Nenhuma situação, porém, me fez sentir tão excluído como o Acordo Ortográfico. De cada vez que, na televisão, vejo legendas usando aquilo a que agora chamam português, de cada vez que, numa livraria, pego num livro e o folheio em busca de palavras que me confirmem o que já é quase regra (após o que o pouso novamente e me afasto, cabisbaixo), de cada vez que, junto a um expositor de filmes e séries, verifico que – abrir a caixa de Pandora tem sempre consequências imprevistas – começam a surgir edições em que as legendas não apenas seguem a ortografia prevista no acordo mas estão cem por cento em brasileiro, com tudo o que isso significa a nível lexical e de construção frásica (entrem numa Fnac e leiam a indicação de legendas da edição em Blu-ray do Casablanca), de cada vez que qualquer destas coisas acontece eu sinto-me um estranho no meu próprio país; pior, um estranho na minha própria Língua.
Claro que este tipo de reacção – de lamento, se quiserem – será encarado com o desdém habitual nos defensores do acordo quando confrontados com «velhos do Restelo» como eu. Com o desdém dos que têm a força (nem sequer a lei) do seu lado e não sentem necessidade de justificações técnicas (estas ficam quase sempre para os opositores ao acordo e acabam ignoradas por um público que prefere os chavões da «evolução» e das «vantagens da mudança» a analisar os assuntos em profundidade). Mas a questão principal nem é saber se os opositores são velhos do Restelo ou os apoiantes gente que, na sua pequenez, gosta de sentir-se a moldar a História (sim, é isso que penso). A questão é que, antes, aqui ou em qualquer outro país de língua oficial portuguesa, independentemente das diversas ortografias, todos usavam o português e ninguém se sentia violentado. Pelo contrário: as diferenças – não só ortográficas mas também lexicais – eram parte integrante do prazer que se obtinha ao contactar com obras (e pessoas) de outras zonas geográficas. Certamente nenhum português se sentiu alguma vez excluído ao ler Rubem Fonseca ou Mia Couto como nenhum brasileiro ou moçambicano se terá sentido excluído ao abrir um livro de Saramago ou de Lobo Antunes. É a imposição de uma normalização artificial que incomoda. A tentativa de forçar a História por decreto (algo que, em tantos e tantos domínios, insistimos em fazer). A Língua é um bem comum, não pertence à meia dúzia de políticos e outros tantos académicos que, imbuídos das melhores intenções ou da mais míope presunção, decidiram avançar para esta reforma. E não existe sequer racionalização que se possa fazer: não houve consulta popular nem verdadeiro debate, não é algo inevitável nem geral nem passageiro. Repito: antes ninguém se sentia violentado. Agora é diferente. Eu, por exemplo, sinto-me violentado. E, mais do que em alguma ocasião no passado, sinto que não encaixo neste país.

É a imposição de uma normalização artificial que incomoda.
Já há normalizações artificiais da ortografia do português desde, pelo menos, 1911.
O jaa habituou-se a escrever de acordo com uma normalização artificial que tinha sido imposta e que lhe foi ensinada na escola. Agora apenas se está a alterar a normalização artificial. Mas ela já existia antes.
Eu devo ser mais velho do que o jaa, porque já assisti à alteração da normalização artificial imposta em 1973. Na altura também não concordei com ela, mas agora já me habituei.
É tudo uma questão de hábito, jaa. Quanto a normalizações artificiais impostas, elas existem desde há longo tempo – e têm que existir no presente mundo moderno.
Já há normalizações artificiais da ortografia do português desde, pelo menos, 1911.
A minha resposta está no texto, logo na frase a seguir à que cita: A tentativa de forçar a História por decreto (algo que, em tantos e tantos domínios, insistimos em fazer). Não é de agora, esta nossa tendência. Achamos que melhoramos por decreto. Continuamos atrasados.
Mas jaa, com ou sem decreto, há sempre uma imposição. A imposição pode ser feita de formas mais subtis, mas existe sempre.
Ou você pensa que na escola primária cada professor poderia ensinar a sua turma a escrever de acordo com as regras que lhe desse na real gana?
Ou você pensa que num tribunal cada juiz poderia redigir a sua sentença de acordo com a ortografia que tivesse inventado?
Eu, jaa, regularmente redijo textos para serem publicados em inglês (aliás, já escrevi um livro nessa língua). Pensa que redigi de acordo com a escrita que inventei? Pensa que a editora (inglesa) não me impôs uma ortografia, e não verificou tudo o que eu tinha escrito para ver se eu me tinha submetido a essa ortografia? Nada disso! Todos os textos que eu publico (em inglês) são invriavelmente submetidos a uma revisão, na qual se verifica se a ortografia é a correta. Ou julga que isto é a casa da Joana???
Não vejo por que motivos é que o decreto o incomoda. Um decreto da Assembleia da República é a forma mais democrática de aprovar uma reforma. Como é que preferiria que fosse? Por uma norma da Academia de Letras? Por um romance do Vasco Graça Moura? Por um editorial do Expresso? Qualquer dessas formas de impôr uma reforma ortográfica seria bem menos democrática, bem menos influenciável pela população, e bem menos transparente, do que um decreto da Assembleia da República.
