O menu da Última Ceia


escafandro,

Foi o habitual em qualquer jantar de grupo: havia, à escolha, arroz de pato e bacalhau com natas. Jesus optou pelo bacalhau, Pedro, que ficara farto de peixe durante os anos em que fora pescador, pelo pato. Tomé resmungou que só vendo acreditaria que o bacalhau incluía mesmo bacalhau e o arroz de pato incluída mesmo pato e acabou, com um encolher de ombros, por decidir-se pelo arroz de pato. Alguns apóstolos estranharam que Judas não protestasse pelo facto de nas opções não estar lombo de porco assado, uma vez que, indiferente às tradições judaicas, era o que comia quase sempre naqueles jantares mas hoje sabemos que nessa noite ele tinha outras preocupações.

Big bang


escafandro,

Se o título desta notícia do Público é fantástico (Os EUA estão a recuperar o papel de motor da economia mundial), o subtítulo é deslumbrante: Com a Europa a cair em recessão e a China a abrandar, o mundo volta a olhar para o consumidor norte-americano como estímulo para uma recuperação. Mas a Fed tem de continuar a ajudar. Adoro a ideia do consumidor como salvador do mundo e o singelo apelo à Fed para que continue a ajudar. Eu sei que estamos em ano de eleições e é preciso reeleger Obama (for the record, também não sou grande fã dos republicanos). Ainda assim, acho extraordinário continuar a defender-se (e num artigo normal de jornal, não é sequer uma coluna de opinião) que o «crescimento» seja obtido através do consumo, da emissão de moeda, do défice. Por outras palavras: aumentando a massa crítica. Quando a explosão ocorrer, ninguém estará suficientemente longe.

Achincalhamento


escafandro,

Na discussão aqui em baixo acerca do Acordo Ortográfico, José Navarro de Andrade classificou o assunto como “de somenos” quando comparado com “a indiferente sonolência perante o achincalhamento diário da gramática”. Se o assunto é ou não de somenos, cada qual decidirá. Mas há um ponto que me parece óbvio: o Acordo ajudará a aprofundar o achincalhamento. Porquê? Simples. De forma geral, concorde-se ou não com as suas ideias e prioridades, os opositores ao Acordo preocupam-se com a língua portuguesa. Obrigá-los a usá-la numa forma que os agride é convidá-los a desinteressarem-se de tudo o resto.

A vida real é tão melhor do que isso


escafandro,

 

