O que é que se segue? Um relatório do Instituto de Reinserção Social conduzido por uma técnica extremosa que conclua pela mais que provável hipótese de ressocialização? Uma análise sociológica que detalhe exaustivamente a relação irrefutável de causalidade entre o comportamento e a pobreza ou a percepção de desigualdade? Um estudo profundo conduzido pelo Eurostat para determinar o índice de Gini específico da população em que o indivíduo está inserido? Uma tese sobre a discriminação e a exclusão social? Um fórum sobre a globalização e os seus efeitos nocivos? Um workshop para rastrear os efeitos da frustração de expectativas promovido por um Observatório qualquer? Um parecer de uma Comissão sobre a responsabilidade da vítima? Ora abóboras. Tenham vergonha. Que se abata de imediato o estupor do bicho, tal como prevê a lei. E que, a propósito, se reveja o enquadramento jurídico no sentido da proibição total de detenção de raças como pitbull e bull terrier e da penalização severa de quem violar tal disposição. Quem quer conviver com bestas tem o seu habitat natural na selva.
Cresce o clamor por uma segunda oportunidade para o Zico
Rui Rocha,

Meu avô dizia muitas vezes “um homem é um homem, um gato é um bicho”. No caso vertente, poderá adaptar-se a frase para “uma criança é uma criança, um cão é um cão”. Nem consigo entender como alguém se disporia a alimentar e a tratar e sequer a deparar diariamente com um cão que matou um bebé.
“uma criança é uma criança, um cão é um bicho”
“A deriva de antropomorfização dos animais acaba por zoomorfizar o ser humano”.
Autor anónimo
Custa-me a escrever, mas, no meu entender, as pessoas que subscreveram essa petição, não pensaram bem no que estavam a fazer ou, então são umas bestas.
Convinha perceber quem são os verdadeiros criadores dessa bestialidade.
Parece que se confundem bestas a diversos níveis.
Pois eu sou uma das pessoas que assinou a petição, e acho muito curioso que neste espaço habitualmente tão racional se tenha resvalado logo para o insulto. Sei agora que sou uma besta, louvor que agradeço e retribuo.
“Quem quer conviver com bestas tem o seu habitat natural na selva.” é a sua opinião, vale o que vale. Olhemos para a lei, essa sim, já que admite a possibilidade de conviver com bestas, e regulamentou essa prática. Transcrevo aqui parte do Decreto–Lei nº 315/2009, de 29 de Outubro: “[os donos são] obrigados a obter licença e registo na sua Junta de Freguesia, entre os três e os seis meses de idade do cachorro, devem ter seguro de responsabilidade civil para cobrir eventuais danos causados pelos animais e cumprir uma série de requisitos para o seu alojamento (vedações, espaçamento entre o gradeamento e portões, placas de aviso de presença e perigosidade do animal, etc.).
A esterilização é obrigatória para todos estes animais […]”.
Cruzando esta informação com a informação obtida em vários jornais de referência, tais como o Público, verificamos que os donos do cão não cumpriam nenhuma das normas a que eram obrigados pela legislação em vigor. O cão mostrava evidências de maus tratos, era mantido em condições altamente desadequadas, não estava registado, não estava castrado.
O que é que eu pretendo? Que os donos – os tais que deviam estar na selva – estejam na prisão. Que os seres “racionais” sejam de uma vez por todas responsabilizados pelos danos que os animais perigosos que de sua livre vontade decidiram tomar à guarda possam provocar aos próprios ou a terceiros. Os animais são seres irracionais. Já nós, temos a obrigação de saber os perigos que representam. Se assumimos a responsabilidade pelo animal, assumimos a responsabilidade pelos seus danos -a próprios ou a terceiros.
Seguindo a vossa lógica: eu divirto-me a afiar um punhal. Acho também que o melhor lugar para ele é espetado no chão, com a lâmina apontada para cima. Por acaso, tenho uma criança de 18 meses pela qual sou responsável. Ora, o punhal está na cozinha, e as luzes estão apagadas. A criança avança pela cozinha às escuras, cai em cima do punhal, e morre.
Conclusão, segundo a vossa elementar linha de raciocínio: a culpa é, obviamente, do punhal.
Dá o corpo a um bicho desses que se apresente esfomeado! Não passas dum xico esperto Deficiente! cala a boca crh!
Zé, uma correcção: “não passas de umA chicA espertA”.
E eu não escrevo com a boca, portanto, o Zé devia ter escrito “pára com os dedos, crh!”
A petição não pede nenhuma responsabilização dos donos. Portanto, a tua “assassinatura” foi para o não abate do bicho – exclusivamente.
A diferença é que o Rui propõe uma lei que evite que o próximo “Zico” seja abatido, prevenindo a possibilidade do convívio de bestas.
