Blogue da semana


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O blogue que escolho esta semana remete para um espaço – o café – que convida ao fragmento, à escrita que não exige, como condição de inteligibilidade, critérios de unidade ou coesão: chama-se Café Central. É de lá que trago frases de Teixeira de Pascoaes, o poeta que fez da saudade o princípio de uma suposta ‘arte de ser português’:

Camilo regressa ao Pôrto, êsse imenso penedo, fendido em ruas e vielas, esculpido em obscuras habitações, grávidas de gente dedicada ao comércio, às tainasde verdasco e peixe frito, à irmandade do Terço e do teatro lírico, onde, nos camarotes, os cantos da Derbeille e da Belloni provocam fome de frangos assados e cabritos. E, como centro intelectual, o Café Guichard, na Praça Nova, ainda muito rústica e arborizada, com landós e cupés de aluguer, parados, sob a copa das ramagens. (Teixeira de Pascoaes. O Penitente)

Livros


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Nas primeiras páginas, o poeta, aproveitando o exemplo de Santo Agostinho, que sabia o que era o tempo até começar a pensar na pergunta “o que é o tempo?”, diz que o conhecimento da poesia pode significar a impossibilidade de definir “poesia”. No entanto (ou por isso mesmo), o que Borges escreve, com a ajuda de outros que também se dedicaram ao ofício, é um modo de reagir a essa impossibilidade. O resultado é um livro extraordinário.

 

Acho que Emerson escreveu algures que uma biblioteca é uma espécie de caverna mágica cheia de mortos. E esses mortos podem renascer, podem voltar à vida quando abrimos as suas páginas.

Por falar no Bispo Berkeley […] lembro-me de que ele escreveu que o sabor da maçã não está na própria maçã – a maçã não se saboreia a si própria – nem na boca de quem a come. Requer um contacto entre as duas. O mesmo sucede a um livro ou a uma colecção de livros, a uma biblioteca. Na verdade, o que é um livro em si? Um livro é um objecto físico num mundo de objectos físicos. É um conjunto de símbolos mortos. E então chega o leitor certo e as palavras – ou melhor, a poesia por trás das palavras, pois as palavras em si são meros símbolos – saltam para a vida e temos uma ressurreição da palavra.

 

Jorge Luis Borges. Este Ofício de Poeta. Teorema, 2010.

Livros


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Comprei-o porque estava a um bom preço, pensando que era mais um daqueles livros com um diagnóstico sobre o choque de civilizações. Enganei-me. O problema surge como pano de fundo, claro, mas as três partes do livro são uma explicação, no campo da História das Ideias, da forma como o pensamento político de fundamentação teológica foi perdendo terreno no Ocidente. Hobbes não poderia deixar de aparecer. Transcrevo a paráfrase da sua explicação da origem da vida política:

A partir do momento em que os homens criam um deus, especialmente o Deus majestoso do monoteísmo, começam igualmente a temê-lo. Antevendo a lenda do golem e o Frankenstein de Mary Shelley, Hobbes sugere que os homens são perseguidos pelas suas próprias fantasias de dominar o destino natural. Ao seu temor pela natureza, acresce temor de um deus caprichoso, sempre descontente porque nós nunca o servimos perfeitamente. Uma nova cultura de medo floresce para completar o temor da natureza, uma cultura na qual as pessoas têm visões estranhas e superstições ainda mais estranhas sobre como apaziguar Deus. Em vez de estudar a natureza para a dominar com as suas limitadas faculdades, os homens voltaram-se ingenuamente para aqueles que tinham pretensões de conjurar «coisas invisíveis». Ignorantes das verdadeiras causas, viraram-se para aqueles que tinham ambições de as controlar: xamãs, sacerdotes, fazedores de milagres. E, quando isto acontece, os homens já não se encontram no seio do reino da crença privada, mas na esfera pública da política.

 

Mark Lilla. A Grande Separação. Religião, Política e o Ocidente Moderno. Gradiva, 2010.