Como artista performativa que, para além de escritora, actriz e realizadora, também é, Miranda July (usem o link, vá) nem sempre consegue evitar a construção de situações ligeiramente obscuras e/ou artificiais. Mas torna-se fácil perdoá-la porque, ao contrário do que sucede com outros artistas contemporâneos, em July a encenação tende a ser benigna – parece que acontece sem ela querer, por excesso de entusiasmo e não de presunção. No seu melhor, July constrói personagens e situações realmente estranhas e, todavia, estranhamente realistas (eu sei, eu sei, estes jogos de palavras são infantis e cansativos mas também eu não consigo evitar dedicar-me a diminutas, deliberadas e dispensáveis demonstrações de virtuosismo dúbio e deslocado). Há outros especialistas nesta área, como os realizadores Wes Anderson e Noah Baumbach, mas quase todos têm o enorme defeito de serem menos atraentes do que July. Quando se vê a longa-metragem Me and You and Everyone We Know, que ela escreveu e realizou, ou os vários filmes breves que foi escrevendo, ou quando se lêem os contos do seu livro No One Belongs Here More Than You (não deixem de usar também este link, que ainda é melhor que o anterior), encontramos personagens estranhas que nos dizem algo porque sabemos ou desconfiamos ou tememos ser, sob a capa que apresentamos ao mundo, exactamente assim: frágeis, inseguros, incoerentes, dados a pensamentos e actos cuja lógica nos escapa no exacto instante em que os pensamos ou executamos e que nos fazem cair na mais desamparada vergonha. A melhor literatura, como o melhor cinema, mostra-nos o que somos por baixo do que julgamos ser – é por isso que tanta gente evita cuidadosamente uma e outro mas também é por isso que conseguimos extrair dos bons livros e dos bons filmes o conforto, quiçá ligeiramente depressivo, de saber que, afinal, não estamos sós, que toda a gente é assim, reconheça-o ou não. Veja-se como, no filme Are You the Favorite Person of Anybody, aqui em cima, as respostas das três pessoas, aparentemente tão diferentes, são variações sobre a mesma insegurança: a rapariga (papel desempenhado pela própria July) quer ser optimista (começa por achar que sim, que é – tem de ser – a pessoa favorita de alguém) mas depois vai ficando com dúvidas (é a reacção mais ingénua mas também a mais honesta); o rapaz exorciza a possibilidade de não ser a pessoa favorita de alguém declarando-o logo à partida; o último homem foge, preferindo nem pensar na questão. As personagens criadas por July (muitas mulheres, alguns homens) parecem pessoas esquisitas porque não conseguem fingir ou fingem de um modo tão desamparado que o fingimento se torna óbvio. Como se estivessem sempre dentro de um elevador ao lado de um estranho. O par do filme Me And You And Everyone We Know (é possível fingir mais e simultaneamente menos do que na caminhada em direcção a Tyrone Street que ocupa a primeira metade do vídeo colocado após este texto ou mesmo na sequência dentro do carro que se lhe segue?) e as personagens dos contos de No One Belongs Here More Than You (a rapariga que ensina três octogenários a nadar na sala de estar da sua pequena casa dos subúrbios, colocando bacias com água salgada por baixo das caras deles; aquela outra que sonha apanhar o príncipe William num pub e conquistá-lo fazendo tocar na jukebox All I Need is a Miracle, dos Mike & The Mechanics; a que se apaixona por um vizinho epiléptico e aproveita o momento em que ele sofre um ataque no pátio do prédio onde ambos vivem para se deitar junto dele como se fosse sua companheira; uma quarta que retira um sinal de nascença da cara e descobre que a felicidade não passava afinal por aí) são todas variantes de alguém tentando atabalhoadamente encontrar o seu lugar no mundo. E falhando, claro. Mas falhando de um modo bonito, ingénuo, que exclui a hipocrisia e o compromisso. Um modo que habitualmente preferimos recusar. Veja-se This Person, um dos melhores contos do livro: alguém (this person) encontra reunida num pátio toda a gente que alguma vez conheceu, incluindo os professores que menos apreciou, o médico responsável pela cegueira temporária que sofreu, o homem que lhe pagou dois mil dólares em troca de sexo quando estava sem dinheiro; vêm dar-lhe um abraço e dizer-lhe que it was all just a test, we were only kidding, real life is so much better than that. This person foge e vai ver se tem correio.

 

 

Nota 1: Me and You and Everyone We Know está disponível por cá (e lamento mas este link não tem grande piada: é apenas para o site da Fnac).

 

Nota 2: Ainda não vi The Future, o último filme dela, mas Roger Ebert gostou.

 

Nota 3: Como ando preguiçoso (ou desmotivado; depende de quem pergunta), este texto é repescado.

Blogue da semana


escafandro,

Palavras, palavras e mais palavras. Letras pretas em fundo branco. Ficção, com tudo o que ela tem de verdadeiro e (para disfarçar) de falso. Nada mais simples, nada mais complicado. O blogue da semana chama-se garfiar. E tem por lá um texto que devia colocar as autoridades de sobreaviso e preocupar o Ministro Miguel Relvas.

O Sr. Marques no Centro Comercial


escafandro,

O Sr. Marques aprecia centros comerciais. Raramente lá compra alguma coisa mas gosta de deambular pelos corredores e de sentar-se nas zonas de restauração, observando as pessoas. Na verdade, é mais as mulheres mas ele considera que está a observar «as pessoas». Às vezes pensa que o interior dos centros comerciais é o local onde melhor se analisa a vida moderna. Um local onde toda a gente se encontra no mesmo plano e pode cobiçar e tocar em milhares de coisas. A vida actual é feita de cobiça, pensa o Sr. Marques enquanto suspira perante a visão de uma mulher de traseiro empinado parada em frente à montra de uma sapataria, e os centros comerciais são o local onde ela pode ser expressa de forma mais subtil e democrática. São também um local onde exemplares díspares do ser humano podem ser vistos sem parecerem assim tão diferentes entre si. Hoje, por exemplo, o Sr. Marques ficou igualmente encantado ao ver uma quarentona de fato justo, saltos altos e colar de pérolas movendo-se em passo saracoteado e uma rapariga mal saída da adolescência com um vestido leve, umas botas pesadas e três piercings no nariz esparramada num dos sofás. Há ambientes em que tanto uma como outra pareceriam deslocadas. Num centro comercial, ambas se podem sentir à vontade.

