O Natal dos trolls


Rui Rocha,

Orientações para comentários de trolls em posts alusivos à época natalícia:

a) a data – o nascimento de Jesus? Tá-se bem. Ninguém sabe quando foi. E porque não em 29 de Fevereiro? Sempre tinha a vantagem de se comemorar só de 4 em 4 anos… Já ouviu falar do solstício de inverno? Pois.

b) crianças – bah, não percebem nada de assuntos importantes. Têm poucas preocupações higiénicas. Choram. E acreditam no Pai Natal. Sim, aquele gajo inventado pela Coca-Cola.

c) o tempo – um frio de rachar. E chuva. Isto está bom é para ter acidentes. Ainda por cima parece que anda tudo na rua para comprar presentes. Que trânsito infernal. Acham isto ecológico? Aaatchim. Pronto, já me constipei. E queriam neve…

d) religião – eh pá, olhem bem para estes fanáticos. E a Igreja Católica anh? Se fossem mas é confessar-se por todos os pecados que já cometeram. Ainda por cima, parece que Cristo é só deles… E os muçulmanos e os budistas? São obrigados a aturar isto? É uma festa pagã, senhores. Onde estão as referências ao Natal nas Escrituras? Já os encravei.

e) festa da família – Não está farto que fulanos que não lhe ligam nenhuma durante o ano lhe perguntem, de dez em dez minutos, como vai o trabalho? Hipócritas. É a última vez que faço a ceia cá em casa! Sim, amor, já levo o xaile da tua mãe. Arre. Vai mas é acordar o teu irmão que adormeceu a meio da segunda rabanada…

f) espírito natalício – isto do Natal agora não vale nada. É só consumismo. No meio duma crise destas… Se dessem mas é o dinheiro aos pobres. Parece impossível. E os preços? Coisas baratas só nos chineses. Vou lá comprar dez corta-unhas.

g) acções de solidariedade – Esta gente não tem vergonha nenhuma na cara. Só no Natal é que se lembram dos pobrezinhos. São piores que políticos em campanha eleitoral. E a roupa que dão já está toda estragada. Não participo nesta encenação.

h) contenção nas decorações – Então e as tradições? Isto é uma festa religiosa! Onde estão as imagens do menino? Ai se ele viesse cá abaixo ver isto! Bando de ímpios é o que é. Isto nem parece uma festa. Já vi mais animação de rua em funerais.

i) doces – pois, pois. Andam por aí a falar de alimentação saudável, não é? Já viram o que é que levam os sonhos, as filhoses e as rabanadas? Depois queixem-se do colesterol. É! A seguir vão pedir ao Estado que pague a banda gástrica. Comigo não!

j) presentes –  é só tralha. Mais valia poupar o dinheiro. E ainda nos obrigam a pôr boa cara e a dizer que gostámos muito. Arre! Só o papel de embrulho que se gasta. Ó Bruna Filipa, diz ao Francisco Bernardo que se cale com a buzina da mota que eu estou aqui a pôr um melro entre a espada e a parede.

l) árvore – se calhar, quando falou do pinheiro no post não sabia, mas isso é uma tradição importada da Alemanha. Ah pois é. Sim, a Alemanha da Merkel. Já viu a quanto estamos a pagar os juros da dívida? Vá lá pôr o sapatinho no pinheiro.

m) canções – o Jingle Bells? Por amor de Deus! Há quem entenda aquela letra?

E mais isto e aquilo e aqueloutro também.

BPN – Banco Pagamos Nós


Rui Rocha,

O Governo tem andado a injectar. E prepara-se para mais umas injecções intra-venenosas. No esqueleto do BPN. Ainda não se sabe bem em que termos. Mas, é certo que mais uma vez os contribuintes vão pagá-las. Gastar mais dinheiro com este doente salvaguarda, a prazo, o interesse de 1.800 trabalhadores. E evita ao Governo o embaraço de admitir (mais) uma decisão errada. Do outro lado, estão alguns milhões de contribuintes que, enquanto tiverem rendimentos, ainda continuarão a pagar impostos. Já não deve ser por muito tempo. Este é um daqueles casos em que uma alma caridosa deveria abreviar o sofrimento dos mártires da execução fiscal. Liquidando o Banco e assegurando a protecção dos trabalhadores o melhor que for possivel, nos termos previstos para este tipo de casos. Como está a acontecer a tantos outros. Quanto ao prestígio do Governo, que se lixe. Não se protege o que não existe. Está presente mais algum interesse atendível?

