Como servir um vinho espumante


Rui Rocha,

Este é o dia certo para discutir, em termos científicos, a melhor maneira de servir um vinho espumante. Ao leitor sedento peço, todavia, um tudo-nada de paciência. Antes de nos aventurarmos nesse  efervescente desafio, importa perceber a que se deve a natureza borbulhante desta apreciada bebida. Ocorre-me, precisamente neste momento, que bebida, em rigor, ainda não foi. Na verdade, nem sequer foi servida! Temos, pois, um caso flagrante de algo que antes de ser já o era. E o que são as associações de ideias, eis que me vem à lembrança o Estado Social. Aquele que já não o sendo, dizem dele que ainda é. Este que nos servem, quando já foi totalmente consumido. Puxa-me o leitor pelo braço para que volte às borbulhas. A mim, que já me perdia com quistos. Pois as borbulhas resultam, caríssimo leitor, do simples facto de os vinhos espumantes terem um nível significativo de dióxido de carbono. Daí que na recente Cimeira de Cancun, depois de terem chegado a um fantástico acordo sobre a climatização da sala de congressos (nem mais nem menos que 23 graus célsius na escala de Richter), os ali presentes tenham festejado com o mais nobre dos espumantes: o champanhe. Foi, concordará, uma poderosa metáfora sobre os efeitos do dióxido de carbono. Os aguerridos congressistas deram o copo ao manifesto. E beberam-no frio, em clara oposição ao aquecimento global. Prossigamos. O que se passa, paciente leitor, é que a concentração de dióxido de carbono dentro da garrafa é muito superior à que existe na atmosfera. Tirando-se a rolha, o dióxido de carbono liberta-se, formando as festivas borbulhas. Mal comparado, é como se fosse um aumento da função pública aprovado antes das eleições. Depois das eleições, que fazem aqui o papel de rolha, os aumentos perdem-se na atmosfera. E o que acontece dentro da garrafa? Ora enfeites de Natal! Isso o leitor já sabe. Dentro da garrafa fica menos dinheiro do que aquele que o funcionário público tinha antes de tirar a rolha. Percebida a subtileza do mecanismo, é então altura de aprofundar o método. Permito-me, todavia, uma última deambulação pelos conhecimentos elementares sobre espumantes. Para dizer que estes apresentam, basicamente, três tipos. Socorro-me do futebol para ser melhor compreendido. Se o vinho for aparentado com José Mourinho, dizemos dele ser bruto. Se for do género Guardiola, chamamos-lhe doce. Se se apresentar como o cabelo do Jorge Jesus antes de uma segunda demão de Farandol, será meio-seco. Método, dizíamos. Vamos a ele. O vinho espumante pode servir-se na vertical. Tal e qual como subiu a cápsula que resgatou os mineiros chilenos.  Tal e qual como se fosse o descontrolo das contas públicas da Grécia. É o conhecido método wikileaks.  Profusão de borbulhas que se perdem no ar. Também lhe pode chamar método Gonçalo M. Tavares. Mas, só se o vinho for de qualidade. Em alternativa, ponha-se o copo inclinado. Neste caso, o contacto entre o líquido e o cristal que o há-de amparar faz-se de forma menos turbulenta. Como se fosse uma derrapagem da dívida soberana portuguesa. Controlada pela intervenção do BCE no mercado. Como se fosse o descalabro do BPN. (Des)controlado por injecções de milhões. De uma maneira ou de outra, o líquido chegará ao Fundo. Do copo. A diferença, leitor, é que, pondo-se este inclinado, a libertação do gás é, no imediato, menos intensa. E o gozo da bebida é mais prolongado. Agora que o leitor conhece o método correcto, devo-lhe algumas recomendações. O espumante celebra a amizade. Deve bebê-lo mesmo que as cadeiras de Liu Xiaobo e Guillermo Fariñas se mantenham vazias. Não há nada mais perturbador para os carcereiros do que as borbulhas que se libertam. Mas, não se esqueça, leitor. Antes de beber, deve fazer prova. De rendimentos. A taxa de alcoolemia admissível impõe a moderação. Daí as famosas taxas moderadoras. O leitor bem sabe que o povo tem de sofrer a crise como o Governo a sofre. O espumante também azeda. E isto está uma boa Merkel. Posto isto, em vez de passas, acompanhe com PECs. Três por 2010 e mais um pelo ano que aí vem. O que importa, leitor, é que acabámos de percorrer alguns dos acontecimentos mais importantes do ano que termina. Esqueci-me de algum? Qual? O casamento homossexual? Rima. Mas, não é verdade. Na foto coloquei dois copos felizes. Do mesmo género. Brindemos então com este espumante que não mata a sede, mas sa-CIA. Desejo-lhe um Guantánamo Novo muito feliz. Salve-se. Se puder!

