Da compaixão


Rui Rocha,

 

Um saco plástico colocado em frente a uma loja. Os alimentos cuidadosamente acondicionados. Uma nota simples: pão e queijo (limpos). Alguém deixou uma refeição modesta para que quem passa se possa servir. Um desempregado, um sem-abrigo, um qualquer desconhecido que não possa prover pelos seus meios à necessidade mais básica: a de alimento. Na rua Andrianou, em Monastiraki, Atenas.

 

* A fotografia foi publicada no Zougla.gr (via)

Não pá, a sério, o país já está muito melhor


Rui Rocha,

Abril de 2011:

 

No final de uma visita a uma delegação da Cruz Vermelha Portuguesa, na Parede, no concelho de Cascais, questionado pelos jornalistas se concorda com esta decisão, Pedro Passos Coelho respondeu: «Eu creio que o Governo fez mal quando concedeu esta tolerância de ponto».

«Já temos um fim-de-semana bem prolongado, e, portanto, o país não precisava, numa altura em que está a pedir a toda a gente na Europa que o ajude porque não é um país ainda suficientemente competitivo, porque não somos suficientemente produtivos», considerou.

Segundo o presidente do PSD, «na prática, o que o Governo disse foi: façam mais um dia de feriado, porque o país é suficientemente rico para poder ter mais um dia de descanso».

«É um mau sinal, é um sinal negativo, que tenho pena que tenha ocorrido», reforçou Passos Coelho.


Dezembro de 2012:


Governo dá tolerância de ponto a 24 e 31 de Dezembro.

Casado, único titular


Rui Rocha,

Quer dizer então que os Excelentíssimos pretendem diluir metade dos meus subsídios para eu não sentir com tanta violência o aumento dos impostos que se destinam, entre outras finalidades meritórias, a financiar a Fundação Mário Soares, o INATEL e os pacholas que o Vítor Ramalho lá meteu, o Carnaval da Madeira, a árvore de Natal interactiva do Costa e do Leonel, a instalação do gajo dos dióspiros que bateu com a cabeça numa figueira em Guimarães, as senhas de presença do Jorge Sampaio, os custos de manutenção do Galambódromo de Beja, a sobreposição de cursos inúteis nas Universidades e Institutos Superiores públicos que infestam o país, os trezentos e não sei quantos munícipios absolutamente necessários ao desenvolvimento harmonioso do território, os tachos dos boys no aparelho da Segurança Social, na Saúde e no IEFP que o Bilhim afirma que não existem, o AUDI A5 do Zorrinho, o BMW do Pedro Vespa Soares, os negócios do Duarte Lima pagos pelo Estado, o título honorífico  de campeões do mundo das PPP financiadas pelo BES com o dinheiro que o Lula sacou do Brasil, a nacionalização do BPN e as férias do dias Loureiro em Cabo Verde, a tinta para o cabelo do Borges, os concertos do Carreira, do Abrunhosa e do Quim Barreiros no dia da elevação de Cabeço de Vide a parvónia, o relvado sintético do campo de jogos de Fronteira, os milhões dos pareceres que permitem ao Júdice andar a armar-se em parvo, a reforma da Esteves quando ainda tinha idade para concorrer a financiamentos como Jovem Agricultora, os F16 para uns tipos porreiros fazerem de conta que são o Tom Cruise e perderem um teco-teco que desapareceu misteriosamente algures sobre Vilar Formoso, a cidade das selecções, os jardins interiores e os mármores da Parque Escolar, o Magalhães sem teclas que o Toino vai vender na esquina da Rua do Loureiro, os 100 mil euros para o torneio de Golfe comemorativo do centenário da República, as caricaturas do António no Metro? Pois muito bem. Agradeço a preocupação e comunico que vou tomar medidas adicionais à prevista diluição. No início de Janeiro, segue carta para a minha entidade patronal informando que sou casado e único titular dos meus rendimentos. A Adélia dirá o mesmo à entidade patronal dela. O efeito imediato é a retenção na fonte baixar durante o ano de 2013. Depois, em 2014, acertaremos contas e o Estado receberá a totalidade do imposto devido pelo ano de 2013. Se cá estivermos. Mas, até lá, o dinheiro fica deste lado. E eles que vão diluir e reter prá casa do Carvalho mais velho. Sim, esse: o Manuel Carvalho que mora aqui na casa ao lado. 

Falem-me a cantar


Rui Rocha,

A equipa de Passos Coelho não ficou indiferente aos acontecimentos dos últimos dias. Embora no executivo todos estejam convencidos de que o trabalho realizado é até agora excelente ou mais, também se reconhece que existe um pequeníssimo problema de comunicação (não mais do que um grão de areia, em todo o caso). E, se é certo que os portugueses são os principais responsáveis pela deficiente interpretação que têm atribuído às palavras absolutamente cristalinas que os governantes têm vocalizado, o certo é que estes não prescindem da possibilidade de contribuir para melhorar o processo comunicacional com os governados, libertando a respectiva flauta interior.

