Das empresas públicas de transportes e respectivas greves (e juro que não usei o termo «casta»)


escafandro,

O post da Teresa Ribeiro sobre a greve dos trabalhadores das empresas públicas de transportes (em que ela realçava a situação de comparativo desafogo de que eles gozam) suscitou uma catadupa de comentários. Permitam-me algumas observações sobre quatro pontos recorrentes (houve outros, mas estavam mais relacionados com saber se a Teresa usa os transportes públicos ou é uma privilegiada que apenas se desloca de limusina, com motorista fardado, uma garrafa de Dom Pérignon no mini-bar e uma caixa de Ferrero Rocher no apoio de braços).

 

1. Em comparação com os trabalhadores do mesmo sector de outros países europeus, os trabalhadores das empresas públicas de transportes portuguesas não ganham assim tanto. Houve mesmo quem indicasse este link para demonstrar que os trabalhadores das empresas portuguesas de transportes ganham ligeiramente menos do que os seus congéneres franceses, cerca de três quartos do que auferem os espanhóis e sessenta por cento do que recebem os finlandeses. Ora obrigadinho pela informação. Mesmo planando sobre o facto de quase certamente a média estar afectada pelos rendimentos dos trabalhadores das empresas privadas e não incluir benesses complementares ao salário (viagens de borla, por exemplo), seria mesmo lógico que, num país onde os mecânicos de automóvel ganham um quarto do que ganham os mecânicos de automóvel franceses e os padeiros ganham menos de um quarto do que ganham os padeiros finlandeses, o salário dos trabalhadores do sector dos transportes se encontrasse ao nível do dos trabalhadores desses países. No fundo, é como estranhar que os trabalhadores dos transportes públicos do Burundi ganhem menos do que os seus congéneres em Portugal. E, convenhamos, ganhar quase o mesmo que em França não será façanha ao alcance de muito sectores por cá (também é interessante que os espanhóis ganhem ao nível dos austríacos mas vamos deixar isso para segundas núpcias ou alguém ainda poderá pensar que, nos países do Sul da Europa, os sindicatos são especialmente poderosos neste tipo de empresas – e o poder político muito fraco).

 

2. Não se deve atacar quem ganha razoavelmente mas procurar que todos o consigam. Bonito, sim senhor. E verdade. Mas é pena que ninguém no sector dos transportes tenha pensado nisso enquanto usou o poder que detinha para desviar recursos do resto da economia (dos padeiros e dos mecânicos de automóvel) para os seus próprios salários e benefícios. É que, de forma sustentável, não se consegue aumentar o nível de vida por decreto (se conseguisse, Portugal seria o país mais rico do Universo e arredores) nem fazendo crescer os gastos sem garantir que a economia gera receitas suficientes para os cobrir. Vamos supor que alguém nos emprestava cem mil milhões de euros a juro zero (sim: zero, nada, nothing, rien, nichts, niente, Τίποτα δεν, nicles) e que os distribuíamos equitativamente pelos portugueses. Se não me enganei nos zeros, dá dez mil a cada um, contando com os bebés (e gostaria de salientar que estou a prescindir da comissão pela autoria da ideia). Seguia-se uma festa, a reposição da tolerância de ponto no Carnaval e, mais importante, um aumento no consumo. O qual faria com que parte desse dinheiro voltasse imediatamente a sair do país, uma vez que importamos a maioria dos bens que consumimos. O que por sua vez não seria grave se a economia portuguesa tivesse capacidade para compensar essas saídas com exportações. Infelizmente, não tem. Estamos todos a ver o problema ou preciso de fazer um gráfico de barras? Apostar no crescimento através do consumo interno foi exactamente o que andámos a fazer. Devia ser classificado como sinónimo de «apostar no endividamento». É chato para as boas intenções mas olhem – culpem a matemática. E façam pressão para que o governo aposte naquilo que pode efectivamente melhorar a competitividade do país (fiscalidade estável, menos burocracia, justiça mais célere, etc., etc. – vocês sabem).

  

3. A culpa da situação nas empresas públicas de transportes é da má gestão. Mesmo descontando o factor «sacudir água do capote», não me custa a acreditar que, em grandíssima medida, seja. Os gestores têm culpas por não terem definido estratégias claras, por terem desperdiçado dinheiro em projectos idiotas, por terem andado a fazer favores aos governos, por terem oferecido balúrdios a empresas de consultoria «amigas», por se terem abotoado com regalias escandalosas para um país com o nível de rendimentos (e respectiva distribuição) de Portugal – e por terem aceitado conceder os aumentos salariais que aceitaram conceder.

