Com esta é que vos lixei


Rui Rocha,

No princípio, parecia fácil. De um subsídio repartido e posto à disposição dos trabalhadores em doze prestações de igual valor e com periodicidade mensal diz-se que é pago em duodécimos, certo? Depois, a coisa complicou-se um nadinha. Se de um subsídio repartido em doze vezes se diz que é pago em duodécimos, o que é que se diz de meio subsídio pago em doze vezes? Vamos, que a descrição da coisa já implicava um nível de raciocínio matemático abstracto que não se encontra na bancada parlamentar do PS e uma proficiência na utilização da língua que não está ao alcance do próprio secretário-geral do  PSD. Agora, aqui chegados, digam-me lá como é que se traduz com rigor matemático e em português escorreito o exercício de dividir meio subsídio em doze partes iguais e de o pagar em onze meses? Vá, digam lá…

Crowfunding é no BES


Rui Rocha,

 

Um dos meus passatempos  favoritos é visitar  o site do BES. Call me nuts, mas gosto de me manter informado sobre o modo como a famíla investe o dinheiro que o Estado me vai extorquindo para pagar as PPP e outras cavalarias do género. Ontem, reparei no banner ali mais acima. Primeiro, deixei-me levar pelo entusiasmo. Cá está, pensei. O BES está no bom caminho: apropria-se dos nossos impostos mas utiliza-o de forma meritória para dinamizar redes de financiamento de pequenas iniciativas e negócios. Só depois reparei que o que está em causa não é Crowdfunding, mas Crowfunding. Não se trata, portanto, de promover o empreendedorismo, mas de coisa bem diferente. Ou me engano muito, ou o que se pretende é projectar a imagem de Ricardo Salgado e do próprio banco, recorrendo à simbologia do corvo. Se virmos bem, faz todo o sentido. Sobretudo se pensarmos que este representante da Ordem dos Passeriformes possui ampla distribuição geográfica (isto é, está em todo o lado, tal como o próprio espírito santo), manifesta preferência por pequenos invertebrados e apresenta hábitos necrófagos.

Um novo futuro que o futuro velho já está um bocado desgastado


Rui Rocha,

O André Couto já trouxe aqui a inesquecível intervenção que José Matos Rosa cometeu em comentário à mensagem de Ano Novo de Vossa Excelência, o Presidente da República. Como o DELITO DE OPINIÃO é um blogue pluralista, é imperioso que também se registe para a posteridade o momento em que o porta-voz do PS, João Ribeiro, reagiu às mesmas palavras do mais alto magistrado da Nação envergando um não menos memorável casaquinho àphosgasse:

 

Frei Tomás e tal e coiso


Rui Rocha,

Noss céuss azzuladoss, oss passsarinhosss sssilreiam:

 

Falando aos jornalissstasss momentosss antesss do iníssio dass celebrassõesss da peregrinassão aniversssária de Maio – marcadasss ontem à noite pela Procisssão dasss Velasss – , D. António Marto defendeu “uma reflexão atenta” zzobre “asss regrassss da finanassa e da economia, e sobre o modo de fazer das emprezsasss, sobre a intervensssão das inzztituisssões a favor de quem está em dificuldade por causa da crizze”. Segundo o bissspo diozzezzano esssta crizze “pôsss em evidência como no trabalho emprezzarial é abzzolutamente nezzesssário a referênsssia ao fundamento ético” e aproveitou para deixar um recado aos emprezzáriossss: “um trabalhador não é zzimplezzmente uma dasss muitasss componentesss da emprezza. É uma pezzoa com expectativasss, zzonhosss e projectosss que vão para além do tempo pazzado no trabalho”.

 

Entretanto, na Renasssensssa, oss céuss parezzem não ezztar para pardaiss:


A administrasssão do grupo Renasssensssa anunzziou hoje aos trabalhadoresss a abertura de um programa de rezzizzões por mútuo acordo, o qual ezztará em vigor até 24 de janeiro, dizze hoje à Luzza um dos administradoresss da emprezza. Além do programa de rezzizzões voluntáriasss, a administrazzão dezzidiu que vai reessstruturar a política de remunerazzõesss, a qual vai ser ezztudada durante essste ano “dentro das pozzibilidadesss legalmente conzzentidasss” e que “promova uma reduzzão de cussstosss”.


