Continuidade


escafandro,

Como outras grandes empresas, os bancos nacionais gastaram nos últimos anos dezenas ou centenas de milhares de euros a delinear «planos de continuidade do negócio». É irónico como tiveram o cuidado de prever a possibilidade de incêndios, terramotos, ataques à bomba ou através de vírus informáticos mas nenhum conseguiu antever os riscos inerentes ao próprio negócio (por exemplo, os relacionados com o excesso de crédito concedido ou com a falta de qualidade dos títulos adquiridos). Mas, enfim, a nossa especialidade sempre foi pensar no acessório. Agora que os prejuízos chegaram, só posso recomendar aos banqueiros nacionais, esses expoentes da economia e da gestão, que lhes apreciem devidamente o sabor – poderão achá-lo um tudo-nada ácido mas experiências novas, ainda para mais em idades já avançaditas, são sempre de valorizar. E, para bem de todos (deles e nosso), esperemos que não tenham de engolir muito pior.

Mozart ou tenho mesmo que passar a ser menos eficiente…


escafandro,

 

Primeiro Acto.

Ontem à noite. Abro com gestos largos uma encomenda da Amazon que, entre outras coisas, inclui umas óperas em blu-ray (excelente forma de ver ópera ou bailado, deixem que vos diga). Verifico com espanto e horror que o Don Giovanni dentro da caixa é em DVD. Praguejo três vezes, na minha voz de barítono (com – é um efeito fantástico – uns laivos de falsetto). Pela listagem inclusa, confirmo que encomendara a versão em blu-ray. Ainda que o erro não seja meu, praguejo mais três vezes para reforçar a ideia de que não estou satisfeito. Ponho o DVD de lado juntamente com a listagem de itens encomendados decidido a tratar da devolução hoje pela manhã. Vou jantar.

 

Segundo Acto.

A meio da manhã trato do pedido de substituição. As coisas correm bem – no site da Amazon está tudo pensado para que o cliente sofra o mínimo de incómodo possível. Imprimo os formulários: uma folha para meter dentro da embalagem de retorno, um rótulo de correio registado dos CTT, um comprovativo. Não é preciso pagar portes. À hora de almoço vou a uma estação de correios. Compro um envelope almofadado, meto o DVD lá dentro juntamente com a folha adequada, a senhora que me atende cola o rótulo ao envelope com fita-cola, carimba a folha de recibo e cobra-me noventa e cinco cêntimos pelo envelope (a Amazon dizia para usar a embalagem original mas é demasiado grande). Vou almoçar.

 

Terceiro Acto.

Às duas e tal verifico que chegou uma mensagem da Amazon. Pedem desculpa, referem que já estão a tratar do envio da versão em blu-ray e dizem-me que, atendendo aos custos da devolução, posso ficar com a versão em DVD. Sugerem que a ofereça para beneficência mas isto só leio mais tarde porque já estou saindo a correr para a estação de correios. Pelo caminho, praguejo mais seis vezes. É que, não sei se estão a ver, a Amazon dava-me trinta dias (trinta!) para fazer a devolução. Por que diabos tive de tratar do assunto logo no primeiro? Chego a arfar. Tiro uma senha. Faltam seis números para a minha vez. Nada mau. O pior é quando um funcionário com um grande saco ao ombro sai em direcção a uma carrinha estacionada na rua. Fixo o olhar no saco com tanta intensidade que fico certo de não ter nascido em Krypton (em miúdo cheguei a ter esperanças). Pondero abordá-lo e obrigá-lo a abrir o saco mas contenho-me e deixo-o ir embora na carrinha. Chega a minha vez. Explico o que se passou. A funcionária que me atende fala com a que me atendeu antes (está mesmo ao lado, com outro cliente). Ela lembra-se de mim (modéstia à parte, lembram-se sempre) mas, com um trejeito de horror típico de ópera buffa (mas mais na linha de Rossini do que de Mozart) exclama: «Ah, não sei se ainda cá está!». Levanta-se e vai remexer num cesto. Sorri. Mostra o envelope na mão erguida. Anuncia: «Eccolo qui!» (Talvez tenha sido em português, já não estou certo.) Apetece-me saltar o balcão e dar-lhe um beijo (até porque é gira). Ela despacha o outro cliente e depois trata de mim (será impressão minha ou isto não soa bem?). Abandono os correios com o envelope na mão prometendo a mim próprio ser menos eficiente no futuro. Considero a hipótese de ir lanchar mas é demasiado cedo.