 

4. Ah, e a RTP e o BPN e as Empresas Municipais e o Instituto Disto e Daquilo? Certíssimo: erros atrás de erros que também é preciso corrigir. Mas pelo menos o pessoal de lá não anda em greves sucessivas. De qualquer modo, não sei se estão familiarizados com um ditado popular que inclui uma referência a telhados de vidro… 

 

Por último, sinto que devo ressalvar que nada do que ficou atrás pretende mostrar verdadeiro desagrado com as greves frequentes dos trabalhadores das empresas públicas de transportes. Pelo contrário: estando o cidadão comum, por força da necessidade, cada vez mais habituado a desenrascar-se sem transportes públicos, qualquer dia de greve representa hoje uma poupança para os contribuintes. Assim sendo, continuem e bem hajam.

55 comentários em “Das empresas públicas de transportes e respectivas greves (e juro que não usei o termo «casta»)”

  1. Não usaste casta, mas temo que tenhas arranjado sarna. Para te coçar (com mãozinha apropriada, de dedinhos em marfim, porque nós somos – ou vi dizer -um bando fascistóide de finórios).

      1. Isso é uma provocação prepotente, no fundo o que o caro amigo pretende com o seu texto é festa! do genero “deixa-os cá vir que eu trato deles”…tenho muita pena…

    1. Esqueça os comentários que magoam … alguns são de uma pobreza confrangedora e de uma objecção a toda a prova. Uma coisa é certa, foram muitos os que “meteram a viola no saco”.

      1. …portanto, pela sua prespectiva quem tem “pobreza” no que escreve não pode comentar… é só um previlégio para uma “casta”.
        “meter a viola no saco”???? o que é que alguem tem a perder com os comentários que aqui faz?

  2. Em relação à ferrovia. Proibida que foi a CP de concorrer ao eixo norte-sul, a travessia ferroviária pela Ponte 25 de Abril foi concessionada à Fertagus, empresa privada que pertence ao Barraqueiro. Todo o investimento das infra-estruturas para poder operar, desde construção das linhas, estações, da catenária, da sinalização e até o material circulante, foi pago pela CP, REFER e pelo Orçamento de Estado.

    Esta empresa que não realizou nenhum investimento, que pratica preços que são quase o dobro dos da CP para percursos semelhantes, que não aceita o passe social, tem recebido milhões de euros em indemnizações compensatórias.

    Será preciso utilizar um gráfico de barras??Já agora é bom que não se confunda Empresa, com sectores dessa mesma Empresa.O que é que um trabalhador de oficina, por exemplo, da EMEF(onde vão despedir mais de 800) ,tem
    a ver com um máquinista,tanto em termos salariais como reivindicativos?Quantos anos de congelamento, tanto de carreiras como salariais, nestes sectores?Sabe? Não me parece…
    Por ultimo, “gestores”?Não sabe os nomes?Sabe “onde param”?Não?Olhe, alguns têm o cu assente nas “bancadas centrais”.Não, não me refiro a estádios de futebol…e aposto, que quando estas”Empresas”, forem”privatizadas”, com “capitais publicos”, “eles” lá estarão, a dar uma “mãozinha”…

    1. OK. E onde é que me viu a defender as maravilhosas parcerias entre o Estado e os privados? Ou a isentar de responsabilidades os gestores do “bloco central”? Provavelmente muita gente até devia estar presa. Só que as leis da física impedem-nos de voltar atrás e as da matemática mostram-nos que os custos das empresas de transportes são incomportáveis. Alguma coisa tem de ser feita. Quanto à diferença de rendimentos e poder negocial entre um trabalhador de oficina e um maquinista da CP (ou entre o pessoal de terra e os pilotos da TAP, por exemplo) é um facto que só mostra como os sindicatos foram excelentes a defender os mais fracos e que não são apenas os utentes que têm de deixar de estar calados sobre os (relativos, com certeza) privilégios de alguns, porque não são (ou não foram) apenas eles a serem lixados.

        1. …então e aqueles utentes do interior que continuam a pagar e lhes tiraram tudo, Centros de Saude a 80km e transpotes que só param 20km mais à frente o resto é feito de taxi, tudo em nome do “economicamente viavel”… e eles contiuam a pagar.