Já a bestialidade da petição quer que se dê nova oportunidade ao conjunto de bestas envolvido, mas ninguém vai dar nova oportunidade às vítimas desse convívio bestial.
Ora, dado o grotesco da situação, há contornos de manipulação bestial, e lutas de bestas.
a questão é mesmo elementar:
1) Puna-se severamente o responsável pelo animal. Os animais são ininputáveis, com todas as consequências que esso estatuto acarreta.
2) De facto o mastim é como o punhal da sua história. Por isso deve ser abatido, tal como é “abatida” qualquer arma detida ilegalmente.
3) Proibição de porte de arma, ou seja, medidas claras para a proibição de raças animais geneticamente criadas para a violência.
ainda em tempo: “inimputáveis”.
E segundo a lógica do seu último parágrafo, u animal é um objecto, não é?
Quanto à sacrossanta racionalidade, que vá para o diabo: como é que se o de ser racional quando uma criança de ano e meio morre assim? vá lá pedir “racionalidade” aos pais do bébé e espere pela resposta! Aliás, nem sei como é que não o mataram logo.
Olhe, João Pedro, que já se começaram guerras por menos do que “quanto à sacrossanta racionalidade, que vá para o diabo”.
Tantos anos de civilização para isto…
E você não sabe como é que os pais se estão a sentir – tanto podem estar completamente devastados (o que seria a reacção mais normal e compreensível), como podem estar às compras, como fez a mãe de “não sei onde” que trancou os filhos no quarto e lhe pegou fogo. Não sabemos. A natureza humana é plural, e quantas vezes doente. Tudo o que sabemos é que estes pais foram sobejamente negligentes, quer tenha sido de forma voluntária ou involuntária.
Relembro que a grande diferença entre seres humanos e animais é precisamente a capacidade para o raciocínio abstracto, e de libertar a acção do jugo dos nossos impulsos mais primitivos. Se isto não lhe serve e o João Pedro quer viver numa cultura pouco racional, sugiro-lhe o Médio Oriente, algumas regiões da Índia, e tribos africanas nómadas. Se não quiser ir tão longe, há perto de minha casa um acampamento cigano, onde pressinto que poderia ser feliz. A quantidade de tiros que mandaram para o ar na noite de passagem de ano… Ah, que povo feliz!
A.
Gostei do seu artigo. A morte daquele bebé é uma tragédia mas há algo que não bate certo… onde estão as dentadas do cão? Só se fala do traumatismo craniano? A criança tropeçou no animal e bateu com a cabeça? Mas as pessoas não querem saber de mais nada a não ser do abate do animal, vingando assim a morte do menino. Há que encontrar sempre um responsável que por vezes não é o mais evidente….
E que dizer daqueles que na passagem do ano andaram aos tiros para o ar e feriram outra criança que apenas estava à janela? A culpa foi da bala ou de quem a disparou?
Olhe, ainda bem que dá como exemplo a Índia, onde muitas vezes as vacas são tratadas melhor do que as crianças. E em algumas comunidades ciganas também. Na minha civilização, que tantos querem transformar noutra coisa qualquer, uma criança (e qualquer ser humano) continua a ser mais importante do que um animal.
Mermão, há uma lei que é “ditada” pelos caçadores de animais (lei bastante conhecedora da natureza animalesca, na selva e fora dela): Animal que prova sangue humano tem de ser abatido, porque voltará a repetir. Era assim que se fazia, faz, e é assim que deve acontecer.
Concordo com tudo o que diz o A. Mas nada do que ele diz justifica que o animal não tenha de ser abatido.
O enunciado da petição é um conjunto de banalidades com pouca argumentação , como sempre nestas coisas , quem as faz sabe que recebe os apoios porque sim .
Só que falta lá uma coisita , uma linha a dizer que A , B ou C , que assinou aquela petição , irá ficar com o Zico e responsabilizar-se pela sua reabilitação perante a sociedade , comprometendo-se a mostrar o resultado dos seus esforços no prazo de X meses (X podem ser muitos , admito).
Tudo o resto são clics com o rato .
E amanhã assina-se outra petição qualquer com outro clic ou vai-se a uma manif .
Fácil e rápido , tão “empenhado que eu sou” .
Faz-me alguma confusão que se ache normal ter-se cães perigosos desde que os donos isto e aquilo e aqueloutro .
Há algo de pouco normal neste raciocínio .
Mas isso era capaz de nos levar longe .
Ia também escrever sobre isto, Rui (sou capaz de escrever à mesma). Acho um absurdo ver mais pessoas a mobilizar-se por um animal do que por um ser humano. Desde a difusão mundial dos filmes da Walt Disney com as suas personagens
antropomorfizadas, criou-se a convicção que os animaizinhos, coitadinhos, são iguaizinhos a nós. Rejeita-se a natureza em função da dimensão “cultural” dos bichos, fecha-se os olhos a essa evidência que é o instinto primário, faz-se de conta que nunca foi sequer inventada a palavra feroz, algo que soa a primitivo. E temos isto: vinte e duas mil almas pós-modernas mobilizadas em defesa de um enternecedor ‘béu béu’ que se limitou a matar uma criança de ano e meio e ao qual deve ser concedida uma “segunda oportunidade” (quem mata uma vez, pode matar duas ou três).
