Don’t give up


escafandro,

Veste uma t-shirt preta com a frase Don’t Give Up estampada na parte frontal. As letras, douradas, constituídas por pontos individuais, brilham ao serem atingidas pelas luzes do bar quando ela se move. Penso em Kate Bush mas apenas durante um instante. Aproximo-me. Meto conversa. Não se mostra interessada. Insisto. Adaptando uma frase de uma das melhores letras que Bono alguma vez escreveu, digo-lhe: «You lips say one thing, your t-shirt something else.» Sorri. Murmura: «A t-shirt é emprestada.» Mas deixa-me pagar-lhe uma bebida.

Três horas mais tarde, no meu quarto, junto à cama, tento despir-lhe a t-shirt mas ela impede-me. Aceita que lhe tire o soutien e o resto da roupa mas não a t-shirt. É-me indiferente. Tombamos na cama.

Minutos depois, estendidos de costas, recuperamos o fôlego. Ela puxa a t-shirt para baixo, cobrindo ancas e sexo, e diz: «Sabes, a frase?» Rodo a cabeça e releio-a. «Sim?» Larga a t-shirt, cujo extremo inferior sobe até acima do umbigo. «Afinal é pena que nem sempre seja levada a sério.»

 

Também aqui.

E dura e dura…


escafandro,

Como é que uma pessoa pode ser optimista se o ano da maior crise económica das últimas décadas, para além de ter menos feriados para todos e menos salário para alguns, taxas mais elevadas nos serviços públicos e bilhetes mais caros nos transportes públicos, ainda é bissexto?

Frei Tomás e a mudança para o Red Light District


escafandro,

Luís: há a questão das lições de moral, é verdade – mas, no fundo, o acto será assim tão diferente do que qualquer pessoa realiza ao encher o depósito do carro em Espanha ou comprar livros e jogos em sites de outros países da UE? Portugal está longe de ter uma fiscalidade concorrencial, mesmo dentro da União Europeia, e já Durão o sabia nos tempos do «choque fiscal». O problema é que o Estado não apenas não consegue prescindir de parte dos impostos que cobra como os tem aumentado. Inevitavelmente, cada pessoa, rica ou pobre, tende a «defender-se» como pode (embora muitas continuem a exigir milagres ao Estado). No caso vertente, talvez nem haja contradição entre o acto e as palavras – não me lembro se Soares dos Santos alguma vez defendeu os aumentos de impostos ou a limitação à circulação de capitais dentro da UE. Mas, seja como for, somos todos (ou, vá, quase todos) liberais quando se trata de salvaguardar o nosso dinheiro.

Dentada na maçã


escafandro,

A imagem da Apple como empresa «boa» e de Steve Jobs como personificação do empresário/gestor ideal confunde-me há anos. E confunde-me ainda mais a aparente simpatia da esquerda por uma e outro. Não se trata apenas do facto dos produtos serem caros e operarem em sistemas tão ou mais fechados que os da concorrência (desde logo, que os da «maléfica» Microsoft). Não se trata somente do mau génio de Jobs que, noutra empresa qualquer, o teria transformado num «patrão» prepotente. Não é também apenas o modo como, sempre que tiveram oportunidade (de novo, numa estratégia igualzinha à da Microsoft dos velhos tempos), Jobs e a Apple impuseram pela força da quota de mercado as regras que melhor lhes convinham (vide distribuição de receitas no iTunes). Tudo isto já seria suficiente, com outra empresa, com outro gestor. Mas há também os factores mencionados neste texto de Rui Passos Rocha, n’A Douta Ignorância. Por alguma razão, o conceito de exploração capitalista não se aplica à maçã.

Resolução de ano novo ou o filme que mais vezes não vi


escafandro,

Em Julho de 2007, Rogério Casanova escrevia no mais-morto-que-comatoso Pastoral Portuguesa: Ainda não li Falling Man, e posso assegurar que se trata de uma não-leitura compulsiva. Aliás, é um dos livros que mais vezes não li nos últimos tempos. Desde que a encomenda da Amazon chegou já o devo não ter lido umas seis ou sete vezes, sempre com um enorme prazer. Casanova, sportinguista frágil como qualquer outro de nós (qualquer outro de nós, sportinguistas, entenda-se), tentava proteger-se da desilusão que seria comprovar a existência de mais um DeLillo abaixo das suas – dele, Casanova, que as suas, leitor, nem consigo imaginar – expectativas. Eu, que li Falling Man e, apesar de não o classificar entre os melhores DeLillo (experimentem Ruído Branco), fiquei convencido de que não teria usado melhor o meu tempo lendo qualquer coisa alinhavada pelo José Rodrigues dos Santos, experimento reacção similar com A Estrada. Não o livro de Cormac McCarthy mas o filme baseado no livro de Cormac McCarthy. Permitam-me que explique.

