Springsteen e «os nossos»


escafandro,

  

Leio que o novo álbum, Wrecking Ball, à venda amanhã, mostra desilusão, desespero, agressividade. Talvez. Contudo, o primeiro single deixou-me a pensar. Há quase trinta anos, Born in the USA era uma crítica que soava a hino patriótico. Os republicanos, então no poder, pouco afectados se sentiram (num comício durante a campanha presidencial de 1984, Reagan chegou a mencionar Springsteen como alguém com uma mensagem similar à dele). We Take Care of our Own, constituindo um lamento sobre a situação actual dos Estados Unidos, arrisca-se a despoletar reacções similares. Na música, como na política, como de resto em quase todos os campos nesta era de análises rápidas, o que parece é – e um hino patriótico tende a beneficiar o poder. Em 1984, Springsteen foi apanhado de surpresa pelas reacções a Born in the USA. Agora, não há razões para surpresas e a pergunta é inevitável: terá esquecido a lição ou terá decidido, noutro ano eleitoral, usá-la a favor de Obama, que apoia? Por outras palavras: Springsteen ainda é contrapoder?

 

Talvez a resposta esteja no resto do álbum. Seja qual for, ele continua a ser um músico do caraças.

7 comentários em “Springsteen e «os nossos»”

  1. Springsteen sempre foi um analista impiedoso da América. E nesta música, que não conhecia, faz a mesma desconstrução que fez com “Born in the USA”. É uma América de sonhos não cumpridos, corporizada em Obama. É uma denúncia da retórica submersa pelo lobbys e spin, de um país mais igual que não se cumpriu. A desilusão de Bruce é também a minha. E os meus agradecimentos pela divulgação deste momento de resistência, pensamento crítico e arte.

    1. Fernando: o meu ponto (e eu adoro Springsteen, note-se) é que este tema, sendo isso que diz, soa, como soava Born in the USA, a hino patriótico (música inspiradora, “we take care of our own”, “wherever this flag’s flown”, etc.). E Springsteen ficou de tal modo “escaldado” com a apropriação que o “sistema” fez de Born in the USA que raramente executa o tema em concerto. Ora uma canção como esta, num ano eleitoral, pode mais uma vez funcionar como apoio ao poder. Daí a minha questão.

      1. Entendi perfeitamente o seu ponto. No entanto, para quem não é conservador, entre a oratória inconsequente de Obama e o mix “Mormon disfarçado de Tea Party a proteger o 1%” a minha preferência é clara! E o Sr. Springsteen, como rapaz já vivido, deve ter a noção da dualidade de interpretações a que o tema se presta.

  2. Nada de novo, portanto. Desde ‘Darkness on the edge of town’ que ainda devo ter em vinil na casa dos meus pais que Bruce Springsteen canta o desencanto dos EUA. É sempre bem mais dramático que dias felizes, a tristeza vende sempre melhor, mas acho que lhe está na alma.

    1. Laura: estamos de acordo quanto a estar-lhe na alma. A minha questão é mais saber se Springsteen, num ano eleitoral, tendo apostado tanto em Obama, terá de alguma forma resolvido usar a lição de Born in the USA para, continuando crítico em relação ao estado da economia, ajudar o candidato que prefere. Daí a pergunta sobre se ele, com Obama na Casa Branca, ainda é contrapoder.

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