A mulher no direito português – pretérito imperfeito (1)


Rui Rocha,

Inicio hoje uma série dedicada à divulgação de normas legais que, felizmente, já não estão em vigor no ordenamento jurídico português. De todas elas resulta, em diferentes momentos históricos, um papel subalternizado da mulher face ao homem. Uma situação que, não sendo exclusiva do percurso de Portugal foi, também, um motivo determinante do atraso do país. Ainda mais se tivermos em conta que, para além do que foi ao longo do tempo traduzido pelo legislador em lei, a menorização da mulher na sociedade portuguesa foi um dado inquestionável e, por vezes, esmagador. Com consequências até aos nossos dias. Entenda-se como homenagem às mulheres que não puderam estudar, que sofreram maus tratos físicos e/ou psicológicos ou que foram condenadas a vidas de exclusão do exercício da cidadania. E a todas as que foram cerceadas no direito de aspirar à realização pessoal e profissional e de orientar a vida no sentido de encontrar a sua felicidade.Também a todos, homens ou mulheres, que ainda sofrem atropelos à dignidade radical de ser humano. Nos próximos posts publicarei apenas o texto da norma sem qualquer introdução ao seu conteúdo. Era importante, todavia, fazer esta contextualização ao primeiro número da série. Deixo ainda uma reflexão que agora me ocorre: o feminismo e o machismo não são posições simétricas. O machismo é uma prática de abuso continuada que parte sempre da desigualdade, assumida ou tácita, entre homem e mulher. O feminismo é uma batalha pela igualdade. Ali onde certas posições advogam a superioridade da mulher, estamos já no campo do abuso e isso não é feminismo. Todavia, importa reconhecer que as posições deste feminismo exacerbado são defendidas por uma minoria (uma parte ínfima do todo) e relevam apenas no campo das (más) intenções, como reacção a uma situação de flagrante injustiça. Já o machismo tem um longo e profundo historial de atropelo observado na prática. Importa, pois, chamar os bois (nunca melhor dito) pelos nomes.

 

Artigo 1676 do Código Civil de 1966

(Poder Marital)

O marido é o chefe de família, competindo-lhe nessa qualidade representá-la e decidir em todos os actos da vida conjugal comum, sem prejuízo do disposto nos artigos seguinte.

Os arremessadores de pobres


Rui Rocha,

Primeiro, foi Cavaco Silva a afirmar que a pobreza em Portugal é uma vergonha. Depois, foi um debate entre candidatos presidenciais em que assistimos a um estranho campeonato entre a Liga Sagres da pobreza (os pobres de Lopes) e o Campeonato do Mundo da pobreza (os pobres de Nobre). Agora, é Sócrates que acusa os que utilizam a pobreza de forma descarada.

No caso de Cavaco, o que choca é a invocação da pobreza vinda do político profissional no activo com mais anos acumulados de exercício do poder. A vergonha, a ser de alguém, é também dele. No caso de Lopes e Nobre é a completa falta de respeito que a competição em que se envolveram revela pelo objecto (reafirmo: objecto). ‘Eu também vi pobres’ contra ‘Os meus eram mais  e mais pobres’. É evidente que se trata de um campeonato com perdedores anunciados: os pobres de um e de outro. No caso de Sócrates, é ainda a utilização dos pobres como arma de arremesso: ‘tu falas de pobres mas, eu que sou moralmente superior, não os invoco, embora os utilize para afirmar a minha superioridade moral’. Isto vindo de quem, nos últimos anos, pela sua incompetência e irrealismo tem vindo a condenar franjas significativas da população à pobreza e à desprotecção social.

Conclui-se que os pobres estão na moda. Pelas piores razões. Os políticos abriram a época de caça ao pobre. Querem ostentá-los nas suas campanhas e nas suas intervenções. São um estandarte. A cabeça de um pobre é um troféu. Se em vez de uma, forem várias, tanto melhor. E, em certas circunstâncias, os políticos querem mesmo parecer pobres. Passos Coelho não vai dar prendas de Natal às filhas mais velhas… É uma pobreza de ocasião. Sim, que em matéria de pobreza vale muito mais parecer do que ser.

Nada disto é um exemplo. Mas, é um sintoma. A proximidade aos pobres interessa porque eles já são muitos. E cada vez serão mais. É claro que a pobreza é uma vergonha. Mas, utilizá-la sem vergonha é uma pobreza. De espírito e de ideias. A nenhum destes arremessadores de pobres se ouviu um único projecto que permita combater a pobreza. Quando muito, assistimos à afirmação de projectos pessoais de utilização da pobreza.

Como dizia Guerra Junqueiro, pobres de pobres são pobrezinhos. E os nossos estão cada vez mais sozinhos no meio de uma multidão. De oportunistas.

