A manifestação de ontem, que serviu para reivindicar coisas diferentes mas para exprimir o mesmo desencanto, parece ter mostrado, como o Paulo já aqui disse, que a “geração à rasca” prefere trabalhar por conta de outrem a criar o seu próprio negócio. Se acreditarmos que o grupo de pessoas entrevistadas constitui uma amostra razoável, assim é. Muito provavelmente, a grande maioria dos cursos dos licenciados que exprimiram ontem o seu desagrado visa um mercado de trabalho que se tem vindo a esgotar. Não há mal nenhum no facto de se ter escolhido um curso sem pensar no negócio; o que existe é um problema no momento em que se percebe que “não há perspectivas”. A ilegalidade da situação de alguns trabalhadores precários é um problema sério, mas mais importante é a questão de saber como se cria emprego. Penso que esta é a questão essencial. Tudo indica que o PSD irá chegar ao poder dentro de pouco tempo. Mais do que “compreender” quem está descontente, um partido com responsabilidade deve pensar em soluções concretas – soluções políticas. E cumprir a promessa de falar verdade.
Soluções
discutindoopinioes,

Criar emprego é essencial. Mas penso que, em Portugal, como já escrevi no meu blogue, existe “um problema poucas vezes mencionado, ainda e sempre subestimado, mas que não deixará de causar dissabores enquanto persistir. Em Portugal, não se aprendem profissões (…) uma falha no sistema educativo, que é igualmente responsável pela desmotivação de muitos estudantes que desistem do liceu a meio, ou empurra outros para cursos superiores por falta de alternativas, correndo o risco de não arranjarem um emprego condizente.”
Permita-me deixar o link para esse post: 10/12/casa-pobre-da-europa.html
http://andancasmedievais.blogspot.com/20
Enquanto não existir, em Portugal, um ensino vocacionado para o mercado de trabalho (onde se formassem técnicos, mecânicos, etc. competentes) e, em vez disso, se criarem os mais diversos cursos superiores, sem calcular o impacto que terão na sociedade, este problema persistirá.
O ensino de profissões poderia também motivar a iniciativa privada. Quantas vezes é preciso um bom pintor (de paredes, que faça bons trabalhos de renovação), um bom electricista, um bom canalizador, e não se encontra?
Concordo inteiramente consigo, Cristina. Vou agora ler o seu post.
Infelizmente, penso que isso só não chegaria porque estou convencida de que existe por detrás disto um problema cultural, velho de décadas senão de séculos : uma enorme falta de respeito pelo trabalho manual, ou um excessivo respeito por quem dele escapa (ia a dizer “um excessivo respeito pelo trabalho intelectual”, mas nem sequer, porque quem vive de rendas ou de expedientes também parece ser considerado de uma classe superior aos trabalhadores honrados mas manuais…)
Sem dúvida, Isabel. Eu também não acho que o investimento, por si só, no ensino profissional chegaria, mas penso que seria uma boa ajuda. Claro que demoraria anos, até se sentirem resultados.
Mas concordo consigo, quando fala na “falta de respeito pelo trabalho manual”, sim. Aliás, talvez, uma consequência por esses trabalhos não exigirem cursos, com exames, não há uma cultura de respeito por um electricista, um mecânico, um carpinteiro, ou um trabalhador da construção civil, por exemplo. E, no entanto, são trabalhos especializados.
Fiquei surpreendido e maravilhado com aquilo que se passou ontem. Concordo com algumas das ideias mas, se não existe mercado para quê investir em projectos pessoais sem futuro! Não conseguimos competir com mercados onde as pessoas ganham 100 euros por mês e os chefes de secção ganham 173 euros por mês. Esta coisa da Europa que, tão bem nos fez nas décadas de 80 e 90, hoje tem que tomar medidas contra esses produtores. Resta saber se as pessoas estão dispostas a pagar mais por produtos que hoje são muito baratos. Deixo-vos com a letra dos Elbow Leaders of the Free World, editado em 2005:
“Estou farto de trabalhar para sobreviver
Estou apenas a contar os dias até morrer
…….
Perisocópio em cima
Estou à procura de uma escada
Preciso de ver o meu COMANDANTE
E lembrar-lhe o que se está a passar comigo
…….
Mas os Líderes deste Mundo
São apenas rapazes que nos atiram pedras
É fácil ignorá-los mas eles batem à nossa porta.
Muito obrigado e adoro o meu país.
Numa manifestação multi-geracional…
São gerações tão descontentes
que protestaram livremente
contra imposturas patentes
de um governo mui demente.
