Hapiness


Rui Rocha,

Edo State fica na Nigéria, embora a descrição mais correcta seja aquela que diz que fica a caminho de lugar nenhum. Como acontece a tantos outros sítios que teimamos em querer esquecer. Ali, a vida é tão negra como a pele dos seus habitantes. Tão desesperada que há mulheres e homens que se metem em pouco mais que jangadas para se atirarem ao mar. Literalmente. Sem saberem para onde vão. Com a única certeza de que não querem estar mais ali.  Estes e outros tantos chegaram ao ponto em que a viabilidade das suas vidas se joga no interstício que fica entre uma existência desgraçada em terra e a enorme probabilidade de naufrágio no mar. O único aconchego que encontram na viagem, que dura quantas noites existem na alma de cada um dos passageiros, é o dos corpos que se esmagam uns contra os outros na exiguidade do espaço que lhes coube. E o dos corações que, manifestamente, não cabem ali. A cada milha percorrida, equilibram-se, contra todas as probabilidades, na linha que separa a vida da morte. Assim vão, rompendo as águas. Como também se romperam durante a viagem as de Judith. Que carregava no ventre uma menina. Antes de darem à costa, em Espanha, em 12 de Dezembro de 2010. Aquele que vemos ali, é o pai que a carrega nos braços. Verão, se olharem bem, que dez a quinze cêntimetros de cordão umbilical pendem ainda do corpo da recém-nascida. Puche, o pai, há-de dizer mais tarde que tudo o que queria era ouvir o choro da filha. Única evidência de que continuava viva. Judith chegou a terra frágil e a tremer. Mais do que todas as mães. Perguntaram-lhe pelo nome da filha. Sussurrou aquilo que pareceu, aos ouvidos de quem a escutou, qualquer coisa como Aspess. Nestas histórias, há sempre tantos lados. Em Espanha, o herói do dia foi o Guardia Civil que deu os primeiros cuidados à mãe e à filha. Em Edo State, inveja-se a sorte de Judith e da menina. Dizem por lá que é uma sorte nascer numa quase jangada chamada Zodiac, em pleno mar negro de Alborán. Muito melhor do que nascer em Edo State. Porque nascer ali é morrer. Vista a coisa do outro lado do mar, aquele em que nunca nos colocámos, nasceu uma menina com estrela. Da sorte. Vista a história daqui, parece-me que aconteceu Natal. Antecipado. Ainda bem que foi assim, pois que as histórias felizes não devem ser adiadas só para cumprir calendário. O verdadeiro nome da menina, aquele que a mãe não teve forças para pronunciar, é Hapiness. Com menos pês do que o previsto na norma linguística. Todavia, ainda mais feliz. Estava escrito em algum lugar que devia ser assim.

 

*alguns detalhes da história de Hapiness podem encontrar-se aqui. Os outros encontram-se com o coração. Feliz Natal.

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