O Sr. Marques encontra-se agora sentado na zona dos restaurantes, cansado de tanto raciocínio – mas não de observar as pessoas. Numa mesa próxima, uma pessoa do sexo feminino com cerca de vinte e cinco anos de idade troca mensagens no telemóvel. Veste uma blusa fina e decotada e um soutien que deve ser de um número abaixo do adequado porque lhe deixa um mamilo quase inteiramente à vista. O Sr. Marques olha e pondera se deve tentar não olhar. Procura também imaginar a reacção dela se, simpaticamente, a avisar do descuido. Está absorto a elaborar uma lista mental de prós e contras quando uma segunda mulher chega junto da primeira, se inclina para a beijar e, enquanto se senta, diz: «Tens a mama à mostra.» A outra encolhe os ombros. «Ora, sempre alegra a vida a alguns coitados.» Primeiro o Sr. Marques sente-se ofendido. Chega mesmo a pensar: «Cabra!» Mas depois percebe que a rapariga acaba de lhe dar autorização para continuar a olhar. E assim, já sem disfarces, o Sr. Marques deixa-se ficar entretido a olhar para o mamilo, que é largo e pouco saliente e está rodeado por uma auréola rosada e ligeiramente granulosa. A certa altura, o olhar dele cruza-se com o da rapariga e o Sr. Marques permite-se mesmo sorrir com descontracção. Só então ela parece incomodada. Empurra a mama para dentro do soutien, pega na mala com a mão que o telemóvel deixa livre e diz para a outra: «Olha, vamos mas é andando.» O Sr. Marques observa-lhe o movimento das ancas enquanto ela se afasta e depois fica lá, sorrindo de vez em quando ao relembrar o acontecimento.

 

(Também aqui. Este é o terceiro episódio das, hmmmm, «aventuras» do Sr. Marques. Os outros dois podem ser lidos aqui.)

Não sei, às vezes este blogue parece-me demasiado certinho…


escafandro,

 

Ainda assim, não me peçam para traduzir a letra. E talvez um enquadramento venha a propósito. The Good Ship Venus é uma drinking song com origens obscuras, gravada pela primeira vez nos anos cinquenta do século passado. Há cerca de trinta anos, os Sex Pistols criaram uma versão punk para o filme The Great Rock ‘n’ Roll Swindle com o título Friggin’ in the Riggin’. A que se apresenta aqui é 100% tradicional. Integra Rogue’s Gallery – Pirate Ballads, Sea Songs & Chanteys, uma colectânea de canções relacionadas com o mar e com a pirataria imaginada por Gore Verbinski e Johnny Depp enquanto trabalhavam no filme Piratas das Caraíbas 2 e lançada sensivelmente ao mesmo tempo que este. O intérprete é Loudon Wainwright III mas a colectânea inclui gente tão conhecida como Bono, Sting, Lou Reed e Nick Cave (cantando temas mais dignos, reconheça-se). Há também uma canção cujo vocalista é um misterioso Jack Shit, que se diz ser o próprio Depp. 

 

Ah, a partir dos 3’15” podem ir fazer outra coisa que nada mais acontece.

 

Ah nº2: comentários de pessoas ofendidas serão publicados mas farão com que eu solte gargalhadas estrondosas.

Exclusões


escafandro,
Muitas coisas me irritaram neste país ao longo dos anos. Muitas coisas me fizeram exasperar, me levaram a pensar que não me encaixava, que estava à parte, desenquadrado, afastado da aparente maioria. Questões políticas, culturais, sociais. Das mais importantes, como ter de suportar os efeitos de resultados eleitorais que sempre me parecera evidente irem conduzir o país à catástrofe financeira, às (aparentemente) mais comezinhas, como viver com a nossa tendência para criticar por trás e bajular pela frente ou com a incapacidade para cumprir horários. Mas em todos estes casos me foi – e é – possível racionalizar: perceber que houvera debate e o meu lado perdera, que ampliamos os defeitos dos que nos estão mais próximos e tendemos a construir uma imagem dourada de quem não contactamos diariamente, que o próprio sentimento de exclusão nasce com frequência de uma experiência particular e passageira, que todas as generalizações são abusivas.

