Se não disse o que se diz que disse, então o que é que disse?


Rui Rocha,

Na entrevista à TVI, Passos Coelho disse:

“Temos uma Constituição que trata o esforço do lado da Educação de uma forma diferente do esforço do lado da Saúde. Na área da Educação, temos alguma margem de liberdade para poder ter um sistema de financiamento mais repartido entre os cidadãos e a parte fiscal directa que é assumida pelo Estado.”

 

No dia seguinte, o Ministro da Educação disse (escreveu):

“Nunca o Governo pôs em causa a gratuitidade da escolaridade obrigatória”.


Ontem, Passos Coelho disse:

“Em primeiro lugar, eu nunca fiz qualquer referência a essa matéria (co-pagamento) e posso mesmo dizer que isso nem tem qualquer sentido. De resto, o senhor ministro da Educação esclareceu-o muitíssimo bem. Não é possível, em termos de ensino obrigatório, criar taxas dessa natureza”.


Temos, então, que Passos Coelho diz que não disse o que disseram que tinha dito. Demos de barato que foi assim (eu sei, eu sei… mas façamos um esforço, vá). Sobra, mesmo asim, um ponto fundamental que deve ser escalarecido: se o que disse não foi o que se diz que disse, que raio é que quis dizer quando disse o que disse?

28 comentários em “Se não disse o que se diz que disse, então o que é que disse?”

  1. Realmente, chegámos a um ponto em que me acontece perguntar-me “Mas serás tu que não estás bom da cabeça?”

  2. Já estava fartinho de ouvir “do lado da despesa”, “do lado da receita”, agora vou ter de ouvir “do lado da educação”, “do lado da saúde”, que mais nos irá acontecer?

  3. Estava só experimentando.
    Aprendeu naqueles concursos em que o desempenho é avaliado pela quantidade de aplausos, só que adaptado a vaias, tipo: a asneira menos vaiada é a vencedora.
    Tambem, no estado em que deixaram isto, e no caminho que teimam em seguir (…) a miragem é: um grande deserto.

      1. já vamos acostumados com a tactica:
        1º-Define o objectivo.
        2º-Transmite uma ideia muito mais aterrorizadora.
        3º-Deixa a malta berrar e espernear.
        4º-Aplica a medida com o argumento de que afinal sempre é melhor do que o terror antes anunciado. (lá vai se safando)
        O que é que ele quiz dizer? Não é para se saber, é para se ir sabendo, confiem no homem.

  4. Discurso, intenção e poder são “membros” de uma equação, para a qual, difícilmente se chega ao resultado.
    E afirmo isto, porquê?
    Porque no seu enunciado, figuram sempre duas incógnitas. Ou seja: quando nos é dado o valor do discurso, falta o da intenção do mesmo, e o do poder para o executar. Quando nos é dado o valor da intenção, o valor do discurso é impreciso, assim como o do poder. Se nos for dado o valor do poder, então qualquer um dos restantes dados da equação, surge-nos impreciso ou adulterado.
    E isto sucede porquê?
    Vários motivos ou causas, concorrem para que assim seja, entre eles, a oposição, seja ela de que origem for, a resistência, a insustentabilidade, a incoerência, a inviabilidade, a desonestidade do discurso, da intenção e do poder.
    Foi por isso talvez, que Deus chamou Moisés ao cimo do monte Sinai e lhe disse: olha lá, ó meu, o povo que conduzes, aquele que Eu criei à minha imagem e semelhança anda baldado. Os tipos não atinam e tu não tens tomates para os conduzires ao bom caminho. toma lá estas tábuas onde estão inscritos 10 mandamentos, ou seja; um manual de instruções que deves dar a conhecer aquele maralhal. E não te esqueças, se os tipos se armarem ao cucos, Eu tramo-lhes a vidinha! Dito isto, afinfou com meia-duzia de torvões que o Moisés desceu o monte sem tocar com os pés no chão.
    A espiga, é que as tábuas, não resolveram o problema por inteiro. É certo que andam por aí alguns resistentes, alguns gajos que levam a coisa à risca e vão aos domingos à missa, não picam na mulher do outro, etc. o problema é quando toca a resistir a gamar.

  5. Diz que o que se diz que disse do que ele disse não foi o que ele disse; mas que disse o que diz que não disse lá isso disse. Mas o que ele queria dizer com o que disse, para além do que disse, é que não percebe patavina do que diz, e ele, tal como os demais membros do desgoverno (com três execepções), estão convencidos que querem ser a lei em Portugal, ignorando tudo, todos e a própria lei. Uma vez dizem e outras dizem que não dizem aquilo que dizem.

  6. Caro Senhor Rui Rocha

    Permita-me colocar-lhe a seguinte questão, que, peço que acredite, é coisa que faço com preocupação genuina e sem absolutamente “nada na manga”.

