(Aviso: contém linguagem imprópria para a quadra.)
«Então, a noite de Natal foi boa?»
«O normal. Mas o meu Pai Natal não passou.»
«A sério? Começamos bem…»
«Pois.»
«O que é que lhe aconteceu?»
«Morreu. Ataque cardíaco ontem ao fim da tarde. Não fomos avisados.»
«Caraças. Enfim, menos mal. Sempre é uma boa razão. Mas é uma merda que o plano de contingência não tenha funcionado.»
«Não fomos avisados. Tínhamos uns tipos novos prontos para avançar.»
«Não funcionou. Não fomos avisados, não funcionou. Bom, vamos lá. Qual é a taxa, este ano?»
«Setenta e oito vírgula sete por cento.»
«Merda, é menos que o ano passado. Estamos a falhar mais.»
«O pessoal é cada vez pior. E também é verdade que lhes aumentámos o número de casas.»
«Foda-se, antes até tinham tempo para ir para ter sexo com as mães depois de deixarem os presentes aos filhos. Não estamos em tempo disso.»
«Aumentava a natalidade…»
«Não é essa a nossa função. Mostra lá os números.»
«Das residências previstas cobrimos setenta e oito vírgula três por cento, como te disse. Para já, temos um vírgula oito por cento de presentes entregues incorrectamente.»
«Alguns casos graves?»
«Coisas de miúdas entregues a rapazes, um sistema de jogos com óculos 3D entregue a um miúdo cego, trinta e seis pares de luvas oferecidos a crianças sem mãos e, pior (mas acontece todos os anos), dois mil cento e dois pares de meias deixados a miúdos sem pernas. Globalmente, não é mau.»
«Pois, suponho que não.»
«O pior…»
«Sim?»
«Parece que houve confusão com dois lotes de brinquedos.»
«Pronto, lá vamos nós. Então?
«Num dos casos é mais ou menos o costume: anjinhos que vinham com cruzes suásticas e acabámos por deixar seguir.»
«Merda. E o outro?»
«Tudo indica que oferecemos vibradores e outros brinquedos sexuais a uns milhares de miúdas que ainda nem dez anos têm.»
«Estás a gozar.»
«As caixas vinham misturadas com as dos brinquedos de cozinha.»
«Merda. Merda, merda, merda. A fazer asneiras destas como é que podemos esperar manter os patrocínios? A Coca-Cola detesta confusões, pá. Ainda por cima, não é a primeira vez. Lembras-te do ano em que decidiram oferecer às miúdas uma boneca com as cores e o logótipo deles, para as levar a beber tanta Coca-Cola como os rapazes e que alguém decidiu escrever nas caixas para os mercados hispânicos – bem gostava de descobrir o filho da puta mas a verdade é que também não reparámos antes de as distribuirmos – Cocaína, la Heroína de Coca-Cola? Nem sei como escapámos de um processo. Será que não é propositado, pá? A Pepsi ou os islâmicos….»
«Desta vez não me parece. Foi só porque as caixas vinham misturadas e ninguém percebeu que king size battery operated vibrating dildo não se referia a uma varinha mágica.»
«Varinha mágica… pelo amor de Deus. Bom, pode ser que as mães até fiquem satisfeitas e não nos chateiem muito. E o resto?»
«O resto correu bem. Tirando o facto de termos perdido mais Pais Natais.»
«Diz-me.»
«Treze caíram do trenó em pleno voo, vinte e seis morreram asfixiados em lareiras acesas, quatro foram mortos pelas renas (aparentemente revoltando-se na sequência de maus tratos – é capaz de haver um caso com contornos sexuais), sete foram atropelados por aviões, um foi atropelado por um comboio, seis…»
«Um comboio?»
«Sabes como eles às vezes cedem aos pedidos das renas e pousam em cima dos vagões para que elas descansem um pouco entre zonas de distribuição? Aliás, temos quase sempre uns acidentes devido a túneis. Este ano foram, hmmm, quarenta e nove, mas só oito resultaram em morte do Pai Natal.»
