Alternativas


escafandro,

A mais difícil é continuar a lutar convictamente. A mais deprimente é deixar de lutar. A mais exasperante é possuir todos os motivos para deixar de lutar e não conseguir deixar de o fazer.

Ou estou a ver mal a coisa ou as leis da física são diferentes no universo publicitário ou o R2D2 é estúpido


escafandro,

Num anúncio radiofónico do Montepio, o robot R2D2 (o mais baixote do duo d’A Guerra das Estrelas) subscreve um depósito a prazo a quatro anos. Em resposta a uma série de apitos e estalidos, a pretensa funcionária do Montepio diz algo do género: «Não, senhor Ar-Tu-Di-Tu, não são anos-luz. São anos terrestres.» Deixando de lado o pormenor do ano-luz ser uma unidade espacial (ou seja, usada para medir espaços no Espaço), poderá alguém explicar-me qual a diferença de tempo entre um ano terrestre e um ano-luz?

Instantâneos de uma semana que termina


escafandro,

O Ministro das Finanças, inflexível até com o seu congénere da Economia, aceita que a TAP não aplique os cortes salariais previstos. A TAP é uma empresa de capitais públicos que já não recebe fundos públicos desde 1997. A RTP, que tem recebido duzentos e tal milhões de euros por ano, reclama o mesmo tratamento.

 

A EDP apresenta lucros recorde. A EDP é uma empresa quase monopolista num país com preços de energia muito acima da média. Parte desses preços resulta da carga fiscal. Outra parte resulta de contratos que a troika exige que sejam revistos. Os contratos continuam por rever.

 

O Ministro da Educação diz que o custo médio das obras da Parque Escolar é de 15 milhões de euros em vez dos 2,8 previstos. A Parque Escolar diz que é mentira e acrescenta que o custo médio é de apenas 12 milhões. No Parlamento, um deputado do Partido Socialista mostra-se escandalizado e acusa o governo de manipular dados.

 

No primeiro dia do julgamento do caso Freeport, uma testemunha sob juramento mantém que um dos arguidos afirmou ter pago 2,5 milhões de euros a José Sócrates. A «justiça» (as aspas são propositadas e o uso de minúscula também) nunca achou conveniente interrogar José Sócrates sobre o assunto.

 

Cavaco resolve confessar que Sócrates não o escutava. Silva Pereira, o clone de Sócrates, responde dizendo que houve uma época em que o receio de Cavaco era de que Sócrates o escutasse demasiado.

Dançam?


escafandro,

 

Os Wraygunn estão de volta, cinco anos após Shangri-La, com L’Art Brut. Neste primeiro single, e apesar do título do álbum, parecem calmos e melancólicos. Não deverá durar. Ou apenas até pisarem um palco, onde costuma ser assim. De qualquer modo, depressa se poderão tirar dúvidas, uma vez que está prevista a realização de quatro concertos de lançamento ainda este mês: em Lisboa, no Lux, a 17; em Coimbra, no Teatro Gil Vicente, a 22; em Tondela, na ACERT, a 23; no Porto, no Hard Club, a 24. A compra do disco (é mais barato na Fnac online do que nas lojas) permite a entrada.

Springsteen e «os nossos»


escafandro,

  

Leio que o novo álbum, Wrecking Ball, à venda amanhã, mostra desilusão, desespero, agressividade. Talvez. Contudo, o primeiro single deixou-me a pensar. Há quase trinta anos, Born in the USA era uma crítica que soava a hino patriótico. Os republicanos, então no poder, pouco afectados se sentiram (num comício durante a campanha presidencial de 1984, Reagan chegou a mencionar Springsteen como alguém com uma mensagem similar à dele). We Take Care of our Own, constituindo um lamento sobre a situação actual dos Estados Unidos, arrisca-se a despoletar reacções similares. Na música, como na política, como de resto em quase todos os campos nesta era de análises rápidas, o que parece é – e um hino patriótico tende a beneficiar o poder. Em 1984, Springsteen foi apanhado de surpresa pelas reacções a Born in the USA. Agora, não há razões para surpresas e a pergunta é inevitável: terá esquecido a lição ou terá decidido, noutro ano eleitoral, usá-la a favor de Obama, que apoia? Por outras palavras: Springsteen ainda é contrapoder?

 

Talvez a resposta esteja no resto do álbum. Seja qual for, ele continua a ser um músico do caraças.