 

Assim, e em concreto, a partir de agora o primeiro-ministro Passos Coelho falará sempre a cantar:

 

Entretanto, e por seu lado, o ministro Vítor Gaspar será substituído nas intervenções públicas por um novo assessor de comunicação com dom de palavra. E boa imagem:

Clarinho, não?

Apesar de te sentires tratado como um peru na engorda, é importante saberes que não há razões para isso


Rui Rocha,

 

Esta coisa da divisão de metade dos subsídios em duodécimos faz-te sentir como um peru de aviário na engorda? Pois fica sabendo que é completamente abusivo afirmar-se que a preocupação do governo com o teu rendimento líquido mensal  é semelhante ao desvelo que o criador de perus dedica às aves da sua criação. É certo que, num e noutro caso, sabemos como as coisas terminam. Na criação de perus, com o abate. Na relação tributária, com a execução orçamental (ao que parece, por motivos humanitários, em matéria de imposto sobre o rendimento acabaram com os abatimentos). É verdade, também, que o método é semelhante. O criador de perus divide o alimento em rações. Vítor Gaspar dilui afanosamente os subsídios em duodécimos. Todavia, o paralelismo termina por aí. Desde logo, tu não tens verrugas ou carúnculas coloridas na cabeça e não podes abrir a cauda em leque. Em todo o caso, se tens ou podes, o melhor é ires tratar disso. Por outro lado, o criador tem um interesse egoísta mas genuíno em manter as aves gordinhas e com saúde. O governo, em contrapartida, pretende apenas que tenhas a quantidade de alimento  necessária  para te manteres vivo até pagares os impostos. Nem mais, nem menos. Aliás, se for possível, menos. 

Portugal, 2015


Rui Rocha,

Chegámos ao debate sobre o Estado Social sem que previamente se tenha discutido de forma séria a necessidade de expurgar a administração central e local do desperdício, das redes clientelares e das correspondentes ineficiências. Os partidos do arco da governação (ou do arco do memorando) paralisam a discussão apontando a evidência de que as grandes rubricas da despesa são os custos com pessoal e as prestações sociais. Ora, se isto é verdade, tal não implica que não exista uma precedência natural (e ética) que impõe que postos de trabalho e dimensão social só possam ser atingidos depois, e nunca antes, de ser racionalizada (que não racionada) a máquina do Estado. Os restantes partidos da esquerda, ou do arco da velha, apresentam um condicionamento que os impede de discutir em bases sérias qualquer aspecto relacionado com a dimensão e as funções do Estado: tudo no Estado é bom, incluindo o que é mau. À direita, a ala liberal padece de atavismo inverso: tudo é mau no Estado, incluindo o que é bom. O resultado de tudo isto é um bloqueio no debate que não impede o curso inexorável dos acontecimentos. Endividado e dependente de uma economia incapaz de contrariar a hemorragia, o Estado português embaterá na realidade e ver-se-á obrigado a reduzir drasticamente a despesa. Os interesses instalados e o viés ideológico à esquerda e à direita terão impedido, por essa altura, qualquer reestruturação racional que liberte o país das clientelas incrustadas na máquina do Estado (vejam-se, a título de meros exemplos, a resistência consentida por Relvas a qualquer reorganização ao nível dos municípios ou a permanência dos lobbies universitários que acabam de impor a sua vontade em prejuízo do financiamento do ensino básico e secundário). Isto é, os portugueses passarão de uma situação em que beneficiavam de uma protecção social que aspirava a ser de tipo escandinavo (passe o exagero) suportada por uma economia periclitante, para uma outra em que uma contribuição fiscal de nível escandinavo (sem exagero) terá como contrapartida uma protecção social miserável. Teremos então o pior de dois mundos. Um Estado ineficaz e capturado por interesses que é incapaz de oferecer qualquer contrapartida. Um Estado ávido de impostos que servirão para pagar boys, rotundas, iluminações de Natal e rendas de empresas de regime, mas já não pensões, subsídios de desemprego ou a instrução dos nossos filhos. Um Estado incapaz, sequer, de cumprir razoavelmente qualquer das suas outras funções essenciais. Portugal, em 2015, não será apenas um Estado falido. Ter-se-á tornado, entretanto, um Estado imoral.

Se não disse o que se diz que disse, então o que é que disse?