Rui Rocha,

Há, mãe, nas manhãs da minha infância, um quarto em Silvalde. Era 1977 e o Verão passava-se, como sempre nas paragens atlânticas de mar, nevoeiro e nortada, de cobertor. Em anos anteriores, quando vínhamos de Angola, em Agosto, o meu quarto em Silvalde era o vosso, no andar de cima. Para lá chegar, lembras-te mãe, era preciso passar pelo quarto de provas da alfaiataria do avô Adriano. A alfaiataria era um território de perigos. A máquina de costura onde se dizia que o Augusto tinha deixado cravado um dedo. As agulhas com que o próprio Augusto e o Cruz furavam o ar em velocidades vertiginosas, num tempo que tudo era tão lento como o pedalar do Cubatinha que vinha, duas vezes por dia, buscar à mercearia dos avós, rebuçados do Dr. Bayard. O ferro a carvão sempre em brasa, numa das mãos do avô, que com a outra ia atirando, com pequenos farrapos, gotas de água sobre as fazendas já cortadas, marcadas a giz, cosidas, que eram agora um fato que algum cliente do Porto viria buscar ao final da tarde. Mas nada, nada, prometia tantos perigos como o quarto de provas. Os manequins permaneciam inanimados quando por lá passava, rumo ao quarto de cima, pela tua mão. Já quando me calhava subir sozinho, havia sempre uma corrente de ar que os abanava, um raio de luz filtrado pela clarabóia que lhes iluminava a face, um silvo de vento que lhes punha um murmúrio lúgubre nos lábios. Nas idas ao quarto de cima já depois do sol posto, prevenia-me. Podia, é claro, acender a luz das escadas e enfrentar o que o quarto de provas me reservasse: um manequim a dançar tresloucado, uns braços animados em direcção a mim, um olhar desvairado. Em vez disso, mantinha a luz apagada. Para não os acordar. Degrau atrás de degrau, subia em silêncio, encostado à parede, em peúgas compradas na feira de Espinho e cautelas. E se é verdade que eles nunca me apanharam, o certo é que lhes senti o bafo quente e avinagrado antes de lhes fechar a porta do quarto de cima na cara, se é que a tinham. Ocupar o quarto de baixo foi motivo de tremendo orgulho. Já és um homenzinho, disseste-me. E de não menos alívio. A verdade, mãe, é que não era ainda homenzinho o suficiente para enfrentar os manequins sem  ti. Lembras-te, mãe? Nesse Verão de 1977, as tardes passava-as no quintal, em jogos imaginários de futebol invencível. Ou pendurado na roda enorme que tirava a água do poço. Viste como a roda nunca me bateu no queixo, mãe? Ou a dar banhos e gemadas ao inseparável Preto, o rafeiro fiel e amigo que, por vezes, era também o meu cavalo. Ou sentado na soleira da porta, com o Norberto, a contar os carros que passavam na estrada cento e nove na direcção de Aveiro. Ou com o Monteiro a sulfatar as macieiras. Ou encavalitado num mocho, na mercearia, a ver o Oliveira e o Pescadinha a ganharem à sueca enquanto se perdiam no vinho. As manhãs não. Essas, passava-as no quarto, com o cobertor puxado até ao nariz. Há muito que estava acordado, mãe, embora tu pensasses que não. Não queria levantar-me enquanto não ouvisse a tua voz na cozinha. A mãe do Marco, mãe, tinha ido para a Argentina trabalhar. E eu tinha visto o Marco a correr no cais com o macaquinho no ombro: vais-te embora mamã, não me deixes aqui! E eu tinha medo, mãe. Tinha medo de sair do quarto e de não te encontrar. Mas tu estavas sempre lá, mãe. Estavas sempre lá nesse Verão e em tantos que vieram depois. Agora já não, mãe. Agora já não estás aqui.

Acordo Ortográfico: o cadáver adiado (Vasco Graça Moura)


Rui Rocha,

No Brasil, tratava-se fundamentalmente de sacrificar o trema e o acento agudo em meia dúzia de casos. E ninguém se resignava às regras absurdas de emprego do hífen… Com isso, bastou o abaixo-assinado de uns 20 mil cidadãos para se adiar a aplicação de uma coisa trapalhona denominada Acordo Ortográfico (AO). Os políticos ouviram a reclamação, estudaram-na e assumiram-na, e a sr.ª Rousseff decidiu.

