Começar mal o dia


discutindoopinioes,

 

Domingo de manhã. Saio no carro e vou até à praia. Já não faço isto há algum tempo. Há sol e a temperatura engana. Parece mesmo que vamos ter um dia de Primavera. Chego ao Portinho da Arrábida para não fazer grande coisa: tomar um café, ler o jornal e ficar a olhar para o mar. Mas os planos alteram-se quando vejo a areia. A praia está diferente. Uns estão deitados, outros correm, quase felizes: estão ali, mais ou menos, quinze cães. Um está bastante magro, os outros aguentam-se. Não sei há quanto tempo estão ali. Parecem (é a única personificação que me ocorre) acomodados. Começo a sentir-me muito mal. Ligo para uma associação que conheço, mas percebo que não podem resolver a situação. Não sei como explicar aquilo. Estão para ali, abandonados na praia. Muito perto, um pai e um filho jogam à bola. E uma mulher pede ao menino que não se aproxime porque os cães «podem morder e ter pulgas». Meto-me no carro e volto à cidade. É o que se chama um triste domingo.

9 comentários em “Começar mal o dia”

    1. Boa noite
      Estima-se haver em Portugal cerca de 1 milhão de animais abandonados e estes números não vão diminuir enquanto não houver leis mais robustas, mais fiscalização e sobretudo coimas pesadíssimas. O povo português não vai lá com campanhas de sensibilização, nem apelos ao coração ou ao civismo.
      Mas, não são só as boxes das associações que estão superlotadas, as casas das pessoas que não conseguem virar a cara para o lado diante de situações destas também estão a rebentar pelas costuras. E, isso é uma coisa que me indigna muito, enquanto uns abandonam os seus animais e se livram deles como de um objecto, outros vão ficando cada vez mais sobrecarregados de animais, despesas e trabalho. Quem lida com esta realidade todos os dias anda sempre com uma lágrima num olho e a revolta no outro!
      Obrigada por falar nesta realidade que as pessoas fingem não existir.

      1. Muito bem lembrado Zoe…campanhas de sensibilização funcionam, pelo menos aqui em terras brasileiras. Aqui a relação do homem com seu cão é bem arraigada aos costumes. Estão na literatura como a cadela “Baleia” , em “Vidas Secas” de Guimarães Rosa e estão também nas novelas como O Cravo e Rosa, Mulheres Apaixonadas, Pé na Jaca e a Favorita. Os cães já fazem parte do imaginário coletivo de um lar feliz.Embora ainda tenhamos muito abandonados, proporcionalmente, são bem menos do que aí.

        1. viva Turmalina ,
          O abandono de animais encontrou agora na crise financeira que vivemos uma boa desculpa, porém, muito antes de ela surgir, tudo servia para deixar os animais na rua, na estrada, onde calhasse: férias, mudança de residência, gravidezes , divórcios, morte dos donos, doença e internamento dos donos, roer e estragar móveis, fazer as necessidades em casa, ladrar, mudanças de sofás, negligência, incúria…
          Um dia destes vou desenvolver o tema.
          beijinhos
          zoe
          P.S. Vou ver se encontro aqui Guimarães Rosa para conhecer a cadela Baleia

        2. Zoe e Turmalina, isto é muito bonito: «Os cães já fazem parte do imaginário coletivo de um lar feliz.» Por cá, infelizmente, a realidade continua a ser outra, porque a diferença entre um animal e uma coisa que não se quer mais é pequena.
          Ah, Guimarães Rosa… Tive umas aulas extraordinárias sobre esse autor brasileiro. O professor era o Abel Barros Batista. Guimarães Rosa trata a linguagem com muita ternura; é muito “doce” a forma como descreve as coisas.

          1. Ana…é mesmo uma pena que aí não seja como aqui.
            Outro dia, em São Paulo, o fechamento de um restaurante chinês que servia carne de cachorro provocou uma comoção nacional. A notícia foi exibida em todos os telejornais e a população foi ferozmente em defesa dos animais, mesmo sendo para os chineses uma questão cultural ingerir carne da cachorros.Eu até escrevi um pequeno post sobre o assunto.
            Fico feliz que tenha tido aulas, e extraordinárias , sobre Guimarães Rosa. Em contato com blogs de autoria portuguesa tenho constatado que vocês são bem conhecedores da nossa literatura, mas infelizmente a recíproca não é verdadeira. Aqui chega muito pouco e a divulgação é quase inexistente. Faz meses que tenho pensado em comprar uns livros portugueses para começar este processo de conhecimento.Só não sei ainda por onde começar!
            Aceito sugestões.

          2. Turmalina, sugiro, para começar, “O Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa. É uma compilação de pensamentos (o livro é um conjunto de fragmentos que Pessoa escreveu ao longo da vida).

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