Ainda sobre o suicídio da enfermeira Jacinta Saldanha


Rui Rocha,

Regresso ao suicídio da enfermeira que terá facilitado a obtenção de informações sobre a gravidez de Kate Middleton. Para além da tragédia pessoal e familiar que naturalmente implica, a situação só merece reflexão se pudermos estabelecer um nexo de causalidade entre a actuação da enfermeira e a sua decisão de pôr termo à vida. Parto então desse princípio (que é, em si mesmo, questionável). Ora, admitindo que uma qualquer causalidade existe, é curioso notar que a maioria das análises que se vão fazendo acaba por apontar para a responsabilidade dos jornalistas que se apresentaram com falsa identidade. Ora é nessa visão das coisas que não me reconheço.

 

Na verdade, o problema, a existir, está noutro lado. Vejamos. Se a enfermeira Jacinta tivesse facilitado informações relativas a qualquer outra pessoa internada no hospital, o desfecho seria o mesmo? Não creio. Existiria uma quebra de sigilo, uma imprudência, um comportamento negligente. Mas, qualquer que fosse a actuação dos responsáveis do hospital (actuaria sequer o hospital?) é muito difícil acreditar que alguém acabasse por suicidar-se por uma situação dessas. Afinal de contas, não morreu ninguém para além de Jacinta, nenhum acto médico deixou de ser praticado, a integridade física e os cuidados de saúde estiveram sempre salvaguardados. Isto significa que o que terá estado em causa é a percepção da insignificância de uma modesta enfermeira perante a infinita relevância da informação sigilosa relativa aos enjoos de um membro da Casa Real. Se Jacinta se suicidou por alguma coisa, foi por considerar que a sua vida não valia perante o significado transcendente da quebra de informação relativa às náuseas de Kate Middleton, a escolhida.

 

O que está mal nesta história, se alguma coisa está, é a desproporção entre o desvalor da vida de uma Maria Ninguém e a profunda relevância  de tudo o que diga respeito a um Filho de Algo. O que está mal é que a própria Jacinta se tenha convencido, ou a tenham convencido os que contra o seu deslize reagiram (e como devem ter reagido) que ela cometera um gravíssimo acto de lesa-majestade. Não consigo criticar os jornalistas porque vejo ali a intenção de dessacralização de um poder desproporcionado e injustificado. É antes nesse poder que reside o problema. Como em qualquer poder que impõe a priori uma sugestão de diferença no valor intrínseco das pessoas. Como em qualquer poder que não seja transitório, efémero, circunstancial e exercido em nome e no exclusivo interesse da comunidade e que negue, por actos, palavras ou omissões, a identidade de valor ontológico e radical de cada vida humana. Mesmo que esta passe pelo mundo com a infelicidade de o fazer com um par de orelhas como aquelas que o Príncipe Carlos ostenta.

36 comentários em “Ainda sobre o suicídio da enfermeira Jacinta Saldanha”

  1. Os jornalistas foram levianos e fúteis ao tentarem transformar as náuseas da duquesa num assunto que lhes dava notoriedade. Cometeram um crime fazendo-se passar por quem não eram e obterem com isso vantagem. A enfermeira não aguentou a humilhação de ser gozada mundialmente. E o sr. Rui Rocha acha que as náuseas da duquesa é que têm a culpa. Parece estar um lindo dia de Sol. Porque não o aproveitou?

    1. Parece-me a mim que a enfermeira na eminência de ser despedida, e derivado de alguma dificuldade financeira poderia ter sido conduzida a suicidio, já que a possibilidade de arranjar emprego poderia ser dificultada após a divulgação da sua indiscrição. Espero estar enganada mas este cenário parece-me plausivel.

  2. Nós encontramos rainhas, princesinhas e princípezinhos em toda a parte.
    Há pouco mais de um mês tivemos conhecimento de alguém que se suicidou por ter sido despejada de casa, e isto continua a acontecer todos os dias, e “nós” precisamos de um qualquer vómito que desidrata para debater coisas sérias.
    Não sei se a enfermeira se matou pelos motivos que dizem, mas, se foi por isso, ela só confirmou que foi vitima de si mesma, do seu consentimento e incentivo a este status quo. Não vejo outro motivo para que alguém se suicide por ter sido agradável a um ou uma interlocutor(a) que se fazia passar por quem não era.

  3. Um disparate seguido de outro disparate.
    Mas têm diferentes graus.
    O disparate maior é estabelecer uma relação de responsabilidade e de imputação.

    1º Os empregados da estação de rádo são livres de fazer a cena?