 

E agora, em que instituição de solidariedade apreciarão Mozart?

O número dois que se vê


escafandro,

Seria sempre difícil. Um número dois é invariavelmente olhado com desconfiança. O que terá feito para chegar tão perto do poder? Qual o seu grau de lealdade? Manterá segundas intenções? Andará a extravasar as suas competências? Ainda por cima, já não estávamos habituados. Antes de Miguel Relvas, há pelo menos uma década que não dávamos pela existência de um número dois político num governo.

 

Claro que, em termos de relevância global, o número dois dos últimos governos tem sido o Ministro das Finanças. Mas não é função do Ministro das Finanças preocupar-se com justificações políticas das medidas que impõe ou ajuda a impor. Para isso, há ministros políticos. Mas será que estamos habituados a dar por eles? Quem – respondam depressa – era o número dois político nos tempos de Durão Barroso? Não, Paulo Portas estava no governo mas nunca foi número dois (nem podia sê-lo: pertence a outro partido e era olhado com grande desconfiança por muita gente no interior do PSD, tendo que gerir a exposição mediática com imenso cuidado). Então? Pois, não é resposta que surja de imediato – talvez Marques Mendes mas, na verdade, ninguém parecia destacar-se no apoio ao Primeiro-Ministro (sim, eu sei: se era Marques Mendes, não surpreende que não se destacasse – mas vocês percebem o que quero dizer). E depois vieram os governos Sócrates. Em ambos, o lugar de número dois político era, evidentemente, ocupado por Pedro Silva Pereira. Mas Pedro Silva Pereira possuía uma característica que Relvas não possui nem poderá obter (há a cirurgia mas vamos partir do princípio de que ele não está disposto a tanto): era um clone do Primeiro-Ministro; uma extensão de José Sócrates; uma emanação de José Sócrates. Façam um exercício: tentem pensar em Pedro Silva Pereira sem pensar em Sócrates. Tentem vê-lo como uma pessoa independente, com vida própria, um casamento (ou uma união de facto, que estamos a falar de um socialista moderno), filhos; tentem imaginá-lo sentado no sofá, em pijama e chinelos, assistindo a uma partida de futebol na televisão. Conseguem não ver Sócrates algures? Admitam: é Sócrates que vêem e não Silva Pereira; ou então as imagens sobrepõem-se; ou, no mínimo, Sócrates encontra-se no outro sofá ou de pé junto à porta ou, no mínimo dos mínimos, numa fotografia emoldurada por cima da lareira. Tenho razão, não tenho? Excelente. Só mais um teste: pensem em Pedro Silva Pereira a falar. Conseguem ouvir a voz dele e apenas a voz dele na vossa cabeça? Bem me parecia. A voz política dos governos Sócrates foi sempre Sócrates (mesmo à posteriori, que pensamento aterrador).

 

Miguel Relvas surge, assim, particularmente estranho – e inquietante. Trata-se de um número dois que intervém com frequência, que aqui e ali parece sobrepor-se a Passos Coelho, que é maçon (pormenor irrelevante não se desse o caso da Maçonaria parecer ter trocado os elevados ideais do Iluminismo pelos prosaicos ideais da troca de favores), que tem a seu cargo reformas delicadas (por exemplo: redefinição do mapa do poder local e privatização da RTP) e que, tutelando a área da comunicação social, pode facilmente cair na tentação de procurar manobrar a informação. Ora se a questão das reformas já suscita alguma preocupação, pelo nevoeiro que parece envolvê-las (em especial a da privatização da RTP), por estes dias torna-se inevitável abordar o caso Pedro Rosa Mendes. Das duas, uma: ou Relvas mandou afastar Rosa Mendes ou a administração da RTP (e RDP) decidiu antecipar qualquer desagrado superior e tratou do assunto com o excesso de zelo típico dos lambe-botas (estúpidos, ainda por cima) que tendem a ocupar posições do género neste país. No primeiro caso, nem há espaço para hesitações: Relvas devia abandonar o governo. No segundo, devia demarcar-se – e demitir a administração da RTP. Das piores coisas que o governo pode fazer numa época em que o espírito de boa vontade não abunda é começar a transmitir a ideia de que aprecia o silenciamento de vozes discordantes. E quem achou que o caso Fernando Charrua/Margarida Moreira (ou lá como se chamava a triste senhora) era um péssimo indício dos tempos que se viviam sob a batuta do quase engenheiro e futuro filósofo, não pode agora contemporizar. De resto, já era tempo de entendermos que tentar silenciar comentários negativos gera quase sempre mais ruído do que permiti-los (mas trata-se de um tique ditatorial que nos vem de longe). Sendo um homem inteligente, Miguel Relvas deve perceber que constituirá sempre um alvo: it comes with the territory de ser um número dois que se vê, ainda por cima em tempos de crise profunda. Acontecimentos deste género só farão com que tenha de pagar por isso mais depressa. Ou então pagará Passos Coelho.