 

Nenhuma situação, porém, me fez sentir tão excluído como o Acordo Ortográfico. De cada vez que, na televisão, vejo legendas usando aquilo a que agora chamam português, de cada vez que, numa livraria, pego num livro e o folheio em busca de palavras que me confirmem o que já é quase regra (após o que o pouso novamente e me afasto, cabisbaixo), de cada vez que, junto a um expositor de filmes e séries, verifico que – abrir a caixa de Pandora tem sempre consequências imprevistas – começam a surgir edições em que as legendas não apenas seguem a ortografia prevista no acordo mas estão cem por cento em brasileiro, com tudo o que isso significa a nível lexical e de construção frásica (entrem numa Fnac e leiam a indicação de legendas da edição em Blu-ray do Casablanca), de cada vez que qualquer destas coisas acontece eu sinto-me um estranho no meu próprio país; pior, um estranho na minha própria Língua.

 

Claro que este tipo de reacção – de lamento, se quiserem – será encarado com o desdém habitual nos defensores do acordo quando confrontados com «velhos do Restelo» como eu. Com o desdém dos que têm a força (nem sequer a lei) do seu lado e não sentem necessidade de justificações técnicas (estas ficam quase sempre para os opositores ao acordo e acabam ignoradas por um público que prefere os chavões da «evolução» e das «vantagens da mudança» a analisar os assuntos em profundidade). Mas a questão principal nem é saber se os opositores são velhos do Restelo ou os apoiantes gente que, na sua pequenez, gosta de sentir-se a moldar a História (sim, é isso que penso). A questão é que, antes, aqui ou em qualquer outro país de língua oficial portuguesa, independentemente das diversas ortografias, todos usavam o português e ninguém se sentia violentado. Pelo contrário: as diferenças – não só ortográficas mas também lexicais – eram parte integrante do prazer que se obtinha ao contactar com obras (e pessoas) de outras zonas geográficas. Certamente nenhum português se sentiu alguma vez excluído ao ler Rubem Fonseca ou Mia Couto como nenhum brasileiro ou moçambicano se terá sentido excluído ao abrir um livro de Saramago ou de Lobo Antunes. É a imposição de uma normalização artificial que incomoda. A tentativa de forçar a História por decreto (algo que, em tantos e tantos domínios, insistimos em fazer). A Língua é um bem comum, não pertence à meia dúzia de políticos e outros tantos académicos que, imbuídos das melhores intenções ou da mais míope presunção, decidiram avançar para esta reforma. E não existe sequer racionalização que se possa fazer: não houve consulta popular nem verdadeiro debate, não é algo inevitável nem geral nem passageiro. Repito: antes ninguém se sentia violentado. Agora é diferente. Eu, por exemplo, sinto-me violentado. E, mais do que em alguma ocasião no passado, sinto que não encaixo neste país.

Feist


escafandro,

 

Como qualquer bom artista, Leslie Feist respondeu ao sucesso com um desafio aos fãs: aceitarem algo diferente. Metals, o disco que lançou em 2011 (já antes mencionado no Delito) é mais denso, mais negro e mais intimista do que The Reminder, o seu grande sucesso de 2007. Apresenta-o hoje à noite no Coliseu de Lisboa, amanhã no do Porto. A abrir, o irlandês Fionn Regan.

 

 

Construções biomecânicas


escafandro,
Nota: Na sequência do post da Helena Sacadura Cabral sobre Candice Bergen e apesar do excesso de frases longas que contém, não resisto a recuperar este texto, publicado aqui há quase um ano. O Primeiro-Ministro nele mencionado ainda era o doce aspirante a filósofo que nos liderou durante seis anos. E desculpa lá, Helena.

 

Candice Bergen. Ou será Sandra Bullock?

 

Os galardões técnicos foram mais uma vez empurrados para a véspera e para a cave (“Congratulations, nerds!”, gritou suavemente James Franco, com timing perfeito). Uma excepção: o Óscar honorário para a arte da taxidermia, atribuído ao responsável pela complexa estrutura biomecânica situada entre o pescoço e o cabelo de Sandra Bullock.