          1. É isso ou cortar salários e privilégios do pessoal que ganha quase na (ou acima da) média europeia. E não queremos isso, pois não? Até fazemos greves para o evitar…

          2. Pois! mas isto já eles não têm à muito tempo e tirando eles mais ninguem se manifestou. Não creio que retirando “beneficios” a outros como eles dê para lhe repor as minimas condições de vida.

          3. Pois, retirando é aos utentes que como eu ficam sem transportes nos dias de greves, isso não o incomoda ou o Senhor Pimba anda de Mercedes?!!

      1. A primeira parte da sua resposta é que interessa verdadeiramente, que pela gestão danosa que fizeram grande parte dos gestores, que deviam ser presos. Se isso tivesse acontecido provavelmente não estariamos a discutir a segunda parte da resposta. As leis da Fisica e da Matemática em politica não existem.

        1. Interessam, interessam. É que até se podia (e devia) meter os tipos na cadeia (embora alguns só tenham feito o que o povo – ou o pessoal das respectivas empresas – queria) mas as dívidas não desapareciam.

          1. Conversa!! Fizeram o que lhes dava mais jeito a eles e à sua famila politica e em grande parte dos casos até ficaram muito satisfeitos com as greves, serviu para meter grandes cavalas e ter alguem a quem culpar.

    2. Não me diga que é alguma coisa ao T que escreve as letras para o Rui Veloso? Se é, não parece…
      Com este seu comentário quer dizer que está de acordo com o autor do post, ou não?
      Eu não vejo, em tudo que escreveu, uma única crítica, antes me parece que amigo também concorda com a tese que os funcionários das empresas públicas de transporte são uns grandes privilegiados, sobretudo em relação aos utilizadores das empresas que eles exploram e que nos exploram a nós todos – 15 mil milhões de dívidas!

      1. Deixe lá, não é grave! o autor também não se percebe o que é que defende, dá uma no cravo outra na ferradura, só sei é que ele não quer greves quando precisa de um autocarro, quando não precisa, não sei…

          1. Equilibradissima!!!! O melhor equilibrista do Circo Cardinalli não conseguiria melhor…mesmo com o chapeu de chuva na mão direita.

          2. Equlibrista é quem vem defendefr a classe parasitária dos Mquinistas da CP !!

  3. Agora sim fiquei cabalmente esclarecido sobre a crise que Portugal atravessa e quais os seus causadores, quais BPN’s, BPP, má gestão das empresas, favores aos amigos, politicos icompetentes e corruptos e coisas que tal, nada disso, foi a “CASTA”, cambada de malandros, que nos levaram a este estado, fazerem greves onde é que já se viu? porrada nos gajos, e a crise aí vai, quererem ter uma vida decente, mandar os filhos estudar, ter pão na mesa e ainda por cima andarem de borla nos comboios, se fossem Alemães ou Finlandeses até se compreendia, mas Portugueses é de mais. Obrigado pelo seu esclarecimento, ainda bem que há pessoas como o Senhor que veem as coisas com esta imparcialidade e clarividencia. Um pedido de desculpas , sei que não lhe chamou “CASTA”, como a outra senhora, mas se calhar não fazia mal, eles a “CASTA”, dão-lhe de certeza o valor que a sua escrita lhes merece. Continue que ainda chega a ajudante de algum politico, isto está mau e há que fazer pela vidinha.

  4. 2. Não se deve atacar quem ganha razoavelmente mas procurar que todos o consigam.

    Fantástico. Os ordenados devem-se à dívida e aos contribuintes.
    Os senhores dos transportes ganham pelo poder político que têm e não pelo que oferecem.
    Coloquem preços reais.
    Veremos quem utilizará o serviço que oferecem.

