MMXII


escafandro,

Que 2012 vai ser um ano difícil é uma evidência. Mas, mais importante, vai ser um ano crucial. Vai ser o ano em que o euro pode acabar, pelo menos em alguns países. Vai ser o ano em que a economia europeia pode entrar em colapso. Vai ser o ano em que o «projecto europeu» pode sofrer um abrupto desvio de percurso. O ano em que ódios e nacionalismos podem regressar em força. O ano em que a contestação social se pode transformar em revolta. O ano em que, já abertamente, se vão culpar outros por falhas próprias.

 

Em Portugal, temos muitas decisões a tomar. A mais importante é decidir se queremos continuar a prosseguir o esforço de consolidação dentro do euro, se o preferimos fazer fora dele (e, eventualmente, da União Europeia). É uma questão que se colocará insistentemente. Seja qual for a nossa decisão, sejam quais forem as consequências, não vale a pena culpar outros pelos nossos actos. Ninguém nos obrigou a aderir à União Europeia. Ninguém nos obrigou a aderir ao euro. Ninguém nos obrigou a aderir ao euro à taxa cambial a que aderimos (o orgulho que foi, lembram-se?). Ninguém nos obrigou a gastar os fundos comunitários (2% do PIB por ano) em projectos sem retorno. Ninguém nos obrigou a escolher a via da irresponsabilidade orçamental (sim, outros o fizeram: problema deles). Ninguém nos obrigou a ignorar os múltiplos avisos (passaram há dias dez anos sobre o dia em que um Primeiro-Ministro socialista falou no «pântano»; não apenas o ignorámos como crucificámos o Primeiro-Ministro seguinte por utilizar a expressão «tanga»). Ninguém nos obrigou a, em 2008/2009, injectar fundos públicos na economia como se tivéssemos uma dívida pública de 20% e viéssemos de anos de excedentes orçamentais (antes que alguém fale no BPN, foi um erro mas também uma gota de água). Ninguém nos obrigou a tentar criar regimes de protecção social tão fortes como os dos mais ricos países europeus, em metade do tempo que eles demoraram a fazê-lo e perante uma demografia totalmente diferente (mais: perante sinais de que eles também já não os conseguiam suportar). Ninguém nos obrigou a nada. Chegámos a esta situação por opções nossas. E vamos sair dela, melhor ou pior, com opções nossas. Com ou sem troika. Dentro ou fora do euro. Numa Europa politicamente mais unida ou mais separada. Os outros (a Grécia, a Espanha, a Itália, a França, a Alemanha, o Reino Unido, a Holanda, os países nórdicos) farão o que entenderem – não podemos controlar isso. Nem deveríamos poder, ainda que tal nos permitisse escolher a via menos dolorosa para nós – eles, que também cometeram erros e também correm riscos, têm direito às suas opções. Resta-nos alertá-los para as consequências e defender os nossos interesses. Escolher, a cada momento, o que entendermos ser melhor para nós. Ou, infelizmente, menos mau. Sem ilusões (ainda não estamos fartos delas?) mas também sem decisões precipitadas.

 

Que 2012 vai ser um ano difícil é uma evidência e, por muito que o tenhamos tentado no passado, não vale a pena negar evidências. Mas, mais importante, vai ser um ano crucial. Saibamos – nós e os restantes europeus – usá-lo bem.

5 comentários em “MMXII”

  1. Vai correr tudo bem! Já chegaram – e sem qualquer solicitação – equipes a vários serviços públicos para instalar os programas que habilitam os funcionários a mutilar o português.
    É um esforço que nos faz deve encher de esperança no governo e no senhor 1º Ministro Miguel Relvas.

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