 

Li o livro, na versão original, ainda antes de McCarthy se tornar conhecido por, afinal, não só aceitar dar entrevistas como dar entrevistas à Oprah. Num understatement incontornável (o inglês é para que possam comprovar que eu seria mesmo capaz de ler o livro no original), posso dizer-vos que ADOREI o livro. Adorei-o a ponto de não me envergonhar de usar maiúsculas ao escrever que o adorei. Li-o, reli-o, fiz-lhe festinhas. E depois soube que, lá pela Hollywood do Michael Bay, tinham decidido fazer um filme baseado nele. Ora eu também gosto de filmes. Gosto tanto, aliás, que gosto até mesmo dos que foram rodados antes de Deus inventar as cores ou a fala humana (num àparte, deixem-me confessar sempre ter achado estranho que Deus tivesse inventado a música de piano antes de dar voz às pessoas mas suponho que isso só demonstra que os Seus desígnios – de Deus, não seus, leitor, nem do Casanova, por muito divino que tanto você como ele se possam considerar – são mesmo insondáveis, conforme alguém, num filme sonoro qualquer – A Vida de Brian? –, terá exclamado um dia). Mas a notícia apavorou-me tanto como qualquer aparição do Ministro das Finanças na televisão. Filmar A Estrada? Como? Onde? Por quem? Mais importante: porquê? A minha reacção imediata foi prometer a mim mesmo que não o veria antes do momento em que obtivesse a certeza absoluta de não sair desiludido ou a Alzheimer me tivesse atacado o suficiente para eu não me recordar do livro. Fui apanhando notícias sobre o filme aqui e ali (Viggo Mortensen, até que não era mal pensado; John Hillcoat, melhor ainda) e, quando o trailer saiu, espreitei. Recuei, horrorizado. E depois não só não vi o filme como dei cabo dos dentes ao rangê-los de cada vez que passava junto a um cinema exibindo o cartaz. Sobrevivi a essas semanas difíceis (mesmo você, caro leitor, que não me conhece, terá de admitir que sou mais resistente do que pareço), A Estrada, o filme, lá acabou por sair de exibição e eu passei uns meses de paz e alegria.

 

E depois saiu o DVD. E depois o DVD entrou em promoção. E depois eu não resisti e comprei o DVD (por acaso foi o Blu-ray, que não quero não apreciar A Estrada só por faltar definição ao apocalipse). E isso foi há cerca de um ano e eu ainda não vi A Estrada. Não o vi em Janeiro e em Fevereiro e em Março de 2011. Tornei a não vê-lo em Abril e em Maio e em Junho. No Verão não o vi várias vezes. E fiz questão de voltar a não vê-lo no Outono e no início do Inverno. Tenho-o aqui ao meu lado enquanto escrevo isto. A capa mostra o Viggo a proteger o miúdo com o braço direito, o revólver na mão esquerda; na parte inferior, o selo de qualidade Selecção Oficial do Festival de Veneza 2009 – a melhor recomendação possível, se considerarmos apenas festivais de cinema ocorridos em cidades banhadas pelas águas do Adriático. Atrás, na ficha técnica, a indicação realizado por John Hillcoat – e eu adorei (em minúsculas) A Proposta (cujo argumento, já agora, foi escrito por um senhor chamado Nick Cave). Mas nem assim. Quase um ano e eu ainda estou para enfiar o disco no leitor (que também está aqui, a meros três metros, por baixo do televisor). Chateia-me, esta incapacidade. Consolo-me um pouco pensando que mais vale tê-lo comprado demasiado cedo do que ser obrigado a fazê-lo depois do fim do euro. Foi um investimento, digo-me. Tal como no caso de outros filmes e séries que, por falta de tempo, ainda não vi. Ou no dos livros. Em vez de mandar os poucos euros que tenho para uma conta na Suíça, converto-os em entretenimento para usufruto futuro. Tem lógica, não? Infelizmente, quando o assunto é A Estrada, nem assim me consigo convencer.

 

E é por isso que decidi fazer do visionamento de A Estrada, o filme, a minha resolução de ano novo. Antes de 2012 acabar, eu hei-de ver este filme.

 

Não me parece que seja hoje. Mas tenho tempo. O ano até é bissexto.

Não, não, ignorem o post anterior! Este é que é a sério.


escafandro,

 

So I thought I’d learned my lesson
But I secretly expected
A choir at the shore
And confetti through the fall night air

I’ll make a living telling people what they want to hear
It’s not a killing, but it’s enough to keep the cobwebs clear

Cause it’s not a perfect plan
It’s not a perfect plan
But it’s the one we’ve got

It’s not a perfect plan
But it’s the one we’ve got

Cause I make a living telling people what they want to hear
But I tell ya, it’s gonna be a champagne year

 

Letra de St. Vincent (Annie Erin Clark)

 

A sério: vai ser um ano fantástico! Bom 2012.

2012


escafandro,
 
I’ve got a bad feeling and it’s not going away
I’ve got a baaaaaad feeling (baad feeling)
I’ve got a baaaaaad feeling and it’s not going awaaaaaaay!

