Veste uma t-shirt preta com a frase Don’t Give Up estampada na parte frontal. As letras, douradas, constituídas por pontos individuais, brilham ao serem atingidas pelas luzes do bar quando ela se move. Penso em Kate Bush mas apenas durante um instante. Aproximo-me. Meto conversa. Não se mostra interessada. Insisto. Adaptando uma frase de uma das melhores letras que Bono alguma vez escreveu, digo-lhe: «You lips say one thing, your t-shirt something else.» Sorri. Murmura: «A t-shirt é emprestada.» Mas deixa-me pagar-lhe uma bebida.
Três horas mais tarde, no meu quarto, junto à cama, tento despir-lhe a t-shirt mas ela impede-me. Aceita que lhe tire o soutien e o resto da roupa mas não a t-shirt. É-me indiferente. Tombamos na cama.
Minutos depois, estendidos de costas, recuperamos o fôlego. Ela puxa a t-shirt para baixo, cobrindo ancas e sexo, e diz: «Sabes, a frase?» Rodo a cabeça e releio-a. «Sim?» Larga a t-shirt, cujo extremo inferior sobe até acima do umbigo. «Afinal é pena que nem sempre seja levada a sério.»
Também aqui.

«Larga a t-shirt, cujo extremo inferior sobe até acima do umbigo» e perante o desalento exclama: jaa desististe? pfhhh… afinal essa cena do macho latino, não passa de falsa publicidade… deixa-me mazé Running Up That Hill, antes que se desmorone por completo. kM&feature=relmfu
http://www.youtube.com/watch?v=wp43OdtAA
;))))
Bartolomeu: o que o safa é que eu não consigo recusar comentários que enviem para vídeos da Kate Bush. Quanto ao post, é ficção, pá, ficção…
P.S.: Apesar de tudo, antes não fosse. 😉
Três horas? Temos Casanova portuense.
Acho que há quem consiga em menos, Luís. Mas eu estou velho, sou feio e nem frequento bares.
E a ficção, como se sabe jaa, é um pouco da realidade, não é? 🙂 Muito bom! beijo P
Então, um cavalheiro vem assim, a público, contar intimidades de t-shirt?
Muito bom, Ivone!
Então mas ninguém ouviu falar de fantasias com final realista?…
E agora vou ler o teu post. É melhor que o aviso logo no início não tenha razão de ser…

Não. De todo. Absolutamente nada. 🙂
Beijinhos.
Muito bom, D. Juaan. Mas eu gostava de saber porque é que ela não quis tirar a t shirt, pronto.
Deve ter sido para manter a frase bem à frente dos olhos dele. Digo eu…
E, de qualquer modo, quem é que alguma vez percebe as motivações femininas?
(Especialmente quando são inventadas por homens.)
Tiraste-me as palavras da boca com esse parêntesis…
Mas tenho outras: e quem é que alguma vez se importa com as motivações femininas? “É-me indiferente. Tombamos na cama.”
Bingo!
Bela história! Há mulheres que não passam sem a t-shirt…e depois querem ser levadas a sério. :))
Bom, estejam elas com ou sem t-shirt, há coisas em que os homens levam sempre as mulheres muito a sério, Helena. Aposto que a personagem masculina do conto levou o remoque final muito a sério. 🙂
Sei, não. Como diz uma amiga minha brasileira que também usa uma t-shirt que diz “toca, não”!
As tuas “curtas”, jaa! O máximo!
(falo da tua micro-ficção, já sabes 🙂
Pois, pois…
Falo a sério, como sabes muitíssimo bem! Não é a primeira vez que anoto, com distinção e louvor.
Eu sei. O “pois pois” era em resposta ao teu parêntesis. E obrigado.
Óinc!
Diabos, além de galês, também não falo suinês. Olhe lá, Javali, não quer passar pelo texto da Ivone, um pouco mais acima? Há lá uma data de gente que adoraria vê-lo…
Ahahahahah
LOL. É de lá que eu venho!
As questões da narratologia são sempre complicadas, nomeadamente a relação entre o tempo da história e o tempo do discurso.
Peço esclarecimento: as três horas referem-se à passagem do bar até ao quarto ou são três horas no quarto, junto à cama?
Bar – quarto. O que é que duas pessoas que acabam de se conhecer fazem durante três horas junto a uma cama, antes de fazerem o que se subentende que fazem depois de cair na cama?
Está mesmo pouco claro, é?… Damn.
Não está nada pouco claro, jaa, eu é que estou a implicar contigo.
Já viste como uma shortezinha dá azo a tanto comentário? E ainda há quem não acredite no poder da micro-narrativa.
Lamento desiludir-te mas não é o poder da micro-narrativa; é o do sexo.
E, seja como for, qualquer post sobre Kadhafi ou Hugo Chávez conseguiria pelo menos o triplo.
Vocês registaram as 3 horas (dos preliminares) e eu cá registei os minutos (do desenlace)…
Ora nem mais. Daí a observação final.
Sou demasiado subtil, é o que é…
Observação importante, Isabel!
E no desenlace, cof, cof, a “piquena” em lugar de largar a t-shirt, continua agarrada a ela…
A coisa não terá sido um sucesso, creio, mas eu não costumo ler “estórias” de sexo.
Este blogue onde eu vim parar e que julguei ser intelectual, saiu-me um perigoso covil, onde se fala de assuntos tabus e se semeia discórdia.
Começo a estar preocupada!
Eu avisei logo no início, Helena: http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/30 07025.html
Eles é que são boas pessoas e não acreditam na existência da maldade.
Jaa
Aqui em casa já começaram a dizer que ando muito espevitada… desde que entrei para o DO.
E por mais que eu explique que são sólidas as razões que me levam a discordar duma moçoila que usa t-shirt, quando se dedica a experiências laborais, parece que ninguém me entende. Disseram-me que até se deve usar bata! Gente muito conservadora.
Eu sei que vivemos na província, que a família é pouco progressista, que tudo demora a cá chegar – agora com a TDT vai ser pior – mas que diabo, usar bata?!
Eu até acho graça aqueles biquinis de renda preta que me dizem que há aí em Lisboa – bem mais giros que uma t-shirt – mas que hei-de fazer? Calo-me!
Valeu-me agora este post, para fazer a catarse deste assunto.
Claro que tenho um certo medo de vocês, porque desde que aqui estou só falam de secretas, de Pingos Doces, de sexo. Mas também se não for assim, como é que eu aprendo alguma coisa, só metida com tachos e panelas?!