Sinais


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É, como diriam alguns comentadores, um sinal dos tempos. Na escola onde estou a dar aulas apareceram alunos que só agora, no 8.º ou no 9.º ano de escolaridade, conhecem o ensino público. Contaram-me que alguns pais mostraram grande preocupação quando souberam que numa turma haveria seis alunos a repetir o ano; o mesmo aconteceu quando, numa visita à escola, ninguém deu pelo “choque tecnológico” (não havia “quadro interactivo” e essas coisas). Os miúdos, pelo que tenho visto, estão a dar-se bem. No outro dia, um deles explicava a outro, mais velho, que a t-shirt que tinha era do Family Guy. E lá estava, em grande plano, o Stewie.

Blogue da semana


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Esta semana escolho o Coisas do Arco da Velha, um blogue que prefere a imagem ao texto (em texto, aparecem os clássicos, aqueles que merecem sempre ser citados). Neste blogue, têm lugar importante o cinema e a fotografia de outros tempos, mas também justificam o meu destaque as coisas incluídas nas secções “cool” ou “weird”. Fica aqui um exemplo: um vídeo que explica as diferenças entre os homens e as mulheres. É uma análise curiosa… Ou mais uma prova de que o mundo é mesmo um lugar estranho.

 

Leituras


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O subtítulo é uma descrição exacta do que é este livro: «Através da filosofia (e de piadas!), explica-se a vida, a morte, a vida depois da morte e todos os entretantos». As piadas estão lá para controlar o ponteiro do nosso angustiómetro, porque «podem dizer uma coisa devastadora enquanto, ao mesmo tempo, dissipam a ansiedade». Sobre a pouca clareza de Heidegger, por exemplo, encontramos esta observação razoável: «a leitura integral da sua obra-prima, Ser e Tempo, [é] a aproximação existencial a uma experiência de quase-morte.» (p. 66).     

Sem rede


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Numa sociedade perfeita (que, como diz um poema de que gosto muito, é daquelas coisas que não há mas há – existem utopicamente, em pensamento ou ideia), o trabalho e a vida não se opõem. Num sistema demasiado imperfeito, o trabalho está mais perto da morte do que da vida. É nesse sistema que é possível que “uma empresa peça aos funcionários para assinarem documentos a garantir que não se vão suicidar“. E quando nem os monges budistas podem ajudar, o melhor é colocar umas redes para travar as quedas.

Opiniões


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Ontem, ao ver um debate na RTPN sobre a vinda do Papa a Portugal, percebi que há uma frase que eu detesto. A frase é: “isso é apenas a sua opinião”. Foi dita por João César das Neves no momento em que discutia a possibilidade de uma revisão de algumas doutrinas da Igreja. As pessoas que ouviram isto (uma delas foi o Frei Bento Domingues) responderam muito bem – quase com indignação – porque a frase só pode ser dita por alguém que não quer debater nada. Debater pressupõe sempre que estão sentadas à volta da mesma mesa pessoas que opinam, que querem discutir, e isto, claro, só é possível se se aceitar que a verdade não é evidente.

 

O poder de Emerson


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Vários leitores de Ralph Emerson sublinharam o seu poder de conversão, o poder de tornar evidente uma afirmação que contém uma filosofia de vida. Harold Bloom fala disto num livro extraordinário chamado Onde está a sabedoria? Quando estava a ler os ensaios de Emerson publicados em A Confiança em Si, A Natureza e outros ensaios, lembrei-me desse “poder”. O primeiro ensaio, “A Confiança em Si”, faz pensar numa literatura de auto-ajuda (Bloom fala em “autocura”), com Emerson a afirmar, no final do texto, que somos nós próprios que construímos a nossa paz . Emerson defende que o nosso valor reside na nossa singularidade («A minha vida existe por si mesma, não para um espectáculo») e na capacidade de exprimir essa singularidade em ideias. Ser homem, ser humano, implica um afastamento da sociedade e dos grupos: «ser grande é ser incompreendido», ou saber «existir através da História». Os ensaios de Emerson e o livro de Bloom têm a chancela da Relógio d’Água.

