A dias


escafandro,

As mulheres sempre acusaram os homens de, após algum tempo de relação, tenderem a tratá-las como empregadas domésticas. Para não variar, estão apenas parcialmente correctas: é verdade que, passada a fase dos arroubos de romantismo, o que os homens desejam mesmo é uma mulher a dias. Mas não para lhes limpar a casa (bom, isso também, se puder ser); uma mulher a dias no sentido de estar presente durante umas horas três ou quatro dias por semana, com horário e serviço nocturnos incluídos, e que depois os deixe em paz. No fundo, o mesmo que imensas mulheres desejam dos homens.

25 comentários em “A dias”

  1. Neste aspecto, penso que as sociedades mais coerentes e conscientes, são aquelas que admitem a poligamia. Seja por convicções religiosas, ou culturais, a poligamia serve com maior equidade, tanto o homem como a mulher, senão vejamos; quem decide casar ou viver em concomitância, fa-lo para colmatar diferentes falências, de cujas, ambas as partes têm perfeito conhecimento. Nestas situações, a mulher sabe que pode proporcionar ao homem, aquilo que ele pretende do casamento ou da concomitância; cama, mesa e roupa lavada, dito por outras palavras; sexo, paparoca e a camisita engomada. Assim como o homem sabe o que a mulher espera dele; atenção, carinho e protecção, dito por outras palavras; olhapara ela, quando relata (em parte) a conversa que teve com a amiga, que lhe massage os pés e que enfrente o dono do carro em que ela mandou a xarutada, mas que não quer admitir a culpa.
    Ora bem, quem vive no regime poligamo, está isento de todos os mal entendidos e todas as zangas que surjam numa situação monogâmica, isto porque, para o homem, das suas várias mulheres, haverá sempre uma disposta para uma boa sessão de sexo, enquanto a outra faz o jantar e a outra lhe engoma a camisa. Por fim, elas não precisam que o homem as oiça relatar as conversas que mantiveram durante o dia, preferem conversar umas com as outras e, como repartem as tarefas domésticas, nunca irão precisar dos pés massajados.
    Et voilá!

      1. Não sabe, mas eu tenho todo o gosto em confirmar.
        É sem dúvida sexista!
        Repare, ela não teria lugar, ou perderia a eficiência, se fosse colocada numa expectativa homosexual.
        Mas, como nos referiamos a homem/mulher, em minha opinião, faz todo o sentido.

  2. Mas que prosa troglodita hem!??
    Não sei se o hei-de levar a sério ou se lhe dê o desconto devido pela tentativa de sátira a uma situação comummente associada a uma espécie em vias de extinção: o “macho latino”.
    Nunca me acusaram do que você proclama e, assevero-lhe, tenho hábitos liberais.Nem sequer acredito que as mulheres pensem desse modo!
    O espaço de cada um, Homem e Mulher, numa relação, qualquer que ela seja, não se reduz a esses arquétipos, nem se esgota neles.Há um espaço de liberdade e privacidade próprios.
    Por certo gracejou com o tema, dado o “tag” em que se insere.
    Mas, por via de dúvidas, sugiro-lhe que se acoberte de qualquer percalço eventual mais logo à noitinha.

    1. “Troglodita” por sugerir que tanto homens como mulheres (creio que isto fica claro na última frase), caídas as relações na rotina, descobertas as pequenas/grandes incompatibilidades, prefeririam passar menos tempo juntos, abrindo espaço para que cada um fizesse o que bem entende – aqueles hábitos, hobbies, whatever, que tendem a irritar o(a) parceiro(a) – e tornando simultaneamente o tempo que passassem juntos mais significativo? Não vejo porquê.

      1. Meu Caro,
        A defesa do seu texto não tem defesa, por força de uma evidência simples e ostensiva (passe o pleonasmo): quem está mal muda-se!
        Exceptuando conceitos arcaicos de “relacionamento”, que existem, of course “(por diferentes motivos e ordens de razões), a partir de certa altura do campeonato como os que mencionou (“…caídas as relações na rotina, descobertas as pequenas/grandes incompatibilidades…”), ninguém fica numa relação só porque sim, ninguém “passa menos tempo junto”;cada um vai à sua vidinha e, portanto, já foi, já era, tal como na anedota do supersónico:”Já passou”!!!

        Não se sinta ofendido mas, você fez-me lembrar o episódio de ontem do Paco, aquele que já foi Bandeira.
        Abraço.