Uma chapada em Ahmadinejad (a sério!)


Rui Rocha,

O El País divulgou hoje mais um wikicoiso. Este é especialmente saboroso. Algum tempo depois do pico de agitação da chamada Revolução Verde no Irão, a questão da segurança interna do país foi discutida no Conselho Supremo da Segurança Nacional iraniano. Perante uma intenção de alguma abertura do regime manifestada por Ahmadinejad (uau!), o Chefe da Guarda Revolucionária terá dado uma bofetada ao pequeno líder. É claro que foi uma chapada pelas piores razões. O autor do acto manifestou assim a sua repulsa por qualquer fresta de alívio da mão-de-ferro do regime. É claro também que o Irão bloqueou já a página internet do El País. Mas, a imagem fica. E vale mil palavras. Eu cá, que não sou de violências, também lhe dava um calduço.

En-mim-tel


Rui Rocha,

A empresa ideal não tem clientes. Nem trabalhadores. Nem administradores. Nem KPI’s. Nem prémios de gestão. Nem serviço de apoio ao cliente. Nem advogados pagos à hora para lixar os clientes. A empresa ideal é a En-mim-tel. Só tem bottom line.

Taxas moderadoras na saúde — o Estado Social acabou


Rui Rocha,

Foi ontem publicada a portaria 1319/2010 do Ministério da Saúde. Este diploma regula, entre outras questões, a isenção de pagamento de taxas moderadoras na acesso à saúde. A partir de 1 de Janeiro de 2011, apenas terão direito a isenção os pensionistas, os desempregados e os seus familiares, incluindo filhos menores dependentes, se os seus rendimentos não ultrapassarem o salário mínimo nacional. Isto é,  485€ mensais em 2011 (quatrocentos e oitenta e cinco euros por mês). É preciso recordar que, na sequência da aprovação do decreto-lei 70/2010, para o cálculo deste rendimento entram todas as fontes possíveis, como prestações sociais, rendimentos de capitais, rendimentos prediais, etc. E que a inexistência de rendimentos superiores está sujeita agora a um regime de prova muito apertado. Estamos, por isso, a falar de pessoas que terão de pagar taxa moderadora se, por exemplo, dispuserem de um rendimento mensal de 490€ e rigorosamente mais nada. Aqui chegados, importa dizer que também ontem foi publicada a portaria 1320/2010 que actualizou o valor das taxas moderadoras. Ora, foi ali estabelecido que, por exemplo, uma urgência polivalente custa ao utente 9,60€. Significa isto que um desempregado ou um pensionista, com o tal rendimento de 490€ mensais, se tiver que recorrer a uma urgência duas vezes num mês, gastará perto de 20€. Isto é, quase 5% do seu rendimento mensal.

Ao ler estas novas portarias senti-me envergonhado do país em que vivo. Eu pago impostos para que pessoas nesta situação possam recorrer a serviços de saúde. Não para que fiquem doentes, a morrer em casa, porque não têm dinheiro para pagar a urgência. Isto não é um regime de isenção de taxas moderadoras. É um mecanismo de sanção da pobreza. Isto não são taxas moderadoras. São taxas demolidoras. Não preciso de mais dados. O Estado Social português, imperfeito que fosse, acaba em 31 de Dezembro de 2010. Em 1 de Janeiro de 2011 começa o Estado de Privação. 2011 pode desde já ser declarado Ano Nacional de Combate à Pobreza. No sentido de que foi declarada a guerra aos pobres. Neste contexto, qualquer discurso político demagógico e cretino sobre estes temas é insuportável. Calem-se de uma vez por todas!

Edite Estrela apoia Cavaco


Rui Rocha,

A recandidatura de Cavaco Silva corre-lhe bem. A conjuntura já lhe era favorável. Alegre, o principal opositor, apresenta-se sem base de apoio coerente. A clivagem política não se faz, em Portugal, entre esquerda e direita. Faz-se entre partidos do arco da governação e partidos do arco-da-velha (PCP e Bloco). Embora ocupem, aparentemente, espaços contíguos, PS e Bloco estão à distância desse fosso profundo que os separa. Alegre dedica-se ao esforço inglório de saltar de um lado para o outro. Em cada viagem, desbarata credibilidade. E, desta vez, não tem uma história de injustiça para contar. Em 2011, não existe um moinho com bochechas ao vento contra o qual um bardo quixotesco possa espetar a barba. Sem moinhos não há crónicas épicas de cavalaria. A Nobre, por seu lado, não faltam causas. O seu problema é esse. No fundo, os portugueses têm sobre o seu destino uma avaliação racional. Nobre será muito mais útil dedicado às causas humanitárias do que enredado em jogos políticos em Belém. Ocorre-me agora que Nobre daria, por exemplo, um excelente Presidente da AMI. Os portugueses também acham que o futuro dele será por aí. O candidato do PCP é a cara do partido. Não lhe tira uma vírgula mas, também não lhe acrescenta um ponto. Muito menos uma exclamação. É, portanto (não resisti), muito útil a Cavaco. Impede a consolidação de votos num candidato de esquerda. Essa que, em termos de projecções e sondagens, poderia criar a ilusão de uma onda de vitória. Estas coisas fazem-se de momentos. Uma desistência à boca da urna não vai provocar um momento de entusiasmo à esquerda. Pelo contrário. A acontecer, vai certificar o desespero da causa. De Defensor de Moura dizia-se não apresentar desígnios óbvios de candidatura. Até ao debate com Cavaco Silva. Ali se percebeu que a sua presença tem como objectivo ajudar o actual Presidente a vencer a eleição. Uma parte dos portugueses não gosta especialmente da auto-suficiência de Cavaco. Mas, têm um lugar no coração para todos os injustiçados. Sugerir que Cavaco tem uma ligação nebulosa ao BPN é dar-lhe uma oportunidade de vitimizar-se,  bater no peito e proclamar a sua indignação. Em tudo isto, só faltava uma Estrela que indicasse ao actual  Presidente o caminho de Belém. Pois ela surgiu por alturas do Natal. Estas declarações da auto-intitulada madrinha de Sócrates (tens aí um afilhado porreiro, pá!), insistindo na tecla do BPN, reforçam a ideia de um Cavaco acossado. Num campo onde a sua robustez é de betão: o da idoneidade pessoal. Edite Estrela torna-se, assim, mais uma apoiante improvável de Cavaco. Afastando-se da crítica à forma como este exerceu o mandato presidencial que termina, esta gente dedica-se a bater com a cabeça na parede. Quando se pensava que iríamos assistir a uma vitória do actual Presidente por falta de comparência, eis que os adversários entram em campo para marcar golos na própria baliza.

Belém 2010


Rui Rocha,

Belém é uma cidade da Palestina onde o Novo Testamento e o Corão localizam o nascimento de Jesus Cristo. Ali ficaria o estábulo que constitui o elemento arquitectónico central dos presépios que fazem parte do imaginário do Natal tal como o conhecemos. A realidade da Belém dos nossos dias é bem diferente. Situada a 7km de Jerusalém, tem cerca de 30.000 habitantes e é atravessada por um muro. O muro que Israel está a construir desde 2004. Para os israelitas, o muro é uma defesa. Para os palestinianos é uma ameaça. Como qualquer muro, tem dois lados. Este, em concreto, tem o valor de uma metáfora sobre a incapacidade de israelitas e palestinianos compreenderem as ansiedades  que se abrigam em cada um dos campos a que o muro serve de fronteira. O material de que se faz este muro é o medo. Esse que une os dois lados. Aparentemente, a religião maioritária em Belém é o islão. Que convive com uma das maiores comunidades cristãs da palestina. Na verdade, os deuses mais adorados nestas paragens são os da guerra. Belém é uma cidade militarizada, em que o ódio, as armas e os checkpoints contrastam com a imagem da cidade bíblica idealizada nos presépios. É este contraste que Leo Bassi procura realçar com o ‘Belén de Lavapiés’. Uma visão do que seria o nascimento de Cristo, no mesmo sítio mas, em 2010 (imagem). É claro que a proposta de Leo Bassi tem evidentes desígnios políticos, tomando partido por uma das partes em litígio. Aqui, o que pretendo sublinhar é, todavia, a perspectiva das crianças de Belém que continuam a não ver cumprida a mensagem da paz e da liberdade, sejam elas israelitas ou palestinianas. Professem a religião cristã, o islão ou religião nenhuma. Essas crianças cujo pecado original é o de viverem num lugar em que o passado é uma âncora que carregam desde que nascem e que as impede de sorrir para o futuro.

Hapiness


Rui Rocha,

Edo State fica na Nigéria, embora a descrição mais correcta seja aquela que diz que fica a caminho de lugar nenhum. Como acontece a tantos outros sítios que teimamos em querer esquecer. Ali, a vida é tão negra como a pele dos seus habitantes. Tão desesperada que há mulheres e homens que se metem em pouco mais que jangadas para se atirarem ao mar. Literalmente. Sem saberem para onde vão. Com a única certeza de que não querem estar mais ali.  Estes e outros tantos chegaram ao ponto em que a viabilidade das suas vidas se joga no interstício que fica entre uma existência desgraçada em terra e a enorme probabilidade de naufrágio no mar. O único aconchego que encontram na viagem, que dura quantas noites existem na alma de cada um dos passageiros, é o dos corpos que se esmagam uns contra os outros na exiguidade do espaço que lhes coube. E o dos corações que, manifestamente, não cabem ali. A cada milha percorrida, equilibram-se, contra todas as probabilidades, na linha que separa a vida da morte. Assim vão, rompendo as águas. Como também se romperam durante a viagem as de Judith. Que carregava no ventre uma menina. Antes de darem à costa, em Espanha, em 12 de Dezembro de 2010. Aquele que vemos ali, é o pai que a carrega nos braços. Verão, se olharem bem, que dez a quinze cêntimetros de cordão umbilical pendem ainda do corpo da recém-nascida. Puche, o pai, há-de dizer mais tarde que tudo o que queria era ouvir o choro da filha. Única evidência de que continuava viva. Judith chegou a terra frágil e a tremer. Mais do que todas as mães. Perguntaram-lhe pelo nome da filha. Sussurrou aquilo que pareceu, aos ouvidos de quem a escutou, qualquer coisa como Aspess. Nestas histórias, há sempre tantos lados. Em Espanha, o herói do dia foi o Guardia Civil que deu os primeiros cuidados à mãe e à filha. Em Edo State, inveja-se a sorte de Judith e da menina. Dizem por lá que é uma sorte nascer numa quase jangada chamada Zodiac, em pleno mar negro de Alborán. Muito melhor do que nascer em Edo State. Porque nascer ali é morrer. Vista a coisa do outro lado do mar, aquele em que nunca nos colocámos, nasceu uma menina com estrela. Da sorte. Vista a história daqui, parece-me que aconteceu Natal. Antecipado. Ainda bem que foi assim, pois que as histórias felizes não devem ser adiadas só para cumprir calendário. O verdadeiro nome da menina, aquele que a mãe não teve forças para pronunciar, é Hapiness. Com menos pês do que o previsto na norma linguística. Todavia, ainda mais feliz. Estava escrito em algum lugar que devia ser assim.

 

*alguns detalhes da história de Hapiness podem encontrar-se aqui. Os outros encontram-se com o coração. Feliz Natal.

Há mais


Rui Rocha,

A agência de notação Fitch acaba de cortar o rating de Portugal de AA- para A+. Ou seja, há mais. Dificuldades de acesso ao crédito, custos de financiamento, desemprego e pobreza. E também há menos: credibilidade do país junto dos investidores internacionais e crescimento. O Natal é tempo de presentes. Mas, este é mais um futuro. Envenenado. Os presentes e os futuros agradáveis são para quem se porta bem ao longo dos anos. Para quem faz o trabalho de casa. De acordo com a Fitch, alguém por aí continua a passear a sua incompetência. À nossa custa. Nos próximos tempos, temos que pôr o sapatinho. No fundilhos das calças dessa gente.

Em Teerão: luzes, câmara… condenação


Rui Rocha,

Jafar Panhai (na foto) é um cineasta iraniano. Foi preso pelo regime de Teerão em Fevereiro deste ano. Sob a acusação de rodar um filme sem autorização (sic) e de incitar os protestos oposicionistas com a sua obra. Há um par de dias foi conhecida a decisão de condenação a 6 anos de prisão e de 20 anos de interdição de qualquer actividade cinematográfica. Na mesma altura, foi igualmente condenado Mohammad Rassoulof que com ele colaborava.

O cineasta, já premiado em Cannes e Veneza tem, para além de talento indiscutível, hábitos nada recomendáveis em certas paragens onde o iluminismo das sombras é de tal forma intenso que ofusca: o de pensar pela sua cabeça e o de exteriorizar o que pensa. Na verdade, Jafar Panhai apoiou o candidato da oposição ao regime nas últimas eleições presidenciais e manifestou publicamente a sua posição política. Estes são alguns dos argumentos da defesa que apresentou ao Tribunal:

 – “I do not comprehend the charge of obscenity directed at the classics of film history, nor do I understand the crime I am accused of,”

– “If these charges are true, you are putting not only us on trial but the socially conscious, humanistic and artistic Iranian cinema as well,”

– “My case is a perfect example of being punished before committing a crime. You are putting me on trial for making a film that, at the time of our arrest, was only 30 percent shot,”.

A condenação de Panahi por Delito de Opinião confirma, se necessário fosse, a obscenidade de um regime incapaz de conviver com os princípios mínimos da decência. Para além disso, priva-nos do contacto com uma sociedade iraniana que, para lá da cortina de ferro do fundamentalismo teocrático, se apresentava em alguns filmes de Panahi com modos de vida simples que deixavam imagens de simpatia  e de gente comum. Isto porque os filmes de Panahi sempre foram retratos sociológicos e nunca questionaram de forma directa o poder político ou a religião. Trata-se, pois, de mais uma cena de barbárie rodada em Teerão. Perante factos como este, todas as tentativas de branquear o regime que os encena são filmes. Da pior qualidade.

* o texto integral da defesa de Panahi pode encontrar-se aqui (em inglês).

