Cuidado com a língua


Rui Rocha,

Não é a primeira vez que acontece. Não será a última. Há situações em que a linguagem que utilizamos mostra mais do que desejamos. Veja-se o caso dos órfãos e viúvas de Sócrates. Empenhados estes na sua reabilitação. E aquelas na aceitação da sua herança. Concentrados que estão na tarefa, cães que fossem sempre reconheceriam o dono, não se apercebem do óbvio. Só se reabilita o que sofreu degradação. E aceitar a herança de alguém implica empurrar esse mesmo alguém para o lugar do morto.

Fuckelim


Rui Rocha,

Marcelo Rebelo de Sousa afirmou ontem que o governo foi um desastre a defender a nomeação de Franquelim Alves. Há uma explicação para isso. A nomeação de Franquelim Alves não tem defesa. É uma decisão que descende por via directa da falta de bom-senso, da insensibilidade e da mais inveterada cegueira e paspalhice política. Está na exacta e mesma linha da teoria da oportunidade do desemprego, dos conselhos sobre a emigração, do concerto do Paulo de Carvalho, do desagravamento da TSU suportado pelos trabalhadores, da permanência de Relvas como ministro e da presença demasido próxima de Dias Loureiro junto a membros do governo, seja em Lisboa ou em Copacabana. O caso BPN foi demasiado grave, custará aos portugueses demasiado caro, para que alguém que esteve na gestão da SLN possa, independentemente das suas responsabilidades pessoais, apresentar-se aos portugueses como governante. É inadmissível que aos portugueses, exauridos, enganados, esganados, extorquidos, se imponha ainda o achincalhamento de ver num cargo político executivo alguém que esteve ligado, mesmo que eventualmente de forma não dolosa, a uma das vergonhas nacionais. Assim, a gestão posterior da nomeação foi apenas coerente com o valor da própria nomeação. É claro, todavia, que alguns episódios foram absolutamente reveladores de uma total imbecilidade. A “ocultação” do episódio SLN no currículo, a “aparição” de Relvas, essa reserva moral do governo, a dar cobertura à nomeação, a tentativa do Álvaro de converter um vulgaríssimo quadro superior de uma empresa num paladino da verdade e da transparência ou a explicação de que a omissão no currículo teria decorrido da necessidade de o resumir em 500 caracteres são dignas de figurar num manual sobre tudo o que não se deve fazer. O verdadeiramente ridículo de tudo isto é que, afinal, teria sido muito fácil evitar mais este foco de tensão entre o poder político e os cidadãos. Bastava ter menos atenção aos caracteres e perder um pouco mais de tempo com questões essenciais de carácter político e de afirmação de uma via digna de governação, com respeito pelos eleitores.

António Costa explica por que gritou Sócrates quando viu Tó Zé Seguro


Rui Rocha,

“Ele saiu da viatura e não ligou nenhuma a uns órfãos e a umas viúvas que estavam à espera dele. Nem um sorriso, nem um aceno. Foi isso que me levou a gritar o nome do Sócrates”, contou António Costa. “Nunca gostei do Tó Zé como político, nem quando lidera o PS. Chamo-lhe os nomes todos quando o vejo durante os debates”, criticou. No entanto, o socialista está arrependido: “Fiquei muito nervoso por ter mandado essas bocas que não devia ter mandado. Hoje estou arrependido, mas se calhar um dia voltarei a fazer o mesmo, se ele não tiver o desempenho que devia”.

 

 

Tó Zé, o líder que discordava dos ministros que concordavam com ele


Rui Rocha,

Jornalista: qual o seu comentário à notícia de que há ministros que defendem um prazo de 3 anos para a aplicação dos cortes de 4 mil milhões?

Tó Zé: Pelos vistos há ministro do Governo que estão de acordo com as posições do PS.

Jornalista: Isso quer dizer que estará disponível para discutir os cortes nessas condições?

Tó Zé: Cortes de quatro mil milhões? Nem pensar.

 

Tudo isto em Vinhais, onde Tó Zé visitou a Feira do Fumeiro. O local ideal para encher chouriços.

Na Venezuela não há cortes na despesa


Rui Rocha,

O governo local anunciou uma desvalorização do bolívar face ao dólar. Entretanto, se ler num jornal de referência (sei lá, o Expresso, por exemplo) que a desvalorização é de cerca de 32%, faça as suas próprias contas. Na verdade, se 4,3 bolívares valiam 1 dólar e 6,3 bolívares vão passar a valer o mesmo dólar a partir de 13 de Fevereiro, a conta correcta seria, não sei, digo eu: 2/4,3×100. Isto é, 46%. Mas também é verdade que, ao contrário de Nicolau Santos, não frequentei a BSSE (Batista da Silva School of Economics).

