Sim, existe matéria para um novo TV RURAL
Rui Rocha,
Apesar das expectativas, a montanha do Rato não pariu até ver mais do que um Seguro. Todavia, as movimentações e declarações que precederam a comissão política do PS permitem chegar a algumas conclusões:
1) Costa tinha (tem) vontade de avançar para a liderança do partido. Se não fosse assim, teria picado muito mais cedo a bolha que se criou à sua volta. O silêncio que manteve e fez questão de sublinhar ao longo de vários dias sobre as suas intenções tem valor declarativo.
2) O primeiro problema de Costa é a paspalhice de Seguro. Parecendo que não, é complicado apresentar uma alternativa a algo que não existe. A alternativa implica dois caminhos. Um que está a ser trilhado e outro que se lhe quer contrapor. No PS actual, falta desde logo o primeiro.
3) O segundo problema de Costa é a ausência de projecto político próprio e estruturado. O propósito de substituir a esqualidez e o arquear de sobrancelhas de Seguro pelo frondosidade de Costa e do seu sorriso parece insuficiente. Costa fala melhor, é mais incisivo, não tem cara de palonço? Poderá ser verdade, mas não chega. Costa sabe disso.
4) Não há surfista que não sinta atracção pelo mar. Mas é preciso saber escolher a onda. Costa percebeu que a onda que tinha para surfar não era a dele. Era a dos órfãos daquele que não pode ser nomeado. E Costa percebeu ainda que, se avançasse contra Seguro como general de um exército composto por soldados ainda intrinsecamente fiéis a lideranças pretéritas, mesmo em caso de sucesso seria refém e não vencedor.
5) Costa esperará por uma onda que lhe sirva. Para a poder surfar, precisa de uma prancha (um projecto político diferenciador) e de a ver como a sua onda: uma vaga política que possa surfar com autonomia, independência, apoiado num exército que possa considerar seu e sem interferências de terceiros. Não é claro que essa onda ainda possa aparecer em tempo politicamente útil.
Relvas afirma que a RTP não pode ser fundo sem poço.
Esta trapalhada dos duodécimos faz lembrar um daqueles casos em que os amigos do alheio levam o dinheiro e ainda te deixam a casa em pantanas.
Podem correr e saltar. Mas na grande trapalhada do pagamento de parte dos subsídios em duodécimos o legislador meteu a pata na poça. O subsídio de Natal férias a pagar em 2013 diz respeito às férias vencidas em 1 de Janeiro deste ano. Ora, o nº 3 do artigo 4º da Lei 11/2013 é bem claro:
O disposto nos números anteriores não se aplica a subsídios relativos a férias vencidas antes da entrada em vigor da presente lei que se encontrem por liquidar.
É certo que o artigo 11º faz retroagir a produção de efeitos a 1 de Janeiro. Mas se os efeitos são estabelecidos com carácter retroactivo, a entrada em vigor está fixada (artigo 12º) para o dia seguinte ao da publicação (isto é, para 29 de Janeiro). E é expressamente para a entrada em vigor que o referido nº 3 do artigo 4º remete.
Aliás, a propósito de trapalhadas, e deixando esse lapso de parte, é bem possível que a consequência do diploma seja a de introduzir involuntariamente não dois, mas três regimes alternativos de pagamento dos subsídios. É que, se não me engano, nada impede que um trabalhador comunique à entidade patronal que pretende continuar a receber apenas 1 dos subsídios por inteiro, no momento “normalmente” previsto para o efeito. Teríamos assim o sistema anterior com pagamento por inteiro nas alturas “normais”, o sistema de pagamento de 50% dos dois subsídios em duodécimos e ainda a possibilidade de receber um dos subsídios por inteiro, de uma só vez, e 50% do outro em duodécimos. Perante tudo isto, talvez esteja na altura de rever a presunção de que o legislador sabe exprimir o seu pensamento em termos adequados.
O DN dedicou nos últimos dias uma Grande Investigação ao Opus Dei. Pelo que vi, o trabalho jornalístico não trouxe grandes novidades. Em todo o caso, realce-se o facto, que desconhecia, de a obra ser dirigida pelo Espírito Santo. José Rafael, no caso. Parece-me muito bem. Nomen est omen, diziam os latinos. E não podendo a missão ser assegurada pelo Pai ou pelo Filho themselves, creio que é o melhor que se pode arranjar. Parecendo que não, transmite uma certa ideia de coerência. Mal comparado, é como se o grão-mestre de uma loja maçónica trabalhasse nas obras. Também sem surpresa é o facto de a Maçonaria ter, hoje por hoje, mais influência do que o Opus. Pelo visto, o melhor que a obra conseguiu foram duas Presidências da Assembleia da República e meia-dúzia de banqueiros mais ou menos falidos. Feitas as contas assim por alto, deve sair a coisa à razão de cinquenta milhões de vergastadas por cada cargo honorífico. No ramo do tráfico de influências, a Maçonaria é uma espécie de grande superfície e o Opus um pequeno negócio de proximidade com margens esmagadas. No fundo, é um sinal dos tempos. Tirando a Pépa, pouca gente está disponível para fazer sacrifícios. E o avental aperta muito menos do que o cilício. Claro, quando o líder afirma que tanto lhe faz que uma pessoa do Opus seja Presidente da AR ou mulher de limpeza, isso pode causar-nos algum espanto. Mas, se virmos bem, faz todo o sentido. Não tenho os números oficiais, mas dos mil e tal membros do Opus, mais de metade devem ser mulheres de limpeza. Aliás, ou me engano muito ou já houve para aí uma queixa da IURD à Autoridade da Concorrência por abuso da posição dominante no mercado das domésticas. E depois, as mulheres de limpeza têm uma actividade profissional muito adequada à concretização de certas mortificações. Quando estão a esfregar as escadas, podem aproveitar para pôr os bagos de milho debaixo dos joelhos. E confesso que também não me surpreende a composição do index das obras literárias. O Cândido do Voltaire está muito bem visto. Todos sabemos quanta sedição se esconde sob o fino véu da ingenuidade. Da mesma forma, a ninguém passa despercebido o potencial libidinoso induzido pela ausência de pontuação em Saramago. É claro que, para a protecção das almas ser completa, talvez também se pudessem incluir na lista as obras de S. Tomás de Aquino, tal como em sua e boa hora fez o piedoso bispo Étiennne Tempier de Paris. Mas nada é perfeito. E em caso de necessidade, há sempre por aí à mão um látego prontinho para flagelar as nádegas.