Deste regime esgotado
após décadas tresmalhadas
brota um povo agastado
de políticas farfalhadas.
ha muitas empresas que não tÊm condições para aceitar estagiarios e mesmo assim aceitam.
Depois os ditos estagiarios têm de fazer tudo o que lhes mandam porque não têm para onde ir…
devia haver mais fiscalizaçao neste aspecto.
parece que voltamos ao passado em que se discutia condições de trabalho.
É pena que no Portugal do seculo XXI ainda se fale nisto
por outro lado, deve haver mais incentivo e programas para que os jovens possam criar o seu próprio negócio…
existem muitos casos de sucesso neste país.
agora o que não pode haver é falta de vontade dos mais novos…
“deve haver mais incentivo e programas para que os jovens possam criar o seu próprio negócio”. Como o Francisco refere, nem sempre existe essa vontade, esse espírito empreendedor. Ouvi ontem num programa de análise política que tinha sido feito um inquérito aos finalistas de um curso de economia (penso que foi na Universidade Católica, mas não tenho a certeza) e as conclusões foram claras: só uma pequena percentagem dos alunos pensava em criar o seu próprio negócio. E tratava-se de um curso de economia…
Ana Sofia Couto
é verdade que ainda somos pouco empreendedores, mas nós estamos a melhorar nesse aspecto.
mas o problema tambem está na forma como o Ensino está organizado. É só cursos livrescos : economia, gestão, direito, comunicaçao social…..
e estamos com UNiversidades a mais e excessos de cursos.
Não sei se é na Alemanha, mas desde logo ainda antes dos 18 é feita a triagem de pessoas que querem ir pra cursos profissionais ou mais literários.
Em Portugal devia haver essa opção e as próprias UNiversidades deveriam ser acolher tambem pessoas que optassem por outro tipo de profissões e não fossem santuários de livros e médias.
É nessa area que se deve mudar……
mas o espirito empreendedor tem de estar dentro de nós
É precisamente na Alemanha, Francisco, que um carpinteiro, um electricista, ou um mecânico tem que frequentar um curso de dois ou três anos, ao fim do qual faz exames e recebe o seu título de “Meister” (Mestre). São profissionais muito orgulhosos das suas habilitações e sentem-se vocacionados para criarem a própria firma/oficina. É a tal “cultura do respeito pelo trabalho manual”, de que se fala uns comentários mais acima 😉
O emprego cria-se e as pessoas empregam-se.
A ideia de que primeiro é preciso criar uma espécie de pool de trabalhadores qualificados para depois, a partir daí, os empresários recrutarem é um exemplo típico da falida economia da oferta “supply side economics”, que infelizmente ainda infecta demasiada gente com responsabilidade.
O motor da economia é a procura e não a oferta. As pessoas procuram bens ou serviços (porque têm os meios para os adquirir), os empreeendedores detectam essas oportunidades e reagem à procura criando os seus negócios.
Enquanto a aposta for na depressão e na austeridade em função de “mercados” insaciáveis, não haverá criação de emprego. Penso eu de que,
A criação de trabalhadores qualificados podia ajudar, na medida em que esses trabalhadores se sentiriam vocacionados para formar o seu próprio negócio, tornando-se empreendedores e criando postos de trabalho.
Falar verdade em política?! Pois…
Essa de ser empreendedor em Portugal dá vontade de rir!
Até as empresas estrangeiras fogem do nosso país!
Num país onde nem sequer há dinheiro para comprar um tinteiro para imprimir uma sentença num tribunal, enquanto outros se refastelam com prémios de produtividade de 3 milhões de euros e com robalos… onde é que há condições para ser empreendedor?!?
Num país onde os serviços públicos não funcionam, seja porque não tem condições, seja porque faltam meios humanos qualificados e remunerados condignamente, como é que a iniciativa privada pode vingar?!?
Acorde para a vida amigo!
Tem toda a razão, criar emprego é “uma” questão, mas não a única.
Antes de mais, se todo este movimento se ficar por uma manifestação geracional, é uma pena porque os problemas são transversais e há muita gente aflita, insatisfeita e com legitimas aspirações.
Teremos que aumentar a produtividade? sem dúvida.
Se isso acontecer, como se irá dividir essa produtividade? aí é a mesma questão de sempre, e quanto a isso já sabemos.
Apesar de toda esta movimentação, não se vê discutir a injustiça, a desigualdade a falta de confiança das pessoas umas nas outras.
Um empregado não acredita no patrão porque sabe que ele apenas o quer explorar. Quantas empresas poderiam pagar melhor aos seus empregados e porque não o fazem?
