O que ando a ler (18)


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Cruzámo-nos muitas vezes nas livrarias antes de eu o levar comigo. Houve razões para tanta hesitação. Não sei se foi uma embirração com o título, a influência de um professor que eu admiro e que não tinha grande simpatia pelo livro ou, simplesmente, por causa das minhas dúvidas a respeito de um medicamento filosófico (uma expressão que é toda uma teoria). Mesmo assim, decidi dar-lhe uma oportunidade e comecei a ler, há poucos dias, Mais Platão, Menos Prozac!, de Lou Marinoff. O livro tem como ponto de partida a ideia de que é possível encontrar nos filósofos (e em alguns romancistas) um conjunto de preceitos que nos orientem e nos ajudem a tomar decisões. Nas primeiras páginas, percebemos que o método proposto pretende roubar clientes à psicologia e à psiquiatria. Os problemas de realização pessoal podem ser – é uma ideia reiterada – resolvidos com a ajuda dos grandes filósofos. Assim, no capítulo “Utilidade dos Estudos de Filosofia”, encontramos uma síntese das principais teses de filosofia moral que surgiram no pensamento ocidental, apesar de o “Oriente” também merecer uns parágrafos. Depois desta síntese, o autor passa à demonstração da aplicação do método. Nos dois primeiros casos (foi o que li até agora), o aconselhamento visa o autoconhecimento e a formulação de soluções através da leitura, mais ou menos orientada, de frases dos grandes pensadores. Fica, no entanto, e para desilusão de quem criou algumas expectativas na primeira parte, a ideia de que a resolução dos problemas depende da utilização de uma espécie de fórmula encontrada nas leituras sugeridas. Ou seja, apesar de afirmar a importância da meditação e sublinhar que a abordagem filosófica dos problemas traz consigo a responsabilidade pessoal, o autor explica a evolução dos vários casos de estudo descrevendo de forma muito pobre o modo como cada pessoa foi capaz de relacionar o pensamento de outros com a sua vida. Ler e perceber que não é assim tão fácil.     

 

E tu, Ana Vidal, o que tens andado a ler?

“Drive”


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Há actores que brilham por estes dias. Ryan Gosling é um deles. Chamou-me a atenção em Half Nelson, e no Blue Valentine levou-me, com a extraordinária Michelle Williams, às lágrimas. Em Drive, filme que vi ontem, Gosling é um altruísta invulgar – a real hero, como o título de uma das canções da banda sonora –, embora na perspectiva de outra personagem ele seja apenas um homem que faz uma coisa estúpida: protege uma mulher casada, em vez de dormir com ela. No desempenho deste ofício protector, os gestos enigmáticos do condutor, onde vislumbramos a violência e a raiva que serão as suas armas, carregam o peso de uma vida com poucas coisas boas, com poucas coisas memoráveis. Pois: o cinema volta a estabelecer uma relação entre a condução e o desgosto da existência, o que se confirma no final, quando nada mais há a fazer senão conduzir. Adorei. 

 

  

Blogue da semana


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Professores e alunos regressam à sala de aula. Estamos em Setembro, e eu escolho como blogue da semana o A Educação do meu Umbigo. O autor diz o que pensa, acompanhando “a Educação que vamos tendo”. Veja-se o caso da autonomia das escolas para contratar professores. Há algum tempo, o tema era incluído nas críticas à acção tentacular do ME. Hoje, depois de terem sido notícia os critérios de selecção demasiado específicos adoptados por algumas escolas, percebe-se que a autonomia pode significar opacidade. Parece que precisamos sempre de uma forma de regulação, de uma autonomia controlada. Segundo um ex-ministro, a contratação directa é o que acontece nos países civilizados. Se estas coisas lhe interessam, passe por lá e forme opinião.

  

 

(de um episódio de The Wire)

Para quando um Almodóvar português?


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O João Lisboa tem vindo a fazer uma lista de casos que tornam a questão muito pertinente. Agora é uma notícia do Correio da Manhã sobre um jovem agricultor que violou uma vizinha de 87 anos. Às autoridades, disse: Vi-a a cortar batatas na cozinha e não sei o que me deu, não resisti.

Nos comentários, há quem apresente uma explicação não menos interessante: Pelo que o texto diz, esse jovem quando viu a sra de idade, ficou “fora dele”. Nem parecia “ele” e realmente não foi “ele”. Passo a explicar. Todos nós temos cenas de vidas passadas que são activadas nesta vida. 

