Tenho andado a ver Era Uma Vez, no AXN (Sextas às 21,30h, com repetição aos Domingo às 20h). A ideia de misturar o universo dos contos de fadas com o mundo real agrada-me e os primeiros três ou quatro episódios não foram maus. Os seguintes já não me entusiasmaram tanto e receio que a série depressa se torne repetitiva, com os principais enredos presos na necessidade de manter as coisas em banho-maria imposta pelo formato, mas nas próximas semanas se verá. De qualquer modo, este post tem menos a ver com a série do que com as actrizes da série. E, no que lhes diz respeito, gostaria de assinalar uma coisa óbvia, uma coisa moderna e uma coisa encantadora.
A coisa óbvia é que são todas atraentes. A única série americana destinada ao grande público em que os actores parecem pessoas normais (e isto não quer dizer feios) é a Nurse Jackie (também se trata da única em que doentes internados parecem mesmo doentes). Confesso que este ponto não me incomoda por aí além: nada tenho contra mulheres bonitas, elas é que parecem ter algo contra mim. E Jennifer Morrison (a médica da equipa original do House) é mesmo muito bonita. Como também o é Lana Parrilla (a médica do Miami Medical). Morrison pode considerar-se a personagem principal de Era Uma Vez, ou pelo menos a catalizadora da acção, enquanto Parrilla desempenha o papel de bruxa má (muito, muito boa). E depois temos Ginnifer Goodwin, que era uma das três mulheres de Bill Paxton em Big Love (a mais novinha) e que descobri ter participado em 2002 num telefilme com o fantástico título de Porn’n Chicken (parece ser o nome de um clube existente na universidade de Yale, o que nos permite afastar ideias sobre o declínio da educação e manter esperanças no futuro). Como seria de esperar, atendendo a que desempenha o papel de Branca de Neve, Ginnifer faz de rapariga atraente, delicada e um tudo-nada ingénua. Ou seja: temos sexo (Morrison), sexo violento (Parrilla) e carícias e beijinhos (Goodwin). Era Uma Vez adequa-se a (quase) todos os gostos e fantasias.
A coisa moderna é as mulheres serem as principais personagens. Gente perspicaz como sois (não me contrarieis), já se aperceberam certamente de que as mulheres ocupam os principais papéis em quase todas as séries actuais, decorram elas num hospital, num tribunal, numa esquadra, na CIA ou numa terrinha com mais vampiros do que passarinhos nas árvores. Já sabíamos que as mulheres estão a tomar conta do mundo e, no fundo, acaba por ser compreensível: é politicamente correcto, está menos visto, haverá mais mulheres do que homens a acompanhar séries televisivas nos dias que correm e os homens não se importam: para a maioria, ver mulheres bonitas não representa um sacrifício (eu, pelo menos, gosto – mas creio já o ter referido).
E chegamos à coisa que me encanta. Ainda não perceberam? Releiam o título do post e olhem para a fotografia abaixo. Precisamente: as orelhas de Ginnifer Goodwin. Ginnifer tem orelhas de abano. Ou melhor: tem uma orelha de abano (a direita) porque a outra encontra-se muito mais encostada à cabeça. (Imagino-a sempre rodando a cabeça para a esquerda e avançando a orelha direita após alguém perguntar: «Ouviste aquilo?», de modo a ouvir melhor, ou fazendo o oposto durante uma conversa, de forma a equilibrar a intensidade da recepção.) Num universo televisivo em que mendigos da Idade Média têm dentes perfeitos, em que as actrizes de quarenta anos parecem mulheres de sessenta após efectuarem dezenas de intervenções cirúrgicas com o intuito de parecerem ter trinta, em que todos os homens excepto vilões e personagens cuja única função é efeito humorístico são esbeltos e musculados (e, cada vez mais, depilados), descobrir uma orelha assim (ainda que apenas visível nas cenas decorridas na actualidade, em que Ginnifer aparece com cabelo curto) trata-se de um momento sublime. Como é possível que ela ainda não tenha sido convencida a «corrigi-la»? Como é possível que os produtores televisivos a aceitem? Como é possível que a tenham aceitado para um dos três papéis principais (caramba, no genérico o nome dela até surge em primeiro lugar) numa série sobre contos de fadas? Parece-me algo quase impossível e, no entanto, adorável – um sinal de esperança. Que, nos tempos actuais, uma actriz ligeiramente assimétrica faça de Branca de Neve encanta-me. Parece-me até o ponto mais mágico de toda a série.
(Fotografias retirada do site oficial da série e do perfil da Ginnifer na IMDb.)



Aquela assimetria auricular, não será reflexo da intoxicação provocada pelo veneno contido na maçã?
Hmmm?
Ah! Pois… também pode resultar do xupão que o principe lhe afinfou nos beiços… prá acordar… talvez por isso, ha quem demonstre preferir as populares palmadas nalgares, que para além da vermelhidão momentânea, não causam outros efeitos… à vista.
E tal…
Então, Bartolomeu? Que versões dos contos de fadas anda você a ler?
Tendo em conta que uma das zonas mais erógenas na mulher é o lóbulo da orelha, dá para imaginar o porquê de ela ainda não ter sido convencida a “corrigi-la”.
É assim uma diferença tão grande, sampy? E qual a sua fonte de informação? 🙂
Não há bela sem senão.
A Ginnifer é uma mulher lindíssima. Louvo o facto de ainda não ter recorrido à cirurgia (o que “muita boa gente” já teria feito no lugar dela, com certeza, principalmente aquelas pessoas que se preocupam demasiado com o que os outros pensam e comentam sobre elas). Isso só prova que há pessoas que se incomodam mais do que ela, muito provavelmente. Não sei o que ela pensa sobre tal assimetria.
Cristina Silva
Eu também acho que ela é uma mulher lindíssima, Cristina. E nem acho que a questão seja um «senão» mas apenas uma característica invulgar nas aparências formatadas da televisão actual.
Em sintonia contigo. Nada é tão atraente como as chamadas “imperfeições”. Contra a imagem plastificada, artificial, padronizada, imposta pelo cânone televisivo.
Nem mais, Pedro.
Não a convenceram a corrigi-la, mas fazem grandes esforços com o penteado para a disfarçar. A orelha também não me passou despercebida.
Realmente, na minha geração, pude assistir à progressão da mulher, em séries televisivas e filmes. A mulher deixou de ser uma dona de casa exímia, para ser uma cabra controladora que emascula o homem.
Também deixou de desempenhar o papel secundário, o grande e fundamental apoio do homem, para singrar como personagem principal, criando modelos de mulher bem-sucedida na carreira, mãe exemplar, sempre perfeita, depilada e maquilhada, e ainda com tempo para fazer uns brilharetes na cozinha e na cama. Mais uma cruz que a mulher moderna tem de carregar. Felizmente, começam a aparecer mulheres verdadeiras e falíveis, como é o exemplo da Nurse Jackie.
Ainda me lembro de “devorar” os quatro volumes de As Brumas de Avalon de Marion Zimmer Bradley, precisamente porque as mulheres desempenhavam o papel principal na história. Eram um tipo de mulher bem diferente destas heroínas hollywoodescas que nos tentam impingir e que, na minha opinião, têm apenas o objectivo de agradar aos espectadores masculinos.
Tenho cá para mim que, tal como eu, a maioria das mulheres gostaria de ver os figurinos da TV um pouco mais equilibrados. Menos mulheres plásticas, mais homens reais, daqueles com pêlos e que não são injectados antes de irem para o ar. Claro que um “six pack” não fica mal a ninguém, mas sem exageros.