«E que ******* é uma cítara, afinal?»


escafandro,

No dia seguinte estávamos no quarto do Seb olhando o «Rubber Soul». Ninguém disse nada durante muito tempo. Estávamos sentados, debruçados sobre o disco, mudos, zangados, exactamente como o John, o George, o Ringo e o Paul se debruçavam sobre nós, fitando-nos duramente.

Não nos reconhecíamos.

– E como é? – perguntou Seb em voz baixa.

– Ainda não ouvi.

Olharam para mim e acenaram as cabeças, eu tinha corrigido a traição do Help. Retirei cuidadosamente o disco da capa, Seb colocou-o no novo gira-discos, Gerard, premiu on e a agulha elevou-se, sozinha, aterrando na primeira faixa, suavemente, como uma pena.

Ficámos a ouvir o disco o resto de serão, tocando-o vezes sem conta, os nossos ouvidos conchas enormes e nós deitados no fundo do mar, ouvindo, ouvindo, tentando interiorizar as músicas. Gunnar apontou desesperado para uma fotografia do John numa floresta de pinheiros enquanto ouvíamos o Norwegian Wood sem entender nada.

– Floresta norueguesa! – agoniou. – Floresta norueguesa! E que caralho é uma cítara, afinal?

Lars Saabye Christensen, Beatles.

Edição Cavalo de Ferro (2005), tradução de Kristian Amby.

 

Todos nos lembramos de, em criança, desejar ardentemente uma coisa (um disco, um brinquedo, uma peça de roupa) e dos dias ou semanas que lhe dedicámos depois de a obter. Nas décadas de sessenta, setenta ou oitenta (Beatles trata da adolescência de quatro rapazes na Oslo dos anos sessenta e do fervor com que acompanhavam cada novo álbum dos Beatles), a maioria das pessoas não tinha dinheiro para comprar muitos presentes aos filhos, o que transformava cada compra num evento. Cada presente era fruído durante longo tempo, a menos que se partisse ou fosse passível de ser facilmente desmontado. Entretanto, o nível de vida médio subiu (em tempos de crise, tendemos a esquecer-nos) e  as crianças começaram a receber ofertas mais regularmente. Os próprios adultos, que se permitiam indulgências com ainda maior parcimónia do que aquela com que presenteavam os filhos, passaram a um nível de auto-indulgência incomensuravelmente superior. Ainda bem, claro. Nada tenho contra poder aceder-se a mais coisas. Mas assalta-me a sensação de que se algo perdeu. Cada nova aquisição deixou de ter a importância que tinha. A fartura (ainda que quase sempre relativa) leva a que poucas coisas sejam hoje fruídas com o nível de intensidade que mereciam. No que me diz respeito, já não me lembro da última vez que ouvi um álbum com a atenção que dediquei a The Joshua Tree ou andei tanto tempo acompanhado por uma canção como nos tempos de True Faith. Talvez por alturas de OK Computer, certamente que não na última década. Continuo a ouvir imensa música, até mais do que por alturas da minha adolescência, quando o dinheiro de que dispunha para a comprar era muito limitado, e continuo a procurar música nova, mas reduzi o grau de profundidade com que a ouço. E o mesmo acontece noutras áreas (na literatura, um pouco menos). A quantidade substituiu não a qualidade dos itens mas a da sua fruição; substituiu a profundidade da análise.

 

Exagero? Talvez. Saudosismo? Também é provável. Afinal, como Pedro Mexia afirmava numa crónica sobre homens adultos coleccionadores de cromos incluída em Nada de Melancolia, as pessoas da idade dele (o que – bof – me inclui) estão viciadas em nostalgia. Mas ainda assim não resisto a continuar. As experiências são hoje não exactamente menos intensas (pelo menos, não para as crianças) mas acima de tudo mais efémeras. E não por culpa daquilo que as gera: é verdade que o efeito de novidade diminuiu (poucas coisas novas são verdadeiramente novas) mas, ainda assim, continuam a ser disponibilizadas diariamente excelentes obras em quase todos os campos que se entenda analisar. O problema reside nos consumidores. Requer-se novidade constante mas cada nova dose produz efeito durante menos tempo. A música, consumida em temas individuais e não em álbuns – a noção de obra parece também estar a desvanecer-se – é amontoada aos milhares de faixas em leitores portáteis e computadores. Os filmes, colagens de efeitos especiais concebidas para animar adolescentes durante duas horas, são esquecidos logo após o início do genérico final (com honrosas excepções, a que poucos ligam). Talvez os jogos de vídeo ainda consigam prender miúdos (e graúdos) durante algumas semanas mas já não têm o carácter quase mítico de há quinze ou vinte anos e também eles têm vindo a tornar-se mais «acessíveis» (mais fáceis, mais curtos, mais iguais entre si). E esta tendência está longe de se confinar aos bens culturais. Após seis meses de uso, um telemóvel já desagrada. Um carro é substituído ao fim de três ou quatro anos. Na moda, as cores «certas» mudam de estação para estação, a cintura das calças e das saias sobre ou desce uns centímetros todos os anos, a ponta dos sapatos femininos muda de redonda para quadrada para bicuda e depois volta a redonda em períodos cada vez mais curtos. A ânsia da «novidade» é gigantesca, o tédio espreita a cada esquina e poucas pessoas sabem gerir a insatisfação. Felicidade passou a significar acesso contínuo a entretenimento de acesso rápido e posse dos mais recentes bens materiais. E, claro, também ela é cada vez mais efémera.

