A geração nem-nem


Rui Rocha,

Um estudo que acaba de ser divulgado revela que 314.000 portugueses com idades compreendidas entre 15 e 30 anos não têm qualquer actividade. Nem estudam, nem trabalham. A, assim chamada, geração nem-nem não é um fenómeno exclusivo de Portugal. Um pouco por todo o Mundo tem sido identificada a mesma realidade. Tipicamente, esta é uma geração potencialmente melhor preparada do que as que a precederam e, aparentemente, muito segura de si. São, todavia, presa fácil da degradação do mercado laboral e não conseguem encontrar uma saída airosa, nem combater este estado de coisas. Os sociólogos identificam uma característica muito comum neste grupo: a inexistência de qualquer projecto de vida. As manifestações mais evidentes são a apatia e a indolência. O que os trouxe até aqui? Um ambiente familiar extremamente tolerante, um sistema educativo permissivo e desajustado das necessidades do mercado de trabalho e um contexto geral de facilitismo e de bem-estar que hoje sabemos ser insustentável. A Teresa, há dias, trouxe-nos aqui uma das justificações para que vagas disponíveis não sejam preenchidas: os baixos salários. É uma das faces do problema. A outra diz-nos que, para um grupo mais ou menos numeroso, é muito mais confortável viver à custa dos pais. Os salários são de miséria? É verdade. Mas, não são uma sentença perpétua. E não será  também uma miséria passar o dia a jogar wii e a colocar mensagens idiotas no mural do Facebook? Esta gente tem de saber o seguinte:

– as gerações anteriores estão absolutamente instaladas e não vão prescindir dos direitos adquiridos. Solidariedade inter-geracional? Bah!

– é provável que os pais não possam continuar a sustentá-los;

– o Estado não vai poder sustentá-los;

– o esforço e o trabalho não são uma vergonha. Qual o santo que terá dito a certa gente que é ‘cool’ não estudar e fazer disso bandeira no bar da escola, ao qual se chega arrastando os pés, de braços caídos e com as calças a cair pelas pernas abaixo? Essas cuecas são Tommy? Uma coisa te digo, Tiago Filipe: a Andreia Paula, sim aquela dos olhos verdes de quem não tiras os olhos, cansa-se facilmente de morcões. Põe lá as costas direitas e o passo firme!

– com todas as críticas que se possam fazer o estupor do país tem algumas coisas boas. A educação é quase de graça. Aproveitem. É das poucas coisas grátis que a vida vos vai dar. Lembram-se do vosso Avô? Pois, combateu na guerra colonial. A vossa avó criou cinco filhos quase sozinha. A vossa mãe passou fome. E o vosso Pai trabalhou numa empresa metalúrgica, com pouco salário e nenhuns direitos. Vidas um bocadinho mais difíceis, não? E deram-lhes a volta.

– as novas oportunidades não valem nada. Se não podem trabalhar, estudem. Mas, estudem coisas sérias. O mercado laboral não é estúpido e sabe distinguir.

– um emprego conquista-se. Mandem currículos, dirijam-se a empresas, batam às portas. Mandaram mil candidaturas? Mandem mais dez. Todos os dias. Não conseguem emprego? Façam voluntariado. Dar é receber. Nem que seja experiência e contactos.

– o que aí vem é pesado. É importante que cada um faça a sua parte para, depois, ter legitimidade para reclamar. O teu pai vive do rendimento mínimo? Tu não o vais ter!

Não tomo a parte pelo todo. Todos os dias me cruzo com gente jovem de enorme valor. Mas, o dado sociológico é que a parte está a a crescer. Em direcção a lugar nenhum.

47 comentários em “A geração nem-nem”

  1. Subscrevo tudo. E no entanto, temo ter um destes casos em casa. Por enquanto ainda só tem 16 anos, mas o principal problema está lá. Não tem projecto de vida.
    Acreditem que não tem havido facilitismo da minha parte, mas ela aguenta bem as perdas de regalias. Encolhe os ombros e segue o seu caminho. Dizem que isto passa e eu quero acreditar todos os dias que sim, mas é muito difícil.

