De olhos fechados


escafandro,

Sobe a rua Júlio Dinis meia dúzia de metros à minha frente. Terá dezasseis ou dezassete anos e caminha em ritmo rápido, a ponta da bengala tacteando o pavimento apenas muito de vez em quando. Os adultos que descem fazem curvas para o evitar, quatro miúdos na conversa deixam-se ficar, obrigando-o a parar. Só então abrem alas e ele recomeça a caminhar.

 

Fecho os olhos.  A sensação de pânico é imediata. Os sons chegam-me em bloco. Não consigo distinguir ruídos individuais a que atribuir direcções e distâncias. O medo de esbarrar em alguém, numa das árvores que saem dos minúsculos canteiros ou numa paragem de autocarro força-me a abri-los novamente. Por um brevíssimo instante, o mundo é demasiado luminoso. Depois apenas luminoso. Aguentei três ou quatro segundos. Uma dezena de metros, se tanto. Fico a observá-lo enquanto, já perto da Praça de Itália, com um à-vontade impressionante, atravessa a rua na passadeira e desaparece do outro lado. Sinto admiração e, por muito ilógico que seja, culpa.

17 comentários em “De olhos fechados”

  1. Esse sentimento de “culpa” por ver, não deixando no entanto de participar numa cegueira completa e geral, também me abrange, jaa. E abrange, estou certo, todos aqueles que fecham os olhos, no desespero e no desejo angustiante de que, ao abri-los, tenham sido bafejados pelo “milagre” do contraste racional.

    1. Obrigado, Pedro. Acho que todos sentimos. Mas por vezes tentamos não pensar muito nisso, em especial se tivermos uma imagem de vítima a defender perante nós mesmos (é lixado perceber que, em muitos aspectos, somos privilegiados).

  2. Já fiz esse mesmo exercício (por curiosidade e culpa também, suponho), e fico sempre abismada com a destreza e o à-vontade dos cegos. Como será que vê o mundo um cego de nascença? E que terrível perda não sentirá quem já o viu como nós? É inevitável sentir culpa, tens razão.

  3. E a lágrima no canto do olho não aparece? E o engulir em seco, impotente por nada poder fazer….

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