        1. Quem está mal muda-se? Muitas vezes – e cada vez mais frequentemente -, sim. Mas depende do grau de incompatibilidade de que estivermos a falar – poucas pessoas quebrarão uma ligação só porque uma quer ver futebol enquanto a outra quer ver o House (especialmente se houver mais do que um televisor). O post limita-se a assumir que há sempre interesses diferentes, que eles, ainda que não passando de pormenores, acabam frequentemente por desgastar a relação e a avançar uma alternativa ligeiramente irónica – mas, se calhar, já utilizada por muita gente.

          E por que é que havia de me sentir ofendido por ser comparado a um tipo que parece que apontou uma arma à cabeça da mulher?

          1. Quando se aponta uma arma a uma mulher, ou a um homem, uma atitude não só condenável, violenta mas também inconcebível , sobretudo se há filhos, porque demonstra total desrespeito pelo próprio e pelo outro. Como se pode chegar a esse ponto? Por comodismo, interesses materiais? Sem dúvida culpa de ambos que se deixaram chegar a tal ponto e um total desperdício de tempo na vida de cada um! Ela já é tão curta…. 🙁

          2. Raiva, Ana, associada a uma educação/ambiente em que quaisquer problemas nunca têm origem na própria pessoa, que não criou capacidade para auto-análise e refreamento de instintos. Enfim, sei lá. A linha que separa o ponto em que ainda se tem consciência do que se faz do ponto em que tudo, excepto a fúria, é irrelevante consegue ser muito ténue, especialmente no caso dos homens, “programados” geneticamente para a violência e obrigados à racionalidade por uma sociedade que o escritor J. G. Ballard chamava “saudável”. Já a referi várias vezes mas esta entrevista de Paulo Moura a Ballard é notável:
            http://reporterasolta.blogspot.com/2009/04/j-g-ballard-numa-sociedade-saudavel.html
            Tendemos a ver o ser humano conforme gostaríamos que ele fosse e não como ele (ainda) é.

          3. jaa, li a entrevista que desconhecia, embora conheça o escritor. De qualquer forma contesto muitos dos seus argumentos que justificam a sua “crença”, fundamentalista, em “crimes sem sentido” e quando cheguei à parte do 9/11 então… só a posso considerar um total bullshit.
            Mas, se me permite irei parcialmente desconstruí-la:

            Ex: 1) «Estão desesperadas. É como um grito de socorro. Numa sociedade totalmente saudável, a loucura é a única liberdade possível. À medida que as sociedades ocidentais se tornam mais prósperas, mais civilizadas, mais governadas por leis razoáveis, deixamos de poder tomar decisões morais.»

            Na minha opinião as pessoas estão desesperadas (sim!) porque se sentem enganadas e sem futuro, controladas por sistemas económicos tiranos e sem qualquer hipóteses de serem contornados. Aí, há sem dúvida fúria ainda que inconsciente e na maioria das vezes mal direccionada (obs. não concordo com o aborto ortográfico).
            Em suma, as pessoas acreditaram em democracias, nos políticos, em paz duradoura, em futuros promissores se trabalhassem e descontassem parte dos seus salários para terem uma reforma condigna. Acreditaram que teriam uma casa, uma família e emprego. Que poderiam também ter tempo para dedicarem aos seus e aos seus hobbies…. etc…
            mas, na realidade todas essas ilusões se esfumaram, porque de repente foi dito às pessoas que não existe mais dinheiro, empregos e tempo livre. Só há escravatura. Têm de trabalhar 50/60 horas semanais por pouco dinheiro. Não podem ter família porque não a podem manter e muito menos uma casa… etc… !
            Isto é o estertor de um sistema caduco (capitalista, socialista, whatever), onde abundam os vigaristas e onde não existe justiça. Apelidaram este sistema da pós-modernidade – globalização – e com ela, perderam-se os Estado-Nação, a cultura e o que de melhor ou pior caracterizava cada grupo/sociedade. Retiraram às pessoas as suas origens e as suas tradições, crenças, em nome de algo que não entendem.
            É evidente que tem de existir revolta dentro das pessoas. Só é lamentável que ela não seja dirigida aos verdadeiros culpados – a minoria que esbulha a riqueza que a maioria produz.