Houellebecq por uma personagem de Houellebecq (com sexo oral)


escafandro,

A palavra paixão atravessou repentinamente o espírito de Jed, e viu-se de súbito dez anos antes, no seu último fim-de-semana com Olga. Estavam no terraço do château de Vault-de-Lugny, no domingo de Pentecostes. O terraço dava para o imenso parque cujas árvores eram agitadas por uma leve brisa. Caía a noite, a temperatura era de uma amenidade ideal. Olga parecia mergulhada na contemplação da sua mousse de lavagante, havia pelo menos um minuto que não dizia nada, quando ergueu a cabeça, o olhou de frente nos olhos e lhe perguntou:

– Saberás tu, no fundo, porque é que agradas às mulheres?

Ele mastigou uma resposta indistinta.

– Porque tu agradas às mulheres – insistiu Olga. – Suponho que já tiveste ocasião de o verificar. És o que se pode dizer bonito mas não é isso, a beleza é quase um pormenor. Não, é outra coisa…

– Diz-me qual.

– É muito simples: é porque tens um olhar intenso. Um olhar apaixonado. E é isso, acima de tudo, que as mulheres procuram. Se conseguem ler uma energia, uma paixão, no olhar de um homem, então acham-no sedutor.

Deixando-o a meditar sobre esta conclusão, bebeu um gole de Mersault, saboreou a sua entrada.

– Como é evidente… – disse um pouco mais tarde com uma leve tristeza –, quando essa paixão não se dirige a elas, mas a uma obra artística, elas são incapazes de dar por isso… enfim, ao princípio.

Dez anos mais tarde, ao encarar Houellebecq, Jed tomava consciência de que havia no olhar dele, também no dele, uma paixão, algo de alucinado até. Ele devia ter suscitado paixões amorosas, porventura violentas. Sim, considerando tudo o que sabia acerca das mulheres, parecia provável que algumas delas se tivessem tomado de amores por aquele destroço torturado que agora balançava à sua frente enquanto devorava fatias de pâté caseiro, que se tornara manifestamente indiferente a tudo o que podia parecer-se com uma relação amorosa, e provavelmente também a qualquer relação humana.

Michel Houellebecq, O Mapa e o Território.

Edição Objectiva (chancela Alfaguara), tradução de Pedro Tamen.

 

Jed Martin é artista plástico. Tem uma relação complicada com a caldeira do seu apartamento, janta uma vez por ano com o pai, um arquitecto que ganha muito dinheiro a fazer projectos de estâncias turísticas, ama uma mulher deslumbrante que também o ama mas, de forma quase passiva, evita o compromisso. Fica conhecido com uma série de trabalhos em que, segundo o crítico do Le Monde, adopta o ponto de vista de um Deus comparticipante, ao lado do homem, na (re)construção do mundo. Mais prosaicamente, trata-se de fotografias de mapas Michelin. Atinge a fama e a fortuna com duas séries de pinturas mostrando «profissões-tipo». Na «série dos ofícios simples», vêem-se artesãos, na das «composições de empresa», vultos como Bill Gates e Steve Jobs conversando em casa deste, ou Ferdinand Piëch visitando a fábrica da Bugatti. Para o catálogo da exposição sobre as profissões-tipo, Jed pede um texto ao famoso mas recluso escritor Michel Houellebecq. Depois ainda há um crime violento, um detective envelhecido e uma Europa que definha nas primeiras décadas do século XXI (Houellebecq é capaz de ser melhor a prever o futuro do que muitos economistas).

 

O Mapa e o Território é um Houellebecq com o desencanto de sempre, com referências à decadência do corpo, à incapacidade de manter relações afectivas prolongadas, à vacuidade que tomou de assalto a vida diária, ao primado do dinheiro e do show-off, mas mais suave, mais irónico do que obras anteriores. É um livro em que Houellebecq tira um prazer evidente de se inserir na trama e de se descrever com todos as idiossincrasias de que é acusado. É também um livro que não inclui uma única cena de sexo (sacrilégio, em especial quando Houellebecq tem livros em que pareceu defender ser o sexo o único acto que ainda tem significado) e em que a única menção explícita a sexo, remetendo para a Tailândia de Plataforma, é feita em registo nostálgico: No entanto, elas chupam sem preservativo, bem bom… – resmungou ainda vagamente, como se recordasse um sonho defunto, o autor de As Partículas Elementares. Poderia ser a confirmação de que a idade não perdoa (um tema tão caro a Houellebecq) mas é antes uma partida, uma maneira de fintar as expectativas do leitor. Sim, por incrível que pareça sou mesmo eu, o gajo que metia sexo em cada página, parece dizer-nos o francês, nesta passagem como de cada vez que, referindo-se a si mesmo, usa a formulação o autor de (disse o autor de As Partículas Elementares; perguntou o autor de La Poursuite du Bonheur; concordou o autor de Plataforma). É verdade: podíamos duvidar.

 

Mas talvez mais surpreendente do que a inexistência de sexo seja o facto de as personagens, ainda que por vezes ridículas, exsudarem calor humano. A mulher por quem Jed se apaixona, o pai com quem janta todos os Natais, num ritual parte obrigação parte prazer, o galerista que lhe expõe as obras, a especialista em marketing que lhas promove, o polícia que adia tanto quanto lhe é possível o momento de enfrentar o cadáver do assassinado, até a fauna que rodeia o mundo da arte e da comunicação social – todos são apresentados com uma ironia benigna substituindo o cinismo e a acidez frequentes no passado. De uma forma ou de outra, parece admitir Houellebecq, por tentarmos de mais ou por tentarmos de menos, somos todos ridículos – mas talvez não execráveis.