Armeninho ou Armeniozinho?
Não é razoável que se exija ao génio criador que se pronuncie sobre o mundo que nos rodeia com absoluto rigor. Em Ricardo III, por exemplo, Shakespeare deixa-se levar pelo engenho e afirma que os olhos são a janela para a alma: To thee I do commend my watchful soul,/ Ere I let fall the windows of mine eyes. E está bem que seja assim. Ao artista pede-se que reinterprete o mundo, que o reconte, que o treseleia. Outra coisa bem diferente é que a ciência, que se quer rigorosa, frugal e circunspecta porque presa aos factos, se deixe embarcar em devaneios e teorias tão próximas do imaginário poético que só podem estar arredadas da mais básica realidade. Vem isto a propósito de um estudo pretensamente científico realizado pela Universidade de Melbourne onde se conclui que é possível perceber o que alguém está a pensar pela simples observação do seu olhar. Os olhos serão então uma verdadeira janela para a alma, não apenas em sentido poético ou figurado, como afirmava Shakespeare, mas também numa acepção cientificamente válida e testada? Pois digo que não. Nem pensem nisso. Não há método científico que permita determinar o que está por detrás disto:
Secretário-geral da CGTP chama “rei mago escurinho” a representante do FMI.
Tudo muito certo. Mas com esta coisa do acordo ortográfico, escreve-se ouvisto ou houvisto?
Vinte e dois de Janeiro de 2013. No mesmo dia em que afirma que o governo devia ter renegociado há um ano a maturidade do empréstimo, Tó Zé Seguro critica o mesmo governo por não ter cumprido em 2012 o défice de 4,5% inicialmente previsto e que foi posteriormente renegociado.
De forma resumida, consiste no seguinte: com um ligeiro impulso, faz-se com que um berlinde percorra uma calha com declive negativo; no final da calha, a esfera embaterá num rato de plástico, fazendo-o mover-se na direcção de uma mulher gorda que gritará de forma estridente; o grito da mulher gorda assustará um papagaio, obrigando-o a esvoaçar; as asas do papagaio embaterão numa bola de bilhar em equilíbrio instável fazendo-a vencer a inércia; o movimento imprimido à bola fará com que esta entre num tubo no final do qual estarão alinhadas duzentas mil peças de dominó que cairão uma a uma e sequencialmente; a queda da última fará com que uma tesoura se feche, cortando um fio; o corte do fio libertará uma baqueta de metal com uma extremidade macia coberta de feltro; a baqueta mover-se-á em direcção a um gongo, embatendo a parte macia na campânula deste último; produzir-se-á um efeito de rufo que, por sua vez, terá como consequência directa o crescimento da economia a dois dígitos durante, pelo menos, cinco anos. Dirão alguns que este plano não é grande coisa. Respondo-lhes que o do Tó Zé parece muito menos credível.
wazmailov.
O que é que se segue? Um relatório do Instituto de Reinserção Social conduzido por uma técnica extremosa que conclua pela mais que provável hipótese de ressocialização? Uma análise sociológica que detalhe exaustivamente a relação irrefutável de causalidade entre o comportamento e a pobreza ou a percepção de desigualdade? Um estudo profundo conduzido pelo Eurostat para determinar o índice de Gini específico da população em que o indivíduo está inserido? Uma tese sobre a discriminação e a exclusão social? Um fórum sobre a globalização e os seus efeitos nocivos? Um workshop para rastrear os efeitos da frustração de expectativas promovido por um Observatório qualquer? Um parecer de uma Comissão sobre a responsabilidade da vítima? Ora abóboras. Tenham vergonha. Que se abata de imediato o estupor do bicho, tal como prevê a lei. E que, a propósito, se reveja o enquadramento jurídico no sentido da proibição total de detenção de raças como pitbull e bull terrier e da penalização severa de quem violar tal disposição. Quem quer conviver com bestas tem o seu habitat natural na selva.