Rui Rocha,

Na entrevista à TVI, Passos Coelho disse:

“Temos uma Constituição que trata o esforço do lado da Educação de uma forma diferente do esforço do lado da Saúde. Na área da Educação, temos alguma margem de liberdade para poder ter um sistema de financiamento mais repartido entre os cidadãos e a parte fiscal directa que é assumida pelo Estado.”

 

No dia seguinte, o Ministro da Educação disse (escreveu):

“Nunca o Governo pôs em causa a gratuitidade da escolaridade obrigatória”.


Ontem, Passos Coelho disse:

“Em primeiro lugar, eu nunca fiz qualquer referência a essa matéria (co-pagamento) e posso mesmo dizer que isso nem tem qualquer sentido. De resto, o senhor ministro da Educação esclareceu-o muitíssimo bem. Não é possível, em termos de ensino obrigatório, criar taxas dessa natureza”.


Temos, então, que Passos Coelho diz que não disse o que disseram que tinha dito. Demos de barato que foi assim (eu sei, eu sei… mas façamos um esforço, vá). Sobra, mesmo asim, um ponto fundamental que deve ser escalarecido: se o que disse não foi o que se diz que disse, que raio é que quis dizer quando disse o que disse?

Menino não entra


Rui Rocha,

A Honda acaba de lançar uma viatura pensada só para mulheres. O Fit She, assim se chama o bólide, não impressiona pelas acelerações ou recuperações. Em contrapartida, dispõe de um utilíssimo pára-brisas que bloqueia os raios ultra-violetas, ajudando a evitar as rugas. Conta ainda com um sistema de ar condicionado que promove a hidratação da pele, tornando-a mais suave e macia. O modelo está disponível em 5 cores, entre as quais se inclui o rosa (que surpresa, não é?) que, dizem, correspondem às das sombras mais utilizadas na maquiagem feminina. Tão atenta que está ao cliché, imagino que a Honda não se terá esquecido de incluir um sistema de ajuda ao estacionamento:

Campanha do Banco Alimentar


Rui Rocha,

Contribuí. Mais do que em outros anos. Há pessoas em grande dificuldade. O Banco Alimentar parece chegar-lhes com credibilidade e eficácia. Neste momento de emergência é o que interessa. Que se lixem os políticos das árvores de Natal e das iluminações, a intervenção do Estado das jogadas, dos boys e dos amigalhaços, as ideologias, os juízes de intenções e os controleiros e retóricos do discurso canónico.

Comunistas e unicórnios


Rui Rocha,

30 de Novembro de 2012. Já se fez noite em Pyongyang. A KCNA, a agência noticiosa governamental (sim, reconheço que nem sempre evito os pleonasmos) acaba de anunciar uma descoberta extraordinária. Um grupo de cientistas norte-coreanos encontrou provas irrefutáveis da existência dos unicórnios. Jo Hui Sung, responsável pela instituto que conduziu a investigação, explica, com a seriedade que a situação impõe, que o achado foi detectado a 200 metros do templo Yongmyong, no centro da capital. A credibilidade da descoberta resulta de no local ter sido encontrada uma pedra rectangular com a inscrição “Covil do Unicórnio”. Parece-me prova definitiva. Escusam de vir com a conversa da falsificação e da refutação do Popper. Para além do mais, a Coreia do Norte é uma espécie de Entroncamento em versão premium. Ali onde se cruzam a Linha do Norte e a Linha da Beira Baixa surgem abóboras e nabos de dimensões descomunais. Em Pyongyang e arredores vão-se observando factos extraordinários em dimensão comunista. Na verdade, a mesma KCNA anunciou, após a morte de Kim Jong Il, em Dezembro de 2011, que, no momento do seu último suspiro, uma rocha começou a brilhar intensamente e um pedaço de gelo no local do seu suposto local de nascimento partiu-se sozinho com um ruído que pareceu fazer tremer os Céus e a Terra. O próprio Jong Il tinha cometido feitos extraordinários em vida, como sabemos (e sabemos porque a KCNA nos disse): a ele se devem a invenção do hambúrguer e mais de 1500 livros escritos em menos de três anos. Nada que nos espante se nos recordarmos que o “Querido Líder”, na primeira vez em que pegou num taco de golfe, fez 11 buracos numa só tacada (se dúvidas houvesse deste recorde, 17 guarda-costas testemunharam o acontecimento), tendo acabado o percurso com, para aí, 40 pancadas abaixo do par. No fundo, nada disto nos devia surpreender. Sobretudo se tivermos em conta que, aqui bem mais perto, não sei quantos homens e mulheres crescidinhos, sem qualquer limitação aparente ao nível da capacidade de querer e de entender, aplaudem de forma entusiástica o pensamento de Álvaro Cunhal.