Para quem pensa não gostar de ballet (mas os restantes também podem ver)


escafandro,

 

Uma impagável paródia ao adágio da rosa, de A Bela Adormecida. Alice’s Adventures in Wonderland, com coreografia de Christopher Wheeldon, música de Joby Talbot e cenografia e figurinos de Bob Crawley, foi uma aposta arriscada do Royal Ballet (onde já não era criada uma obra de longa duração desde 1995) no ano passado. Resultou em cheio (crítica no The Guardian). Disponível em DVD e Blu-ray.

A Rainha de Copas é Zenaida Yanowsky.

Diferenciação


escafandro,

«He gave me an article about the exteriorization of the self. It’s pretty self-explanatory. You see it everywhere. People advertise what they are, young people especially, by signage, essencially. People advertise what they are, their affiliations. They wear tee shirts with messages instead of plain, like we wore. They wear violent personal ornaments and tattoos. The idea is that when people dressed more or less all the same, within the same middle-class spectrum, you demonstrated who you were in the things you revealed when you talked to people, what you read, what you knew. Now nobody knows anything different than the next guy. It’s all music and media boilerplate on the inside. So therefore why not get wondrously overmuscled or put metal studs in your eyelids? This I’ve seen. This article calls it a panic over differentiation. And it´s true. Well.»

Norman Rush, Mortals.

Edição Jonathan Cape.

 

Estamos preguiçosos e a diferenciação por elementos físicos e visíveis não exige grande trabalho, ao contrário da diferenciação pelos conhecimentos. Proporciona também – ponto tornado crucial – uma gratificação mais rápida: a diferença é imediatamente visível aos olhos dos outros (daqueles que se deseja impressionar, renegar ou provocar). Poder-se-ia pensar que esta diferenciação por elementos superficiais tenderia a revelar-se uma experiência vazia. Talvez em alguns casos o seja: há muitos exemplos onde a felicidade não parece abundar e, pelo contrário, a pertença a uma determinada tribo (ou, hoje em dia é preciso ser simpático, a um determindado grupo) parece gerar mais agressividade do que satisfação. Mas a verdade é que isto pode ser parte do prazer ao configurar um, digamos, statement raivoso. Para a maioria, os principais problemas são mesmo de ordem prática (a pele tem uma superfície finita onde colocar tatuagens ou piercings, os estilos de roupa e de penteado começam a estar todos vistos) e a frustração só nasce com a diluição da diferença por efeito de contágio. Afinal, poucas tribos conseguem permanecer fora do mainstream durante muito tempo. (Que nos imitem é primeiro uma coisa boa, depois uma coisa má.) Curioso é que, numa cultura que mantém cada vez mais relações por computador e telemóvel, esta diferenciação pode nem sequer ter efeitos para o exterior, ficando confinada a pequenas fotografias inseridas num perfil. Não importa. Cada vez mais, a realidade é construída no interior da cabeça: a internet permite que se vogue na comunidade certa, os jornais são ignorados, a televisão vai pelo mesmo caminho (e, seja como for, não é experiência menos vazia nem menos superficial), a verdade cinge-se ao imediato. E a sensação de diferença – e de pertença – dura enquanto dura. Normalmente pouco. Ou, no mínimo, bastante menos do que as tatuagens.