 

As palavras acima, referentes à cerimónia de entrega dos Óscares deste ano (zzzzzzz), saíram no suplemento Ípsilon do jornal Público de 11 de Março e foram escritas por uma entidade fictícia que se auto-intitula «Rogério Casanova», a qual, para além de escrever sobre literatura e de ser fã do Sporting e de Thomas Pynchon (rumores não confirmados sugerem que, ao revelar capacidade para produzir enredos mais complexos e paranóicos, o Sporting terá ganho terreno a Pynchon nas últimas semanas), possui um conhecido blogue, facto que apenas poderia ser classificado como estranho se ainda existisse alguém neste país com mais de seis anos de idade e pelo menos um dedo nas mãos que não tivesse blogue e se, por seu turno, um blogue e o seu respectivo autor não fossem sempre, em grande medida, coisas fictícias. Adiante, de preferência em direcção a frases mais curtas. Pensei nestas palavras ao ver, no episódio do House da semana passada, um ser identificado no genérico como «Candice Bergen» e revelando, de facto, vagas semelhanças com a actriz do mesmo nome, fazendo de mãe da doutora Cuddy (em quem penso sempre, por motivos que não vêm ao caso, como «Cuddly») enquanto tentava parecer mais nova do que Lisa Edelstein, a actriz que desempenha o papel de Cuddly (perdão: Cuddy). Apesar dos louváveis esforços da criatura, perceptíveis no modo como arregalava os olhos e no subtil trejeito que de longe a longe lhe surgia na face tão lisa e brilhante que era como se tivesse acabado de aplicar uma camada de película aderente sobre uma generosa demão de verniz tapa-poros, o apenas ligeiramente humano aspecto da cabeça dela acabou por impedir a minha concentração, estraçalhando assim a sublime suspensão da descrença que esta série onde um médico coxo, cínico e mal educado é considerado genial apesar de acertar no diagnóstico apenas à décima oitava tentativa, depois de nas primeiras dezassete fazer o doente passar pelas mais excruciantes sensações de dor e humilhação, consegue gerar no espectador. Cheguei ao final do episódio desejando a morte da cabeça de Bergen (aceitemos que era mesmo ela) e cada vez mais preocupado tanto com os inevitáveis problemas de contaminação que os terrenos dos cemitérios apresentarão num futuro não muito distante como com a possibilidade de os vermes necrófagos que habitam tais terrenos sofrerem mutações que os tornem, digamos, gigantes. Infelizmente, o House, que deseja continuar a fazer festinhas à Cuddly – e não sou eu quem o vai criticar por isso –, acabou por salvá-la.

 

Está longe de ser caso único, evidentemente. Como o famoso morto-vivo sintético nacional, Lili Caneças, Bergen até pode apresentar em sua defesa o facto de preferir não aparentar os cento e catorze anos que tem. Mas e Sandra Bullock? Por que diabo faz questão de parecer Candice Bergen tentando parecer Sandra Bullock? E Nicole Kidman? Meg Ryan? Manuela Moura Guedes? E nem vale a pena falarmos de Cher, que terá ultrapassado há pelo menos vinte e duas cirurgias a linha que delimita o conceito biológico de «humano». Ou falemos só um bocadinho, porque é mais saudável exteriorizar os sentimentos: actualmente a Cher parece o resultado de uma experiência genética cinematográfica em que um cientista desvairado misturou material genético da rainha-mãe do Aliens, do monstro de Frankenstein, do Sméagol d’O Senhor dos Anéis e do Vale e Azevedo. É isso que ela parece. Quando sorri, estou sempre à espera de lhe ver sair disparada de entre os dentes uma segunda boca. Enfim, adiante outra vez e continuemos a lutar com as frases compridas. Se as actrizes e actores de Hollywood prosseguirem nesta via, não percebo porque não os substituem por conjuntos de polígonos desenvolvidos em computador como, de resto, eles temiam há uns anos. E já não se tratará de uma questão de cachet mas, pura e simplesmente, de realismo.

 

Estou a exagerar, resmungam vocês, conscientes das pequenas rugas que vos começam a surgir junto aos olhos e hesitantes sobre a melhor forma de combater a situação. Deixem-me explicar uma coisa – e acreditem que estou a ser infinitamente mais sincero do que o Primeiro-Ministro em qualquer das suas declarações públicas dos últimos anos: prefiro mulheres com rugas, assim estilo Maria Filomena Mónica ou Simone de Oliveira, à Candice Bergen actual. Ou – e dói-me tanto teclar isto – à Meg Ryan actual.