            2) «É precisamente esse o problema. As sociedades ocidentais são muito conformistas. Estão cheias de convenções. A vida na América, na Inglaterra, Itália ou Portugal é muito idêntica. A legislação é muito boa, muito esclarecida. Todos temos de mandar os nossos filhos para a escola, dar-lhes vacinas… tratar bem as nossas esposas, conduzir a 60 km/hora, parar no semáforo vermelho…»

            Falso! A globalização criou/formatou através de um ensino que tende a formar pessoas resignadas e sem pensamento crítico. Tal como criou a ilusão que a vida é idêntica na maioria dos países do Ocidente, mas na verdade o único elo comum é o consumismo desenfreado incutido; o crédito fácil; o deslumbramento e a cultura do descartável, porque convinha aos interesses instalados – banca, políticos e corporações.
            Quanto à legislação, se é boa ou má, depende dos legisladores de cada país (mais ou menos mafioso/corrupto) que a redigem, ou editam com mais ou menos vírgulas, de forma a tirarem partido dela. Já dizia Orwell: «Alguns são mais iguais que outros!»

            3) «Mas semiconscientemente vamos descobrindo que não temos liberdade.»
            Há que definir primeiro o que se entende por “liberdade”! O conceito difere muito consoante a cultura, a idade e a posição de cada individuo na sociedade e aqui teríamos uma imensa tese a desenvolver.
            Partindo do princípio que o sr. Ballard se refere ao facto de vivermos em oligarquias e plutocracias então só posso concordar com: «Porque já não temos oportunidade de tomar decisões morais. O bem e o mal foram roubados aos seres humanos pela primeira vez.»!

            4) «Até aqui éramos donos do bem e do mal porque vivíamos em sociedades injustas?
            R. Injustas, não democráticas, repressivas. Agora temos sociedades governadas pelos princípios mais simpáticos. E estamos sufocados, não podemos respirar. (…)»
            Quem disse ao Sr. Ballard que vivemos em sociedades mais justas? Desde quando as oligarquias e plutocracias em que vivemos são justas?

            5) «E as únicas coisas que parecem ter algum sentido são os actos sem sentido.»
            Para quem não tem pensamento crítico, talvez esta frase faça sentido. Para mim, não faz!

          4. (cont.)

            5) «Se eu achar, por exemplo, que Tony Blair levou o nosso país para uma guerra estúpida, no Iraque, e por isso decidir matá-lo – o que não seria difícil, na realidade, se estiver preparado para ser apanhado. Se o fizer, o que terei conseguido? Nada.»

            Nada, não. Teria morto o pulha do Blair e teria sido encarcerado e provavelmente toda a media teria dito que o assassino era um terrorista árabe, ou com origem muçulmana (se fosse nos dias de hoje, teria origem iraniana) e toda a vida do Sr Ballard teria sofrido uma reviravolta de 180º e passaria a ser a escória da sociedade. Quiçá, haveria um ou outro blog que contaria a verdade e que essa verdade cresceria na opinião pública ao ponto de provocar uma fúria colectiva, ou não?!

            6) «Mas se eu for na rua e matar a primeira pessoa que me aparecer, num acto completamente sem sentido mas ao mesmo tempo misterioso… isso deixará as pessoas a pensar.»
            Não concordo. As pessoas já não ligam a este tipo de acontecimentos, ou se ligam é por pouco tempo e em conversas de café.

            7) A visão/opinião acerca do 9/11 nem comento.

            8) «A filosofia das Luzes, nascida com a Revolução Industrial, com a sua promessa de riqueza, prosperidade, já deu o que tinha a dar. O Iluminismo é um projecto acabado. Está nas suas últimas fases e as pessoas estão a voltar-se para o irracional. Para a religião, como nos EUA ou na Arábia Saudita, ou para o irracionalismo político, como os grandes projectos utópicos do século XX, o comunismo e o fascismo, que originaram dois gigantescos pesadelos…»
            Subscrevo. O “irracional” aqui evocado (fé!?) é a prova de que as pessoas se sentem sem objectivos. A história repete-se, resta saber se as “cruzadas” (actualmente aos recursos, nomeadamente petróleo, gás, metais: ouro, prata, rare earth, etc..) também.

            9) «Vivi em Xangai durante a ocupação japonesa, até aos 16 anos. Tive de crescer muito depressa. Aprende-se muita coisa, com essa experiência de viver, durante uma guerra, sob controlo inimigo. Ser civil e estar completamente à mercê deles. Ser uma criança e ver os pais também à mercê, inseguros. Sem terem comida para nos dar, cheios de medo. É absolutamente assustador. Ensina-nos para sempre que não podemos tomar nada por garantido. E que o mundo em que vivemos é muito mais perigoso do que parece.»
            Provavelmente iremos assistir nesta velha europa e nos USA a algo muito semelhante. Aliás, na Grécia, hoje, as crianças têm fome. Em Portugal também.
            A hiperinflacção que em breve atingirá o mundo ocidental, altamente endividado, provocará sem dúvida muitos “crimes” mas, todos eles têm causas que não queremos ver, ou assumir, que produziram pessoas incivilizadas, furiosas, revoltadas, desorientadas e manipuladas para agirem da pior forma. Após um período conturbado uma nova ordem se irá impor com o aplauso de todos, cansados dos desmandos e sedentos de paz. A história repete-se e o homem não aprende, nunca.