    1. Fiz um comentario ao post do Senhor JAA e agora o LUCK aconselha-me a ler o orçamento de estado, obrigado pelo conselho já o li e dele fiz o meu juízo e tirei as minhas conclusões, não preciso portanto de tradutores acerca do que lá se diz. Quanto ao poder politico que os trabalhadores, sejam dos transportes ou outros têm, é coisa que nem tem conversa, eles têm é a força da sua luta para fazer valer os seus direitos, e isso é coisa que pelos vistos incomoda muita gente, alguns por ignorancia, outros por inveja e alguns por saudades dos tempos isso levava a umas férias em Caxias. Diz tambem para porem os preços reais e verem quem os utilizará, acho que aí devia ir mais longe e pedir que isso se aplicasse a todos os serviços, e nesse caso será que o Luck e os seus filhos teriam escolas, hospitais, medico no centro de saúde, medicamentos comparticipados, só para falar em alguns, ou deixaria de os utilizar como sugere para os transportes, ou isso não custa dinheiro que vem dos impostos de todos nós?? Em tudo o que escreveu (nem foi você, copiou), só uma frase tem sentido “Não se deve atacar quem ganha razoavelmente mas procurar que todos o consigam”.

      1. Diz o Oliveira que “eles (os funcionários dos transportes públicos de empresas estatais) têm é a força da sua luta para fazer valer os seus direitos”.
        E eu digo-lhe, nós temos a força da razão para denunciar os que pensam que só têm direitos e que não têm deveres, no caso deveres de solidariedade para que os utentes desses serviços de transportes, a esmagadora maioria vivendo em condições económicas muito inferiores a esses privilegiados, liderados por gente egoísta. Deixe, portanto, de nos atirar areia para os olhos.

        1. …têm é a força da sua luta para fazer valer os seus direitos”.
          Não é uma luta por direitos, é o uso da força por privilégios. Não é luta, é chantagem. Já ganham mais que os outros trabalhadores a quem deviam servir e com quem deviam ser solidários, mas quem na realidade prejudicam a vida; obrigam-nos a pagar-lhes ainda mais (sim, porque são os outros trabalhadores que lhes pagam os salários e mordomias que reclamam).

        2. Portanto o caro amigo acha que eles devem ser solidários com os utentes não fazendo greve porque não lhes dá geito nenhum e os utentes não precisam de ser solidários com coisa nenhuma ou então aplicar uma solidariedade tipo mandar rezar umas missas, colocar umas velinhas e mandar umas larachas nos bloques. É isso que vos ensinam no CDS agora???

      2. O local indicado para ler o Orçamento de Estado é no WC, para se ir lendo aos poucos e se faltar o papel higienico…é um bocado aspero mas faz o mesmo efeito…

        1. Pimba, eu já lhe disse que o amigo é pimba, ou pior. Resta-me fazer-lhe como já disseram: pumba! Desapareça!

          1. …para “Tiro ao Alvo” não acertas uma…
            “Pimba” é um nome de familia da mais fina Aristocracia Lisboeta, grandes patronos das artes e das letras, quando passas por mim até fazes vénias (o que não é grande coisa, fazes isso a tudo o mexe).
            Sou o unico pastor dos maridos das cabras em actividade em Lisboa…por isso não precisas de ter respeito por mim porque eu também não tenho respeito nenhum por ti… Àh!!! e perdeste uma boa oportunidade de estár calado porque mandas muito pouco…

          2. Estás baralhado ó aristocrata? Se bem entendi, gabas-te de seres cabrão? Se for assim, ficas a saber que não faço vénias a gente dessa. Eu, desses bichos, fujo.

          3. Pois entendeste mal! outra coisa não seria de esperar… vá! continua a pastar…

          4. Ao que isto chegou. Mas bem visto não é nada que me surpreenda, quando não há argumentos surge o insulto, é sempre assim. Infelizmente ainda há “”pessoas”” que ainda não compreenderam, que os HOMENS não andam em dois pés e de coluna direita só porque se usa.

          5. Caro amigo quando alguem no meio de comentários politicos muda o discurso no sentido pessoal e ainda por cima tem a prepotencia de dizer “desapareça” como se fosse o dono do “quintal” é obvio que a coisa nunca pode correr bem… e ainda a procissão vai no adro…

  5. Não percebo por que há tanto pejo em chamar os bois pelos nomes. Apreciei o seu ponto de vista e o modo como o expôs. É assim mesmo.

  6. … só é pena não dizer que os administradores dessas empresas ganham mais que os seu colegas filandeses e são 60% mais incompetentes…com provas dadas…
    Essa conversa não passa de retórica pastosa, pura demagogia…

      1. O seu ponto 3 é uma especie de passar com um pano sobre a carga de cinismo dos outros pontos todos. Sinto muito que viva noutra realidade, de qualquer modo faz muito bem em defender a sua “casta”.

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