 

Felizmente, para verdadeira e sempre renovada diferenciação, existem os gadgets.

QSERTY


escafandro,

Há erros que se percebe imediatamente serem erros de digitação. Por exemplo, quando a ordem de duas letras surge torcada. Mas há outros em que se fica na dúvida e, quase sempre, o culpado é o teclado. Afinal, quem decidiu colocar o ‘v’ ao lado do ‘b’? “Bitória” será erro de digitação ou regionalismo? E “Biba o Porto”? (A cidade, filhos, a cidade.) Carregar duas bezes seguidas na tecla errada já seria coincidência a mais, não acham? E quem decidiu pôr o ‘s’ juntinho ao ‘z’? “Condusir” será erro de digitação ou um cazo grabe de falta de domínio da língua portugueza? Já o ‘m’ junto ao ‘n’ só pode levar àqueles erros em que se fica sem saber se a pessoa escreveu “enbalagem” por erro ou por ignorâmcia. Outro exenplo: o ‘t’ por cima do ‘g’. No site d’A Vola, “tolo de Hulk” será uma apreciação pouco avonatória sobre o abamçado do Porto ou apenaz referêmcia a um golo marcado por ele? Mas o ‘p’ jumto ao ‘l’ pode dar aso a confuzões ainda mais traves. Inaginem um daquelez cartases do PC ou da CTTP con a fraze “A luta continua” em que alguém houvesse acergado na letra errada. A confusão que geraria no parlanemto. E nos vlogues, claro: os ataques noz de direita, as defezas nos de ezquerda, a esleculação em godos acerca de que miniztra (ou mimistro) seria bizada.

 

Cometer erros é humano. Mas izto de uzarmis um tecpado feifo por e pata amglo-sazónicos potemxia o sey apadeci,ento. En ezpexial ze a fagta de jeyto nãi ahudwr.

 


P.S.: o corrector ortográfico do Sapo acaba de dar o ‘tilt’.

«E que ******* é uma cítara, afinal?»


escafandro,

No dia seguinte estávamos no quarto do Seb olhando o «Rubber Soul». Ninguém disse nada durante muito tempo. Estávamos sentados, debruçados sobre o disco, mudos, zangados, exactamente como o John, o George, o Ringo e o Paul se debruçavam sobre nós, fitando-nos duramente.

Não nos reconhecíamos.

– E como é? – perguntou Seb em voz baixa.

– Ainda não ouvi.

Olharam para mim e acenaram as cabeças, eu tinha corrigido a traição do Help. Retirei cuidadosamente o disco da capa, Seb colocou-o no novo gira-discos, Gerard, premiu on e a agulha elevou-se, sozinha, aterrando na primeira faixa, suavemente, como uma pena.

Ficámos a ouvir o disco o resto de serão, tocando-o vezes sem conta, os nossos ouvidos conchas enormes e nós deitados no fundo do mar, ouvindo, ouvindo, tentando interiorizar as músicas. Gunnar apontou desesperado para uma fotografia do John numa floresta de pinheiros enquanto ouvíamos o Norwegian Wood sem entender nada.

– Floresta norueguesa! – agoniou. – Floresta norueguesa! E que caralho é uma cítara, afinal?

Lars Saabye Christensen, Beatles.

Edição Cavalo de Ferro (2005), tradução de Kristian Amby.

 

