Livros


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Nas primeiras páginas, o poeta, aproveitando o exemplo de Santo Agostinho, que sabia o que era o tempo até começar a pensar na pergunta “o que é o tempo?”, diz que o conhecimento da poesia pode significar a impossibilidade de definir “poesia”. No entanto (ou por isso mesmo), o que Borges escreve, com a ajuda de outros que também se dedicaram ao ofício, é um modo de reagir a essa impossibilidade. O resultado é um livro extraordinário.

 

Acho que Emerson escreveu algures que uma biblioteca é uma espécie de caverna mágica cheia de mortos. E esses mortos podem renascer, podem voltar à vida quando abrimos as suas páginas.

Por falar no Bispo Berkeley […] lembro-me de que ele escreveu que o sabor da maçã não está na própria maçã – a maçã não se saboreia a si própria – nem na boca de quem a come. Requer um contacto entre as duas. O mesmo sucede a um livro ou a uma colecção de livros, a uma biblioteca. Na verdade, o que é um livro em si? Um livro é um objecto físico num mundo de objectos físicos. É um conjunto de símbolos mortos. E então chega o leitor certo e as palavras – ou melhor, a poesia por trás das palavras, pois as palavras em si são meros símbolos – saltam para a vida e temos uma ressurreição da palavra.

 

Jorge Luis Borges. Este Ofício de Poeta. Teorema, 2010.

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