Martina


escafandro,

 

Parceira de Tricky em vários álbuns (desde logo, no fundamental Maxinquaye, de 1995), Martina Topley-Bird lançou desde então três discos a solo, dois de originais (Quixotic, de 2003, e The Blue God, de 2008) e um, na sequência de uma sugestão de Damon Albarn, com quatro originais e versões menos electrónicas, mais «despidas», de temas incluídos nos anteriores (Some Place Simple, de 2010). Há perto de três anos foi dela o primeiro vídeo que coloquei no meu blogue pessoal. Perguntava então quando é que alguém a traria a um Clubbing da Casa da Música. Não é na Casa da Música, nem sequer no Porto, mas é suficientemente perto: no cine-teatro de Estarreja, hoje à noite.

 

Adenda: E na MusicBox, em Lisboa, amanhã à noite.

Compreender a Alemanha e, já agora, que solução para a Grécia escolheriam?


escafandro,

No A Douta Ignorância, Priscila Rêgo elaborou um conjunto de posts a que chamou Compreender a Alemanha. Vale a pena lê-los. E também vale a pena fazer o teste So, what would your plan for Greece be?, a que cheguei através de outro post da Priscila. Na primeira tentativa, eu, que no fundo sou um pessimista (não acredito que a Grécia possa ficar no euro) cheio de boa vontade (escolhi mantê-la no euro), acabei no ponto 19. Ou seja, sensivelmente na via em que nos encontramos. Por um lado (e quem leu os meus posts ao longo dos últimos meses percebê-lo-á), tem lógica. Por outro, rai’s partam. Só que as tentativas seguintes não deram resultados muito melhores. Experimentem vocês. Mas procurem não irritar Maynard.

«She had a role to play»


escafandro,

A imagem de Meryl Streep com a cara pintada de branco foi realizada durante uma sessão que não começou bem. Apenas recentemente Meryl se tornara uma estrela de cinema. Eu já tinha feito um trabalho com ela para a Vogue e, meses antes, a Life usara um retrato dessa sessão na capa. Francesco Scavullo acabara de a fotografar para a capa da Time. Esta ronda de publicidade devia-se à estreia de A Amante do Tenente Francês. Meryl sentia-se desconfortável com toda a atenção de que era alvo e cancelou a primeira marcação mas acabou por ser convencida a vir uma manhã ao meu estúdio, durante duas horas e meia. Entrou e explicou que não desejava ser alguém; não era importante, apenas uma actriz. Havia uma data de livros de palhaços espalhados pelo estúdio e maquilhagem branca que restara de uma ideia que eu tivera para uma sessão com James Taylor ou Jim Belushi. Eu disse a Meryl que ela não precisava de ser alguém em particular, e sugeri que talvez gostasse de pintar a cara de branco. Ser um mimo. Isso deixou-a à vontade. Tinha um papel a desempenhar. Foi dela a ideia de puxar a cara.

Annie Leibovitz, Annie Leibovitz At Work.

Edição Jonathan Cape, 2008. Tradução minha.

 

Post dedicado à Teresa, à Ana, à Leonor, à Blondewithaphd, a cr e a todas as restantes pessoas que Meryl Streep deixa estupefactas com a sua capacidade para assumir diferentes identidades (ou seja, a mim também).

 

(Foto de Annie Leibovitz, evidentemente, recolhida aqui.)

Das empresas públicas de transportes e respectivas greves (e juro que não usei o termo «casta»)


escafandro,

O post da Teresa Ribeiro sobre a greve dos trabalhadores das empresas públicas de transportes (em que ela realçava a situação de comparativo desafogo de que eles gozam) suscitou uma catadupa de comentários. Permitam-me algumas observações sobre quatro pontos recorrentes (houve outros, mas estavam mais relacionados com saber se a Teresa usa os transportes públicos ou é uma privilegiada que apenas se desloca de limusina, com motorista fardado, uma garrafa de Dom Pérignon no mini-bar e uma caixa de Ferrero Rocher no apoio de braços).