Mourinho = special + one


Rui Rocha,

Mourinho atribuiu a si próprio nota 11, de 0 a 10, quando lhe foi pedido que avaliasse a sua prestação na época 2010. Igual a si próprio, o Special + One rebentou a escala. O certo é que, olhando para os resultados, é bem capaz de ter razão. Em 2010, Mourinho atingiu um conjunto de sucessos verdadeiramente anormal. Sobretudo se tivermos em conta que o valor facial do Inter de Milão era, à partida, bem menor que o de outros concorrentes.

Em flagrante delito


Rui Rocha,

Algures em Lisboa, um grupo de inveterados delituosos reúne-se neste preciso momento em actividade gastronómico-conspirativa. Estarão lá todos? Não! Um, pelo menos, teve que manter-se em serviço para assegurar a continuidade da emissão aos estimados leitores. Bom apetite, sim…

 

A descoberta: Shahryar Mazgani


Rui Rocha,

Foi a propósito de um concerto que dará em Madrid no próximo dia 20 que conheci a sua música. Fiquei depois a saber que em 2006 foi considerado pelas revista francesa Les Inrockuptibles como um dos melhores 20 novos artistas europeus. E que um dos temas do seu primeiro álbum Song of the New Heart ficou em terceiro lugar na International Songwriting Competition de que Tom Waits ou Robert Smith foram jurados.  Shaharyar Mazgani define-se a si próprio como um cantor de baladas. Agora, só falta decidirem se esperam pelo reconhecimento internacional, ou se preferem ouvir, já aqui em baixo, este autor de origem iraniana com imenso talento. Aos muitos que, ao contrário de mim, já o conheciam, por certo agradará ouvi-lo outra vez.

 

Tenho a impressão que me esqueci de referir, para os que não conhecem, que Mazgani é português.

A geração nem-nem


Rui Rocha,

Um estudo que acaba de ser divulgado revela que 314.000 portugueses com idades compreendidas entre 15 e 30 anos não têm qualquer actividade. Nem estudam, nem trabalham. A, assim chamada, geração nem-nem não é um fenómeno exclusivo de Portugal. Um pouco por todo o Mundo tem sido identificada a mesma realidade. Tipicamente, esta é uma geração potencialmente melhor preparada do que as que a precederam e, aparentemente, muito segura de si. São, todavia, presa fácil da degradação do mercado laboral e não conseguem encontrar uma saída airosa, nem combater este estado de coisas. Os sociólogos identificam uma característica muito comum neste grupo: a inexistência de qualquer projecto de vida. As manifestações mais evidentes são a apatia e a indolência. O que os trouxe até aqui? Um ambiente familiar extremamente tolerante, um sistema educativo permissivo e desajustado das necessidades do mercado de trabalho e um contexto geral de facilitismo e de bem-estar que hoje sabemos ser insustentável. A Teresa, há dias, trouxe-nos aqui uma das justificações para que vagas disponíveis não sejam preenchidas: os baixos salários. É uma das faces do problema. A outra diz-nos que, para um grupo mais ou menos numeroso, é muito mais confortável viver à custa dos pais. Os salários são de miséria? É verdade. Mas, não são uma sentença perpétua. E não será  também uma miséria passar o dia a jogar wii e a colocar mensagens idiotas no mural do Facebook? Esta gente tem de saber o seguinte:

– as gerações anteriores estão absolutamente instaladas e não vão prescindir dos direitos adquiridos. Solidariedade inter-geracional? Bah!

– é provável que os pais não possam continuar a sustentá-los;

– o Estado não vai poder sustentá-los;

– o esforço e o trabalho não são uma vergonha. Qual o santo que terá dito a certa gente que é ‘cool’ não estudar e fazer disso bandeira no bar da escola, ao qual se chega arrastando os pés, de braços caídos e com as calças a cair pelas pernas abaixo? Essas cuecas são Tommy? Uma coisa te digo, Tiago Filipe: a Andreia Paula, sim aquela dos olhos verdes de quem não tiras os olhos, cansa-se facilmente de morcões. Põe lá as costas direitas e o passo firme!

– com todas as críticas que se possam fazer o estupor do país tem algumas coisas boas. A educação é quase de graça. Aproveitem. É das poucas coisas grátis que a vida vos vai dar. Lembram-se do vosso Avô? Pois, combateu na guerra colonial. A vossa avó criou cinco filhos quase sozinha. A vossa mãe passou fome. E o vosso Pai trabalhou numa empresa metalúrgica, com pouco salário e nenhuns direitos. Vidas um bocadinho mais difíceis, não? E deram-lhes a volta.

– as novas oportunidades não valem nada. Se não podem trabalhar, estudem. Mas, estudem coisas sérias. O mercado laboral não é estúpido e sabe distinguir.

– um emprego conquista-se. Mandem currículos, dirijam-se a empresas, batam às portas. Mandaram mil candidaturas? Mandem mais dez. Todos os dias. Não conseguem emprego? Façam voluntariado. Dar é receber. Nem que seja experiência e contactos.

– o que aí vem é pesado. É importante que cada um faça a sua parte para, depois, ter legitimidade para reclamar. O teu pai vive do rendimento mínimo? Tu não o vais ter!

Não tomo a parte pelo todo. Todos os dias me cruzo com gente jovem de enorme valor. Mas, o dado sociológico é que a parte está a a crescer. Em direcção a lugar nenhum.

Super spy kit


Rui Rocha,

… À venda numa agência do BCP próxima de si. Também vendemos faqueiros e moedas comemorativas da República. Crédito é que já não temos. Procure num Banco, sim?!

Guerra wikileaks vs. mundo civilizado: resultados ao intervalo


Rui Rocha,

O caso wikileaks envolve tanta informação e tantos documentos que resolvi anotar diariamente as conclusões que considero mais relevantes. Neste momento, o ponto de situação é o seguinte:

  • As guerras são sujas;

  • As potências pressionam os países mais débeis;

  • Apesar de tudo o que se possa ouvir em contrário, os povos do terceiro mundo não interessam aos poderosos;

  • Os governos estão nas mãos das multinacionais;

  • O dinheiro comanda tudo;

  • O Sócrates é mentimoso;

  • O Amado é um querido;

  • A Ana Gomes é um rottweiler.

Neste preciso momento, alguns dos leitores já adormeceram, certo? Pois. Esperavam novidades, era? Tudo bem, mas eu não tenho culpa nenhuma que os Caríssimos não estejam surpreendidos. Querem sangue? Vão ver um jogo do Sporting! Querem emoção? Sigam os links que o Sérgio colocou ali em baixo…

As primaveras da vida


Rui Rocha,

No meio desta torrente de notícias que nos afogam de neura e angústia, dou por mim a pensar que devemos a nós próprios não nos focarmos exclusivamente no lado errado das coisas. Florbela Espanca escreveu que ‘há uma primavera em cada vida: é preciso cantá-la assim florida, pois se Deus nos deu voz, foi para cantar’. A minha  primavera são a minha mulher e os meus filhos, a quem não posso amar mais. E a quem nunca hei-de amar menos. Aos que já encontraram as primaveras da vida, digo que as vão beijar, abraçar, contemplar ou confortar. Que lhes falem se estiverem longe. Que lhes escrevam, se for apropriado. Que as recordem, se não lhes puderem falar. Em todo o caso, que as cantem. Aos que não as encontraram ainda, digo que as procurem. E que nunca desistam. Em qualquer dos casos, não fiquem aí a ler este post que isto de um homem estar assim a falar de amor é coisa para me fazer corar.

Breakdance, locking e wikidance


Rui Rocha,

Breakdance: dança de rua que incorpora movimentos de contorção do corpo, piruetas, coordenação, estilo e estética. Apela à total liberdade de expressão corporal.

Locking: dança de rua baseada em movimentos amplos e exagerados, alguns bastante cómicos e no seu bloqueio ou congelamento em determinadas posições. Apela à total liberdade de expressão corporal.

Wikidance: dança de gabinete que incorpora movimentos de contorção do discurso, piruetas, coordenação com a Justiça, estrilho e atropelo da ética. Incorpora movimentos amplos e exagerados, alguns bastante cómicos, de bloqueio ou congelamento de documentos. Esmorece o entusiasmo pela liberdade de expressão.

Sobre a alteração da indemnização por despedimento


Rui Rocha,

De acordo com as notícias disponíveis, o Governo aprovou hoje em Conselho de Ministros um ‘novo modelo de compensação dos trabalhadores despedidos’. Tanto quanto se percebe, este tem três características essenciais:

– será aplicável apenas aos contratos de trabalho celebrados a partir da entrada em vigor do diploma;

– fixará um tecto máximo para a indemnização e, aparentemente, alterará os próprios critérios de cálculo desta (‘ver como poderemos alterar os critérios’ disse a Ministra do Trabalho)

– as indemnizações serão pagas em parte por um fundo a constituir pelas empresas e, em parte, por fundos disponibilizados directamente pela empresa que despede, no momento da cessação.