 

Como isto começou e vai acabar com um excerto em que o assunto é música, talvez não seja descabido referir que a situação pode ter sido agravada pelo facto de muitas coisas terem deixado de ser pagas. Poucas pessoas – pouquíssimos jovens, certamente – pagam hoje a música que ouvem. E o mesmo se começa a passar com os filmes, os jogos, os livros – tudo o que é passível de download. Não pagar leva a amontoar mais coisas: inevitavelmente, quanto mais não seja por falta de tempo, a muitas quase não se presta atenção e mesmo as restantes sofrem por não serem apreciadas com calma. Talvez pior: o hábito de não pagar leva à perda de noção do valor dessas coisas. A distorções curiosas como, por exemplo, muita gente se recusar a pagar doze ou quinze euros por um álbum musical (ou menos, em sites como a Amazon, o iTunes ou o Zune), algo a que está associado um trabalho de meses ou anos, mas estar disponível para pagar os mesmos quinze euros por uma t-shirt feita na China com a fotografia da banda a que se nega o pagamento da música estampada no peito. A facilidade com que se obtêm coisas que ainda há uma vintena de anos custavam dinheiro, para as quais era necessário poupar, deprecia-as. Faz com que se consumam e ponham de lado mais depressa. E parece também fazer aumentar a predisposição para aceitar que tudo pode ser obtido de graça. Afinal, se é possível obter as canções, por que não o leitor de mp3, o telemóvel ou o computador onde as ouvir – ou a t-shirt? Como se viu há uns meses em Londres, não são dúvidas morais que impedem muitas pessoas de entrar numa Fnac e sair de lá com iPads debaixo do braço. São questões de oportunidade. Paradoxal mas quiçá inevitavelmente, os bens materiais vêm-se tornando cada vez mais importantes mas também cada vez menos eficazes na incessante busca da felicidade.

 

E a melancolia (desculpa lá, Mexia, mas como evitar uma pitadazinha?) surge da percepção de que, afinal, descobrir coisas – descobrir mesmo, mergulhando nelas, saboreando-as, analisando-as, dando-lhes tempo, permitindo que nos interroguem, usando-as para descobrir outras coisas – continua a ser das melhores experiências que se podem ter na vida.

 

Seb estava dentro do altifalante à procura da cítara, tinha de ser algo muito estranho. Mas Ola estava satisfeito com o What goes on, tinha agarrado num par de lápis com que batucava, franca melhoria. Eu achei o Michelle delicodoce, mas o Girl era o máximo, fazia-me sentir todo amargo e quente. O Nowhere Man passou-nos totalmente ao lado, e por cima. Gunnar estava quase no choro, o suor brotava-lhe da testa e a boca estava escancarada e vazia.

– Mas afinal o qu’ é que a-a-aconteceu? – murmurava Ola.

A porta abriu-se abruptamente e lá estava o pai de Seb, o comandante, cara tisnada e a camisa dobrada e arregaçada mostrando os pêlos que transbordavam no peito e nos braços, como musgo negro.

– Olaré. Que carantonhas!

– Olha, pai – disse Seb. – O qu’ é uma cítara?

Entrou para o meio do quarto e plantou bem os pés no chão, como se estivesse no mar alto.

– Cítara. Vou contar-vos, pois. Uma vez chegámos a Bombaim com petróleo. E o nosso cozinheiro era indiano. Trabalhava como um herói, não pensem que se come pouco a bordo de um navio. E o indiano, ‘tão a ver, os indianos não comem carne, porque acham que a qualquer momento os antepassados podem aparecer por aí como vacas, ou gafanhotos, e por isso não comem carne. Mas o nosso indiano tinha de preparar carne todos os dias, e ‘tão a ver como devia ser, pra ele, todos os dias a pensar que estava a preparar o avô. Mas mesmo assim nunca havia barulho com ele.

Seb pigarreou.

– Oh pai. O qu’ é uma cítara?

– Calma. Não havia barulho com este menino, não, ou antes, havia uma barulheira dos diabos, porque ele tocava cítara, todas as noites. Era o consolo dele. Um instrumento enorme. Pelo menos cem cordas. Soa a mulheres maldispostas.

– Como que uma guitarra indiana? – perguntou-lhe Seb.

– Isso mesmo. Gosto em vê-los, rapazes.

E o comandante desapareceu. Pusemos de novo o Norwegian Wood.

Ena. Índia?

 

Imagem retirada daqui (os Beatles e as suas guitarras).

2 comentários em “«E que ******* é uma cítara, afinal?»”

  1. Excelente Post, tanto no conteúdo original, como nas citações. E, essencialmente, não permito que um Post que tem uma foto do Quiet Beatle, fique sem um comentário que seja !! All Things Must Pass !

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