 

Como seria de esperar (nenhum bom escritor se apresentaria num livro sem garantir um mínimo de distanciamento irónico), ninguém surge mais ridículo do que Michel Houellebecq. Mas também ninguém suscita tanta empatia. (Já era tempo.) Até as raras passagens em que Houellebecq não resiste a usar os olhos de Jed Martin para nos dizer que existe – ou existiu – um ser de rara argúcia e sexualmente atraente por baixo do Houellebecq que nos apresenta, como a transcrita acima, confundindo ainda mais os planos entre Houellebecq-escritor e Houellebecq-personagem, acabam por ajudar a aproximá-lo do leitor. Percebemos a necessidade. É humana – e muito masculina, pormenor não despiciendo quando falamos do autor de obras como As Partículas Elementares e Plataforma.

 

Ao contrário do que sucede noutros livros, aqui também não existem grandes considerações sobre o ser humano, sobre as suas falhas e incapacidades, sobre o seu declínio biológico. Tudo isto está no livro, claro, que as obsessões de Houellebecq não desapareceram nem desaparecerão, mas encontram-se abordadas de um modo mais leve, mais resignado, como se Houellebecq tivesse decidido encolher os ombros, parar de pensar tanto (o verdadeiro problema do ser humano é, evidentemente, pensar) e dizer: se não me percebem quando sou directo e brutal, vão-se lixar; já me estou nas tintas e até aprendi a rir-me às vossas custas.

 

A verdade é que este novo distanciamento resulta. O livro é bom. Porém, causou um problema aos intelectuais franceses. Sem tiradas polémicas sobre o papel do sexo, a decadência humana ou a estupidez de certas religiões para criticar, tiveram de contentar-se em acusar Houellebecq de plagiar a página da Wikipedia sobre a mosca doméstica. Houellebecq admitiu imediatamente que sim senhor, retirara a informação da Wikipedia e passou a incluir no fim do livro um agradecimento a essa enciclopédia online (a edição portuguesa inclui-o). A intelligentsia gaulesa permaneceu tão perplexa que, na dúvida, depois de anos a zurzi-lo, lhe atribuiu o Goncourt.

 

(Adenda: Este post teve ontem uma espécie de primeira parte. Mas devo avisar que vale ainda menos o esforço – excepto para aqueles de vós que a sexo oral preferirem carneiros e porcos.)

MMXII


escafandro,

Que 2012 vai ser um ano difícil é uma evidência. Mas, mais importante, vai ser um ano crucial. Vai ser o ano em que o euro pode acabar, pelo menos em alguns países. Vai ser o ano em que a economia europeia pode entrar em colapso. Vai ser o ano em que o «projecto europeu» pode sofrer um abrupto desvio de percurso. O ano em que ódios e nacionalismos podem regressar em força. O ano em que a contestação social se pode transformar em revolta. O ano em que, já abertamente, se vão culpar outros por falhas próprias.

 

Em Portugal, temos muitas decisões a tomar. A mais importante é decidir se queremos continuar a prosseguir o esforço de consolidação dentro do euro, se o preferimos fazer fora dele (e, eventualmente, da União Europeia). É uma questão que se colocará insistentemente. Seja qual for a nossa decisão, sejam quais forem as consequências, não vale a pena culpar outros pelos nossos actos. Ninguém nos obrigou a aderir à União Europeia. Ninguém nos obrigou a aderir ao euro. Ninguém nos obrigou a aderir ao euro à taxa cambial a que aderimos (o orgulho que foi, lembram-se?). Ninguém nos obrigou a gastar os fundos comunitários (2% do PIB por ano) em projectos sem retorno. Ninguém nos obrigou a escolher a via da irresponsabilidade orçamental (sim, outros o fizeram: problema deles). Ninguém nos obrigou a ignorar os múltiplos avisos (passaram há dias dez anos sobre o dia em que um Primeiro-Ministro socialista falou no «pântano»; não apenas o ignorámos como crucificámos o Primeiro-Ministro seguinte por utilizar a expressão «tanga»). Ninguém nos obrigou a, em 2008/2009, injectar fundos públicos na economia como se tivéssemos uma dívida pública de 20% e viéssemos de anos de excedentes orçamentais (antes que alguém fale no BPN, foi um erro mas também uma gota de água). Ninguém nos obrigou a tentar criar regimes de protecção social tão fortes como os dos mais ricos países europeus, em metade do tempo que eles demoraram a fazê-lo e perante uma demografia totalmente diferente (mais: perante sinais de que eles também já não os conseguiam suportar). Ninguém nos obrigou a nada. Chegámos a esta situação por opções nossas. E vamos sair dela, melhor ou pior, com opções nossas. Com ou sem troika. Dentro ou fora do euro. Numa Europa politicamente mais unida ou mais separada. Os outros (a Grécia, a Espanha, a Itália, a França, a Alemanha, o Reino Unido, a Holanda, os países nórdicos) farão o que entenderem – não podemos controlar isso. Nem deveríamos poder, ainda que tal nos permitisse escolher a via menos dolorosa para nós – eles, que também cometeram erros e também correm riscos, têm direito às suas opções. Resta-nos alertá-los para as consequências e defender os nossos interesses. Escolher, a cada momento, o que entendermos ser melhor para nós. Ou, infelizmente, menos mau. Sem ilusões (ainda não estamos fartos delas?) mas também sem decisões precipitadas.