    1. Também subscrevo tudo e receio ter um em casa. Também tem 16 anos e já perdi noites de sono a pensar no que fazer… também nós não facilitamos e não é esse o exemplo que damos. Do mesmo modo, ele reage com alguma indiferença à perda de regalias! Qualquer pequeno esforço que ele tenha de fazer, parace uma tarefa monumental!! Estudar é uma seca e trabalhar custa muito. É um desespero ver como afundam na apatia. Deixo a minha solidariedade à mãe Zélia.

  2. Grande, óptimo post, que devia ser colocado à portas das secundárias, cafés, bares, todo o tipo de estabelecimentos frequentado por pessoas dessa faixa etária. Concordo inteiramente, até porque há não tanto tempo como isso estive numa situação próxima das descritas (e também com alguma indolência e indiferença à mistura). Fazer projectos para o futuro, mesmo que a curto prazo, e que não contemplem toda a vida, é absolutamente essencial.

  3. diria que esta é uma moda que veio de fora, na minha juventude chegavam-nos jovens holandeses que não faziam nada, viviam dos subsídeos. Em Inglaterra igual, em 2005 participei em Bath num pic-nic de budistas com idades entre os 20 e os 30 e muitos. Pois nenhum deles trabalhava, alguns faziam “umas coisas”.

    1. É um fenómeno global, Isabel. Depois de escrever o post fiz alguma pesquisa e encontrei descrições semelhantes em todas as línguas que consigo entender. A série Shameless, por exemplo, é um excelente retrato dessa Inglaterra de que fala. Uma coisa é certa: esta é uma situação que vamos ter que resolver cá dentro.

  4. Pois, mas há aqui mais umas coisas. A opção de os meninos estudarem ou não, depende dos pais. E a partir de certa idade, depende do dinheiro que os pais têm para pôr os meninos a estudar, seja em universidades, seja nas tais escolas profissionais boas que permitem que a rapaziada tenha o tal sucesso (já nem falo no número limite de entradas). Isto é: propinas, alojamento e alimentação para os que vão para fora, etc. Essa de a educação ser “quase de graça”, nem sequer no primeiro ciclo, quanto mais, Rui Rocha. Não se deixem enganar com a treta do “Estado Social”. Portanto a essa pergunta “o teu pai vive do rendimento mínimo?” eu responderia: “ó filho, acaba a escolaridade obrigatória, e esquece esse curso de cozinheiro ou de torneiro mecânico, que as despesas são muitas, e nem te atrevas a pensar na universidade, que não é para o teu bico”.

    Vamos então ao trabalho. Aqui sim, já é opção dos meninos e meninas. É verdade que muitos não querem trabalhar, isso é da experiência comum. São preguiçosos e ponto final. Eu não sei bem é qual a percentagem dos que não querem trabalhar, em relação àqueles que querem trabalhar, mas não arranjam emprego, por mais curricula a cores e a 3D que mandem. Aqui, por mais que a malta pense na Guerra colonial, e nos anos de fome e miséria dos avós e mais a Guerra dos Cem Anos e os anos de peste na idade média, etc, etc, não há volta a dar. É verdade que os melhores têm mais oportunidade. Mas se até entre jovens altamente qualificados há desemprego, o que dizer daqueles que não são altamente qualificados e que nem sequer têm cabeça para o ser? Grande parte de uns e outros acabam a recibos verdes ou contratos a prazo curtinho, a ganhar metade do salário mínimo, com sorte (ah pois, temos um código laboral rígido como o caraças ;)). E é quando se tem sorte de apanhar estes empregos, tipo os call centers que abrem como cogumelos e as vendas. Portanto, cuidado com os juízos que fazemos quando vêm um puto a brincar no facebook. Nem tudo o que parece, é, por mais tentador que seja fazermos juizos apressados.

