Começar mal o dia


discutindoopinioes,

 

Domingo de manhã. Saio no carro e vou até à praia. Já não faço isto há algum tempo. Há sol e a temperatura engana. Parece mesmo que vamos ter um dia de Primavera. Chego ao Portinho da Arrábida para não fazer grande coisa: tomar um café, ler o jornal e ficar a olhar para o mar. Mas os planos alteram-se quando vejo a areia. A praia está diferente. Uns estão deitados, outros correm, quase felizes: estão ali, mais ou menos, quinze cães. Um está bastante magro, os outros aguentam-se. Não sei há quanto tempo estão ali. Parecem (é a única personificação que me ocorre) acomodados. Começo a sentir-me muito mal. Ligo para uma associação que conheço, mas percebo que não podem resolver a situação. Não sei como explicar aquilo. Estão para ali, abandonados na praia. Muito perto, um pai e um filho jogam à bola. E uma mulher pede ao menino que não se aproxime porque os cães «podem morder e ter pulgas». Meto-me no carro e volto à cidade. É o que se chama um triste domingo.

“A nossa percepção é tudo o que existe?”


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A pergunta surge no filme. E o filme é também sobre isso: sobre percepção e realidade. A grande dúvida do protagonista poderia, aliás, ser explicada com o título de um livro: a realidade é real? Filme de culto do terror científico, passou ontem (corrijo: hoje, porque ainda é domingo) no Estoril Film Festival. Refiro-me a Videodrome, obra de David Cronenberg. Enquanto escrevo, lembro-me do momento em que se fala de catarse como possibilidade de cura pela ficção, e a observação de alguém que diz que isso não passa de um conjunto de ‘ideias superficiais’. Como se Cronenberg pretendesse fazer justamente isto: questionar ideias feitas sobre o modo como os seres humanos reagem a certas coisas. Ao cinema, por exemplo.

“Olhos verdes”


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Não deixa de ser estranho: gosto muito de um livro que ainda não li. O livro tem quase duzentas páginas, e eu ainda só li dez. Falo de Olhos Verdes, de Luísa Costa Gomes. Eu, que sempre achei parva a ideia de não se ter tempo para ler, ando a aprender que há alturas na vida em que não há mesmo tempo para ler, para ler aquilo que queremos, bons ou maus livros. São épocas de muito trabalho, em que é preciso ler coisas com uma finalidade específica, para certos fins. No final do dia, o cansaço acumula-se, desafia a nossa curiosidade e vence-a. Nada a fazer. Sentimos saudades de épocas em que vamos à estante e escolhemos qualquer coisa, ou saímos e voltamos com livros novos na mala.

Olhos Verdes fala de pessoas que se definem pelo mistério. Releio na segunda página: «Talvez se espere demais das pessoas muito bonitas. Afinal, o mistério é delas». Está na colecção Mil Folhas, do Público.

Blogue da semana


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Há um filme belíssimo de Woody Allen em que uma personagem faz uma lista de coisas que tornam a nossa vida um bocadinho melhor, ou mais bonita. O blogue "A Dignidade da Diferença" dá destaque a coisas que poderíamos, sem grande hesitação, incluir numa lista semelhante. Da música – o último post é sobre a recente «obra-prima» de Cecilia Bartoli – aos livros, tudo boas escolhas. 

Leituras


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«Uma coisa que aprendi no último ano da vida de Brenin é que os lobos, e já agora os cães, conseguem passar no teste existencialista de Nietzsche de uma maneira que os humanos raramente conseguem. Um humano teria dito: "Outra vez a mesma volta? Nãooo! Não podíamos ir a um sítio diferente? Estou farto da praia. E não compres mais pains ou chocolat – já não os posso ver à minha frente." E por aí adiante. Ora fascinados, ora repelidos pela seta do tempo, a nossa repulsa leva-nos a procurar a felicidade no que é novo e diferente, num qualquer desvio da seta do tempo. Mas o nosso fascínio significa que qualquer desvio da linha da seta cria simplesmente uma nova linha, e a nossa felicidade exige agora que nos desviemos também. A busca humana da felicidade é por conseguinte regressiva e vã. E no final de cada linha está apenas o nunca mais. Nunca mais sentir o sol na cara. Nunca mais ver o sorriso nos lábios de quem amamos ou o pestanejar dos seus olhos. O conceito que temos da nossa vida e o significado dessa vida estão organizados em torno da ideia de perda»

 

Mark Rowlands. O Filósofo e o Lobo. O que a Selva nos pode ensinar sobre o Amor, a Morte e a Felicidade. Lua de Papel, Setembro de 2009, p. 199.

Vasco Pulido Valente sobre “meia dúzia de patetices”


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«Saramago não disse mais do que se dizia nas folhas anticlericais do século XIX ou nas tabernas republicanas no tempo de Afonso Costa. São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto, zangado com os padres por razões de política e de inveja. Já não vêm a propósito.»

 

Vasco Pulido Valente, "Uma farsa". Público.  23.10. 2009

É imaginação minha…


discutindoopinioes,

ou nunca se ouviu falar tanto de harakiri desde que o Presidente da República resolveu falar aos portugueses sobre as suas interpretações pessoais? Há dois dias, na Sic Notícias, ouvi dizer  – a um economista, creio – que certas decisões políticas seriam o mesmo que um harakiri…