“Um homem sério”


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Pois é. O problema do filme dos irmãos Coen é que não há filme. Mas há boas ideias. O prólogo (?) sobre mortos que regressam e a história do homem que queria manter a seriedade têm em comum o facto de nos deixarem numa posição em que não temos muitos instrumentos para interpretar aquilo que vemos, aquilo que (nos) acontece. Todo o filme é como a história contada pelo primeiro Rabino (o mais velho, que reduz a teologia a um exercício sem finalidade), porque estamos à espera daquilo que não podemos ter: uma explicação, um fim que explique a desgraça de um homem. Por mais desgraças que aconteçam a Larry Gopnik (ou a nós), só temos a história absurda do Rabino. Mesmo se soubéssemos que Deus estava a brincar connosco, isso não alterava grande coisa.

Educação


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No outro dia, estava eu a explicar a uma turma de 7.º ano a importância de saber escrever – e de perceber, por exemplo, a diferença entre "vende-se" e "vendesse" -, quando um dos alunos se lembra desta: «Estás a ouvir, Zé? Quando fores trabalhar para as obras, tens de escrever bem nas tabuletas…». Teve graça e fez-me pensar nas justificações que damos para educar alguém. É por esta razão – porque também é sobre essas justificações – que gostei do filme An Education.

“Um homem metido num chapéu e pendurado num cigarro”


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Não compro a revista Ler há algum tempo. Não há nenhuma razão especial que explique isso; simplesmente, dei por mim, um dia, a pensar "olha, este mês não comprei a Ler". Desde então, limito-me a folheá-la numa livraria ou num quiosque. Por ter deixado de comprar a revista, só este fim-de-semana li o artigo de Francisco Belard sobre Manuel Medeiros. O artigo saiu na edição de Janeiro e é sobre o livreiro da Culsete, uma livraria de Setúbal. O Sr. Medeiros (é assim que o trato) – conhecido, literariamente, por Resendes Ventura (publicou, em 2009, Papel a Mais) – recebeu-me em 2000, nas minhas férias da faculdade. Trabalhei com ele dois meses, tempo suficiente para perceber que tinha à minha frente um profundo conhecedor de livros. Lembro-me de algumas pessoas que entravam na livraria à procura de um livro; podiam não saber sequer o nome do autor, mas bastavam cinco ou seis palavras e o Sr. Medeiros aparecia com o livro. É um grande livreiro, e, acima de tudo, um leitor, um conhecedor dos grandes livros, aqueles que, como diria Emerson («Leio em busca de cintilações»…), dizem sobre nós aquilo que nós não conseguimos dizer.

Aprendi muito com o Sr. Medeiros, mas a memória mais feliz que guardo dos meus tempos na Culsete tem a ver com cigarros. Contra as indicações do médico, que a família queria que seguisse, o Sr. Medeiros continuava a não recusar o prazer de um cigarro. Por isso, sempre que me dizia para ir comprar o Público ao quiosque, pedia-me que trouxesse, escondido no jornal, um maço de cigarros. A forma como fazia este pedido obrigava-me a responder com um sorriso: falava muito baixinho e piscava-me o olho.

Blogue da semana


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Esta semana, escolho o "Provas de Contacto", o blogue do João Lisboa, crítico de música do jornal Expresso. No "Provas de Contacto", escreve-se sobre música e outras coisas, sobretudo "política" e "quotidiano" (dois temas que dão mote aqui ao nosso espaço). Eu diria que o "Provas de Contacto" justifica muito bem a definição de "blogue" que li há algum tempo no "Aspirina B", num texto assinado pelo Valupi: para além de "tertúlia" (quando colectivo), um blogue é "um gozo" e uma "celebração digital da nossa cidadania".