    1. Rui, sublinho que o meu post era dirigido a uma população concreta: “não tomo a parte pelo todo”. Quanto à gratuitidade ou não do ensino, recordo a existência da acção social escolar, de bolsas de estudo para o ensino superior e de um regime de financiamento. Mais, não vejo nenhuma razão que impeça alguém que quer estudar de tentar trabalhar ao mesmo tempo. Eu sei que o mercado laboral está bloqueado. Mas, mais uma vez, o post foi escrito para os que nem sequer tentam. Se quiser, a mensagem é: os tempos serão cada vez mais difíceis pelo que todos teremos que lutar mais e não menos.

      1. Rui Rocha, no seu post retrata uma geração, a tal geração nem nem, e traça-lhe uma característica: é apática e indolente. O estudo, parece-me, não diz isso, é um bocado mais cuidadoso (ou não fosse um estudo científico) e poupa na adjectivação e nos juízos de valor. Diz, e cito: “Na fotografia estão não só os desempregados mas também pessoas que não estão à procura de um trabalho, e que no dicionário do INE são os “inactivos desencorajados”. E acrescenta uma coisa importante “estes números indicam dois problemas: falhas na capacidade de atracção do sistema de ensino, e falta de capacidade do mercado de trabalho para receber estes jovens.”
        Quanto ao ensino, será quase gratuíto no básico, com o sistema de acção social escolar. No escalão superior, incluíndo ensino profissional de qualidade, já não será tanto assim. Mesmo com bolsas, é difícil para uma família de classe média, quanto mais com pobres com o salário mínimo ou rendimento mínimo, darem uma boa formação aos filhos. E para estudar e trabalhar, é preciso que haja trabalho, como atrás se diz. Conclusão, isto não é bem a geração sex drugs e rock’n’rol, que segundo o Francisco Castelo Branco, está assolar a América….

        1. Rui, os qualificativos que usei são os mais comuns nos estudos sociológicos que se debruçam sobre o tema noutros países em que o fenómeno tem sido mais acompanhado. Repito que me dirigi a uma população específica: a dos que podendo, não quer. Não me custa admitir que a designação ‘geração’ possa ser demasiado genérica. Chamemos-lhe grupo.

          1. Rui, muito bem, vamos então falar de “um grupo de preguiçosos”. Mas não é disso de que fala o estudo por si linkado. Para além de o estudo ser muito mais abrangente, aponta causas para a inactividade dos jovens um pouco mais complexas do que essa de jovens que não querem trabalhar, porque não lhes apetece, ou porque têm o dinheiro dos papás ou a vida fácil. Obviamente que tem razão em dizer que há gente preguiçosa, mas isso sempre houve. Não faço ideia se há agora mais gente preguiçosa do que antes. Sempre conheci gente que não fazia nenhum: ou vivia dos rendimentos, ou de heranças, ou se agarrava a empregos públicos para toda a vida, fazendo muito pouco, onde se entrava por cunhas quase logo ao sair da adolescência, etc.
            Eu vejo poucos pontos de contacto encontro entre o estudo e o seu post. Onde é que está no estudo o “facilitismo” e o “bem estar”? Muito pelo contrário, a vida está cada vez mais difícil para cada vez mais jovens. Note que “desencorajamento”, por exemplo, é coisa diferente de preguiça.
            Uma coisa curiosa: antigamente, davam aos jovens conselhos muito parecidos com os seus, mas com uma variante engraçada: “vai mas é para as obras, malandro”. Como vê, é coisa antiga, não é de agora. Mas com a crise da construção civil que anda para aí, duvido que essa agora pegue 😉

          2. Rui,
            1 – o que é o Rui diz a ‘um malandro’ (para usar um termo seu)?
            2 – como explica que existam milhares de ofertas de emprego para as quais não existem candidatos?