    São. Trata-se de um facto a requerer publicidade, atenta a qualidade dos intervenientes (reis raínhas jet7…)e que os artistas pegam.

    2º Era previsível o desfecho?
    Nunca.

    3º A enfermeira é livre de se suicidar?
    É. Podemos ser contra, mas na sua perspectiva, é.

    4º Foi condicionada pela peça teatral?
    Pelos vistos, sim.
    Problema dela e da sua escala de valores.
    Agiu de acordo com a sua ignorância sobre a gradualização do valor dos bens em causa. A ignorância é desconhecer ou supôr. Ela supõe que a importância do caso é mais relevante que a sua vida.

    É como o Rui diz:
    “…é a percepção da insignificância de uma modesta enfermeira perante a infinita relevância da informação sigilosa relativa aos enjoos de um membro da Casa Real. Se Jacinta se suicidou por alguma coisa, foi por considerar que a sua vida não valia perante o significado transcendente da quebra de informação relativa às náuseas de Kate Middleton, a escolhida”

    Lamenta-se ( isso sim!) a escolha feita pelo ser humano Jacintha.

    1. Sim, no final é isso. E, pessoalmente, lamento também a distância que vai entre o extraordinário significado da mais ínfima minudência relacionada com certa pessoa e a ínfima relevância que a própria vida parecia ter para a enfermeira Jacintha.

  4. Apoiado Rui Rocha !
    Não ligue a monárquicos bafientos, retrógrados e cheios de bolor que querem fazer o país voltar para trás 102 anos.
    Como aquela ideia descabelada de Pedro Santana Lopes querer voltar a ter em Portugal um Senado.
    Enfim, queria concerteza tacho para o resto da vida…
    É o que toda esta gente quer…

    1. Ó meu caro fazer o país voltar atrás 102 anos não seria o maior mal. Do que eu receio é o lugar para onde nos empurra esta república lustrosa, brilhante e modernaça. Do bolor, ao menos, sempre se extrai a penincilina com que se podem curar muitas infecções. É que a república em breve libertará os portugueses do bafio. É que morar debaixo da ponte só se tem a recear as correntes de ar.

        1. Nem pensar. São boas para apanhar moscas. E não gaste pontos de exclamação: são demodé e não ficam bem em república. E tire o plástico dos móveis: deixe assentar o pó e as teias de aranha à vontade.

    2. O PSL tem todo o direito de querer tacho. É que galo como ele bem precisa de um bom tacho para uma boa cabidela. Agora vossemecê, nabo como é, já nem para engrossar o caldo da sopa serve.

    3. Obrigado pelo apoio, PS. O que me choca é a facilidade com que todos nós ainda acabamos por reconhecer, voluntária ou involuntariamente, a quem não é nem mais nem menos humano do que qualquer um de nós.

  5. Talvez, além de pensar que tinha cometido uma gravíssima falta, ela não suportasse a ideia de ir passar um bocado a ser gozada por todos…

  6. É de facto estranho estabelecer um nexo de causalidade tão linear entre uma brincaderia de mau gosto, mas afinal uam vulgar prank, com a decisão monumentosa de se suicidar. Há qualquer coisa que não está bem contada nesta história.

  7. Texto muito bem escrito, comentários muito bem embasados. Gostei do clima de defesa de idéia e humor presentes nos comentários.

  8. O que me surpreende é a rapidez com que todo o mundo desatou a tirar conclusões sem que saibamos quase nada sobre a pobre rapariga que se matou. Tinha dívidas impagáveis? Estava deprimida por outras causas? Era mentalmente instável? Andava medicada? Podem ter sido milhões de causas e culpar de imediato os radialistas australianos é leviano. Ainda por cima Jacintha Saldanha só passou o telefone à enfermeira de Middleton, nem sequer deu informações. Espero para ler mais dados…

  9. Há um ponto que muitos esquecem quando comentam este caso: isto é o Reino Unido, não é Portugal. Fosse Portugal uma monarquia e isto não vejo que tal coisa pudesse acontecer, a começar pela partida do telefonema. Há no Reino Unido uma reverência perante a família real que não se vê em mais lado nenhum do mundo, sobretudo porque não se trata de um regime autocrático. Isto para além do fruto da gravidez poder vir a ser o chefe de estado de imensos países. Apesar de tudo o que podemos considerar, não podemos comparar este caso com qualquer erro que todos nos cometemos no exercício das nossas profissões.

