto sublimemente científico e díficil de aceitar o natural inevitável(…)”

    Alberto Caeiro

  2. Percebo que tudo é muito relativo!!

    Como em tudo na minha vida, não gosto mesmo de extremos! Entre o mínimo e o máximo, prefiro o nível intermédio! Entre o “gelar” e o “torrar”, prefiro a temperatura amena! Entre o céu cinzento e o sol a raiar, prefiro o sol a raiar, sem dúvida! A chuva a mim não me incomoda nada, quando não é forte e quando não é acompanhada pelo vento (Vento e chuva fazem uma péssima combinação, diga-se de passagem! Odeio-os, sempre que andam juntos! Hum… Se bem que, neste Inverno, só vi um guarda-chuva ser completamente destruído, com a ferocidade do vento)! Bem, adiante! Posso dizer que o ano de 2011 e o início de 2012 foram horríveis. Passei um calor do caraças e, como se isso não bastasse, apanhei uns três banhos de chuva (de ficar completamente encharcada) e passei um frio de rachar, até chegar ao ponto de ter apanhado frieiras, coisa que nunca havia tido antes!
    Bolas, definitivamente, prefiro mesmo um nível intermédio!

    P.S.: A temperatura que se vive em algumas IPSS é mesmo de extremos! Por que será?!! Por outro lado, andar de transportes públicos ainda não é assim tão confortável, principalmente quando se tem que fazer transbordo em dias de grandes intempéries! Como diz um amigo meu: “C’est la vie!”. Eu, furiosa, contesto: “Eu digo-te o c’est la vie!!!!”.

    1. Ok, eu também gosto da Primavera e do Outono. Mas, decididamente, prefiro cinco graus a trinta e cinco.

      “Temperatura nas IPSS” é para ser tomado em sentido literal, suponho… Para mim, os ares condicionados estão quase sempre regulados para temperaturas demasiado elevadas, seja lá onde for. Mas as meninas tendem a ser mais friorentas…

      Quanto aos transportes públicos, então não é agradável? Puro calor humano… 😉

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