          3. Rui, o termo “malandro” não é meu; é de uma espécie de ditado muito antigo. Eu, ao malandro, ou preguiçoso, tanto faz, diria para se levantar e ir procurar trabalho, pelo menos mantém-se ocupado. Os outros, os não malandros, são os que procuram, encontrando ou não. É que há muitos centros de emprego no país, e nem todos têm as mesmas ofertas de emprego. Um tipo da Amadora vai arranjar emprego em São João da Madeira a ganhar abaixo do salário mínimo a fazer calçado, para longe da família, a gastar mais em alimentação e alojamento do que o que ganha e com uma “carreira” de m.? Mais vale ficar em casa, que eu nisto, sou pouco moralista. E depois há aqueles empregos tipo cozinheira, soldador, etc, mas, para isso, é preciso ter formação e as escolas são caras e os empresários já não aceitam aprendizes desde pequeninos, como antigamente. Isto, como vê, é complicado. Aconselhava-o a dar uma volta pelos centros de emprego e ver como é. A minha mulher, que é licenciada, anda há anos a arranjar empregos em call center ranhosos, paga a 200 euros ao mês. Pois é, meu amigo. Mas não julgue que eu não sei que há preguiçosos. Sei que há mitos jovens que têm ao pé da porta oportunidade de emprego e que não querem trabalhar porque os paizinhos lhes dão dinheiro. Há de tudo.

          4. Rui, concluo que não estamos tão distantes. O meu post não era para a sua mulher, nem para todos os que se esforçam e lutam e muitas vezes são explorados. Estava a falar para os outros. A que o Rui se refere no final do seu comentário. Serão muitos ou poucos? Serão sempre muitos perante as dificuldades que os outros passam, os impostos que os outros pagam.
            Um abraço.

        2. Tenho dois filhos… o juizo que faço é simples ainda que correndo o risco de ser rotulado de “mau pai”, “quem não estuda(com bons resultados), tem de trabalhar, quem não faz uma coisa nem outra… não come”. O meu filho 21 anos trabalha desde os 18 por não se identificar com a decisão de estudar algo de que não gostava (na realidade, quando decidia estudar… era bom aluno em letras ou ciências) logo tornou-se militar, desisitiu, agarrou-se ao que apareceu… hoje trabalha 16 horas a “tentar fazer vendas” porque não quiz continuar a estudar (a referida falta de plano/perspectiva a curto/medio prazo ). A minha filha 19 anos, quiz continuar a estudar, foi para a faculdade, foi irresponsável, distraiu-se (literalmente) e não se apresentou a um exame… sentença. Se queres continuar a estudar tens de pagar tu as propinas… Não escolheu os trabalhos, foi à procura do que o mercado oferecia, tem neste momento 3 trabalhos incertos, de que recebe um total mensal de 250€ com que paga as propinas… está “feliz”!
          Sabem, nós pais, não estamos apenas preocupados com o facto de termos mais mês do que ordenado, mas antes com o risco de a inércia se instalar nas vidas dos nossos filhos, pois como ouvi em tempos num seminário sobre motivação, o Homem até se consegue acomodar a um prego espetado no “sim senhor” e sentar-se sobre ele toda uma vida… se assim decidir! Hoje ambos os filhos estão a “lutar” pela vida, e como diz o rapaz … não quero fazer o que não gosto, mas tenho de fazer alguma coisa pois preciso de dinheiro… se gosta de trabalhar 16 horas por dia!? Não, não gosta, nem nós gostamos que o faça… mas busca o direito de ter uma vida, a dele, e mais importante do que tudo o resto é que assumiu uma ATITUDE de conquista e responsabilização pela sua vida.
          A rapariga, em três trabalhos (babysitting, ajud. cabeleireira, e secretária) num curso superior (ciencias da educação) que aparentemente nada tem a haver com os trabalhos que faz, tem desenvolvido a mesma atitude de conquista,e está a criar oportunidades para si mesma e uma network de contactos(telefonam-lhe a dar trabalho pois é esforçada e faz o que for preciso)! Está orgulhosa do que está a criar e do respeito que as pessoas têem por ela!
          Como pais, podiamos fazer melhor certamente, mas nunca seria pactuar com a inércia. Quando lhes dizemos que têem de trabalhar no que lhes apareça “porque sim”e não apenas no que gostariam ( o nosso filho “perdeu” dois anos nessa busca do Santo Graal ), é porque não conseguimos explicar-lhes nem eles conseguem compreender, que quando deixamos a inércia e nos movemos, desenvolve-se uma conspiração em que portas se abrem sem “nada” fazermos por isso…

