Carlos do Carmo: a vida em palco


Pedro Correia,

 

Há dias, em Lisboa, Carlos do Carmo deu uma lição de palco. Pelo profissionalismo – nunca se apresenta perante nenhum auditório, seja ele qual for, sem o trabalho de casa irrepreensivelmente feito. Pelo reportório – tudo quanto cantou, como aliás é seu timbre, era de uma irrepreensível qualidade. E pelas palavras que, na dose certa, soube partilhar com quem o escutava no Pavilhão Atlântico. Um artista é também um comunicador, como bem sabe este homem que, sendo fadista há 47 anos, decidiu “cantar umas sinatradas”, segundo ele próprio confessou, fazendo o gosto à voz, como se desfolhasse um álbum de memórias íntimas. A sua primeira paixão musical foi precisamente Frank Sinatra. Aconteceu em 1952: tinha 12 anos, andava no então 3º ano do liceu Passos Manuel e ficou fascinado por uma canção de Frank Sinatra, intitulada The Tender Trap, que costumava ouvir em disco. Não descansou enquanto não a soube de cor.

“O meu professor de liceu grátis [no 3º ano] era o Frank Sinatra” , disse Carlos do Carmo nessa noite de 10 de Novembro, partilhando com o público aquela evocação dos seus dias de adolescente, quando o futuro intérprete de Strangers in the Night já era ídolo de multidões.

 

 

Fê-lo com o melhor dos enquadramentos: a lendária orquestra de Count Basie, que aos 75 anos de existência continua a levar ao mundo inteiro aquela América que bailava ao som do swing. O pavilhão encheu-se dos acordes mágicos daqueles músicos que acompanharam Carlos do Carmo – como, noutras noites, vários deles haviam acompanhado o próprio Sinatra – sem jamais haver sobreposição de parte a parte: nem a voz ocultou a mítica orquestra nem esta abafou a voz. Enquanto em palco desfilavam velhos sucessos de Sinatra, quase todos da era swing. Quinze, ao todo. Incluindo, obviamente, The Tender Trap. E ainda Come Fly With Me, Pennies From Heaven, The Shadow of Your Smile, Learning the Blues, Cheek to Cheek, My Kind of Town, I’ve got you under my skin, Make Whoopie, Fly me to the Moon, How About You, Nice n’ Easy, Something Gotta Give, You make me feel so young – tema celebrado precisamente por Sinatra com Count Basie numa inesquecível temporada do casino Sands, em Las Vegas – e The Lady is a Tramp, despedida com chave de ouro de Carlos do Carmo. Sublinhada com calorosos e bem merecidos aplausos.

“É preciso escolher bem o reportório: esta foi uma coisas que o Sinatra nos ensinou.” Palavras ainda do fadista nesta noite em que concretizou um sonho antigo, aos 70 anos, idade que já lhe permitiu aprender muito e ensinar alguma coisa. Com destaque para isto: “Ligar-se ao público é ganhar uma vida.”

Assim fez Sinatra. Assim faz Carlos do Carmo também.

 

6 comentários em “Carlos do Carmo: a vida em palco”

  1. Parece-me uma excelente escolha de Carlos do Carmo para esta fase madura de carreira, em que já pode fazer qualquer “gosto à voz” com toda a segurança e propriedade. Eu não adoro o Sinatra mas gosto muito do reportório dele, e acredito que a Count Basie Orchestra tenha tornado tudo ainda mais requintado. Não ouvi ainda, mas não me custa a crer que seja bom e de bom gosto. carlos do Carmo sabe muito bem o que faz em palco e tem uma voz muito bonita.

    1. Foi um excelente espectáculo, infelizmente com um Pavilhão Atlântico muito longe de estar cheio. A orquestra é fabulosa, o reportório escolhido por CC corresponde à melhor fase do Sinatra (essencialmente os anos 50) e o profissionalismo dele em palco, como sublinho no texto, foi irrepreensível.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *