A, assim chamada, greve dos controladores aéreos espanhóis foi uma vergonha. Para melhor entender a questão, importa fazer uma breve cronologia dos factos:
• ao princípio da tarde do dia 3 de Dezembro, o Governo espanhol anunciou a aprovação de um decreto que altera a fórmula de contagem de tempos anuais máximos;
• um par de horas depois, a União dos Sindicatos dos Controladores Aéreos convocou uma conferência de imprensa em que anunciou a sua oposição ao decreto;
• a partir das 17h00, os controladores aéreos em serviço começaram a suspender a sua actividade, provocando o caos aéreo que se conhece e que levou à declaração do estado de ‘alarme’ em Espanha e à mobilização dos controladores aéreos.
Esta paralisação foi decidida completamente à margem do direito, sem cumprimento das mais elementares regras de exercício do direito à greve e à reivindicação. Os controladores aéreos espanhóis abusaram de um poder de facto que possuem. Comportaram-se como o funcionário que aceita receber um suborno para abrir uma porta de que só ele tem a chave. Só que, sendo um acto igualmente criticável em si mesmo, o dos controladores tem consequências avassaladoras. É preciso dizê-lo: o que aconteceu em Espanha é, sem grande preocupação de rigor jurídico, do domínio da extorsão e da chantagem. Sem temor de acusações de demagogia, importa perceber que estamos a falar de uma classe com cerca de 2.500 elementos, cuja remuneração base anual rondará os 175.000€. Tendo em conta os valores que auferem por trabalho suplementar, os controladores espanhóis receberão, em média, mais de 300.000€ anuais. Leram bem! E, se dúvidas houvesse sobre a “qualidade” moral desta atitude, o facto de uma boa parte do grupo ter regressado ao local físico onde deveriam exercer funções e ter invocado não ter condições médicas para trabalhar diz tudo. Neste contexto, a decisão do Governo espanhol de decretar o estado de ‘alarme’ é justa e inatacável. Qualquer outra decisão implicaria a implosão do Estado de Direito às mãos de uma classe profissional que optou pelo caminho da marginalidade.
Aqui chegados, creio que importa reflectir sobre esta situação no contexto mais vasto das relações de poder na sociedade. O jogo social faz-se de equilíbrios e balanços. O espaço que um dos actores sociais deixe livre, é ocupado por outro actor social. Em Espanha, o espaço foi deixado livre por um Governo fraco que tem uma relação difícil com a verdade e com a realidade. O Governo espanhol não tem neste momento qualquer autoridade ou credibilidade. A posição de força dos controladores aéreos é o reverso da fraqueza de Zapatero.
Por isso, é muito importante que outros Governos das redondezas percebam a gravidade de certas situações que toleram ou admitem. Refiro-me, por exemplo, à aprovação de regras sobre cortes de salários e despesas que são sucessivamente excepcionadas até se tornarem injustas e imorais. São estes sinais de fraqueza ou irresponsabilidade que, não tarda, poderão dar origem no nosso país a agitação social de proporções que não podemos adivinhar.