          Os nem-nem têem é de se mover…

  5. Essa porra do “projecto de vida” faz-me lembrar um coro que o meu velhote me batia há uns anos, tipo semana sim, semana não, lá vinha o “qual é o teu projecto de vida?”. Às tantas, fartei-me de o aturar e lá lhe disse, com todas as letras: “o meu projecto de vida? Essa agora, viver meu, e o teu?”

      1. Por acaso, não me posso queixar; cheguei onde estou (o meu prime, sem falsas modéstias) e nunca precisei de estabelecer grandiosos e pomposos “projectos de vida”, ou sequer de prestar contas dos mesmos fosse a quem fosse. E assim tem sido desde os 18 anos sendo que estou nos 40. Também espero que a vida lhe esteja a sorrir a si, Rui,

        sorrir faz muito bem 🙂

  6. Clap , clap , clap .

    Aqui na Alemanha a maioria do jovens saem de casa cedo, pelos 18 anos, arranjam um emprego e procuram conjugá-lo com os estudos universitários. Conheço jovens a fazer o doutoramento que conduzem comboios e outros que trabalham em restaurantes ou no McDonalds , sem preconceitos.

    Cabe neste processo também analisar o papel dos pais que muitas vezes sao coniventes com esta apatia, com o tal “nem, nem” de que fala.

    1. Tive a oportunidade de conviver com estudantes alemães há 20 anos atrás. Já então era assim. Quanto maiores são as dificuldades, mais temos que fazer pela vida, não é Helena?

  7. é um problema grave, que se vai agravar ainda mais, com o aumento de desemprego e com a precariedade de trabalho, nos próximos anos.

    há outra questão, Rui, mesmo quem tenhs espírito empreendedor está de mãos atadas, porque parece que este país está moribundo, não há espaço para novos negócios (a não ser especulativos, a comprar ouro e etc).

    tenho dois filhos, um com doze e uma com seis, tempo que daqui a dez anos, a situação esteja ainda pior.

    resta partir, emigrar.

    1. Concordo que a situação não está fácil, Luís. E também acho que a solução, muitas vezes passa por mudar de sítio. Se for esse o caminho, é melhor que não fazer nada.

    2. Nem mais, foi exactamente isso que eu fiz.
      Trabalho desde os 18, sempre conjugando com os estudos. Como infelizmente sou de uma região onde oportunidades não há (Alentejo) e cansado de ser corrido a salário mínimo passei a fronteira para Espanha e pouco depois vim parar a Angola. É a vida, temos que lutar por ela!

  8. A falta de educação também é uma das razões.
    Isto é, o facto de não se interessarem por politica, economia, historia, ciencias naturais….

    E Portugal não e o caso mais grave, os EUA são muito mais problematicos onde os jovens são muito sexo, rock n roll e fumar ganzas…

    o facto de nao se interessarem pelo dia-a-dia chega a ser um pouco irritante.
    Também nos ultimos 20 anos não houve nenhum acontecimento mundial que levasse a que os jovens acompanhassem ou aderissem a uma causa.