            Definitivamente, não concordo com «Tendemos a ver o ser humano conforme gostaríamos que ele fosse e não como ele (ainda) é.»
            O ser humano é aquilo que o sistema (político/económico) quer que ele seja e quanto mais ignorante ele for, melhor. Daí que a filosofia e as artes estejam em decadência no ensino global, por não ser compatível com os inhumanos, tal como a família tradicional, tão ostracizada na pós-modernidade. Em contrapartida, desenvolveu-se o culto do relativismo e do niilismo.
            Peço desculpa pelo longo texto.

          5. Não precisa de pedir desculpa. Os seus pontos são válidos, ainda que eu não concorde com todos. Acima de tudo, não tenho uma perspectiva “Rousseauniana” do ser humano, de que ele é inerentemente bom e é sempre a sociedade (o “sistema político/económico”) a empurrá-lo para a estupidez, para o desespero ou para actos de violência. Mesmo as questões do consumismo e da vacuidade podem ser vistas por dois prismas: a de que são uma consequência de políticas que ultrapassam o indivíduo ou de que são uma consequência dos desejos do próprio indivíduo. Já reparou que temos hoje um mundo de informação à disposição (e, neste caso, a globalização e o avanço da tecnologia ajudou a que o tivéssemos) a que é só preciso querer aceder? Quem nos proíbe? E, no entanto, continuamos a ver “A Casa dos Segredos”.

        2. Concordo. Se as relações caem na rotina é porque ambos deixaram e se deixaram, muito provavelmente por falta de interesse, deixou de haver relação, tendo restado apenas o comodismo e o individualismo.
          Uma relação dá trabalho e também dá muitos proveitos quando se gosta realmente do outro. Tal como um jardim uma relação requer cuidados continuados… a dois e ao mesmo tempo a aceitação dos defeitos, virtudes e espaço do outro.

  3. Por muito cru que soe aos românticos inveterados – sobretudo às mulheres – é a mais pura verdade. E não vejo nenhum mal nisso, pelo contrário: sem liberdade individual, nenhuma relação se aguenta muito tempo.

    1. Thanks, Ana. Quantas mulheres mudam de quarto por causa do companheiro ressonar? Quantas gostariam que ele não ‘perdesse’ tanto tempo com futebol? Quantas sentem ceder demasiadas vezes nos mais variados assuntos? Quantas, no fundo, gostariam que ele não estivesse lá quando (mas apenas quando) não lhes apetece que ele esteja lá?

      1. Essas mulheres são masoquistas.
        Ressonar tem cura. É estúpido não se procurar ajuda médica.
        Quanto ao futebol e afins, deles ou delas, porque não podem existir? Ambos têm direito aos seus interesses, ou não têm? E podem ser conciliáveis numa relação séria.
        Se o outro não os aceita é porque não os tem e é egoísta ao ponto de não deixar o outro ter. Não há relação, ponto final. O melhor é partir para outra enquanto é tempo… e o tempo é muito escasso.

        1. Ana: claro que podem ser conciliáveis e muitas vezes são (felizmente). O que eu pretendia salientar é que em muitas relações há alturas em que, sem desejar que a relação acabe, se preferiria que ela funcionasse apenas a espaços – apanhando apenas os momentos “bons”, digamos. No fundo, qualquer relação é sempre uma invasão de espaços (ainda que consentida) e mais cedo ou mais tarde, de forma mais ou menos intensa, com mais ou menos consequências, isso nota-se.

          1. Como em tudo na vida há momentos bons e maus. Ou os aceitamos, ou não. Se nos cansamos, podemos sempre tirar férias temporárias ou definitivas. Costuma-se dizer que só damos valor ao que temos quando desaparece… 😉

      1. Também se pode aplicar a eles… de acordo com o sentido do post. Triste mas muito real, infelizmente. 🙁
        O cerne da questão é – porque tal acontece?
        Porque se deixa instalar a rotina?
        Porque se rabuja com o outro?
        Desperdício de tempo e de vida.

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