  10. O Rui colocou muito bem as coisas se o que a levou ao suicídio foi a falta que cometeu ainda que involuntariamente. Mas não foi esse o caso. Ter-se-á suicidado por não suportar a humilhação pública a que foi submetida, o que faz muito mais sentido.

    Há aqui de facto uma relação desproporcionada de poder entre celebridades treinadas para lidar com estas situações (e até para tirarem proveito delas) e anónimos que de um momento para o outro se vêem publicamente expostos ao ridículo, no qual os DJs tiveram um papel menor – o maior papel teve-o os meios de comunicação que empolaram a história para vender mais algum papel -; ou seja, o desequilíbrio aqui é entre o poder absoluto dos mídia e a impotência dos cidadãos anónimos.

    Quanto à “intenção de dessacralização de um poder desproporcionado e injustificado”, o Rui acha mesmo que foi essa a intenção? Essa dessacralização faz-se também através do humor, mas não desta forma.

  11. Rui parece-me que existirá aqui qualquer informação que não está a ser ventilada. Acredito que a gravação não estará completa, e a informação dada pela enfermeira será mais que aquela que está a passar nos meios. Eu parece-me que a Kate está a fazer um tratamento para engravidar e devem ter sido dados pormenores sobre o mesmo. É um palpite meu. Enfim… De qualquer forma obrigada Rui pelo seu post, já começava a achar que talvez algo não estivesse bem comigo por não conseguir ” condenar ” os jornalistas.

  12. É incompreensível que nesse momento da historia, de tão grande desenvolvimento social e tecnológico, ainda temos nações com o disparato de acreditar que alguns seres humanos, são mais significantes do que outros; não conheço a Inglaterra e nem muitos ingleses, mas enganosamente sempre achei que a realeza era mantida apenas como forma decorativa para a fomentação do turismo, no entanto, fica claro a mentalidade impregnada e subjugada à tal povo.

  13. O Jornalismo hoje em dia não existe. É apenas uma actividade de copy/past na internet. Só quem não conhece os media ingleses não percebe porque motivo a sra fez o que fez.

    Mas é lindo a tentativa de desculpabilização de 2 mogoloides, que decidiram brincar com alguém que não conheciam, alguém com valores talvez diferentes e que sentiu uma vergonha imensa depois de ser gozada a nivel planetário. Isto não tem nada a ver com reis e rainhas. Poderia ser uma figura publica qualquer.

    Entretanto, o jornalismo do copy / past volta a atacar….

    mais uma prova do jornalismo de excelência que se vê em Portugal
    Esta manhã a TSF colocou um artigo sobre o Sporting/Benfica. Nada de novo, não fosse o símbolo do sporting ter 2 osgas em vez de 1 Leão.
    Alertado o Carlos Vaz Marques no twitter lá vieram fazer um pedido de desculpas…
    Eis que não quando, no facebook da rádio M80, aparece novamente a mesmissima imagem.

    Conclusão, estes pseudo jornalistas de hoje em dia, não investigam, não procuram, não nada….
    Vão ao google e copiam a 1ª merda que lhes aparece.
    vejam as ditas imagens aqui, pois entretanto foram apagadas.

    http://www.xicapenico.org/2012/12/10/tsf-goza-com-o-sporting-clube-de-portugal/

  14. Mais que discutir a importância da família real ou de uma vida ceifada precisamos ficar atentos ao efeito “roleta russa” de um trote! O trote pode ser tão imprevisível, pode desencadear tanta coisa que é preciso uma reflexão sobre o custo e benefício de se utilizar essa estratégia para se obter mais pontos na audiências dos veículos de informação (TV, rádio, etc)!!! Aqui no Brasil, frequentemente criminosos utilizam trotes para obter vantagens!! Em alguns casos pessoas tiveram ataque do coração por acreditar que seu familiar estava sob sequestro!! Embora tenha gostado do artigo do amigo Rui Rocha acho que a função dos veículos de comunicação é informar, não a todo preço, caso contrário estaremos diante de uma selvageria para se obter o furo de reportagem! Abraços à todos!

  15. A religião aparentemente nada tem que ver com este assunto, mas a honra e toda a questão da dignidade e o karma que se reveste o induismo (a atitude da Senhora Enfermeira leva-me a crer que era induista), levaram-na a ter tal atitude. Para nós não faz sentido, para Ela todo. Enfim, a Pessoa perdeu a vida e assim talvez ache que se tenha redimido.

  16. Francamente, ainda não percebi bem esta história e acho que há partes dela que nos escapam, por falta de informação. Tens razão quando falas em desproporção, também a vejo entre as (possíveis) causas e as trágicas consequências desta brincadeira.

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