 

Mas por que se sujeitam as pessoas a tormentos destes? Poderão estar mesmo convencidas de que ficam mais atraentes? A resposta é, inevitavelmente, sim. E não. Ou não e depois sim. Peer pressure. As cirurgias de uns geram uma catadupa de mentiras (quem é que se atreve a dizer na cara – ou melhor, na coisa-que-antes-era-a-cara – da Sandra Bullock que ela está mais feia?) e acabam por forçar as cirurgias de outros. E depois tentam todos convencer-se de que estão realmente mais bonitos. E, sendo «estrelas», põem gente influenciável pelo mundo fora (conhecida pelo termo técnico de «papalvos») a pensar que assim é que se está bem.

 

Claro que a cirurgia plástica é apenas parte da questão. Em jornais, revistas e obscuros programas televisivos começa a sugerir-se a possibilidade de estarmos em crise mas ninguém se aperceberá de tal circunstância avaliando o número que por aí vai de «centros» de fitness e de depilação e de massagem e de tratamento de nails e de ioga e de meditação e de tudo o que possa convencer umas quantas pessoas a largar umas quantas dezenas ou centenas ou até milhares de euros em troca da promessa de uma aparência de eterna juventude. Já para não falar do negócio dos cremes. Existirá hoje alguma mulher com mais de, digamos, trinta e cinco anos que não esfregue no corpo meia dúzia de unguentos distintos, escorregadios e com odor quase sempre enjoativo, todas as manhãs antes de sair para trabalhar e todas as noites antes de ir para a cama? Com efeitos que ainda nem sequer começámos a contabilizar, ao nível da frequência e duração do acto sexual, do prazer dele extraído e, pior, da reprodução da espécie: claro que a natalidade vem a dimunuir – estavam à espera que aumentasse? É que é preciso ser-se um gajo com uma perversão especial para gostar de beijar ou lamber um corpo besuntado com creme hidratante, por muitas garantias que o fabricante dê de que ele acalma e revitaliza todos os tipos de pele.

 

Mas enquanto se trata de levantar pesos, arrancar pêlos, untar o corpo como se fosse um empadão prestes a ir ao forno e pintar estrelinhas azuis nas unhas não é grave. Agora a deriva para o sintético preocupa-me. Aparentemente, o objectivo das mulheres (e de muitos homens, eu sei, mas que os outros homens fiquem feios não me suscita mais do que um sorrisinho de satisfação) é parecerem-se cada vez mais com aquelas bonecas insufláveis que homens solitários e sem capacidade de tacto ou de olfacto (digo eu, que aquilo deve cheirar a borracha, não?) encomendam pela internet (enviada em pacote discreto) e depois usam para descarregar, er, anseios e frustrações. Eu acho isto estranho mas talvez estranho seja eu. Lembro-me de há muitos anos, influenciado pela exposição continuada a filmes e livros de ficção científica, recear o aparecimento de autómatos fisicamente idênticos ao ser humano porque, como parecia regra, acabariam por se revoltar e trucidar-nos a todos. Hoje, considerando a evolução da aparência feminina, em particular nas faixas etárias em que vou entrando cada vez mais contrariado, espero o seu rápido desenvolvimento. Antes um robot à la Blade Runner, com a aparência da Daryl Hannah e capaz de exprimir emoção, do que uma Daryl Hannah com aspecto de robot. Até porque, pensando bem no assunto, morrer asfixiado pelas pernas de uma replicant como ela parece-me uma perspectiva mais agradável do que bater a bota por reacção alérgica à conjugação de botox e aloe vera.

 

Sintéticas, cada uma à sua maneira.

 

Adenda: Às vezes – um homem nunca perde totalmente a criança que nostalgicamente foi nem o adolescente que embaraçosamente teve de ser – imagino-me a dizer isto à Sandra Bullock ou à Meg Ryan. Imagino-as ficando muito irritadas por trás da cara rígida e, movendo os lábios como um peixe fora de água, respondendo: «Você também não tem assim tão bom aspecto!» (Em inglês, claro.) A réplica sair-me-ia pronta: «Mas é mais natural que as saladas que você come, mais ecológico que o Prius que você conduz e não me custou um cêntimo.»

 

(Foto da Candice Bergen roubada aqui. As outras foram pescadas algures no Bing.)