 

Que 2012 vai ser um ano difícil é uma evidência e, por muito que o tenhamos tentado no passado, não vale a pena negar evidências. Mas, mais importante, vai ser um ano crucial. Saibamos – nós e os restantes europeus – usá-lo bem.

Houellebecq por Houellebecq (com carneiros e porcos)


escafandro,

– Vai reconhecer a casa com facilidade, é o relvado mais mal conservado das redondezas – dissera-lhe Houellebecq. – E talvez de toda a Irlanda – acrescentara.

Na ocasião julgara tratar-se de um exagero, mas a vegetação atingia efectivamente alturas fenomenais. Jed seguiu por um caminho empedrado que serpenteava por uma dezena de metros entre os maciços de cardos e de silvas, até à plataforma alcatroada onde estava estacionado um SUV Lexus RX350. Como era de esperar, Houellebecq escolhera a opção bungalow: era um grande edifício branco e novo, com telhados de ardósia – realmente uma casa perfeitamente banal, exceptuando o estado repugnante do relvado.

Tocou, esperou uns trinta segundos e o autor de As Partículas Elementares veio abrir, de pantufas, vestindo umas calças de bombazina e um confortável casaco de trazer por casa, de lã crua. Fitou Jed longamente, pensativamente, e depois dirigiu o olhar para o relvada numa meditação melancólica que parecia ser-lhe habitual.

– Não sei usar uma máquina de cortar relva – concluiu. – Tenho medo de cortar os dedos nas lâminas, parece que é frequente isso acontecer. Podia comprar um carneiro, mas não gosto deles. Não há nada mais foleiro que um carneiro.

Jed seguiu por umas salas de chão de pedra, vazia de móveis, aqui e além com algumas caixas de cartão das mudanças. As paredes eram forradas de papel pintado, liso, branco sujo; o chão estava coberto por uma ligeira película de poeira. A casa era muito ampla, devia ter pelo menos uns cinco quartos; não estava muito quente, não mais que dezasseis graus; Jed teve a intuição de que todos os quartos, com excepção daquele onde Houellebecq dormia, deviam estar vazios.

– Acabou de se instalar aqui?

– Pois foi. Enfim, há três anos.

(…)

– Gosta de enchidos? – perguntou o escritor.

– Sim… Digamos que não tenho nada contra.

– Vou fazer café.

Levantou-se com vivacidade e regressou uns dez minutos depois com duas chávenas e e uma cafeteira italiana.

– Não tenho leite nem açúcar – anunciou.

– Não faz mal. Eu não tomo.

O café era bom. O silêncio prolongou-se, absoluto, durante dois ou três minutos.

– Eu gostava muito de enchidos – disse por fim Houellebecq –, mas decidi passar sem eles. É que, sabe, eu acho que devia ser proibido ao homem matar porcos. Disse-lhe todo o mal que pensava dos carneiros; e persisto na minha opinião. Até os méritos da vaca, e neste ponto estou em desacordo com o meu amigo Benoît Duteurtre, me parecem ser exageradamente exaltados. Mas o porco é um animal admirável, inteligente, sensível, capaz de dedicar um afecto sincero e exclusivo ao dono. E realmente a sua inteligência é surpreendente, nem sequer se lhes conhecem os exactos limites. Sabe que já foi possível ensiná-los a dominar as operações simples? Enfim, pelo menos a adição, e acho que a subtracção em certos indivíduos muito dotados. Estará o homem no direito de sacrificar um animal capaz de atingir as bases da aritmética? Francamente, acho que não.

Michel Houellebecq, O Mapa e o Território.

Edição Objectiva (chancela Alfaguara), tradução de Pedro Tamen.

 