    Hoje em dias as regras estão bem definidas e pouco há porque lutar…

    Daí que depois fiquem mais passivos

    1. Tanto o comentário do Francisco como o meu post não podem ser entendidos como uma crítica à juventude. Insisto: as novas gerações têm potencial enorme e uma grande parte sabe usar toda a informação de que dispõe. Qualquer criança tem hoje muito mais consciência ecológica do que eu tinha há dez anos atrás. Agora, o alheamento, para os que o praticam, é um tremendo tiro no próprio pé. E sim, Francisco, a sociedade norte-americana é um excelente exemplo de tudo o que aqui falámos.

      1. é bom que seja dito isso, porque parece que os EUA são a perfeição e a sua juventude é completamente desinteressada pelo mundo em que vive.

        A falta de causas por lutar pode ser um dos factores.

        às vezes até parece que querer saber e ter interesses sobre o que se passa a volta do mundo é ser “nerd”…

        Até porque quanto mais pessoas interessadas, mais possibilidades ha do país e do mundo crescer a vários niveis

  9. Creio que toda esta questão resulta de várias causas: Facilitismo, o menino quer um novo brinquedo, faz birra, embora tenha muitos outros, dá-se-lhe, porque é insuportável ouvir as crianças chorarem, e eu estou estafado pela demora do transporte público, ainda por cima o meu chefe está irritadíssimo por não o subirem na carreira.
    Contradições, resultantes da inexistência de agregado familiar. O pai diz uma coisa, a mãe outra e os avós que criaram a menina, na sequência da separação dos pais, ainda outra. Nesta situação poderemos acrescentar o desconhecimento de noções de disciplina, boa conduta e educação.
    O menino fez asneira, não se ralha, não se chama á atenção, porque pode ser psicológicamente traumático para o desenvolvimento intelectual da criança.
    Estes jovens, são filhos das gerações pós 25A, que quando alguém as chamava á atenção, quem o fazia era apelidado de burguês, de retrógado, de limitador das liberdades individuais, de imperialista, etc, etc.
    Tudo isto, aliado a um sagrado pensamento português: Eu tenho direito a ter direitos, responsabilidades….mais tarde se verá.

  10. Os sociólogos identificam uma característica muito comum neste grupo: a inexistência de qualquer projecto de vida.

    O Rui critica, inculpa mesmo, esta geração pela sua falta de projecto de vida. Responda-me, por favor: – Qual é o actual projecto de vida colectivo desta nação?

    http://umjardimnodeserto.nireblog.com/post/2010/12/17/cristo-e-a-unica-esperanca-para-a-humanidade

    Conheço (bem) muita gente que trabalha há bem mais de 1 década a contratos a termo e a recibos verdes. Nunca sabem se daí a 3 meses, ou 6 meses, ou no dia seguinte, vão ter um salário. Mas sabem, os dos recibos verdes, que vão ser cobrados pela suposta segurança social e pela vampiragem (deveria dizer ladroagem, mas não me atrevo…) dos impostos – sobre aquilo que eles (os vampíros) pressupõem que eles (os chupados) ganharam, mas não ganharam.

    Um projecto de vida, aliás, qualquer projecto, tem que partir de uma razoável esperança na sua concretização. Outra coisa bem diferente, que parece sugerir com a alusão aos pais e avós, é tornar a mera sobrevivência o “projecto de vida”. Por este andar, lá chegaremos. Em breve.

    Nota: Já agora, só por curiosidade (e se não der muita maçada, claro) qual é o projecto de vida do moralista autor deste texto? 😉