Salário mínimo – actualização gota a gota


Rui Rocha,

A decisão que saiu da concertação social em matéria de salário mínimo concretiza um abuso e uma falta de respeito. A única questão pendente era saber se o Governo cumpria (mais) uma promessa que foi objecto de um acordo celebrado com os parceiros sociais. Não estava em causa a utilidade da existência de um salário mínimo, independentemente do seu valor. É certo que não falta por aí quem se entretenha a terçar armas defendendo uma das posições possíveis em matéria de enquadramento teórico. A discussão é interessante. Na prática, todavia, é ponto assente que, em Portugal, existe um salário mínimo fixado anualmente. E que estava previsto que ele fosse de 500€ em 2011. Em conclusão, esta é mais uma estação de um longo e penoso via crucis de incumprimento de promessas e de retrocesso em medidas já aprovadas. Igual a si próprio, todavia, o Primeiro-Ministro, acompanhado pela sua trupe de malabaristas, não teve coragem para reconhecer isto com frontalidade. Por isso, à sombra de parceiros mais ou menos previsíveis, encontrou uma nova forma de aumento: a actualização gota a gota. Como bem se percebe, chegar a 500€ em Outubro (veremos se vai ser assim) é dizer que o salário mínimo em 2011 andará próximo, em média, de 490€. Tentando evitar o reconhecimento óbvio de mais um falhanço, Sócrates brinca com os portugueses que o recebem. Para poder dizer que em 2011 o seu valor chegará aos 500€, vai-lhes atirando ao longo do ano uns amendoins. Utiliza-os como joguetes, procurando fazer deles a peneira que tapa a sombra do seu insucesso. Este é, importa não esquecer, o Primeiro-Ministro que afirma, do alto da cátedra da superioridade moral, que não utiliza os pobres como arma de arremesso político.

O Natal em Braga


Rui Rocha,

A Rua do Souto é a mais emblemática de Braga. Peatonal, como lhe convém. Liga a Avenida Central à Sé Catedral, antes de se coroar no Arco da Porta Nova. A dois passos da Sé, e do Largo do Paço (onde se abriga, em claustros e salões medievais, uma magnífica biblioteca), fica o Bananeiro. À nascença, armazém de frutas e sei lá eu mais o quê. O proprietário, em boa hora, atravancou-o com um balcão. Ali passou a servir  um recomendável Moscatel. Profilático para muitas maleitas. Para o ajudar a escorregar, sugeriu aos clientes que o acompanhassem com Banana. Coisas que, evidentemente, ligam bem! Algures, em tempo que não interessa à lenda precisar, os amigos do filho passaram a juntar-se ali por alturas do Natal. O brinde? Com Moscatel e Banana! Saúde e muitas propriedades no novo ano. Palavra puxa palavra e a estas leva-as a boca. E quantos ouvidos as ouviram, assim as seguiram. Hoje em dia, antes da ceia de Natal, os milhares de pessoas que partilham esse momento já não cabem na Rua do Souto. Mas, ninguém se lamenta. A multidão estende-se em direcção ao Jardim de Santa Bárbara, o segundo mais belo da Europa (deixemos ainda aos de Versalhes a primazia, que aqui ninguém tem os tacões do Sarkozy). Os que chegam ao balcão do Bananeiro, celebram o feito com o Moscatel e a Banana. Os outros, prevenidos, levam o copo e a garrafa de casa. Acaso o leitor, ávido do pormenor picaresco, pretende que eu adentre pelo mistério de um célebre banco que acompanha o balcão do Bananeiro? Ou de um outro e não menos famoso licor ali também disponível? Pois tudo isso deve ser conquistado. Acotovelando, com espirito natalício de partilha, a turba de risos e bochechas rosadas que atropelam a calçada. Rogo-lhe só que, por fortuna e arreganho ali chegado, tenha cuidado com o sítio onde se senta. Siga o dia que se fez noite. Depois da alegria da rua, o aconchego da Ceia. O bacalhau demolhado no brilho dos olhos dos meninos. Com todos. Também com os que já partiram e nos adoçam a saudade. Antes dele, o polvo. Tentacular, no seu molho roubado à vizinha Galiza! Os mexidos e os bolinhos de jerimú. E as rabanadas. Estas de vinho. Fino! Ainda o bolo rei escangalhado que tem por aqui o morbo de uma acção judicial em que se discutiu a sua paternidade. Depois, os sinos que tocam, eu sei lá, em mais de não sei quantas igrejas. Nestas missas, o galo canta sincopado. Com corações aconchegados do frio que se fez lá fora. Coisa de empurrar um ateu dos quatro costados a querer beijar a cruz. E a abraçá-la. E a ficar por aí pois que se desenha já uma sobrancelha de desaprovação no rosto consolado do Cónego de serviço. Acredito profundamente nesse Natal. Esse em que, a cada ano, nascem por essas horas milhares de meninos. Aqueles que todos nós temos ainda cá dentro.