A propósito de “Um Profeta”


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Fui ontem ver Um Profeta, um filme de Jacques Audiard. A história – «uma história de aprendizagem», como diz o Luís Miguel Oliveira – gira à volta de Malik El Djebena, um ‘árabe, analfabeto, de aparência frágil e desprotegida’, que é condenado a seis anos de prisão. Mas a razão por que escrevo este pequeno texto não é o filme, propriamente dito. A razão prende-se com uma questão em que pensei num momento do filme: o momento em que Malik entra na prisão – uma prisão francesa – e lhe é feito um interrogatório. O guarda que o interroga pergunta, entre outras coisas, se Malik pode comer carne de porco. O objectivo do interrogatório é perceber se o prisioneiro é praticante de alguma religião, e se o seu modo de vida é determinado por essa prática (por exemplo, nas restrições alimentares). Ora, o que eu pensei, ao ouvir o interrogatório, é que a humanidade pode ser um pouco melhor do que imaginam pessoas como o físico da mais recente comédia de Woody Allen. Apesar de todos os nossos defeitos, aceitamos que "prender" não é sinónimo de "privar alguém de toda a liberdade".

Bons filmes


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Quando temos grandes interpretações e um bom argumento, o resultado é, quase sempre, este: um excelente filme. É o que acontece com Nas Nuvens, um filme sobre o que significa ter uma "filosofia de vida".

 

 

Livros


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The Scarlet Letter, pintura de T. H. Matteson

 

No prefácio que escreveu para a sua tradução de The Scarlet Letter, romance de Nathaniel Hawthorne publicado em 1850, Fernando Pessoa cita vários críticos e conclui que, para a generalidade da opinião crítica inglesa, o romance é uma obra-prima. Não sabemos se Pessoa estaria de acordo com esta opinião geral; como nota George Monteiro na introdução ao texto traduzido pelo autor de Mensagem, «é possível especular sobre o fascínio que o romance deve ter exercido sobre o poeta» (Dom Quixote, 2009, Biblioteca António Lobo Antunes, p. XV).

O texto que li, A Letra Encarnada, é uma tradução – a de Fernando Pessoa –, mas as considerações filosóficas e as analogias, que singularizam a prosa genial de Hawthorne, escapam à traição do tradutor, e mostram um autor empenhado em criar «qualquer coisa de novo em literatura» (p. 35). O «novo em literatura» significará a capacidade de contar uma história a partir da qual possamos aperfeiçoar as nossas teorias sobre a natureza humana («Escolha o leitor entre estas teorias a que lhe parecer melhor», p. 270). E o que diz acerca da ‘natureza humana’ a história de Hester Prynne, a mulher que, no meio de uma comunidade onde reinava a «tristeza puritana» (p. 241), usava um sinal – uma letra encarnada – como marca da ignomínia? Optando por uma «teoria», seria possível incluir na resposta a palavra “sinceridade”. De facto, a ‘loucura’ do padre Arthur Dimmesdale tem a ver com a incapacidade de viver na verdade, com as consequências que essa vida implica. É neste sentido que o discurso de autocrítica proferido a meio de um sermão tem um significado que os ouvintes nunca poderão entender (o padre «tinha falado verdade, transformando-a em mentira», p. 148). Por outro lado, a contrastar com um modo de vida em que o segredo e a lei moral governam as relações humanas, ganha relevo a alegria de Pearl, a ‘criança com movimentos de ave’. Pearl, na sua pureza infantil, tem uma percepção mais nítida, mais próxima da verdade das coisas, e é isso que a torna tão especial no romance de Hawthorne.

O essencial é isto (II)


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É verdade: o essencial sobre o Natal está no texto que o Pedro colocou aqui. Para além disso, com ou sem prendas (como propõe o Alberto Gonçalves na crónica que escreve na Sábado), o importante, para mim, continua a ser reunir a família que temos, aquela que marcou a nossa história de vida. É o que tenho feito. E entre o bacalhau e aquelas iguarias que não fazem bem mas sabem muito bem, nada melhor do que um poema recitado pelo meu avô, que continua a ser ‘o poeta da aldeia’. Espero que isto continue, e aproveito para desejar um excelente Natal aos meus colegas de delito e a todos os leitores que por aqui passam.

Livros


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«Há poucos traços mais antipáticos da natureza humana que esta tendência – que tenho observado em homens que não são piores que os outros – de se tornarem cruéis pela simples razão de que têm o poder para o ser.»

 

Nathaniel Hawthorne. A Letra Encarnada. Lisboa: Dom Quixote, 2009, p. 39. Tradução de Fernando Pessoa.