Em princípio, estou-me nas tintas para a composição dos órgãos sociais de uma empresa privada. Mas não se essa empresa for a EDP. Por quatro razões:
– Estamos num país em que nenhuma empresa privada de grandes dimensões pode agir independentemente do Estado;
– O sector da energia tem graves deficiências de concorrência e não é provável que, mantendo ligações entre o Estado e a empresa quase monopolista, elas sejam combatidas;
– Como a troika tem avisado, há contratos referentes a compensações tarifárias que deveriam ser renegociados. A menos que Catroga, Cardona et al sejam uma lança em África – ou melhor, na China –, as coisas não ficam mais fáceis;
– Por causa da crise, das medidas de austeridade que impôs (e irá continuar a impor) e do discurso que fez desde muito antes da campanha eleitoral, este governo destrói gravemente a sua credibilidade de cada vez que algo deste género ocorre (relembre-se que, no Verão passado, já houvera a Caixa Geral de Depósitos). Por causa da crise, o país precisa mesmo de um governo em que possa confiar.

Inteiramente de acordo. Acabei de comentar isso mesmo no post do Rui. O governo precisa de ter credibilidade, e o país precisa de um governo que a tenha. E esta eterna dança de boys e de reformas douradas só leva ao oposto.
Ana: vamos até admitir uma possibilidade benigna, a de que os próprios chineses tenham procurado pessoas próximas do governo (afinal, a Three Gorges é estatal e a importância de manter boas relações com o governo é bem percebida na China, como em qualquer outro país autocrático). Ainda assim, o nosso governo devia perceber as consequências e evitar coisas destas. Assim, o mantra (no limite, incapacitante) do “eles são todos iguais” vai-se impondo.
Mas é isso mesmo que quero dizer quando falo da “mulher de César”. Quero lá saber das razões dos chineses. A conduta do meu governo é que me preocupa, porque essa tem de ser irrepreensível.
Eu sei que era isso que querias dizer. Só fiz uma adenda. 🙂
Pois adendaste muito bem.
A última frase do post é mesmo a questão essencial. Não sei se o país confia. Eu não confio. E tudo começou logo depois das eleições, com o primeiro-ministro, que devia dar o exemplo para todo o governo, a revelar-se, afinal, um mentiroso, na tradição de dois dos seus antecessores. Eu não estava à espera, embora nos últimos dias de campanha tenha começado a desconfiar, o que me fez à última hora optar por não votar em ninguém, deixando o PSD sem o meu voto, para não correr o risco de me arrepender. É muito triste termos conseguido livrar-nos de José Sócrates e depois sair-nos na rifa, afinal, um tipo sem escrúpulos e que ainda por cima embrulha tudo numa aura mal amanhada de honestidade.
Mas, além de si, existe alguém com escrúpulos? O Cavaco farta-se de apanhar (parece que por ser seu comprovinciano…) e agora o Passos é o que se vê… Estou que, apesar de algumas indirectas “pour épater”, ainda será o falso engenheiro que lhe merece algum crédito – o que, aliás, é explicável, dada a excelente obra que nos deixou…
Se te estás a referir à questão dos impostos e dos cortes nos subsídios, tens razão quanto à mentira mas devo dizer que era óbvio (e muito difícil de admitir em campanha, ainda por cima contra um oponente capaz de prometer o mundo e arredores como Sócrates). Já o escrevi várias vezes: com ou sem troika, cortes são inevitáveis. Mas, se há coisas que – e é triste admitilo – até se podem entender em campanha eleitoral (lembremo-nos do que aconteceu à «verdade» de Ferreira Leite), há outras que, já como governo, são inaceitáveis.
Errata: “admiti-lo” e não “admitilo”.
Voilá!
Merci.
Isto, a bem dizer, caro jaa, é quase a história do Princepezinho do Saint-Exupéry… ele zanga-se com a rosa e afasta-se, mas no fim, sente-lhe a falta…
Er, não, não sinto falta da rosa. Nenhuminha.
Eu ia comentar este post e a Ana Vidal roubou-me as primeiras palavras: “Inteiramente de acordo. Acabo de comentar isto” noutro Blogue.
Eu também acho que é necessário esclarecer as nomeações para o Conselho de Supervisão da EDP, que deveriam, penso eu, ser da competência dos accionistas, e que aparecem (e parecem) como sendo da responsabilidade dos partidos do governo.
Se não é assim – e pode não ser assim, aceito -, então que se esclareça. Se foi o Mexia, com a sua habilidade de estar sempre de bem com os que estão do lado de “onde sopra o vento”, como se viu e ouviu durante o reinado do Sócrates, então que venham essas explicações, que até poderiam ser dadas pelos próprios nomeados.
Tiro ao Alvo: totalmente de acordo mas penso que o mal está feito. Já poucos acreditarão em explicações. E então se elas se basearem em “infelizes coincidências”: hp?template=SHOWNEWS_V2&id=530481&pn=1
http://www.jornaldenegocios.pt/home.p
Os políticos não são todos iguais e a herança do Salazar, 30% de analfabetos como excepção europeia, foi um desastre completo. Dito isto, a principal diferença que vejo entre este governo e o de José Sócrates é que pertenciam a tribos diferentes. As mesmas trapalhadas sempre a descobrirem novos buracos nas contas públicas e a anunciarem a necessidade de sacarem mais dinheiro à população em geral com excepção dos mais ricos e o mesmo tráfico de influências beneficiando os da sua tribo. E com remunerações gigantescas imerecidas, num país em dificuldades, quer antes quer agora.
Apesar de tudo, vejo mais diferenças. No estilo e na recusa da megalomania suicidária, por exemplo (um alívio, apesar de tudo). Ou em sinais como este: s-tem-um-mes-para-responder-a-censo-que-v ai-avaliar-a-sua-viabilidade-1527386
http://www.publico.pt/Política/fundacoe
Mas reconheço que também há indícios preocupantes. Esta questão da distribuição de lugares, por exemplo, que provavelmente é inevitável num país em que o Estado tem tantos para oferecer – até nas empresas privadas, conscientes de que precisam de manter boas relações com o governo (qualquer que ele seja).