Todos nos lembramos de, em criança, desejar ardentemente uma coisa (um disco, um brinquedo, uma peça de roupa) e dos dias ou semanas que lhe dedicámos depois de a obter. Nas décadas de sessenta, setenta ou oitenta (Beatles trata da adolescência de quatro rapazes na Oslo dos anos sessenta e do fervor com que acompanhavam cada novo álbum dos Beatles), a maioria das pessoas não tinha dinheiro para comprar muitos presentes aos filhos, o que transformava cada compra num evento. Cada presente era fruído durante longo tempo, a menos que se partisse ou fosse passível de ser facilmente desmontado. Entretanto, o nível de vida médio subiu (em tempos de crise, tendemos a esquecer-nos) e  as crianças começaram a receber ofertas mais regularmente. Os próprios adultos, que se permitiam indulgências com ainda maior parcimónia do que aquela com que presenteavam os filhos, passaram a um nível de auto-indulgência incomensuravelmente superior. Ainda bem, claro. Nada tenho contra poder aceder-se a mais coisas. Mas assalta-me a sensação de que se algo perdeu. Cada nova aquisição deixou de ter a importância que tinha. A fartura (ainda que quase sempre relativa) leva a que poucas coisas sejam hoje fruídas com o nível de intensidade que mereciam. No que me diz respeito, já não me lembro da última vez que ouvi um álbum com a atenção que dediquei a The Joshua Tree ou andei tanto tempo acompanhado por uma canção como nos tempos de True Faith. Talvez por alturas de OK Computer, certamente que não na última década. Continuo a ouvir imensa música, até mais do que por alturas da minha adolescência, quando o dinheiro de que dispunha para a comprar era muito limitado, e continuo a procurar música nova, mas reduzi o grau de profundidade com que a ouço. E o mesmo acontece noutras áreas (na literatura, um pouco menos). A quantidade substituiu não a qualidade dos itens mas a da sua fruição; substituiu a profundidade da análise.

 

Exagero? Talvez. Saudosismo? Também é provável. Afinal, como Pedro Mexia afirmava numa crónica sobre homens adultos coleccionadores de cromos incluída em Nada de Melancolia, as pessoas da idade dele (o que – bof – me inclui) estão viciadas em nostalgia. Mas ainda assim não resisto a continuar. As experiências são hoje não exactamente menos intensas (pelo menos, não para as crianças) mas acima de tudo mais efémeras. E não por culpa daquilo que as gera: é verdade que o efeito de novidade diminuiu (poucas coisas novas são verdadeiramente novas) mas, ainda assim, continuam a ser disponibilizadas diariamente excelentes obras em quase todos os campos que se entenda analisar. O problema reside nos consumidores. Requer-se novidade constante mas cada nova dose produz efeito durante menos tempo. A música, consumida em temas individuais e não em álbuns – a noção de obra parece também estar a desvanecer-se – é amontoada aos milhares de faixas em leitores portáteis e computadores. Os filmes, colagens de efeitos especiais concebidas para animar adolescentes durante duas horas, são esquecidos logo após o início do genérico final (com honrosas excepções, a que poucos ligam). Talvez os jogos de vídeo ainda consigam prender miúdos (e graúdos) durante algumas semanas mas já não têm o carácter quase mítico de há quinze ou vinte anos e também eles têm vindo a tornar-se mais «acessíveis» (mais fáceis, mais curtos, mais iguais entre si). E esta tendência está longe de se confinar aos bens culturais. Após seis meses de uso, um telemóvel já desagrada. Um carro é substituído ao fim de três ou quatro anos. Na moda, as cores «certas» mudam de estação para estação, a cintura das calças e das saias sobre ou desce uns centímetros todos os anos, a ponta dos sapatos femininos muda de redonda para quadrada para bicuda e depois volta a redonda em períodos cada vez mais curtos. A ânsia da «novidade» é gigantesca, o tédio espreita a cada esquina e poucas pessoas sabem gerir a insatisfação. Felicidade passou a significar acesso contínuo a entretenimento de acesso rápido e posse dos mais recentes bens materiais. E, claro, também ela é cada vez mais efémera.

 

Como isto começou e vai acabar com um excerto em que o assunto é música, talvez não seja descabido referir que a situação pode ter sido agravada pelo facto de muitas coisas terem deixado de ser pagas. Poucas pessoas – pouquíssimos jovens, certamente – pagam hoje a música que ouvem. E o mesmo se começa a passar com os filmes, os jogos, os livros – tudo o que é passível de download. Não pagar leva a amontoar mais coisas: inevitavelmente, quanto mais não seja por falta de tempo, a muitas quase não se presta atenção e mesmo as restantes sofrem por não serem apreciadas com calma. Talvez pior: o hábito de não pagar leva à perda de noção do valor dessas coisas. A distorções curiosas como, por exemplo, muita gente se recusar a pagar doze ou quinze euros por um álbum musical (ou menos, em sites como a Amazon, o iTunes ou o Zune), algo a que está associado um trabalho de meses ou anos, mas estar disponível para pagar os mesmos quinze euros por uma t-shirt feita na China com a fotografia da banda a que se nega o pagamento da música estampada no peito. A facilidade com que se obtêm coisas que ainda há uma vintena de anos custavam dinheiro, para as quais era necessário poupar, deprecia-as. Faz com que se consumam e ponham de lado mais depressa. E parece também fazer aumentar a predisposição para aceitar que tudo pode ser obtido de graça. Afinal, se é possível obter as canções, por que não o leitor de mp3, o telemóvel ou o computador onde as ouvir – ou a t-shirt? Como se viu há uns meses em Londres, não são dúvidas morais que impedem muitas pessoas de entrar numa Fnac e sair de lá com iPads debaixo do braço. São questões de oportunidade. Paradoxal mas quiçá inevitavelmente, os bens materiais vêm-se tornando cada vez mais importantes mas também cada vez menos eficazes na incessante busca da felicidade.