    Atendendo (resumidamente) a que:
    1. O governo que existe, além de flagrantemente falhar ao prometido (e julgo que não colhe afirmar-se que desconheciam a situação com que se depararam, pois foi expressamente afirmado em campanha eleitoral que sabiam o que estavam a prometer e, além disso, tinham assinado o memorando de entendimento) tem falhado na reforma do Estado, que agora quer fazer de afogadilho, isto além de bagunças clamorosas como as mexidas na TSU anunciadas antes de um jogo de futebol, o caso RTP, a que refere neste post, etc.
    2. O PS de Sócrates (que teve sozinho uma maioria absoluta de mais de 4 anos) foi no meu entender o principal responsável pela situação a que chegámos, com o seu despesismo e as suas opções alucinadas (isto passando ao largo de todos os “Freeports” em que esteve envolvido). Nesse PS sempre esteve, sem se demarcar da alucinação, o Seguro (que foi o primeiro da lista por Braga, mas parece que reside nas Caldas da Rainha), sujeito que é um lider sem nenhum carisma ou capacidade de apresentação de alternativas sólidas.
    3. Quanto aos que estão muito incomodados por estarmos sob a pata de Merkel quando pretenderam afincadamente colocar-nos sob a de Brezhnev ou de Andropov (para não mencionar os anteriores), manifestam simpatias por regimes repugnantes e não são capazes de entender que estamos num mundo globalizado ou quanto aos muito preocupados com temas como a adopção de crianças por casais de pessoas do mesmo sexo ou com a discriminação dos GLBT (mas acharam por bem ter na liderança um homem e uma mulher – que se saiba, nenhum GLBT), e se remetem (ambos) a uma perspectiva de oposição sistemática a tudo, passo adiante.

    Perante isto (e coloco a pergunta porque tem condenado com independência, e a meu ver muito bem, este género de temas que mencionei):

    Que raio acha que podemos fazer?

    1. Adoptando a análise feita e sublinhando a pertinência de muitos escritos do Sr. Rui Rocha também eu questiono : O que fazer !??!?!?!

  7. Os briefings que o Gaspar, o Borges e o Macedo lhe dão, vão passar a incluír desenhos para melhor entendimento.

    Fora de brincadeira, é a mesma táctica que sempre usou:
    – Lança a ideia para o ar e espera as reacções.
    – Desdiz-se.
    – Faz um desconto de 10% à ideia inicial e diz que é o melhor que conseguem após muito esforço e já foi um ver se te avias para convencer a troika.

    1. Concordo com o comentário do Pedro Almeida. Está mais que visto que o modus operandi é sempre o mesmo, e acho que podemos afastar a hipótese de coincidência.

      O que só revela por quão parvos nos tomam estes “políticos” 😛

  8. Será que na área da Educação não existe desperdício que pode, e deve, ser combatido em nome (precisamente) da salvaguarda dos contribuintes portugueses? Por exemplo, alguém saberá dizer, quantos milhares de professores trabalham:
    – na sede do Ministério da Educação (ME)?
    – nas Direcções Regionais da Educação?
    – nos Observatórios, Gabinetes, Projectos, nas “unidades orgânicas flexíveis” (!?!?) e outras estruturas?
    – e quantos professores têm horário “zero”?

    http://jornalismoassim.blogspot.pt/

  9. a realidade há muito que supera qualquer ficcionamento: ele disse, nós ouvimos, tudo o resto são histórias da carochinha. quando todos tivermos partido para outro dos seus disse que não disse, ele atacará com isto que disse. enredam-nos em tantas intrigas que mais parece a casa dos segredos da tvi…

  10. Rui, queria mesmo dizer que defende os co-pagamentos (ou o que queiram chamar-lhe), pois já em 2010 os tinha publicamente defendido. Apenas continua a querer esconder o verdadeiro objectivo deste governo: dar tudo (saúde, educação, seg. social e justiça) aos privados (entenda-se, amigos). O tempo apenas tem provado isto e daqui a um ano, com tudo concluído, já se podem ir embora, o Relvas para o Brasil, o Gaspar para Bruxelas e o Coelhinho (juntamente com o Camilo Lourenço) para um tacho qualquer que cá ficaremos, durante décadas, a reconstruir as ruínas que nos estão a deixar.
    Abraço.

  11. Já me conhece.
    1º Não há gratuitidade. Há solidariedade social, embora imposta, está correcta. A escola, a saúde, a segurança social, exactamente a estatal, custa dinheiro. Só os asnos não percebem. Por isso a nossa “revolucionária” constituição é falsa e dissimulada.
    O estado somos nós, cidadãos. O estado só tem o dinheiro dos contribuintes.
    Quando uma evolução social chega à escola obrigatória (por isso tem de ser scut), isso deve-se à evolução tecnológica que faz com que 1 kg de batatas custe 10 minutos de trabalho, sobram recursos (sempre escassos) para a solidariedade.
    Se crescemos mais que os recursos, é possível que tenhamos de ter de recuar, pelo simples motivo de que não há dinheiro.
    Não preciso de explicar mais.

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