Os arremessadores de pobres


Rui Rocha,

Primeiro, foi Cavaco Silva a afirmar que a pobreza em Portugal é uma vergonha. Depois, foi um debate entre candidatos presidenciais em que assistimos a um estranho campeonato entre a Liga Sagres da pobreza (os pobres de Lopes) e o Campeonato do Mundo da pobreza (os pobres de Nobre). Agora, é Sócrates que acusa os que utilizam a pobreza de forma descarada.

No caso de Cavaco, o que choca é a invocação da pobreza vinda do político profissional no activo com mais anos acumulados de exercício do poder. A vergonha, a ser de alguém, é também dele. No caso de Lopes e Nobre é a completa falta de respeito que a competição em que se envolveram revela pelo objecto (reafirmo: objecto). ‘Eu também vi pobres’ contra ‘Os meus eram mais  e mais pobres’. É evidente que se trata de um campeonato com perdedores anunciados: os pobres de um e de outro. No caso de Sócrates, é ainda a utilização dos pobres como arma de arremesso: ‘tu falas de pobres mas, eu que sou moralmente superior, não os invoco, embora os utilize para afirmar a minha superioridade moral’. Isto vindo de quem, nos últimos anos, pela sua incompetência e irrealismo tem vindo a condenar franjas significativas da população à pobreza e à desprotecção social.

Conclui-se que os pobres estão na moda. Pelas piores razões. Os políticos abriram a época de caça ao pobre. Querem ostentá-los nas suas campanhas e nas suas intervenções. São um estandarte. A cabeça de um pobre é um troféu. Se em vez de uma, forem várias, tanto melhor. E, em certas circunstâncias, os políticos querem mesmo parecer pobres. Passos Coelho não vai dar prendas de Natal às filhas mais velhas… É uma pobreza de ocasião. Sim, que em matéria de pobreza vale muito mais parecer do que ser.

Nada disto é um exemplo. Mas, é um sintoma. A proximidade aos pobres interessa porque eles já são muitos. E cada vez serão mais. É claro que a pobreza é uma vergonha. Mas, utilizá-la sem vergonha é uma pobreza. De espírito e de ideias. A nenhum destes arremessadores de pobres se ouviu um único projecto que permita combater a pobreza. Quando muito, assistimos à afirmação de projectos pessoais de utilização da pobreza.

Como dizia Guerra Junqueiro, pobres de pobres são pobrezinhos. E os nossos estão cada vez mais sozinhos no meio de uma multidão. De oportunistas.

8 comentários em “Os arremessadores de pobres”

  1. Nesse concurso de arremessadores de pobres, convenhamos, o primeiro prémio cabe a quem tem a pouca vergonha de acusar os outros de não terem vergonha.
    Isto é, o mais desavergonhado e incompetente primeiro-ministro que o País teve (e continua a ter) desde o reinado da D. Maria.
    Nem os 400 primeiros-ministros (fora os ameaços…) da I República lhe levam a palma, digo eu.

  2. Rico texto, caro Rui Rocha.

    Infelizmente, que pobreza de política (e de políticos)…

    Cumprimentos.

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