A propósito de “Um Profeta”


discutindoopinioes,

Fui ontem ver Um Profeta, um filme de Jacques Audiard. A história – «uma história de aprendizagem», como diz o Luís Miguel Oliveira – gira à volta de Malik El Djebena, um ‘árabe, analfabeto, de aparência frágil e desprotegida’, que é condenado a seis anos de prisão. Mas a razão por que escrevo este pequeno texto não é o filme, propriamente dito. A razão prende-se com uma questão em que pensei num momento do filme: o momento em que Malik entra na prisão – uma prisão francesa – e lhe é feito um interrogatório. O guarda que o interroga pergunta, entre outras coisas, se Malik pode comer carne de porco. O objectivo do interrogatório é perceber se o prisioneiro é praticante de alguma religião, e se o seu modo de vida é determinado por essa prática (por exemplo, nas restrições alimentares). Ora, o que eu pensei, ao ouvir o interrogatório, é que a humanidade pode ser um pouco melhor do que imaginam pessoas como o físico da mais recente comédia de Woody Allen. Apesar de todos os nossos defeitos, aceitamos que "prender" não é sinónimo de "privar alguém de toda a liberdade".

3 comentários em “A propósito de “Um Profeta””

      1. Excelentes diálogos, que fazem lembrar o Woody Allen da primeira década – tal como a situação do indivíduo que faz tudo para se suicidar e nunca consegue. É um burlesco que deriva, em última análise, das fitas de Buster Keaton e dos Irmãos Marx.
        Vim a saber, já depois de ver o filme, que ‘Tudo Pode Dar Certo’ foi escrito ainda na década de 70, o que ajuda a explicar a sua capacidade de atracção. Há ali uma frescura que não vemos na grande maioria dos posteriores filmes de WA. Também achei divertidíssimo ver Larry David (que não conhecia) encarnando WA – como Kenneth Branagh já havia feito em ‘Celebridades’, a meu ver de forma muito mais afectada e com menor sucesso. Mas não encarna um WA qualquer: encarna precisamente o Woody Allen dos anos 70, igualmente problemático mas menos sombrio do que o actual. E a diferença percebe-se bem.

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