Soluções de génio


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Há algum tempo, falei aqui deste problema: o número de cães abandonados na Serra da Arrábida estava a aumentar. Chamam-lhes animais errantes e dizem que alguns estão num estado selvagem. Há relatos de moradores assustados. Conheço algumas associações que já recolheram vários animais, e sei bem que não é possível fazer muito mais. Existem casos em que, devido à falta de espaço, os animais ficam em casotas fora das instalações da instituição. Volto agora ao tema porque, passado um ano, a situação não melhorou, e também porque li uma crónica do Manuel António Pina sobre a solução que a Câmara do Porto encontrou para o mesmo problema. Assim, fiquei a saber, depois de ler o texto, que a Câmara Municipal do Porto e o vereador Manuel Pisco (vereador da Câmara Municipal de Setúbal) estão de acordo: afinal, uma das soluções para controlar os animais errantes é matá-los à fome. Explicando: Manuel Pisco e a Câmara do Porto acham que não se deve continuar a alimentar esses animais – as pessoas que o fazem são mesmo acusadas de inconsciência -, porque isso permite a reprodução. É de génio, pois, como escreve António Pina, julga-se que é o “excesso de alimento [que] provoca o aumento das populações de animais” e não o facto de (como sucede com os vereadores, não consta que alguma vez um vereador tenha aparecido grávido depois de um banquete camarário) se reproduzirem.

‘Girlfriend’


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Girlfriend (2010), um dos grandes filmes para ver no Festroia 2011.

O folheto com o programa do festival resume a história: Evan é um jovem com Síndrome de Down. Quando recebe uma considerável quantia de dinheiro, usa-o para conquistar Candy, uma antiga colega de liceu.

Pela sua interpretação extraordinária, Evan Sneider merece toda a nossa atenção, numa obra que é mais do que um filme sobre pessoas com Síndrome de Down. É um filme de grande sensibilidade sobre o amor e a compaixão.

Contar até 8.


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Nem 8 nem 80

Tantas vezes injustamente acusado de promover o facilitismo, o GAVE parece ter levado a coisa a mal e, nos testes intermédios deste ano, desatou a exigir, não diria o impossível, mas o improvável: que os alunos saibam alguma coisa.

Mas no teste de Ciências Físico-Químicas do 9º ano terá ido longe de mais, exigindo a jovens de 15 anos que, entre outras coisas, saibam contar até 8. É certo que a prova permitia o uso de calculadora mas afigura-se um exagero supor que, ao final de 9 anos de escolaridade, os alunos já tenham aprendido a carregar 8 vezes na tecla 1 e, depois, na tecla “Total”. Se não, veja-se a pergunta de abertura do Caderno 2: “O sistema solar é constituído pelo Sol e pelos corpos celestes que orbitam à sua volta. Actualmente, considera-se que os planetas que fazem parte do sistema solar são Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno. Em 2006, Plutão deixou de ser classificado como um planeta, embora continue a fazer parte do sistema solar. [Pergunta] Actualmente, considera-se que o sistema solar é constituído por quantos planetas?

Manuel António Pina (o resto aqui)

 

Quando estava a vigiar a prova, tive de reler a questão. Felizmente, na sala ouviu-se o comentário: há aqui uma pergunta bué estúpida.

O debate e a cassete


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Passos Coelho ganhou o debate de ontem. O lado surpreendente disto, eu não o explico com as virtudes que atribuo a um bom discurso político, virtudes como a argumentação coerente e a clareza. Passos Coelho, tendo sido eficaz na enumeração dos factos que os argumentos do adversário pretendiam negar, ganhou porque já todos sabíamos como Sócrates iria responder às acusações. Não houve nada de novo. Todos conhecemos de cor a narrativa que inclui a crise internacional, o mau momento para o chumbo do PEC, a falta de responsabilidade atribuída aos outros partidos e o comovente eu dei o meu melhor. Por outro lado, não deixa de ser estranho que, neste e noutros debates, o líder do PSD mostrasse alguma dificuldade em defender certos pontos do seu programa. Fica a sensação de que Passos Coelho está desconfortável quando lhe é exigido que entre na discussão ideológica. É pena.