Em Portugal, o número de pessoas que tomaram posição contra o AO já ultrapassava as 120 mil em Maio de 2009. Hoje, e considerando tanto o Movimento contra o AO de então como a actual Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) com a mesma finalidade, esse número é incomparavelmente mais elevado.

Portugal bem pode propor a todos os quadrantes ideológicos e parlamentares da sua classe política que se assoem agora a este cruel guardanapo.

Faltou-lhes a coragem de respeitar as opiniões autorizadas, a capacidade de reflectir com lucidez sobre o assunto, a vontade cívica de se informarem em condições.

Acabaram a produzir este lindo serviço, com a notável excepção do relatório Barreiras Duarte, aprovado por unanimidade na Comissão Parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura (Abril de 2009), mas que não teve qualquer efeito prático.

A CPLP, ao engendrar o torpe segundo protocolo modificativo do AO, violou sem escrúpulos o direito internacional e traiu a língua portuguesa. Não serve. Mostrou total inconsciência, incompetência, incapacidade e oportunismo na matéria.

Agora, é evidente que, de três, uma: ou o Brasil vai propor uma revisão do AO, ou tratará de a empreender pro domo sua sem ouvir os outros países de língua portuguesa, ou fará como em 1945, deixando-o tornar-se letra morta por inércia pura e simples.

No primeiro caso, mostra-se a razão que tínhamos ao insistir na suspensão do AO, a tempo, para revisão e correcção. A iniciativa deveria ter sido portuguesa e muitos problemas teriam sido evitados.

No segundo caso, mostra-se além disso que continuamos a ser considerados um país pronto a agachar-se à mercê das conveniências alheias. Com a desculpa, a raiar um imperialismo enjoativo, da “unidade” da língua, em Portugal haverá sempre umas baratas tontas disponíveis para se sujeitarem ao que quer que o Brasil venha a resolver quanto à sua própria ortografia. Foi o que se passou em 1986 e 1990.

No terceiro caso, mostra-se ainda que ficaremos reduzidos a uma insignificância internacional que foi criada por nós mesmos.

Mas, em qualquer dos casos, a situação será muito diferente da actual.

O Acordo Ortográfico não ficará incólume e as suas regras serão revistas e modificadas. Ninguém esconde no Brasil esta necessidade de revisão e correcção, tão cultural, social e politicamente sentida que está na base do adiamento decretado.

Se as regras vão ser modificadas, e quanto a este ponto não pode subsistir qualquer espécie de dúvida, será um absurdo absoluto que se mantenha a veleidade de as aplicar em Portugal na sua forma presente.

Não se pode querer contestar oficial ou, sequer, oficiosamente a existência de três grafias, nada menos de três, como resultado grotesco de uma tentativa sem pés nem cabeça de uniformização delas em todos os países que falam português: a brasileira, a angolana e moçambicana e a irresponsável que é a portuguesa.

Torna-se imperativo o reconhecimento oficial de que a única ortografia que está em vigor em Portugal é a que já vigorava antes das desastrosas pantominas que foram empreendidas pelo Governo Sócrates.

No meio desta vergonha, o mais simples é:

a) reconhecer-se que o AO nunca entrou em vigor por falta de ratificação de todos os estados signatários;

pressuposto essencial da sua aplicação que é o vocabulário ortográfico comum que nem sequer foi iniciado;

c) suspender-se tudo o que se dispôs em Portugal quanto à aplicação do AO, nomeadamente no plano das escolas, dos livros escolares e dos serviços do Estado;

d) tomar-se a iniciativa de negociações internacionais com vista a uma revisão e correcção do AO por especialistas dignos desse nome.

O Acordo Ortográfico é tão mal feito que nem o Brasil o aceita… Logo à nascença, já era um cadáver adiado. Com vénia de Fernando Pessoa, agora não se pode deixar que, sem a necessária revisão, ele procrie seja o que for.