    1. 1 – Concordo com a injustiça de contexto.
      2 – Nenhum apelo à subserviência. Sublinhei que, apesar de tudo, os tempos actuais são menos opressivos do que eram antes. Acha que as mulheres têm agora menos oportunidades? Acha que os jovens estão agora mais limitados do que quando tinham que ir combater para guerra colonial? Eu não acho. E se algum moralismo tem o meu post é o de que as pessoas vão à luta. E esse reafirmo-o. O que não posso tolerar é que pessoas que têm 2 pernas, 2 braços e uma cabeça passem o dia na inutilidade. Ou que andem na escola a ver passar o tempo e a incomodar os colegas que se esforçam e querem aprender. Pela sua lógica, as criança que nascem em Àfrica com 1 menos de 1 dólar por dia deviam suicidar-se imediatamente. Surpreendentemente, lutam mais que muitos outros. O nosso país tem muitas coisas negativas. Mas, no indíce do desenvolvimento humano há 150 atrás dele. Esses outros que farão? Pela sua lógica, queixam-se e desistem. Nada mais errado.
      3 – O meu projecto de vida: ser feliz. E isso passa por aprender todos os dias. Pôr o que aprendo ao serviço da minha entidade patronal e da minha família. Criticar o que está mal à minha volta. Mas, olhar para mim e procurar sempre melhorar. E nunca me conformar. Pagar impostos para todos os que precisam e também para alguns que andam a gastar os impostos dos outros sem precisarem.

    2. Concordo … Nasci nos anos 70 e não estou a trabalhar actualmente, apesar de ter uma licenciatura. Emprego tive alguns (precários todos eles) e também um projecto de vida (casar, ter filhos e emprego). Discordo completamente do sr.Rui Rocha. Sendo um fenómeno à escala global, sociológico, então o cerne da questão terá que ser focado também a esse nível. Penso que a afirmação “ausência de um projecto de vida” não poderá, obviamente e como tal, ser atribuído a um factor individual (por exemplo “preguiça” dos jovens ou “facilitismo” dos pais). É um fenómeno sociológico que determina esse comportamento. Basta olhar para a geração anterior à minha, para logo encontrar diferenças determinantes e colossais: a minha mãe entrou para função pública aos 18 (CTT) e aos 21 mudou para Segurança Social “sem qualquer tipo de “cunha”, com apenas o 9º ano e com um salário que lhe permitia viver autonomamente Lisboa vinda de uma aldeia do interior (e ainda conseguia poupar dinheiro ao final do mês). O meu pai teve oportunidades semelhantes. Alguém consegue imaginar esse tipo de situação actualmente. Não, com certeza que não, pois a realidade laboral é completamente diferente. Os meus pais não quiseram prosseguir nos estudos (e tinham possibilidades económicas dos seus pais para tal e não o fizeram). Optaram por ingressar no mercado de trabalho que não tem nada a ver com os dias de hoje. Falo por experiência vivida. Olhemos para os factores realmente determinantes como, por exemplo, a responsabilidade do Estado, ao manter abertas vagas de Licenciatura em áreas sem empregabilidade, as políticas educativas em geral, mais preocupadas com a imagem do país para com a OCDE, investindo o dinheiro público em projectos como “Novas Oportunidades” que nada resolvem o problema real do desemprego. Hoje com 36 anos, sinto-me completamente frustrada com o mundo “laboral” e é com tristeza que olho para estes “estudos sociológicos”. Percebo completamente os jovens de hoje, revejo-me nessa “apatia” e “indolência”. “Preferem viver à custa dos pais”, e por aí fora…pudera estão apenas a “reagir” a esta nova realidade. E não me venham falar em “lutar”. Há 5 anos que olho para as ofertas de emprego e “nada” se encaixa na minha realidade. O desânimo acaba por ser inevitável e hoje, depois de passar por “call centers” e afins, resolvi empenhar todo o meu tempo (que é muito) na parte do meu “projecto de vida” que consegui concretizar: os meus dois filhos e o meu marido!

  11. Grande post, Rui. Não há muito a acrescentar, concordo inteiramente com a tua análise. É um dos problemas maiores que enfrentamos, esta apatia de uma geração, na idade em que deveria estar no auge do seu entusiasmo pela vida.

