A imagem de Meryl Streep com a cara pintada de branco foi realizada durante uma sessão que não começou bem. Apenas recentemente Meryl se tornara uma estrela de cinema. Eu já tinha feito um trabalho com ela para a Vogue e, meses antes, a Life usara um retrato dessa sessão na capa. Francesco Scavullo acabara de a fotografar para a capa da Time. Esta ronda de publicidade devia-se à estreia de A Amante do Tenente Francês. Meryl sentia-se desconfortável com toda a atenção de que era alvo e cancelou a primeira marcação mas acabou por ser convencida a vir uma manhã ao meu estúdio, durante duas horas e meia. Entrou e explicou que não desejava ser alguém; não era importante, apenas uma actriz. Havia uma data de livros de palhaços espalhados pelo estúdio e maquilhagem branca que restara de uma ideia que eu tivera para uma sessão com James Taylor ou Jim Belushi. Eu disse a Meryl que ela não precisava de ser alguém em particular, e sugeri que talvez gostasse de pintar a cara de branco. Ser um mimo. Isso deixou-a à vontade. Tinha um papel a desempenhar. Foi dela a ideia de puxar a cara.
Annie Leibovitz, Annie Leibovitz At Work.
Edição Jonathan Cape, 2008. Tradução minha.
(Foto de Annie Leibovitz, evidentemente, recolhida aqui.)


“Entrou e explicou que não desejava ser alguém; não era importante, apenas uma actriz”. Acho que isto a define, ainda hoje.
Obrigada pela parte que me toca no presente, Jaa.
Precisamente, Ana. Nota-se que Meryl precisa de um papel para desempenhar, de modo a sentir-se relevante. É metida na pele de outra pessoa (real ou fictícia) que se sente melhor. Claro que isto sucede com quase todos os actores e actrizes verdadeiramente bons mas, no caso dela, é levado ao extremo. E será por isso que é a melhor. Apesar de, como seria de esperar, ter vindo a ficar mais solta e mais à vontade enquanto ela própria ao longo do tempo.
Obrigada pela parte que me toca 🙂
Não é preciso agradecer. Ou então eu também serei obrigado a fazê-lo – afinal, acabei por me incluir na dedicatória. 🙂
Excelente!
Fabuloso! Ela é fabulosa, aliás.
Já divulguei no Facebook.
Yep. Yep.
Thanks.
O livro tem várias histórias interessantes, José Maria. Como, por exemplo, que a famosa foto da Demi Moore totalmente nua e muito grávida que foi capa da Vanity Fair foi tirada no fim da sessão e era apenas destinada à Demi (nas fotos para a revista ela estava sempre parcialmente vestida). Leibovitz terá feito um comentário do género “Esta foto daria uma grande capa” mas só depois de regressar a Nova Iorque percebeu que aquela foto daria mesmo uma grande capa. Tina Brown, a editora da Vanity Fair, concordou mas disse-lhe que Demi nunca aceitaria. Enganava-se. Aceitou de imediato.
Aceitou e acho que não se arrependeu 🙂
E junta-me a mim!
Com certeza, Helena. É um clube aberto e acolhedor, o dos apreciadores da Meryl Streep.
Gostei muito de saber a história. Belo presente 🙂