Escala de valores


Rui Rocha,

Ora vejamos:

 

a) O Tribunal de Penafiel condenou um soldado da GNR local, já cadastrado e com outros processos pendentes, ao pagamento de uma multa de 560 euros por ter agredido um arrumador de automóveis dentro do posto policial, refere a Lusa.

 

b) Um agente da GNR de Viana do Castelo foi condenado, ontem, a 90 dias de multa, à taxa de seis euros por dia, e ao pagamento de uma indemnização de 750 euros, por uma agressão a uma mulher, num campo de futebol, em Darque.


c) O pontapé no porco que andava fugido na A1, em Alverca, há pouco mais de uma semana, na sequência de um acidente, pode valer uma punição até 120 dias de suspensão e respetiva retenção no salário. Essa é a medida disciplinar mais grave que o militar arrisca, caso o processo de averiguações conduza a um processo disciplinar em que seja condenado.


Temos então que a integridade física de um arrumador vale 560€. A de uma mulher um pouco mais: 540€ de multa mais uma indemnização de 750€. Por seu lado, tendo em conta que o salário mensal de um soldado da GNR pode superar os 1.000€, a integridade física de um porco pode valer mais de 4.000€. Isto é, quatro vezes mais do que a de um arrumador e duas vezes mais do que a de uma mulher. Ou muito me engano, ou chama-se a isto subir na cadeia alimentar.

Portugal e o Sporting


Rui Rocha,

Afirmar o paralelismo entre a situação de Portugal e a do Sporting constitui um recurso discursivo demasiado tentador. Todavia, se quisermos ser rigorosos nos argumentos que utilizamos, devemos reconhecer que a analogia entre situações não é perfeita. Portugal, apesar de tudo, regressou aos mercados, situação que constitui um sinal de retoma de credibilidade, independentemente de sabermos se tal se deve a factores internos ou externos. O Sporting, por seu lado, saiu do mercado de Janeiro ainda mais enxovalhado. Há, todavia, um aspecto em que o país e o clube apresentam semelhanças evidentes. Refiro-me, naturalmente, à submissão e cedência perante os interesses do BES.

Da obscenidade


Rui Rocha,

 

Pelo visto, não se trata já dos efeitos da antropomorfização  nascida com os filmes de Walt Disney. Nem da extensão da tese do bom selvagem aos animais. O que está em causa já não é só perguntar se há gatos siameses maus e responder sempre que não, coitadinhos. Ou ter de aturar uma legião de padres américos que se dedicam a pastorear as almas das lagartixas. Ou os que sabem de cor o nome do Zico para o qual pedem uma segunda oportunidade e não perderam um segundo a dar um nome à criança que morreu com o crânio esmagado. Estamos, ao que parece, um passo à frente. No sentido do abismo. Agora, a luta não é apenas a da igualdade de direitos entre animais e humanos. É, mais do que isso, a da admissão da prevalência do direito à sobrevivência de um animal doméstico sobre o de um qualquer ser humano. Isto é, os animais, ou pelo menos certos animais (o que para o caso tanto vale) um passo à frente e os humanos, ou pelo menos certos humanos (para o caso tanto vale) um passo atrás, quando se posicionam numa escolha fundamental de vida ou de morte. Há perguntas de onde não se regressa. Porque mesmo uma resposta negativa transporta sempre um efeito de legitimação da hipótese formulada, mais que não seja enquanto tal. E em caso algum devemos ser cúmplices da obscenidade.

 

2 de Fevereiro de 2013


Rui Rocha,

– Papá?

– Sim, amor.

– Como é que se sabe quanto é que uma pessoa deve ganhar?

– Pelo trabalho que faz?

– Sim.

– Bem, atribui-se um valor ao trabalho que faz num determinado período de tempo.

– Numa hora?

– Ou numa semana, num mês, num ano…

– Como nos táxis?

– Sim, como se fosse um taxímetro…

– Quanto ganha a Dona Laura?

– Cinco euros à hora.

– Quer dizer que uma hora da Dona Laura vale cinco euros?

– Quando está a trabalhar, sim.

– Não é muito.

– Pois…

– Então e um dia do pai do Luís não vale nada?

– Hã?

– Pois, como está desempregado…

– Vá, acaba lá o leite para irmos embora.