Eis a doutrina Padre Américo em versão animal, com uns pós de Brecht: não há cachorros maus. E, se houver, a culpa é dos donos. A culpa não é do rio, mas das margens que o comprimem…
Apetece mandá-los catar. Não aos quadrúpedes, mas aos bípedes.
É mentira que a responsabilidade maior é sempre dos donos?
Sempre pensei que um dos indicadores do grau de civismo de uma sociedade é a maneira como tratam os animais.
Sim, mas está atrás de outro indicador, que é a maneira como se protegem as crianças.
Por exemplo, evitar que sejam abocanhadas por pitbulls.
Penalizar as bestas dos primeiros donos, não torna menos bestas os próximos.
A aquisição civilizacional de viver sem a ameaça de bestas colide com a vontade privada de conviver com elas.
Deve ser um direito de qualquer um poder ser abocanhado por feras, mas esse direito não pode constituir ameaça para os outros, em particular, repetida ameaça a crianças, velhos, vizinhos, etc…
Linguagem mais ou menos aguçada à parte, percebo a posição de A. É óbvio que, se estamos a falar em culpas, perante um animal racional e um outro, terá sempre que ser o racional a assumi-las. Penso que deveria haver penas efectivas para donos de animais que não cumprissem a lei e que, em consequência disso, situações como esta ocorressem. A propósito li hoje este post http :/ amo-osanimais.blogspot.de /2013/01 esta-na-natureza-deles.html ) que esclarece alguns aspectos. Mas isso é uma coisa. Outra é o que se deve fazer aos animais quando essas situações acontecem mesmo.
Se quem assina a petição acha que o abate do Zico não é solução e que se deve optar pela reabilitação/treino do cão como é que pensa que isso se pode operacionalizar? Alguém especialista iria treinar o cão? E passaria um certificado a dizer que ele estava reabilitado? Ou isso seria omitido no seu BI? E depois? Alguém ficaria com ele e o levaria para sua casa? Ou ficaria eternamente no canil com aquele rótulo associado a si? É que depois ninguém se lembraria mais do Zico.
Se 22000 assinaturas numa petição contra o abate do cão fizerem com que as autoridades levem a série o controlo das pessoas que detêm ilegalmente armas vivas, que é, na prática, do que parece tratar-se neste caso, já será uma boa coisa. Na internet encontram-se facilmente referências de 2008 a “tolerância zero” sobre esta questão em Beja…
A razão porque foi este particular cão que despoletou as 22000 assinaturas prende-se com certeza com a natureza das redes sociais (hoje já quase 10000 pessoas mostraram a sua preocupação com a Pepa e a sua mala, por exemplo).
Já agora, manifesto também a minha perplexidade sobre o tom do post inicial e, mais ainda, sobre o facto de da Maia (de quem apreciei recentemente o comentário sobre a “derrota”) ter imediatamente revertido para o tratamento de “tu” na sua resposta a A. Curiosas estas coisas, não são?
Cara IsabelPS,
note que segui o tratamento corrigido, pela própria A., ao comentador anterior.
Sei que por vezes se procuram levar estas discussões a esse detalhe, e por isso evito descurar até as vírgulas. Nem sempre me lembro, consigo ou quero.
Enfim se “o diabo está no detalhes”, nem sempre temos que lhe dar importância.
Obrigado pela sua atenção e apreço.
Vá lá reler com atenção a correcção que eu fiz ao senhor, vá lá. É que o tratamento por “tu” incluía-se numa transcrição que eu fazia do comentário do Zé, onde estava apenas a corrigir o género dos adjectivos, não o pronome pessoal. O “tu” era para mim.
Exma. A.,
V.Exa. enreda-se nos detalhes.
Poderia ter suprimido o “s”, mas não o fez.
Presumi que a correcção de V. Exa. fosse completa.
Não o sendo, a minha também não teria que ser.
Oh da Maia, trate-me por “tu” à vontade. Até nos podemos cumprimentar com dois beijinhos ao invés do excessivamente formal aperto de mão, se assim preferir. Hmm…?
Caro Rui, estou plenamente de acordo consigo. E aquilo que conheço da vida sobretudo pela especificidade da minha profissão, leva-me a concluir com uma pequeníssima margem de erro, que 90% das pessoas que assinaram a petição, se lhe perguntar-mos onde está o seu pai ou mãe, dizer-nos-ão que os têm num qualquer lar, muitas vezes suspeitos, mas em casa têm um cão.