 

1. Em comparação com os trabalhadores do mesmo sector de outros países europeus, os trabalhadores das empresas públicas de transportes portuguesas não ganham assim tanto. Houve mesmo quem indicasse este link para demonstrar que os trabalhadores das empresas portuguesas de transportes ganham ligeiramente menos do que os seus congéneres franceses, cerca de três quartos do que auferem os espanhóis e sessenta por cento do que recebem os finlandeses. Ora obrigadinho pela informação. Mesmo planando sobre o facto de quase certamente a média estar afectada pelos rendimentos dos trabalhadores das empresas privadas e não incluir benesses complementares ao salário (viagens de borla, por exemplo), seria mesmo lógico que, num país onde os mecânicos de automóvel ganham um quarto do que ganham os mecânicos de automóvel franceses e os padeiros ganham menos de um quarto do que ganham os padeiros finlandeses, o salário dos trabalhadores do sector dos transportes se encontrasse ao nível do dos trabalhadores desses países. No fundo, é como estranhar que os trabalhadores dos transportes públicos do Burundi ganhem menos do que os seus congéneres em Portugal. E, convenhamos, ganhar quase o mesmo que em França não será façanha ao alcance de muito sectores por cá (também é interessante que os espanhóis ganhem ao nível dos austríacos mas vamos deixar isso para segundas núpcias ou alguém ainda poderá pensar que, nos países do Sul da Europa, os sindicatos são especialmente poderosos neste tipo de empresas – e o poder político muito fraco).

 

2. Não se deve atacar quem ganha razoavelmente mas procurar que todos o consigam. Bonito, sim senhor. E verdade. Mas é pena que ninguém no sector dos transportes tenha pensado nisso enquanto usou o poder que detinha para desviar recursos do resto da economia (dos padeiros e dos mecânicos de automóvel) para os seus próprios salários e benefícios. É que, de forma sustentável, não se consegue aumentar o nível de vida por decreto (se conseguisse, Portugal seria o país mais rico do Universo e arredores) nem fazendo crescer os gastos sem garantir que a economia gera receitas suficientes para os cobrir. Vamos supor que alguém nos emprestava cem mil milhões de euros a juro zero (sim: zero, nada, nothing, rien, nichts, niente, Τίποτα δεν, nicles) e que os distribuíamos equitativamente pelos portugueses. Se não me enganei nos zeros, dá dez mil a cada um, contando com os bebés (e gostaria de salientar que estou a prescindir da comissão pela autoria da ideia). Seguia-se uma festa, a reposição da tolerância de ponto no Carnaval e, mais importante, um aumento no consumo. O qual faria com que parte desse dinheiro voltasse imediatamente a sair do país, uma vez que importamos a maioria dos bens que consumimos. O que por sua vez não seria grave se a economia portuguesa tivesse capacidade para compensar essas saídas com exportações. Infelizmente, não tem. Estamos todos a ver o problema ou preciso de fazer um gráfico de barras? Apostar no crescimento através do consumo interno foi exactamente o que andámos a fazer. Devia ser classificado como sinónimo de «apostar no endividamento». É chato para as boas intenções mas olhem – culpem a matemática. E façam pressão para que o governo aposte naquilo que pode efectivamente melhorar a competitividade do país (fiscalidade estável, menos burocracia, justiça mais célere, etc., etc. – vocês sabem).

  

3. A culpa da situação nas empresas públicas de transportes é da má gestão. Mesmo descontando o factor «sacudir água do capote», não me custa a acreditar que, em grandíssima medida, seja. Os gestores têm culpas por não terem definido estratégias claras, por terem desperdiçado dinheiro em projectos idiotas, por terem andado a fazer favores aos governos, por terem oferecido balúrdios a empresas de consultoria «amigas», por se terem abotoado com regalias escandalosas para um país com o nível de rendimentos (e respectiva distribuição) de Portugal – e por terem aceitado conceder os aumentos salariais que aceitaram conceder.

 

4. Ah, e a RTP e o BPN e as Empresas Municipais e o Instituto Disto e Daquilo? Certíssimo: erros atrás de erros que também é preciso corrigir. Mas pelo menos o pessoal de lá não anda em greves sucessivas. De qualquer modo, não sei se estão familiarizados com um ditado popular que inclui uma referência a telhados de vidro… 

 

Por último, sinto que devo ressalvar que nada do que ficou atrás pretende mostrar verdadeiro desagrado com as greves frequentes dos trabalhadores das empresas públicas de transportes. Pelo contrário: estando o cidadão comum, por força da necessidade, cada vez mais habituado a desenrascar-se sem transportes públicos, qualquer dia de greve representa hoje uma poupança para os contribuintes. Assim sendo, continuem e bem hajam.