As histórias e as imagens


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No programa Hora de Fecho (RTPN) de ontem, falou-se de pessoas que “escrevem histórias com imagens”. As fotografias de Nelson d’Aires, vencedor do principal galardão do Prémio de Fotojornalismo Estação Imagem/Mora, contam uma história, a do Leandro, que importa não esquecer. Aconteceu em Março de 2010.

 

 

 

Os trabalhos premiados podem ser vistos aqui. É um país em imagens.

O povo, pá, não vai ao Facebook


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De acordo com o mesmo estudo, os portugueses também não estão impressionados com a actuação do Presidente da República, Cavaco Silva. 85,9% defende que o chefe de estado devia ter sido «mais activo ao longo da crise» e 44,1% diz mesmo que este tem «muita responsabilidade na situação» que o país vive. (ler o resto aqui)

Blogue da semana


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Nas últimas semanas, mesmo os mais cépticos têm tido razões de sobra para acreditar que em Portugal os acontecimentos políticos escapam a um entendimento racional. Na pastelaria, diz-se que o país é uma anedota. As próximas eleições podem comprovar a tese: se o PS não for fortemente penalizado, ficamos a saber que para muitos eleitores não interessa a responsabilidade – e a culpa – de quem nos conduziu a esta situação. Sim, podemos discutir as causas da crise política e o papel da oposição em todo o processo, mas é inquestionável que a governação socialista não alterou o rumo que o país estava a tomar. A prová-lo estão os factos e os problemas que o Álvaro Santos Pereira tem enumerado no “Desmitos”, o blogue que eu escolho esta semana.

Poesia


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Um filme belíssimo sobre a memória, a doença, a beleza, o bem e o mal, e a possibilidade de encontrar em tudo isto a melhor lição de poesia. Venceu o prémio de melhor argumento na edição de 2010 do Festival de Cannes.

Soluções


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A manifestação de ontem, que serviu para reivindicar coisas diferentes mas para exprimir o mesmo desencanto, parece ter mostrado, como o Paulo já aqui disse, que a “geração à rasca” prefere trabalhar por conta de outrem a criar o seu próprio negócio. Se acreditarmos que o grupo de pessoas entrevistadas constitui uma amostra razoável, assim é. Muito provavelmente, a grande maioria dos cursos dos licenciados que exprimiram ontem o seu desagrado visa um mercado de trabalho que se tem vindo a esgotar. Não há mal nenhum no facto de se ter escolhido um curso sem pensar no negócio; o que existe é um problema no momento em que se percebe que “não há perspectivas”. A ilegalidade da situação de alguns trabalhadores precários é um problema sério, mas mais importante é a questão de saber como se cria emprego. Penso que esta é a questão essencial. Tudo indica que o PSD irá chegar ao poder dentro de pouco tempo. Mais do que “compreender” quem está descontente, um partido com responsabilidade deve pensar em soluções concretas – soluções políticas. E cumprir a promessa de falar verdade.

“Caça aos pombos”


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O jornal Expresso oferece esta semana o livro Fernando Pessoa – Ensaio Interpretativo da sua Vida e da sua Obra, de João Gaspar Simões. Não é o monumental Vida e Obra, com quase 700 páginas, mas apresenta a mesma tese freudiana. A propósito disto, lembrei-me de um texto sobre Fernando Pessoa e Ofélia Queirós que li há pouco tempo. Procurando questionar uma certa interpretação (que começou com Gaspar Simões) do namoro, a autora, Anna M. Klobucka, comenta a carta em que Pessoa escreve ao seu ‘bebé’: «Sabes? Estou-te escrevendo mas não estou pensando em ti. Estou pensando nas saudades que tenho do tempo da caça aos pombos, e isto é uma coisa, como tu sabes, com que tu não tens nada…». Enquanto outros exegetas da obra de Pessoa tinham lido nestas palavras a repetição da nostalgia da infância, e encontrado na carta mais uma prova da negatividade da relação entre os namorados, o ensaio mostra, pelo confronto com as cartas de Ofélia, que os «pombos» eram, exactamente, o peito dela.

 

O ensaio de Anna M. Klobucka, “Finalmente Juntos”, está incluído em O Corpo em Pessoa: Corporalidade, Género, Sexualidade (Assírio & Alvim, 2010).

Livros


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É um livro que eu gostava de ler. Segundo a apresentação que encontramos na página da Almedina, o argumento de Amartya Sen parte da ideia de que não precisamos, para fundamentar uma teoria sobre a justiça, de um modelo de organização social ‘perfeitamente justo’.