Já não me lembro em que publicação li, há cerca de dez anos, uma entrevista a Michel Houellebecq. Na altura ele vivia realmente na Irlanda (depois mudou-se para Espanha, onde não sei se permanece) e as fotos que ilustravam o artigo eram tal qual como se apresenta a Jed Martin, a personagem principal do seu novo livro. Há muitos anos que Houellebecq, o escritor, se transformou numa personagem e ele sabe-o. Raramente os seus livros foram lidos pelo que pretendiam dizer e ele sabe-o. Chegou a referi-lo em entrevistas, explicando que as críticas negativas o chateavam acima de tudo por, centrando-se nele próprio – e, no fundo, muito mais na personagem Houellebecq do que nele próprio – e nas componentes de choque que os livros incluíam – misantropia, sexo, niilismo –, passarem ao lado daquilo que os livros efectivamente procuravam transmitir. Claro que boa parte da responsabilidade por as coisas se passarem assim era dele, nunca avesso a desencadear uma polémica. Mas é verdade que, se os livros continham sexo, uma razoável dose de niilismo e muito mais do que simples vestígios de misantropia, continham também um desamparo raivoso, implacável, pouco dado a contemporizações, e uma aparente falta de afecto que era muito mais um queixume (reaccionário, no limite) sobre a evolução das relações humanas, sobre a incapacidade destas se manterem significativas (L’amour non partagé est une hémorragie, queixava-se a personagem principal de La Possibilité d’une Île) do que verdadeiro ódio à humanidade ou vontade de chocar os leitores e conseguir publicidade (embora esta estivesse presente, que Houellebecq é demasiado cerebral para não levar todas as vertentes em consideração). A premissa do seu primeiro romance, Extensão do Domínio da Luta (1994; edição portuguesa pela Quasi em 2006) diz tudo sobre a posição dele e explica perfeitamente o que se seguiu: os afectos e a sexualidade, condicionados de tantas maneiras no passado, jogam-se hoje num mercado aberto, capitalista, no qual há vencedores e perdedores, a frieza dos factores de competitividade (dinheiro, beleza, poder) se sobrepõe a tudo o resto, o tédio e a decadência do corpo constituem os principais inimigos e os bens materiais se revelam tão importantes (e tão pouco importantes) como os relacionamentos (a referência à Lexus, no excerto que transcrevi acima, como dezenas de outras às mais variadas marcas espalhadas pelos seus livros, é tudo menos acidental). Concorde-se ou não, ache-se que sempre foi assim ou não (mas não foi; pense-se, por exemplo, em como as crenças religiosas, os casamentos arranjados, os estreitos limites geográficos em que as pessoas se moviam, a falta de tempo livre e a inexistência de alternativas lúdicas às proporcionadas pelo casamento tornavam as relações – e as expectativas em torno das relações – bastante diferentes) a visão de Houellebecq é de que o ser humano, uma construção biológica que começa a morrer logo após atingir a idade adulta, encontrando-se cada vez menos capaz de verdadeiro afecto (deseja-o mas tem dificuldades em consegui-lo e não sabe como mantê-lo), o substitui por consumo (de sexo, de gadgets, de aparências, de ideias sem significado real). Em Plataforma (2001 em França; 2002, pela Bertrand, em Portugal), as ideias de consumo e de mercado eram tão evidentes (as personagens principais dedicavam-se a explorar uma empresa de turismo sexual) que talvez fossem demasiado óbvias para bem do livro. E em A Possibilidade de Uma Ilha (2005; 2006 em Portugal, pela D. Quixote), Houellebecq criou mesmo, num par de clones vivendo no quarto milénio, versões «melhoradas» do ser humano, menos expostas ao declínio físico e aos problemas dos afectos. Note-se que ele já abordara os temas da clonagem e da manipulação genética, enquanto hipóteses de solução para os defeitos humanos, em As Partículas Elementares (1998; Temas e Debates, 1999) e que terão existido declarações suas segundo as quais essas tecnologias lhe são simpáticas. Isto seria tudo menos estranho, considerando que é o ser humano tout court que parece deprimi-lo para além de qualquer hipótese de redenção, se não existissem nos seus livros sinais em contrário. Por exemplo, Daniel25, vigésimo quarto descendente de Daniel1, o humano original de A Possibilidade de Uma Ilha, confessa: Ma propre vie pourtant, j’y pense souvent, est bien loin d’être celle qu’il aurait aimé vivre. «Il» é Daniel1, o humano do presente. Ou seja, mesmo com manipulação genética, o humano do futuro não será o que gostaríamos que fosse; a ciência não é a panaceia e Houellebecq sabe-o. Pelo que as declarações a favor da clonagem talvez não passassem de pose, de uma mistura de sinceridade (última esperança, malgré tout?) com estratégia de marketing (o maior problema com Houellebecq é mesmo conseguir separá-lo da personagem Houellebecq). Seja como for, independentemente do que ele vai dizendo (ou do que se vai dizendo que ele disse), parece inegável que, por muito desencanto e raiva que o ser humano actual lhe suscite, Houellebecq não consegue inventar-lhe uma alternativa válida. E, no fundo, resigna-se a admiti-lo em cada livro.

 

Assim sendo, a pequena surpresa que constituiu O Mapa e o Território, editado no ano passado em França e há umas semanas por cá, advém de verificar quão perto da superfície se encontra enterrada essa incapacidade. Mas isso fica para amanhã. A menos que a preguiça, o tédio ou o desânimo me vençam – sou apenas humano.

Pórticos


escafandro,

Noite do dia 25, A25. É a primeira vez que a percorro quase na totalidade desde a introdução das portagens. O identificador da Via Verde, sendo dos mais recentes, apita a cada passagem por um pórtico. Onze vezes entre a Guarda e Albergaria. Não venho com sono mas penso que, apesar de ser um tudo-nada irritante, o ruído ajuda a manter os condutores acordados. Depois, numa revelação súbita que quase me faz acelerar a fundo, percebo que o principal motivo para a existência do apito não é a segurança rodoviária, antes um exagerado sentido de decoro. Sim, decoro. Precupação com a manutenção da decência. Reparem: umas dezenas de metros antes de cada pórtico um tipo vê a placa com os preços. Dedica-se então a somar de cabeça este novo valor ao dos pórticos anteriores e, precisamente quando está a começar a emitir uma série de interjeições ou a mandar uma data de gente bem conhecida para um sítio que é uma parte da anatomia masculina, piiiiiiiiiiiiiiiiiii.