  12. Discordo fortemente da focagem do problema – atribuir culpa aos novos, parece mais querer sacudir as culpas de uma geração, essa sim, que comprovadamente levou o país a uma situação insustentável.
    A intenção de assacar culpas a uma geração vítima, parece de facto muito infeliz.
    Agora que temos todos um problema grave para resolver, parece óbvio – comecemos por pensar se faz sentido prolongar a atividade dos mais idosos, quando uma parte significativa das novas gerações, no momento da sua maior vitalidade, está impossibilitada de iniciar uma carreira (por favor, essa de que só não trabalha quem não quer, é ultramontana, está ao corrente das taxas de desemprego na Europa, não?).
    O que quero dizer, é que me pareceu infeliz o foco do problema, quanto ao resto, parabéns!

    1. Jarra, não imputei nenhuma responsabilidade pela situação actual à geração de que falamos. Comecei por dizer que a solidariedade inter-geracional é uma balela. O que fiz foi um alerta: toda a adversidade que sublinha no seu comentário, e que é real, obriga a um esforço maior. E não permite a desistência.

  13. Esta é uma realidade que conheço de perto. Tenho um filho com 19 anos, que não faz nada na vida, acabou o 12º ano com 18 anos, tentou um ano candidatar-se à Faculdade, mas não entrou. É um individuo que apenas se interessa por jogos, não tem muita coisa, não sai de casa, não convive com muita gente, e apenas por telemóvel e internet (1 hora por dia). Nunca me passou pela cabeça acontecer-me isto, porque eu sempre lhe disse que não há nada mais feio do que ser um parasita da sociedade, e á uma coisa que abomino. Não comsigo falar com ele acerca deste assunto, parece que vê o terror à frente dele. É uma situação desesperante, só quem passa por elas, não foi criado com muita fartura, sempre com o que necessitou, mas nada por aí além, tanto que o pouco que tinha retirei para ver se o obrigava a procurar trabalho, nada resultou, e assim continua em casa à boa vida. Não sei mais o que fazer. Isto é o espelho da nossa sociedade. Para onde vamos? Não sei.

  14. Boa tarde. Sou desta geração nem-nem. Não tenho projecto de vida. Não me tentem dizer que todos os da geração anterior tinham um. Trabalho. Não posso pagar estudos. Nem posso sair de casa. 500 euros/mês. Não tenho projecto de vida porque a minha geração está de luto. Quem morreu foi a esperança. A dos meus avós não a tinha (a esperança), usava a religião como bálsamo, e como não tinha expectativas, vivia bem com o que tinha ou surgia. A dos meus pais encheu o mundo de esperança. Overdose pela certa. Estuda para seres alguém, disseram eles aos filhos. Eles estudaram e continuaram ninguém. Olha que afinal não vai dar, disseram por fim. A minha geração está resignada, não nos assustamos com a fome. Já a passei, e sou do tempo da super protecção e da papinha toda feita. Para nós não importa. Que se foda. Não fomos nós que criámos a ilusão desta vida boa sem fazer nenhum. Crescemos nela. E agora os maiores, que a provocaram, vêm apontar o dedo. É lamentável. Só que é mesmo assim. Ajudo os meus cotas com dinheiro para casa e ajudo o meu irmão mais novo. Sou solidário inter-geracionalmente. E não se esqueçam os que gozaram a melhor parte dos direitos adquiridos e benesses que vão ser os nem-nem a cuidar deles quando forem velhos.

  15. Boa tarde,
    A minha idade está entre os 15 e os 30 anos e com muito orgulho e sorte posso dizer que não faço parte da geração “nem nem”. Tive muita ajuda, mas esforcei-me bem para chegar onde cheguei.
    No entanto estou com uma pessoa que faz parte desta geração (está perto do fim já) e vinha pedir conselho e opinião de quem possa estar na mesma situação que eu.
    Como é que se pode lidar com alguém que não tem o tal “projecto de vida” que nós temos e pelo qual lutamos, alguém que está a tirar a licenciatura há tanto tempo que já poderia estar a acabar a 3a, não quer estudar apesar de ter a faculdade privada paga, passa o dia nas redes sociais, em jogos… Perde-se a esperança ou há realmente quem mude com esta idade?
    Obrigado

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