 

E a melancolia (desculpa lá, Mexia, mas como evitar uma pitadazinha?) surge da percepção de que, afinal, descobrir coisas – descobrir mesmo, mergulhando nelas, saboreando-as, analisando-as, dando-lhes tempo, permitindo que nos interroguem, usando-as para descobrir outras coisas – continua a ser das melhores experiências que se podem ter na vida.

 

Seb estava dentro do altifalante à procura da cítara, tinha de ser algo muito estranho. Mas Ola estava satisfeito com o What goes on, tinha agarrado num par de lápis com que batucava, franca melhoria. Eu achei o Michelle delicodoce, mas o Girl era o máximo, fazia-me sentir todo amargo e quente. O Nowhere Man passou-nos totalmente ao lado, e por cima. Gunnar estava quase no choro, o suor brotava-lhe da testa e a boca estava escancarada e vazia.

– Mas afinal o qu’ é que a-a-aconteceu? – murmurava Ola.

A porta abriu-se abruptamente e lá estava o pai de Seb, o comandante, cara tisnada e a camisa dobrada e arregaçada mostrando os pêlos que transbordavam no peito e nos braços, como musgo negro.

– Olaré. Que carantonhas!

– Olha, pai – disse Seb. – O qu’ é uma cítara?

Entrou para o meio do quarto e plantou bem os pés no chão, como se estivesse no mar alto.

– Cítara. Vou contar-vos, pois. Uma vez chegámos a Bombaim com petróleo. E o nosso cozinheiro era indiano. Trabalhava como um herói, não pensem que se come pouco a bordo de um navio. E o indiano, ‘tão a ver, os indianos não comem carne, porque acham que a qualquer momento os antepassados podem aparecer por aí como vacas, ou gafanhotos, e por isso não comem carne. Mas o nosso indiano tinha de preparar carne todos os dias, e ‘tão a ver como devia ser, pra ele, todos os dias a pensar que estava a preparar o avô. Mas mesmo assim nunca havia barulho com ele.

Seb pigarreou.

– Oh pai. O qu’ é uma cítara?

– Calma. Não havia barulho com este menino, não, ou antes, havia uma barulheira dos diabos, porque ele tocava cítara, todas as noites. Era o consolo dele. Um instrumento enorme. Pelo menos cem cordas. Soa a mulheres maldispostas.

– Como que uma guitarra indiana? – perguntou-lhe Seb.

– Isso mesmo. Gosto em vê-los, rapazes.

E o comandante desapareceu. Pusemos de novo o Norwegian Wood.

Ena. Índia?

 

Imagem retirada daqui (os Beatles e as suas guitarras).

Momentos surreais que me fazem pensar que nem tudo está perdido


escafandro,

Rotunda da Boavista, há cerca de uma hora. Um Ford Focus encontra-se parado na faixa interior, junto ao passeio. Lá dentro, um casal de idade. O homem, sentado atrás do volante, tem o braço esquerdo de fora, tão estendido quanto lhe é possível. Agarra pelos fundos um saco plástico que começa a sacudir. Caem bocados de pão no piso empedrado. De imediato, alguns pombos surgem junto ao carro. O trânsito não é intenso e os outros condutores vão-se desviando. Ninguém apita.