O TGV nunca se atrasa


Rui Rocha,

O TGV poderá ser outras coisas mas, é também um comboio. E um comboio não se deve atrasar. Os atrasos são muito desagradáveis para os passageiros. Sobretudo, para aqueles que fazem de andar de comboio um hobby. Penso que se chama o hobby da construção. Por isso, apresento algumas medidas, de que sou o único irresponsável, para diminuir os custos de construção e exploração:

– Circulação em monovia de uma única composição. As idas serão à 2ª, 4ª e 6ª e os regressos à 3ª, 5ª e Sábado. O Domingo será para descanso do pouco pessoal e manutenção do escasso material circulante. Será construída uma rotunda no Poceirão para a composição inverter a marcha. A locomotiva será desligada nas descidas. Nas subidas, os passageiros saem e empurram. Para além de pagarem bilhete, os passageiros pagarão também portagens. Para facilitar a cobrança, circularão com um chip na testa. Tal como nas SCUT, os estrangeiros pagarão mais. O controlo de passagens será efectuado pessoalmente pelo Secretário de Estado Valter Lemos. Que será colocado em cima de um pórtico. Vai dar gosto ver aqueles números… Marketing, muito marketing para atrair passageiros. A Ministra Isabel Alçada, de olhos arregalados, sorriso esticado para lá dos lóbulos das orelhas e um tudo-nada saltitante, gravará uma mensagem promocional: “há um tempo para tudo, mas o tempo para viajar é mêmo para andar de TGV”. A animação a bordo será outra prioridade. O Ministro Mendonça interpretará ao vivo, na carruagem-bar, o sucesso popular Apitó Comboio. Serão organizadas viagens temáticas! No Halloween, o Ministro Teixeira dos Santos apresentará dados absolutamente realistas sobre a evolução das contas públicas, incluindo os das parcerias impúdico-privadas (assustador, não?). No 1º de Abril, o Ministro da Economia, Toupeira da Silva e a Ministra do Trabalho, de cujo nome não me quero lembrar, cantarão, ao desafio, números muito animadores sobre o desemprego. Sócrates fará jogging entre as carruagens e, num programa de fidelização absolutamente inovador, serão oferecidos Magalhães devolvidos pelo Chávez aos passageiros frequentes. Nos intervalos da animação, serão servidas Tigeladas de Abrantes aos passageiros. Às refeições, Pisa. A cultura não será esquecida: o Emídio Rangel será o cicerone de visitas guiadas, incluídas no preço do bilhete, ao vasto património do Poceirão que só é conhecido pelos que lá estão.

O problema nestas coisas é que, a certa altura, um tipo já não sabe se é o TGV que não avança se é o país que está no destroço do Poceirão, a caminho do Caia.

*(versão piorada de comentário publicado quando ainda não estava deste lado)

Festejar o inverno


Rui Rocha,

O Inverno aí está. Para o receber, nada melhor que ouvir um trecho de “Inverno” de Vivaldi, interpretado por Europa Galante, um fantástico grupo de música barroca. Gostam de tocar em pé. E é assim que merecem ser aplaudidos:

Solstício de inferno


Rui Rocha,

Pronto. Cá está o dia mais pequeno do ano. Agora, é sempre a aumentar:

– o IVA, o IRS, a contribuição para a Segurança Social dos trabalhadores independentes, os descontos dos funcionários públicos para a Caixa Geral de Aposentações, os transportes, a electricidade, as portagens, o desemprego e a pobreza.

Estou a esquecer-me de alguma coisa?