Porque têm as pessoas medo de uma maior liberalização do mercado de trabalho? Porque sabem que não vão ter a mesma sorte que os desempregados na Dinamarca ou na Noruega.
Porque se dão bem os Portugueses noutros pontos do Mundo, no Luxemburgo, na Suiça, nos EUA, entre outros? Porque vêem o resultado do seu esforço recompensado.
Aqui vivemos desconfiados uns dos outros, eis o principal problema de Portugal! Com este problema resolvido teríamos melhor produção, melhores ordenados, melhores empresários e melhores políticos.
Uma sociedade vive de CONFIANÇA, vamos por esta questão na ordem do dia.
Sim, os empresários portugueses não sabem motivar os trabalhadores, exigem muito por pouco dinheiro, não recompensam, quando devem.
Cristina, voltamos ao problema de sempre. Apenas 5% dos empresários portugueses têm qualificações. E estamos diante de uma geração altamente qualificada. E sem grande futuro, pelo menos em Portugal.
Por ter voltado há pouco para Portugal e estar a fazer obras numa casa “por administração directa” como se costuma dizer, tenho tido ultimamente bastante contacto com vários profissionais de pequenas e médias empresas, uns patrões outros empregados. E estou a chegar à conclusão de que há uma diferença geracional enorme entre os tais empresários pouco qualificados, que começaram a trabalhar aos 12 ou 13 anos e se atiraram para a frente (provavelmente por não terem outra alternativa) e têm sido invariavelmente responsáveis, cumpridores, verdadeiramente empenhados no seu trabalho e vários empregados na casa dos 30, cujas habilitações desconheço mas com uma falta de profissionalismo que até dói Não sei posso ou devo extrapolar a partir desta minha experiência, mas o facto é que tenho também ouvido muitos comentários sobre a dificuldade em arranjar pessoal (para trabalhar em empresas de energias renováveis, por exemplo).
Por outro lado, cheguei também à infeliz conclusão de que, se precisar de alguém para me fazer qualquer coisa, é entre as pessoas empregadas que vou procurar e não entre as pessoas desempregadas.
Como é que se sai daqui, não faço a mais pequena ideia.
Isabel, o seu comentário lembrou-me uma crónica do Alberto Gonçalves na “Sábado” há algum tempo. Era sobre a verdadeira odisseia que é encontrar empresários responsáveis e cumpridores que tratem das obras de uma casa. A generalização é o que o nome indica (nunca nos dá a “realidade”), mas eu também já passei dois meses à espera de um orçamento…
Uma mudança cultural não acontece de repente e a habitual falta de empreendedorismo foi-nos marcada primeiro, pela noção pós-revolução de que o Estado serve para nos proteger de qualquer adversidade, segundo, pela inexistência de uma prática escolar que fomente a iniciativa, a criatividade e o risco. Nascemos nessa cultura e é difícil mudar apenas porque sim. Depois, imaginemos que alguém quer montar um negócio quando sai da Universidade. Como o vai financiar e quem vai partilhar o risco? Como vai ultrapassar todos os obstáculos criados pelo Estado e pela sua burocracia emperrante (mesmo com simplexes e afins…)? Não se consegue virar um transatlântico com um estalar de dedos, caso contrário o Titanic ainda estaria para aí a navegar…
É preciso reformular muita coisa na educação para mudarmos esta cultura subsídio-dependente e talvez daqui a uns 10 anos possamos dizer que mudámos colectivamente. Para já resta-nos enfrentar estes choques com suor e lágrimas enquanto fazemos o caminho das pedras.
CB, como escrevi ali na resposta ao Francisco, penso que também existe essa falta de empreendedorismo, como diz, e que os que pretendem criar alguma coisa se vêem confrontados com imensos problemas. Porém, como referi no post, esse não é “o” problema. Há um problema real de desemprego, e de incapacidade da nossa economia para o gerar, o que pode deixar uma geração “sem perspectivas”, ou seja, mesmo “à rasca”.
Ana Sofia, em relação ao comentário que deixou no meu blogue:
O sistema escolar/educativo na Alemanha é de facto muito diferente, a tradição das “profissões” e do “ensino profissional” é muito antiga (pode-se mesmo dizer que é medieval) e está perfeitamente englobada em todo o sistema. Em Portugal, seria necessária uma grande reforma, que demoraria vários anos a dar os seus frutos. Mas nalgum ponto se tem de começar…
No nosso país, falta a “cultura de respeito pelo trabalho manual”, como disse a IsabelPS e que, entretanto, referi nos meus outros comentários.