Há muito tempo (diria, sem qualquer receio de errar, desde Fernando Pessoa) que não surgia em Portugal uma escrita que abrisse caminhos tão potencialmente fecundos ao nível da evolução linguística e, sobretudo, da riqueza psicológica. É certo que a erradicação do artigo definido (veja-se, a título de exemplo, a passagem Muitas famílias não tiveram na Consoada os pratos que se habituaram) constitui, só por si, uma proposta de ruptura com a norma que remete para um estado de desconstrução criativa que só admitimos aos que beberam as exclusivas águas da excepcionalidade e do génio. Não constitui, por isso, qualquer surpresa que logo nos ocorra que esta insurreição só encontra paralelo na rebeldia de Saramago contra os estreitos caminhos das regras de pontuação. Sublinhe-se, todavia, que ali onde Saramago rompia o cânone, era sobretudo uma questão de estilo, e como tal inconsequente do ponto de vista da língua portuguesa futura, que se afirmava. Agora, estamos perante um abalo de outra ordem que poderá, logo veremos, rebentar definitivamente com o próprio edifício gramatical, abrindo uma infinidade de caminhos e possibilidades. Todavia, devemos admitir que o traço fundamental de originalidade está sobretudo ali onde se revela uma superestrutura psíquica absolutamente inesperada. De facto, a literatura portuguesa, depois de ter proporcionado ao mundo a problemática nunca suficientemente estudada da unicidade e diversidade em Fernando Pessoa, colocando a multiplicidade dos heterónimos no centro de um debate sempre inacabado, acaba de revelar o novo enigma da duplicidade de ortónimos em Pedro Passos Coelho. É este o desafio que o próprio primeiro-ministro nos lança quando afirma que nós não somos duas pessoas. Trata-de indubitavelmente de uma afirmação singular. Sobretudo porque é feita na primeira pessoa do plural.
A escrita passoana
Rui Rocha,

Caro Rui, na primeira passagem que cita, creio que queria referir-se à erradicação da preposição.
Todavia, a omissão da preposição não me parece de todo descabida. Porque não tem o mesmo sentido dizer “os pratos a que se habituaram” e “os pratos que se habituaram (a ter)”. São complementos diferentes.
Na segunda passagem citada, há sempre a possibilidade de estarmos perante um plural majestático…
Desconfio até que o mural do FB do sr. Artur Baptista da Silva estrá mais bem escrito.
Desconfio até que o mural do FB do sr. Artur Baptista da Silva estará mais bem escrito.
Bem, depois do arroz de polvo, um bocadinho de bacalhau, cabritinho assado, rabanadas e sonhos (tudo oferta, graças a Deus), creio que já vai sendo altura de comer um bom bife. Isto não é uma preposição, mas antes uma proposição; resta saber se é verdadeira ou falsa. Há quem pense que comer bife é um hábito muito caro e uma vaidade desnecessária em tempo de crise: verdade ou mentira?
Valha-nos a graça de poder comer cabrito, bacalhau, polvo, rabanadas e sonhos.
Quanto aos presentes: felizmente, com excepção para os ausentes, estavam todos. Tive pena da ausência governamental nesta ceia de Natal. É Passos que o afirma, não sou eu.