O esforço de ajustamento e o ajuste directo


Rui Rocha,

Leio nos comentários a este post da Leonor que uns estão convencidos de que Sócrates deixou o país sem dinheiro para tinteiros e impressoras e que outros acreditam que, com Passos Coelho, as próprias impressoras foram já leiloadas. Uns e outros estão redondamente enganados. De acordo com o site Despesa Pública, o Agrupamento Vertical de Canelas acaba de gastar 6.625.15€ para alugar (sim, alugar) uma fotocopiadora multifunções, para apoio ao funcionamento dos Cursos Profissionais em funcionamento no corrente ano letivo, na escola-sede do Agrupamento. Se tivermos em conta que o prazo de execução previsto é de 212 dias, temos um custo de aluguer de mais de 30€ por dia. Incluindo Sábados, Domingos e feriados. Mas a coisa não fica por aqui. Pelo aluguer (sim, aluguer) de 5 (sim, cinco)  portáteis para apoio aos formandos do Curso Profissional de Turismo, em funcionamento no corrente ano letivo (isto é, 212 dias), na escola-sede, o Agrupamento gastou 5.280,03€. E para  alugar (sim, alugar) outros 10 (sim, dez) pelo mesmo período desembolsou 10.599,99. E mais 7.392,00€ por outros 7. E mais 8.448,02€ pelo aluguer de outros 8, sempre pelos mesmos 212 dias. Ou seja, o Agrupamento Vertical de Canelas gastou mais de 1.000€ pelo aluger  de cada portátil por um período de pouco mais de 6 meses. Sempre por ajuste directo. Se tivermos em conta que a compra de um computador com excelente desempenho custa (vá, sejamos mãos largas) os mesmos 1.000€, já se vê que se trata de um excelente negócio. Em conclusão: sim, temos dinheiro para tinteiros e impressoras. E até para computadores.

A escrita passoana


Rui Rocha,

Há muito tempo (diria, sem qualquer receio de errar, desde Fernando Pessoa) que não surgia em Portugal uma escrita que abrisse caminhos tão potencialmente fecundos ao nível da evolução linguística e, sobretudo, da riqueza psicológica. É certo que a erradicação do artigo definido (veja-se, a título de exemplo, a passagem Muitas famílias não tiveram na Consoada os pratos que se habituaram) constitui, só por si, uma proposta de ruptura com a norma que remete para um estado de desconstrução criativa que só admitimos aos que beberam as exclusivas águas da excepcionalidade e do génio. Não constitui, por isso, qualquer surpresa que logo nos ocorra que esta insurreição só encontra paralelo na rebeldia de Saramago contra os estreitos caminhos das regras de pontuação. Sublinhe-se, todavia, que ali onde Saramago rompia o cânone, era sobretudo uma questão de estilo, e como tal inconsequente do ponto de vista da língua portuguesa futura,  que se afirmava. Agora, estamos perante um abalo de outra ordem que poderá, logo veremos, rebentar definitivamente com o próprio edifício gramatical, abrindo uma infinidade de caminhos e possibilidades.  Todavia, devemos admitir que o traço fundamental de originalidade está sobretudo ali onde se revela uma superestrutura psíquica absolutamente inesperada. De facto, a literatura portuguesa, depois de ter proporcionado ao mundo a problemática nunca suficientemente estudada da unicidade e diversidade em Fernando Pessoa, colocando a multiplicidade dos heterónimos no centro de  um debate sempre inacabado, acaba de revelar o novo enigma da duplicidade de ortónimos em Pedro Passos Coelho. É este o desafio que o próprio primeiro-ministro nos lança quando afirma que nós não somos duas pessoas. Trata-de indubitavelmente de uma afirmação singular. Sobretudo porque é feita na primeira pessoa do plural.

Motivos mais do que suficientes para uma manifestação


Rui Rocha,

Leio que anda por aí muita indignação com a deslocalização do Praça da Alegria e o corte de financiamento das actividades da Casa da Música. Pelo visto, há até quem proponha a realização de uma manifestação nos Aliados, uma espécie de 15 de Setembro com pronúncia do Norte. Tenho dificuladade em avaliar os fundamentos que levam a tais posições. Mas, de uma coisa estou certo. Se existe situação que justifica um levantamento popular, essa é a indicação pelo PSD de Menezes e de Marco António Costa como candidatos às Câmaras Municipais do Porto e de Gaia. Sejamos sinceros. Isto não se faz a ninguém, carago! 

