Sobe a rua Júlio Dinis meia dúzia de metros à minha frente. Terá dezasseis ou dezassete anos e caminha em ritmo rápido, a ponta da bengala tacteando o pavimento apenas muito de vez em quando. Os adultos que descem fazem curvas para o evitar, quatro miúdos na conversa deixam-se ficar, obrigando-o a parar. Só então abrem alas e ele recomeça a caminhar.
Fecho os olhos. A sensação de pânico é imediata. Os sons chegam-me em bloco. Não consigo distinguir ruídos individuais a que atribuir direcções e distâncias. O medo de esbarrar em alguém, numa das árvores que saem dos minúsculos canteiros ou numa paragem de autocarro força-me a abri-los novamente. Por um brevíssimo instante, o mundo é demasiado luminoso. Depois apenas luminoso. Aguentei três ou quatro segundos. Uma dezena de metros, se tanto. Fico a observá-lo enquanto, já perto da Praça de Itália, com um à-vontade impressionante, atravessa a rua na passadeira e desaparece do outro lado. Sinto admiração e, por muito ilógico que seja, culpa.

Esse sentimento de “culpa” por ver, não deixando no entanto de participar numa cegueira completa e geral, também me abrange, jaa. E abrange, estou certo, todos aqueles que fecham os olhos, no desespero e no desejo angustiante de que, ao abri-los, tenham sido bafejados pelo “milagre” do contraste racional.
A racionalidade é uma coisa complicada, mesmo – ou será especialmente? – com os olhos abertos…
Tantas vezes tenho sentido o mesmo em circunstâncias semelhantes, JAA. Gostei muito da tua crónica.
Idem…
Obrigado, Luís. Por favor, leia a minha resposta ao comentário do Pedro.
Obrigado, Pedro. Acho que todos sentimos. Mas por vezes tentamos não pensar muito nisso, em especial se tivermos uma imagem de vítima a defender perante nós mesmos (é lixado perceber que, em muitos aspectos, somos privilegiados).
Belo texto, jaa.
Obrigado, Ivone.
Já fiz esse mesmo exercício (por curiosidade e culpa também, suponho), e fico sempre abismada com a destreza e o à-vontade dos cegos. Como será que vê o mundo um cego de nascença? E que terrível perda não sentirá quem já o viu como nós? É inevitável sentir culpa, tens razão.
Por ilógico que seja, Ana, é mesmo inevitável. Seja-se crente ou ateu, é como se uma qualquer força nos tivesse privilegiado logo à partida.
Bela reflexão, se nos puséssemos mais vezes no lugar do outro o mundo poderia ser tão diferente…
Obrigado, Alice. De facto. Pelo menos (e em tempos de crise seria tão importante) ajuda a perceber o que é essencial e o que é acessório.
E a lágrima no canto do olho não aparece? E o engulir em seco, impotente por nada poder fazer….
Não, os comentadores é que estavam quase a provocar-ma. Mas depois cheguei a “engulir” e passou-me a comoção.
Acordu ortográficu á alentejanu. Quali o problema?
http://www.lisbonwalker.com/walksens.htm l
Não conhecia estes passeios, Isabel. A ideia é excelente – mas eu não sei se teria coragem… 😉