Despojos dos Óscares


escafandro,

A cerimónia de entrega dos Óscares de 2012 é esta noite. Ainda não vi qualquer dos nomeados para melhor filme. No ano passado, o Óscar foi para O Discurso do Rei – um filme simpático, que podia perfeitamente ser uma mini-série da BBC (só em parte isto pretende ser um insulto). Entre os grandes derrotados estiveram A Origem, um bom filme (ou não tivesse sido realizado por Christopher Nolan), com todos os efeitos especiais necessários para maravilhar o público actual de cinema, A Rede Social, outro bom filme (ou não tivesse sido realizado por David Fincher – mas porquê refazer a trilogia Millennium, David?), sobre a ânsia, tão intensa nos dias que correm, de constituir o centro das atenções sem o esforço de produzir algo que o justifique, e Indomável, mais um bom filme (ou não tivesse sido realizado pelos manos Coen), sobre uma rapariga em busca de justiça num mundo violento – e masculino. Na minha opinião, qualquer dos três era mais merecedor do Óscar do que O Discurso do Rei – mas talvez não tanto como o nomeado que vi apenas ontem, em DVD.

 

Despojos de Inverno tem um ponto de contacto com Indomável: é acerca da luta de uma rapariga num mundo violento. Porém, em comparação com o filme dos Coen ou qualquer dos outros mencionados acima, é um filme simples, realizado com pouco dinheiro, sem efeitos especiais ou recurso a grandes estrelas – mas com imenso cinema. A história é simples: nas montanhas Ozark (centro do Estados Unidos), nuns USA muito longe do glamour e da riqueza que esta noite veremos na televisão, Ree Dolly (fabulosa Jennifer Lawrence, a seguir com atenção), uma rapariga de dezassete anos, toma conta do irmão e da irmã, ambos mais novos, e da mãe, mentalmente ausente. O dinheiro escasseia e muitas vezes a família depende da ajuda dos vizinhos mais próximos. O pai de Ree dedicava-se ao fabrico de metanfetaminas antes de ser preso, solto sob fiança e desaparecer em parte incerta. Ree é informada de que a propriedade da família foi dada como garantia da fiança e que, se o pai não aparecer no tribunal dentro de dez dias, ela, os irmãos e a mãe serão despejados. Ree decide tentar encontrar o pai e fazê-lo apresentar-se perante o tribunal. Mas – e sabe-o à partida – vai enfrentar muitas desconfianças, muitas resistências, muita gente que pode ter motivos tão ou mais fortes para manter o pai de Ree desaparecido como ela tem para o fazer aparecer.

 

A estrutura do filme dificilmente podia ser mais perfeita. Começa por mostrar-nos o ambiente em que Ree se insere, apresenta-nos o problema, faz-nos acompanhar Ree nos contactos com pessoas que parecem todas estranhamente hostis (até as que se presumiria estarem do lado dela, como os familiares mais próximos, parecem opor-se-lhe) e, lentamente, vai-nos deixando perceber o que realmente se passa, as razões para tanta hostilidade e por que se encontra afinal a tarefa de Ree praticamente votada ao fracasso. De um modo ou de outro, quase todas os personagens em Despojos de Inverno são violentas (os irmãos e a mãe de Ree constituem as excepções mais óbvias, eles por ainda não entenderem o que se passa – são as únicas personagens capazes de brincar –, ela por ter desistido de entender) mas a violência parece manifestar-se de modo diferente nos homens e nas mulheres. Eles são duros, agressivos, inacessíveis, preocupados com não mostrar fragilidades. Elas são tão ou mais duras mas a sua dureza – e violência – é uma espécie de resistência, de subjugação raivosa aos desígnios masculinos, nascida da necessidade de terem sido forçadas a adaptar-se ao mundo em que estão inseridas: à maneira de ser dos homens e aos seus problemas frequentes com a lei, aos casamentos precoces e aos filhos que deles resultam, à falta de dinheiro e de perspectivas. Se a sombra dos homens e da sua inflexibilidade é permanente ao longo do filme, são as mulheres quem mais tempo passa no ecrã e quem – desconfia o espectador – acaba por ter mais influência no modo como tudo acaba. Despojos de Inverno é um filme com uma fortíssima componente feminina e não será coincidência ter sido realizado por uma mulher, Debra Granik.

