Deve ser a isto que chamam uma “self-fulfilling prophecy”
Rui Rocha,
O mundo não acabou e vamos continuar a ter de gramar o Prós & Contras.
Documentos oficiais revelam que o governo tinha intenção de adjudicar a operação de liquidação de activos relacionada com o fim do mundo ao BES.
Ordem dos profetas admite expulsar os Maias e Vítor Gaspar.
João Galamba, Teixeira dos Santos e a equipa do Sapo Astral exigem investigação rigorosa ao falhanço das previsões Maias.
Fontes bem informadas revelam que o fim do mundo falhou porque os cavaleiros do apocalipse decidiram voltar para trás.
De entre todos os profetas da desgraça, o único que tem apresentado uma taxa muito aceitável de acertos é Pedro Passos Coelho.
Fim.
Esta coisa do fim do mundo parece ter sido organizada pelo Efromovich.
A palavra de ordem da Kookai na Grécia é “Esfomeados Mas Chiques”. A imagem, novamente retirada do Keep Talking Greece, diz respeito à loja do zona comercial Fokas, em Atenas. Uns metros mais adiante, os pedintes estendem a mão aos clientes das lojas. No mesmo local onde à noite os sem-abrigo encontram o conforto de nichos protegidos do vento. Ironicamente, as lojas da zona comercial Fokas apresentaram-se à insolvência, estando os trabalhadores com ordenados em atraso desde Julho. Bem podia a Kookai ter optado por uma punch line ligeiramente diferente: “trabalhadores esfomeados em lojas chiques”. Uma coisa é certa. Os sem-abrigo ficam ali mais à frente. Os sem-vergonha estão um pouco antes.
Quer dizer então que a proposta do PSD passa por Relvas no Governo, Seara em Lisboa e Jardim na Madeira? Pois, pois. Depois venham-nos falar sobre a importância da prevenção de incêndios.
Não são necessárias apresentações. Francisco José Viegas está de regresso à blogosfera depois de ano e meio de ausência por motivos pessoais. Razão mais do que suficiente para que o Origem das Espécies seja o nosso Blogue da Semana.
Em Portugal, felizmente, não temos.
Regresso ao suicídio da enfermeira que terá facilitado a obtenção de informações sobre a gravidez de Kate Middleton. Para além da tragédia pessoal e familiar que naturalmente implica, a situação só merece reflexão se pudermos estabelecer um nexo de causalidade entre a actuação da enfermeira e a sua decisão de pôr termo à vida. Parto então desse princípio (que é, em si mesmo, questionável). Ora, admitindo que uma qualquer causalidade existe, é curioso notar que a maioria das análises que se vão fazendo acaba por apontar para a responsabilidade dos jornalistas que se apresentaram com falsa identidade. Ora é nessa visão das coisas que não me reconheço.
Na verdade, o problema, a existir, está noutro lado. Vejamos. Se a enfermeira Jacinta tivesse facilitado informações relativas a qualquer outra pessoa internada no hospital, o desfecho seria o mesmo? Não creio. Existiria uma quebra de sigilo, uma imprudência, um comportamento negligente. Mas, qualquer que fosse a actuação dos responsáveis do hospital (actuaria sequer o hospital?) é muito difícil acreditar que alguém acabasse por suicidar-se por uma situação dessas. Afinal de contas, não morreu ninguém para além de Jacinta, nenhum acto médico deixou de ser praticado, a integridade física e os cuidados de saúde estiveram sempre salvaguardados. Isto significa que o que terá estado em causa é a percepção da insignificância de uma modesta enfermeira perante a infinita relevância da informação sigilosa relativa aos enjoos de um membro da Casa Real. Se Jacinta se suicidou por alguma coisa, foi por considerar que a sua vida não valia perante o significado transcendente da quebra de informação relativa às náuseas de Kate Middleton, a escolhida.
O que está mal nesta história, se alguma coisa está, é a desproporção entre o desvalor da vida de uma Maria Ninguém e a profunda relevância de tudo o que diga respeito a um Filho de Algo. O que está mal é que a própria Jacinta se tenha convencido, ou a tenham convencido os que contra o seu deslize reagiram (e como devem ter reagido) que ela cometera um gravíssimo acto de lesa-majestade. Não consigo criticar os jornalistas porque vejo ali a intenção de dessacralização de um poder desproporcionado e injustificado. É antes nesse poder que reside o problema. Como em qualquer poder que impõe a priori uma sugestão de diferença no valor intrínseco das pessoas. Como em qualquer poder que não seja transitório, efémero, circunstancial e exercido em nome e no exclusivo interesse da comunidade e que negue, por actos, palavras ou omissões, a identidade de valor ontológico e radical de cada vida humana. Mesmo que esta passe pelo mundo com a infelicidade de o fazer com um par de orelhas como aquelas que o Príncipe Carlos ostenta.