Primeiro balanço


escafandro,

(Aviso: contém linguagem imprópria para a quadra.)

 

«Então, a noite de Natal foi boa?»

«O normal. Mas o meu Pai Natal não passou.»

«A sério? Começamos bem…»

«Pois.»

«O que é que lhe aconteceu?»

«Morreu. Ataque cardíaco ontem ao fim da tarde. Não fomos avisados.»

«Caraças. Enfim, menos mal. Sempre é uma boa razão. Mas é uma merda que o plano de contingência não tenha funcionado.»

«Não fomos avisados. Tínhamos uns tipos novos prontos para avançar.»

«Não funcionou. Não fomos avisados, não funcionou. Bom, vamos lá. Qual é a taxa, este ano?»

«Setenta e oito vírgula sete por cento.»

«Merda, é menos que o ano passado. Estamos a falhar mais.»

«O pessoal é cada vez pior. E também é verdade que lhes aumentámos o número de casas.»

«Foda-se, antes até tinham tempo para ir para ter sexo com as mães depois de deixarem os presentes aos filhos. Não estamos em tempo disso.»

«Aumentava a natalidade…»

«Não é essa a nossa função. Mostra lá os números.»

«Das residências previstas cobrimos setenta e oito vírgula três por cento, como te disse. Para já, temos um vírgula oito por cento de presentes entregues incorrectamente.»

«Alguns casos graves?»

«Coisas de miúdas entregues a rapazes, um sistema de jogos com óculos 3D entregue a um miúdo cego, trinta e seis pares de luvas oferecidos a crianças sem mãos e, pior (mas acontece todos os anos), dois mil cento e dois pares de meias deixados a miúdos sem pernas. Globalmente, não é mau.»

«Pois, suponho que não.»

«O pior…»

«Sim?»

«Parece que houve confusão com dois lotes de brinquedos.»

«Pronto, lá vamos nós. Então?

«Num dos casos é mais ou menos o costume: anjinhos que vinham com cruzes suásticas e acabámos por deixar seguir.»

«Merda. E o outro?»

«Tudo indica que oferecemos vibradores e outros brinquedos sexuais a uns milhares de miúdas que ainda nem dez anos têm.»

«Estás a gozar.»

«As caixas vinham misturadas com as dos brinquedos de cozinha.»

«Merda. Merda, merda, merda. A fazer asneiras destas como é que podemos esperar manter os patrocínios? A Coca-Cola detesta confusões, pá. Ainda por cima, não é a primeira vez. Lembras-te do ano em que decidiram oferecer às miúdas uma boneca com as cores e o logótipo deles, para as levar a beber tanta Coca-Cola como os rapazes e que alguém decidiu escrever nas caixas para os mercados hispânicos – bem gostava de descobrir o filho da puta mas a verdade é que também não reparámos antes de as distribuirmos – Cocaína, la Heroína de Coca-Cola? Nem sei como escapámos de um processo. Será que não é propositado, pá? A Pepsi ou os islâmicos….»

«Desta vez não me parece. Foi só porque as caixas vinham misturadas e ninguém percebeu que king size battery operated vibrating dildo não se referia a uma varinha mágica.»

«Varinha mágica… pelo amor de Deus. Bom, pode ser que as mães até fiquem satisfeitas e não nos chateiem muito. E o resto?»

«O resto correu bem. Tirando o facto de termos perdido mais Pais Natais.»

«Diz-me.»

«Treze caíram do trenó em pleno voo, vinte e seis morreram asfixiados em lareiras acesas, quatro foram mortos pelas renas (aparentemente revoltando-se na sequência de maus tratos – é capaz de haver um caso com contornos sexuais), sete foram atropelados por aviões, um foi atropelado por um comboio, seis…»

«Um comboio?»

«Sabes como eles às vezes cedem aos pedidos das renas e pousam em cima dos vagões para que elas descansem um pouco entre zonas de distribuição? Aliás, temos quase sempre uns acidentes devido a túneis. Este ano foram, hmmm, quarenta e nove, mas só oito resultaram em morte do Pai Natal.»

«Oito. Impressionante..»

«Não é muito, considerando a nossa abrangência geográfica. Pelo menos foi melhor do que no ano passado.»

«Ok, está bem, mas e o atropelado?»

«Foi em Portugal. Os comboios estavam parados por causa de uma greve e o gajo decidiu seguir pelos trilhos. Pelos vistos, a adesão não era de cem por cento.»

«Filhos da puta dos latinos, nunca levam as coisas a sério. Continua.»

«Seis despenharam-se por causa de tempestades, três acertaram em campanários e similares, catorze foram mortos a tiro (cinco dos quais no Texas) e ainda não temos informação de cento e dois.»