Então não havia de gostar…


escafandro,

 

Para a Ana, como prova de que gosto do Peter Gabriel. Dois temas da Secret World Tour, de 1993. Come Talk to Me, a abertura do concerto (é o que se chama abrir em grande), e Blood of Eden, ambos do álbum Us, ambos em dueto com Paula Cole (no álbum, o dueto era com Sinead O’Connor – e havia também um apoio vocal de Daniel Lanois, produtor extraordinaire e autor de For the Beauty of Wynona, um dos álbuns que mais ouvi na primeira metade da década de noventa).

 

 

O peso certo da construção civil


escafandro,

A propósito de um despedimento colectivo na Soares da Costa, estas declarações do presidente do Sindicato da Construção de Portugal avisando que o Ministro Álvaro Santos Pereira está a «autorizar a despedir quando deveria mas é relançar o sector» e que «poderá se tornar o coveiro do sector» são deliciosas de miopia. Eu percebo que o senhor tenha de defender os interesses dos seus associados mas conviria ainda assim explicar-lhe duas coisas. A primeira é que nenhum Ministro tem o poder de alterar a realidade por decreto. Incrivelmente, parecemos continuar a acreditar que basta uma assinatura ministerial et voilá. Os trabalhadores ficam e a empresa em questão segue, próspera e feliz (mas não com lucros elevados que isso seria ofensivo). A segunda coisa que conviria explicar a este senhor e a muitos outros senhores (e senhoras) que por aí andam é que nas últimas duas décadas o sector da construção civil cresceu muito mais do que deveria ter crescido, mercê de obras públicas que iam levar-nos à riqueza e acabaram por ajudar a levar-nos ao abismo, e de um sector imobiliário em overdrive que, ajudado por autarquias sequiosas de receitas, gerou milhares de espaços devolutos. É pena que não se tenha apostado na requalificação urbana (por exemplo: uma lei da rendas adequada, associada a um programa de venda a baixo preço de imóveis públicos degradados, com uma obrigação associada de requalificação dos mesmos por parte do comprador, poderia ter ajudado a criar cidades muito menos vazias e degradadas) mas, neste momento, com tanta oferta disponível, nem isso terá razão de ser. O sector da construção civil vai perder peso, sim. É inevitável e duro para quem nele trabalha mas nunca devia ter engordado tanto.

A dias


escafandro,

As mulheres sempre acusaram os homens de, após algum tempo de relação, tenderem a tratá-las como empregadas domésticas. Para não variar, estão apenas parcialmente correctas: é verdade que, passada a fase dos arroubos de romantismo, o que os homens desejam mesmo é uma mulher a dias. Mas não para lhes limpar a casa (bom, isso também, se puder ser); uma mulher a dias no sentido de estar presente durante umas horas três ou quatro dias por semana, com horário e serviço nocturnos incluídos, e que depois os deixe em paz. No fundo, o mesmo que imensas mulheres desejam dos homens.

De olhos em bico


escafandro,

Em princípio, estou-me nas tintas para a composição dos órgãos sociais de uma empresa privada. Mas não se essa empresa for a EDP. Por quatro razões:

– Estamos num país em que nenhuma empresa privada de grandes dimensões pode agir independentemente do Estado;

– O sector da energia tem graves deficiências de concorrência e não é provável que, mantendo ligações entre o Estado e a empresa quase monopolista, elas sejam combatidas;

– Como a troika tem avisado, há contratos referentes a compensações tarifárias que deveriam ser renegociados. A menos que Catroga, Cardona et al sejam uma lança em África – ou melhor, na China –, as coisas não ficam mais fáceis;

– Por causa da crise, das medidas de austeridade que impôs (e irá continuar a impor) e do discurso que fez desde muito antes da campanha eleitoral, este governo destrói gravemente a sua credibilidade de cada vez que algo deste género ocorre (relembre-se que, no Verão passado, já houvera a Caixa Geral de Depósitos). Por causa da crise, o país precisa mesmo de um governo em que possa confiar.

Extravasamento


escafandro,

Há – ou (e isto diz tanto sobre mim) desconfio que haja – quem me considere introvertido. E também quem me considere extrovertido. Se introversão é interiorizar e não exprimir, os primeiros estão enganados. Se extroversão é manifestar abertamente tudo o que se sente, os segundos também. A melhor forma de me descrever talvez seja dizendo que sou extrovertido para dentro. Com frequência, isso nota-se de fora.