«Oito. Impressionante..»
«Não é muito, considerando a nossa abrangência geográfica. Pelo menos foi melhor do que no ano passado.»
«Ok, está bem, mas e o atropelado?»
«Foi em Portugal. Os comboios estavam parados por causa de uma greve e o gajo decidiu seguir pelos trilhos. Pelos vistos, a adesão não era de cem por cento.»
«Filhos da puta dos latinos, nunca levam as coisas a sério. Continua.»
«Seis despenharam-se por causa de tempestades, três acertaram em campanários e similares, catorze foram mortos a tiro (cinco dos quais no Texas) e ainda não temos informação de cento e dois.»
«O nosso prémio do seguro vai disparar.»
«Não são piores resultados do que no ano passado.»
«E o trabalho que foi conseguir a renovação no ano passado… Mas enfim, estamos cá para isso, não é? E acidentes não mortais?»
«Er, bom, o panorama não é melhor. No total, temos quase cinco mil acidentes. A maioria são coisas ligeiras como fracturas de dedos e braços na sequência de quedas, queimaduras tanto por causa das lareiras como por causa do frio (há pelo menos um Pai Natal que vai perder o nariz) e entorses ao descer do trenó. Mas também há situações mais graves como traumatismos cranianos, fracturas expostas e dois casos previsíveis de paraplegia.»
«Foda-se.»
«Pois. E, já no campo das doenças, ainda temos umas centenas de gripes e pelo menos trinta pneumonias.»
«Mais nada?»
«Há os desaparecidos mas já te falei deles. Cento e dois, até ao momento em que saí lá de baixo.»
«Alguns casos especiais?»
«A maioria será desvio de material, como de costume. Vamos descobri-los para aí no Rio de Janeiro, tentando vender barretes de lã e Ferreros Rocher na praia de Ipanema. Mas desconfiamos que pelo menos vinte foram presos. Faziam a distribuição em países de maioria não-cristã: Irão, Iémen, Sudão…»
«Então podes acrescentá-los às vítimas mortais.»
«Talvez não. Já temos trocado alguns.»
«Eu sei. Custa-nos um balúrdio em assinaturas da Hustler. E as renas?»
«Cerca de onze mil baixas. Mais dois por cento que no ano passado.»
«Se o Greenpeace sabe, estamos fodidos. Bom, mais alguma coisa?»
«Nada de… Desculpa, é o meu. Deixei-o ligado para o caso de chegarem informações importantes.»
«Atende.»
«Sim?… Eu mesmo… Diga… Não! Mas… OK, deixe lá. Obrigado.»
«O que foi agora?»
«Podemos ter um problema diplomático.»
«Conta.»
«Um dos desaparecidos…»
«Sim?»
«Passou-se. Está no topo do minarete da mesquita de Meca a gritar ‘ho-ho-ho’.»
«Merda.»
«E não é tudo.»
«Então?»
«Além de ‘ho-ho-ho’, grita ‘chamem-me Maomé’.»
«Merda, merda.»
«E…»
«Ainda há mais?»
«Tirando as barbas e o barrete, está nu.»
«Merda, merda, merda.»
«E…»
«Foda-se, ainda há mais?»
«Está a beber uma Coca-Cola.»

Ah, herege!
Adorei
Adorou? Não tem vergonha?
Obrigado.

O máximo! Ainda bem que há gente com este sentido de humor. Comecei bem a semana!
Obrigado, Dina. Já agora, faço-lhe um update. Foi descoberto mais um dos desaparecidos. Ainda não se sabe como aconteceu mas ele, renas e trenó encontram-se em órbita à volta da Terra (o aviso chegou da estação espacial).
Tb sou um perverso desavergonhado, Adorei, com !!!!!
Consigo não me surpreendo – todos os anónimos são desavergonhados por natureza…
(Just kidding. Obrigado.)
Se eu lá meter Zé Ninguém, já passa a conhecer-me?
É isso que sou, ninguém, por isso vai dar ao mesmo.
Boas Festas.
Um abraço