«O nosso prémio do seguro vai disparar.»

«Não são piores resultados do que no ano passado.»

«E o trabalho que foi conseguir a renovação no ano passado… Mas enfim, estamos cá para isso, não é? E acidentes não mortais?»

«Er, bom, o panorama não é melhor. No total, temos quase cinco mil acidentes. A maioria são coisas ligeiras como fracturas de dedos e braços na sequência de quedas, queimaduras tanto por causa das lareiras como por causa do frio (há pelo menos um Pai Natal que vai perder o nariz) e entorses ao descer do trenó. Mas também há situações mais graves como traumatismos cranianos, fracturas expostas e dois casos previsíveis de paraplegia.»

«Foda-se.»

«Pois. E, já no campo das doenças, ainda temos umas centenas de gripes e pelo menos trinta pneumonias.»

«Mais nada?»

«Há os desaparecidos mas já te falei deles. Cento e dois, até ao momento em que saí lá de baixo.»

«Alguns casos especiais?»

«A maioria será desvio de material, como de costume. Vamos descobri-los para aí no Rio de Janeiro, tentando vender barretes de lã e Ferreros Rocher na praia de Ipanema. Mas desconfiamos que pelo menos vinte foram presos. Faziam a distribuição em países de maioria não-cristã: Irão, Iémen, Sudão…»

«Então podes acrescentá-los às vítimas mortais.»

«Talvez não. Já temos trocado alguns.»

«Eu sei. Custa-nos um balúrdio em assinaturas da Hustler. E as renas?»

«Cerca de onze mil baixas. Mais dois por cento que no ano passado.»

«Se o Greenpeace sabe, estamos fodidos. Bom, mais alguma coisa?»

«Nada de… Desculpa, é o meu. Deixei-o ligado para o caso de chegarem informações importantes.»

«Atende.»

«Sim?… Eu mesmo… Diga… Não! Mas… OK, deixe lá. Obrigado.»

«O que foi agora?»

«Podemos ter um problema diplomático.»

«Conta.»

«Um dos desaparecidos…»

«Sim?»

«Passou-se. Está no topo do minarete da mesquita de Meca a gritar ‘ho-ho-ho’.»

«Merda.»

«E não é tudo.»

«Então?»

«Além de ‘ho-ho-ho’, grita ‘chamem-me Maomé’.»

«Merda, merda.»

«E…»

«Ainda há mais?»

«Tirando as barbas e o barrete, está nu.»

«Merda, merda, merda.»

«E…»

«Foda-se, ainda há mais?»

«Está a beber uma Coca-Cola.»

É que não sei se me sinta elogiado se ofendido (mas, Patrícia, «legião» é um exagero)…


escafandro,

Eram miúdos, sabes? Crianças dotadas como todos os adultos, mas sempre crianças. Mantinham um blogue diário, faziam-no a meias com uma certa ideia de cómico e, em simultâneo, propriedade crítica, inteligente, irónica. Umas vezes era o governo, outras vezes os comentadores na televisão; satirizavam com precisão, eram acutilantes e certeiros. Contavam com uma legião de seguidores que potenciavam os respectivos egos, por assim dizer.

Só agora é que consigo alcançar a dimensão da infantilidade das nossas vidas, das nossas opções.

Patrícia Reis, Por Este Mundo Acima.

Edição D. Quixote, 2011.

EDP


escafandro,

Bom sinal, o dado pelo governo ao escolher a Three Gorges como vencedora do processo de privatização dos 21,35% da EDP. Já é tempo de, em Portugal, se usarem apenas critérios financeiros nestes processos (ou não se vende ou vende-se pela maior oferta). Para mais, na situação em que nos encontramos qualquer escolha garantindo uma receita inferior seria incompreensível. O governo teve sorte num aspecto: a proposta da Three Gorges era claramente a mais forte, o que, para além de forçar o PS a declarar-se de acordo com a decisão, deverá permitir evitar irritações excessivas dos derrotados e dos líderes dos países dos derrotados. Mas o governo também terá tido azar: uma proposta vitoriosa da alemã E.On permitiria obter ganhos políticos superiores a nível europeu (uma Alemanha com interesses múltiplos em Portugal talvez fosse mais renitente em expulsar-nos do euro ou mesmo em obrigar-nos a implementar medidas demasiado gravosas para a economia) e, dentro de alguns meses, a provável vitória de outra empresa chinesa no processo  de privatização da REN não constituiria problema. Porém, caso a E.On vencesse, dificilmente chineses e brasileiros (com Dilma à cabeça) acreditariam que a decisão fora tomada apenas por critérios financeiros. E, quanto à REN, cada coisa de sua vez. Para já, ignorando o detalhe da China estar longe de ser uma democracia (não gosto da ideia, confesso, mas, falidos e com tanto capital de outros países não democráticos – de Angola, por exemplo – já a circular por aí, valerá a pena inventar pruridos?), o governo fez bem.

 

Nota: a Secretária de Estado Maria Luís Albuquerque merece uma menção. É directa, clara e credível. Já o tinha demonstrado antes, julgo que na sequência do processo de privatização do BPN, voltou a fazê-lo hoje.