Tenho para mim que os animais de estimação são como o dinheiro. Raramente são simplesmente aquilo que são: cães, gatos, notas de mil. Muitas, muitas vezes representam outras coisas: poder, estatuto, segurança, conforto emocional. Não serve de nada escandalizarmo-nos, é assim a vida…
Uau, Singularis, que volta que o sr. deu… Não terá entrado em contramão?
Na mouche, singularis. A A. já mordeu o isco…põs os pais no lar.
Se pudesse punha, o problema é que aos 53 anos e a trabalhar, ainda não os aceitam em nenhum. E depois ainda se vingavam e deixavam de me pagar mesada e as propinas… É melhor não arriscar.
O melhor mesmo seria entregar o cão a uma família de chineses…
O grande problema, Rui, é mesmo esse: não estamos na selva! E os animais que trazemos para o nosso “habitat” devem ser socializados, a fim de poderem conviver pacificamente com um mundo feito à medida humana. Infelizmente, há muitos humanos, os chamados animais racionais, que não são feras (embora sejam capazes de barbaridades como a violação coletiva na Índia, o massacre em Newtown, ou na Noruega), há muitos humanos, dizia eu, que trazem essas “feras” para a nossa beira e não se preocupam em socializá-las. Dá trabalho, requere tempo e paciência, é uma chatice!
Não sei se o cão merece a morte, tenho dúvidas e não assinei a petição, nem costumo assinar petições desse estilo, embora esteja sempre pronta para defender os animais. Neste caso, a única certeza que tenho é esta: os responsáveis pela tragédia foram os donos do cão!
P.S. Qualquer pessoa que mantenha um animal em casa, seja de que tamanho for e independentemente do seu temperamento, devia saber que não se deve deixá-lo sozinho com uma criança pequena. Nunca!
Na minha opinião muitas pessoas assinaram a petição levadas por “bruaaaas”, “a criança caiu em cima do cão e este empurrou-a e ela bateu com a cabeça” “o animal passava fome e os dias fechado ás escuras” “O dono é um tipo sanguinolento que cortou as orelhas ao bicho e participava em lutas de cães”, depois um certo movimento animal frendly demasiado fundamentalista que estabelece comparações entre a atitude do cão e pedófilos e violadores, e por fim a foto do cão. Poucos foram os que nao sentiram empatia pelo câo quando o viram na TV a ser levado, todo encolhido e cheio de medo. Quanto a mimforam estes os condimentos para criar esta histeria. As pessoas “humanizaram” o bicho.
Na minha modesta opinião, estou de acordo com a lei, em caso de ataque que cause lesões graves ou a morte de um ser humano deve ser abatido, porque a questão aqui é só uma, mesmo que seja “rehabilitado”, quem pode garantir a 100% que este animal depois do que fez, não voltará a fazer?
Quem já assistiu a um destes cães a investir sobre uma pessoa, sabe o perigo que são, porque são corpolentos, têm muita força, uma mandíbula descomunal e onde agarram não largam mais até estraçalhar completamente, e são muito reactivos. É preciso repensar, no caso de raças destas, se efectivamente podem ser animais domésticos.
Morreu uma criança de forma trágica, e o que preocupa a alguns, é que os pais “sejam presos”, “abatidos”. Talvez o maior erro que cometeram foi confiar no animal doméstico que tinham em casa a 9 anos, e é com isso que vão ter de viver no futuro.
Quanto a petição, é absurda, assenta no pricipio que o o abate do cão é um “castigo”, e de que o animal não é culpado e que os seus cuidadores é que são responsáveis. Sem duvida de que o dono é totalmente responsável e deve responder por isso, mas o abate, que a lei prevê, tem como objectivo questões de segurança e bem estar social. Um animal que ataca e mata uma criança, não é um perigo social? É preciso bom senso, a vida humana é o maior dos valores fundamentais que nos regem enquanto sociedade, por isso a pena de morte é tão polémica e não aceite pela maioria das sociedades no mundo. Não vou por crachás ao peito e reiterar o quanto adoro cães e o quanto são importantes na minha vida, basta-me que eu saiba isso e faça por isso, mas nestes casos, acho miserável, que depois da morte desteino, a única coisa de que as pessoas se vão lembrar, é do…Zico.
Senhor Rui Rocha, verifiquei que se referiu à “proibição total de detenção de raças como pitbull e bull terrier” mas gostaria de alertá-lo que, embora o Pit Bull seja considerado uma raça potencialmente perigosa, a raça Bull Terrier não o é. Pareceu-me que considerou ambas as raças como sendo consideradas perigosas e queria apenas clarificar que o Bull Terrier não é considerado pelas suas características de raça uma raça potencialmente perigosa segundo a direção de veterinária. Os melhores cumprimentos.