 

Gostaria de realçar dois últimos pontos, provavelmente também relacionados com esse eventual carácter feminino. O primeiro é que, tratando-se de um filme violento (muito violento), quase não mostra violência física. Antecipa-a, mostra-lhe os efeitos – mas não se detém sobre ela. Num tempo em que os filmes fazem questão de mostrar muito mais do que sugerir, é sempre agradável constatar como a sugestão consegue ser eficaz. Finalmente, encontrando-nos submersos por filmes em que os heróis se riem do perigo e avançam com uma frase cáustica para as mais inverosímeis lutas, é também bom relembrar que são afinal os heróis relutantes, os heróis que fazem o que tem de ser feito porque não há mais ninguém para o fazer, quem mais empatia consegue gerar num ecrã de cinema. Esta constitui, aliás, uma diferença importante entre Indomável e Despojos de Inverno: Mattie Ross é uma rapariga voluntariosa em busca de uma vingança de que pode prescindir, Ree Dolly uma rapariga encurralada que só pode escolher entre dois males – enfrentar quem nunca poderá vencer ou perder casa e família. O verdadeiro heroísmo é não desistir.

 

Quanto aos Óscares, who cares?

 

Gafe


escafandro,

Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe.

Clarisse Lispector, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres. Disponível em edição Relógio d’Água.

The plain truth


escafandro,

The plain truth is this:

• Greece cannot pay its current debts back. Ever.

• More money is NOT the answer.

• Greece cannot even begin to recover while still chained to the Euro and unable to devalue.

• Greek citizens will NOT suddenly decide to pay their taxes.

• Greece’s exit from the EU will be incredibly painful and the country will likely go into a depression.

But:

• Greece is NOT the first country to default (just the first in the EU)

• Greece WILL be able to get back on its feet eventually through devaluation

• The sooner this process starts, the sooner it finishes – look at Iceland.

(…)

The bailing out of Greece cannot go on forever.

It will stop.

 

Aqui (é uma leitura interessante):

http://www.financialsense.com/sites/default/files/Hmmm%20Feb%2019%202012.pdf

 

Não é o paizinho Krugman do Rui Rocha (salvo seja) mas descreve o que se torna cada vez mais óbvio. Já o era há uns tempos, aliás. Apenas transferência massiva de fundos (não é bem o mesmo que empréstimos, sejam estes a juros «normais» ou a juros relativamente usurários) permitiria manter a Grécia na moeda única. Ou seja, apenas uma união política efectiva, que nunca seria aceite pelos cidadãos dos países chamados a pagar a conta. E talvez seja conveniente realçar que, em Portugal, por muito desconforto que maquinistas da CP, oficiais do exército, juízes, professores ou enfermeiros possam exprimir, se o plano de resgate não for bem implementado (o que significa cortes a sério na despesa pública mas reforma de sectores ineficientes e capacidade para manter em funcionamento a parte da economia que faz entrar dinheiro no país), depressa estaremos na mesma situação (assumindo que um eventual efeito de contágio não torna qualquer esforço irrelevante). E nessa altura de nada servirá lamentar as oportunidades perdidas. Como, por exemplo, não termos reduzido a taxa social única. Se/quando chegarmos ao ponto em que a Grécia se encontra, os custos de tal medida, tão assustadores ainda há poucos meses, parecerão insignificantes. Ora leiam:

From the Argentine experience we know where the Greek government will look for the cash that it needs to pay its bills if it’s cut off from the financial markets. Argentina raided the retirement accounts—the country’s equivalent of 401(k) plans–and central bank reserves. Greek citizens can expect the same—which is why so many are desperate to move their money out of Greece.

Ver-se-á então onde ficam os «direitos adquiridos».

De olhos fechados


escafandro,

Sobe a rua Júlio Dinis meia dúzia de metros à minha frente. Terá dezasseis ou dezassete anos e caminha em ritmo rápido, a ponta da bengala tacteando o pavimento apenas muito de vez em quando. Os adultos que descem fazem curvas para o evitar, quatro miúdos na conversa deixam-se ficar, obrigando-o a parar. Só então abrem alas e ele recomeça a caminhar.

 

Fecho os olhos.  A sensação de pânico é imediata. Os sons chegam-me em bloco. Não consigo distinguir ruídos individuais a que atribuir direcções e distâncias. O medo de esbarrar em alguém, numa das árvores que saem dos minúsculos canteiros ou numa paragem de autocarro força-me a abri-los novamente. Por um brevíssimo instante, o mundo é demasiado luminoso. Depois apenas luminoso. Aguentei três ou quatro segundos. Uma dezena de metros, se tanto. Fico a observá-lo enquanto, já perto da Praça de Itália, com um à-vontade impressionante, atravessa a rua na passadeira e desaparece do outro lado. Sinto admiração e, por muito ilógico que seja, culpa.