Todas as reformas ortográficas, em todos os países do mundo, são impostas através de decretos. As exceções que conheço (na língua inglesa) nem por isso deixam de, da mesma forma, ter ortografias oficiais perfeitamente e completamente estandardizadas.
Isto é a casa da Joana. A casa em que a Joana decide o que bem entende, o impõe segundo a lógica que bem lhe apetece, sem respeitar opiniões alheias e tendências históricas. Uma Joana que muda com frequência e que faz questão de criar excluídos como eu a cada trinta ou quarenta anos. Esta é a casa da Joana. Não é a casa de todos os portugueses, uma vez que muitos são constantemente forçados a sentirem-se estranhos nela.
O comentário acima era para o seu comentário anterior. Quanto à de que forma queria eu a aprovação, a resposta é óbvia: de nenhuma. Reconheço aos deputados tanta competência para me imporem uma língua como para me imporem uma linha de pensamento. Há coisas em que eles nem deviam pensar em mexer.
Realmente ainda nem sequer me tinha lembrado da questão dos filmes…
Mais uma razão para deixar de ir ao cinema e ver os filmes em casa. Ponho as legendas em inglês e poupo-me ao desconforto.
Os livros… é onde a coisa fica mais negra. Acabaram-se os romances recentes… Tento comprar os outros em segunda mão, ou ler os ingleses/americanos na versão original
A única altura em que terei de conviver com o acordo é nas notícias nacionais. E mesmo aí, muitos cronistas não escrevem pelo acordo.
Esta é a minha estratégia. Acho que vou conseguir alhear-me do acordo uns bons 10/15 anos. Isto se não o impuserem no meu local de trabalho.
Pois, os filmes também. E, como refiro no texto, até já aparecem edições com legendas 100% em brasileiro. É o que sucede com o Casablanca que, curiosamente e tal como aconteceu em muitos outros casos nas últimas semanas, a Amazon britânica passou a não poder expedir para Portugal: lu-ray-Humphrey-Bogart/dp/B0035RQTNC/ref=s r_1_3?ie=UTF8&qid=1332358794&sr=8-3
http://www.amazon.co.uk/Casablanca-B
Mas compreende-se o esforço das editoras para limitar a acção da Amazon: cliente forçado a ver sem legendas ou com legendas em inglês ou em português do Brasil acabaria por decidir poupar dinheiro e comprar fora. Mercado único, o tanas.
Nada a acrescentar. Estou cem por cento de acordo contigo, e zero por cento de acordo com o “acordo”. Só a designação já é profundamente irritante, porque é falsa.
Nem mais, Ana. Qual “acordo”?
Pois eu cá desisti do Português nos termos do acordo ortográfico. Não compro jornais em “acordês” – o Expresso que vá pregar a sua “atualidade” para o raio que o parta. Também não tenciono adquirir qualquer livro em português de latrina – venha a língua inglesa, em originais (até mais baratos) ou traduções. O pior que pode acontecer é não ler livros novos de autores portugueses – enfim, tudo na vida tem um preço, e (felizmente, pelos vistos) são poucos os autores portugueses que leio com alguma regularidade.
Hoje, mais do que nunca, vejo que o meu esforço na adolescência para aprender inglês valeu a pena.
Já na televisão a coisa não dá para evitar. Como se as legendagens de péssima qualidade não fossem já um flagelo.
Eu também não compro, João. As únicas publicações que ainda compro com alguma regularidade são O Público (especialmente à Sexta-Feira por causa do Ípsilon) e a Sábado – e deixarei de o fazer no dia em que adoptarem o acordo. Mas há situações em que é impossível evitar: quando as empresas o adoptam como regra, quando se vê um filme junto de pessoas que não dominam o inglês, quando se vê televisão, etc.
Nem mais.
Como se vê mais uma vez não há Limites ao Poder do chamado Estado Democrático.
Formalmente somos uma democracia. Mentalmente estamos muito longe disso.
“Já na televisão a coisa não dá para evitar. Como se as legendagens de péssima qualidade não fossem já um flagelo.”
João Campos, pode fazer por ouvir o Inglês.
Talvez alguém que invente uma aplicação para apagar as legendas por opção.
Eu também já não compro jornais, revistas mas isso já vem de 2003. Para monocultura basta ler o teletexto ou ver um noticiário na TV.
Isso eu já faço. Apesar do acordo ortográfico e das péssimas legendas, reconheço que a coisa podia ser pior.
Podíamos ter dobragens.
Concordo com tudo o que disse. Este acordo ortográfico é um ultraje à nossa língua, mais uma prova que não sabemos dar valor à nossa individualidade linguística, porque português continua a ser português sem obedecer a este tipo de regras castradoras que retiram à língua a sua verdadeira essência.
Um pouco atrasada, mas não quero perder a ocasião de o felicitar pelo seu texto.
Li-o – e gostei de o ler – na data em que foi publicado, mas não tive a coragem de deixar um comentário, o que me sucede frequentemente. Porém, no que escreveu, identifico-me muito. Como sou bilingue, pois tenho dupla nacionalidade (portuguesa e italiana), não posso conceber que a minha língua materna seja estupidamente mutilada e afastada da principal cepa donde proveio, logo, das co-irmãs; além, obviamente, das incongruências desta nova grafia imposta – não lhe chamo ortografia, porque a não considero correcta.
As minhas felicitações sinceras.