Sem prejuízo dos ziguezagues a que ainda assistiremos (estamos a falar do Governo de Sócrates & Companhia) estes dados são suficientes para apontar as seguintes críticas:

a)      É alta a probabilidade de esta alteração estar ferida de inconstitucionalidade. O critério que determina a indemnização é a antiguidade. Não encontro nenhuma justificação para, dentro da mesma empresa, cada ano de antiguidade de A, admitido antes de determinada data, valer mais que um ano de B, admitido depois.

b)      Ao contrário do que se pretende, a medida vai gerar rigidez e não flexibilidade. Um trabalhador integrado no quadro de uma empresa, por exemplo, há 10 anos terá menor incentivo para mudar de emprego. A mudança implicará um potencial indemnizatório inferior na nova empresa.

c)       Não resolve qualquer problema de desfasamento do quadro que possa existir actualmente numa empresa. Esse desfasamento, a existir, diz respeito a trabalhadores que já integram os quadros hoje e aos quais a medida não se aplica. Relativamente a estes, o problema terá que ser resolvido no quadro legal actual.

d)      Introduz mais uma grave ofensa ao princípio da solidariedade inter-geracional. Os novos contratos de trabalho serão, na maior parte dos casos, celebrados por jovens. A estes aplica-se um regime menos favorável. Para todos os outros, por acaso os que contribuem para os actuais níveis de produtividade, mantém-se um regime mais favorável.

e)      O regime contributivo parcial que se pretende estabelecer vai implicar mais um custo imediato para as empresas (sabe Deus como andam as tesourarias) em troca de um benefício (?) futuro e longínquo.

Se o valor das indemnizações for um problema para a competitividade das empresas portuguesas (estou convencido de que está longe de ser o único ou o mais grave) a única medida adequada a resolvê-lo, num quadro legal e de equilíbrio, seria estabelecer um regime aplicável, a partir de agora, a todos os trabalhadores: fixar, p. exº, que a partir da entrada em vigor do diploma, cada ano de antiguidade adicional não valeria X (valor actual) mas X-Y.

Deste modo, é possível dizer desde já que esta medida é completamente inútil e, provavelmente, será nociva quando forem globalmente considerados os seus efeitos.

Isto, num dia em que as empresas (cuja competitividade se quer promover) ficam a saber que podem contar com um aumento da tarifa eléctrica até 10% em 2011. Estamos seguramente a falar de uma agenda de crescimento. Das falências e do desemprego.

Breve história da política e de como chegámos aqui


Rui Rocha,
 

 

Algures no passado, quando as cidades eram Estados, os cidadãos reuniam-se na Ágora para discutir e decidir o destino comum. Antes ou depois de irem ao mercado. O espaço político era então um minifúndio. Cada um tinha uma enxada e ia deitando as suas sementes à terra ou ao vento. Com o advento do Estado-Nação, a participação directa dos cidadãos tornou-se impossível. Criaram-se então os partidos políticos tal como os conhecemos. À volta dos quais os cidadãos se organizaram em função da compatibilidade das suas ideias. Os partidos eram as alfaias agrícolas do campo político latifundiário. Os cidadãos podiam escolher entre debulhadoras, ceifeiras e tractores. Todavia, em qualquer dos partidos políticos coexistia, basicamente, dois tipos de pessoas. As que tinham uma vida fora da política e as que faziam da política a sua vida. Com o tempo, os do primeiro grupo foram à vida. Deles. Os do segundo grupo continuaram a sua vida. Na política. Como é natural, os do segundo grupo tornaram-se cada vez mais importantes nos partidos e ascenderam a funções de responsabilidade na estrutura partidária. Com todo o capital de experiência que decorre de não terem outra vida. E de terem colocado cartazes e gritado palavras de ordem em comícios. Hoje, alternam-se democraticamente no poder. E nós? Bem, nós cá vamos tratando da nossa vida. Entre uns dias que correm menos mal e outros que nos dão mais que fazer, vamos dizendo mal dos políticos. É uma estranha forma de vida.

Noddy no país dos brinquedos


Rui Rocha,

14 de Dezembro de 2010 – José Sócrates afirmou que os investidores “estão a começar a reconhecer” as reformas do Governo;

15 de Dezembro de 2010 – Juros disparam e procura abranda na última emissão de 2010:

  Hoje Emissão Anterior
Data de Emissão 15 de Dezembro 3 de Novembro
Montante Indicativo 500 milhões 500 milhões
Montante colocado 500 milhões 500 milhões
Taxa média 3,403% 1,818%
Procura 961 milhões 1,110 milhões

 

Por quanto tempo vai o Primeiro-Ministro continuar a abanar o barrete?