 

A mensagem de nadal


Rui Rocha,

Era impossível que Passos Coelho saísse ileso do episódio da mensagem de Natal. Estando em causa uma tradição, não podia escusar-se a cumpri-la. Nas actuais circunstâncias, a ausência de mensagem daria lugar a todo o tipo de interpretações negativas. Mas, se isto é assim, também é verdade que qualquer das alternativas seria sempre uma forma de escapar ao lume para cair na frigideira. Vejamos. Em época de Natal, ninguém toleraria um discurso estruturado sobre sacrifícios, cortes e austeridade. O Natal é, por definição, um momento de trégua. Ninguém no seu perfeito juízo abriria a porta de sua casa no dia 25 de Dezembro a alguém que viesse com a única intenção de transmitir más notícias. Ora, se era de más notícias que Passos Coelho não podia falar, dadas as circunstâncias, o certo é que só isso é que ele tinha (tem) para dizer. Como se viu nas últimas semanas e como se confirmará nas próximas, quando se forem consolidando os contornos do corte de quatro mil milhões de euros que se anuncia. E o que mais se verá. Restava-lhe, assim, o discurso da vacuidade, ancorado, à falta de melhor, numa ideia difusa e longínqua de equidade na distribuição dos sacrifícios e de futuras oportunidades. É claro que este é um discurso que nada adianta e em nada se traduz. Apesar disso, de nada servindo, não deixa de constituir um empecilho adicional a Passos Coelho. O quase nada que prometeu não deixará de ser muito, e muito contraditório, quando, daqui por uns dias, os portugueses embaterem com o que os espera em 2013. Ver-se-á então que o tudo-nada de esperança que Passos Coelho se sentiu obrigado a transmitir mais não constituiu do que um penoso número de ilusionismo e que o primeiro-ministro não tem, literalmente, nada na manga.

Hapiness


Rui Rocha,

Edo State fica na Nigéria, embora a descrição mais correcta seja aquela que diz que fica a caminho de lugar nenhum. Como acontece a tantos outros sítios que teimamos em querer esquecer. Ali, a vida é tão negra como a pele dos seus habitantes. Tão desesperada que há mulheres e homens que se metem em pouco mais que jangadas para se atirarem ao mar. Literalmente. Sem saberem para onde vão. Com a única certeza de que não querem estar mais ali.  Estes e outros tantos chegaram ao ponto em que a viabilidade das suas vidas se joga no interstício que fica entre uma existência desgraçada em terra e a enorme probabilidade de naufrágio no mar. O único aconchego que encontram na viagem, que dura quantas noites existem na alma de cada um dos passageiros, é o dos corpos que se esmagam uns contra os outros na exiguidade do espaço que lhes coube. E o dos corações que, manifestamente, não cabem ali. A cada milha percorrida, equilibram-se, contra todas as probabilidades, na linha que separa a vida da morte. Assim vão, rompendo as águas. Como também se romperam durante a viagem as de Judith. Que carregava no ventre uma menina. Antes de darem à costa, em Espanha, em 12 de Dezembro de 2010. Aquele que vemos ali, é o pai que a carrega nos braços. Verão, se olharem bem, que dez a quinze cêntimetros de cordão umbilical pendem ainda do corpo da recém-nascida. Puche, o pai, há-de dizer mais tarde que tudo o que queria era ouvir o choro da filha. Única evidência de que continuava viva. Judith chegou a terra frágil e a tremer. Mais do que todas as mães. Perguntaram-lhe pelo nome da filha. Sussurrou aquilo que pareceu, aos ouvidos de quem a escutou, qualquer coisa como Aspess. Nestas histórias, há sempre tantos lados. Em Espanha, o herói do dia foi o Guardia Civil que deu os primeiros cuidados à mãe e à filha. Em Edo State, inveja-se a sorte de Judith e da menina. Dizem por lá que é uma sorte nascer numa quase jangada chamada Zodiac, em pleno mar negro de Alborán. Muito melhor do que nascer em Edo State. Porque nascer ali é morrer. Vista a coisa do outro lado do mar, aquele em que nunca nos colocámos, nasceu uma menina com estrela. Da sorte. Vista a história daqui, parece-me que aconteceu Natal. Antecipado. Ainda bem que foi assim, pois que as histórias felizes não devem ser adiadas só para cumprir calendário. O verdadeiro nome da menina, aquele que a mãe não teve forças para pronunciar, é Hapiness. Com menos pês do que o previsto na norma linguística. Todavia, ainda mais feliz. Estava escrito em algum lugar que devia ser assim.

 

*alguns detalhes da história de Hapiness podem encontrar-se aqui. Os outros encontram-se com o coração. Feliz Natal.                (republicado)