O Natal em Braga


Rui Rocha,

A Rua do Souto é a mais emblemática de Braga. Peatonal, como lhe convém. Liga a Avenida Central à Sé Catedral, antes de se coroar no Arco da Porta Nova. A dois passos da Sé, e do Largo do Paço (onde se abriga, em claustros e salões medievais, uma magnífica biblioteca), fica o Bananeiro. À nascença, armazém de frutas e sei lá eu mais o quê. O proprietário, em boa hora, atravancou-o com um balcão. Ali passou a servir  um recomendável Moscatel. Profilático para muitas maleitas. Para o ajudar a escorregar, sugeriu aos clientes que o acompanhassem com Banana. Coisas que, evidentemente, ligam bem! Algures, em tempo que não interessa à lenda precisar, os amigos do filho passaram a juntar-se ali por alturas do Natal. O brinde? Com Moscatel e Banana! Saúde e muitas propriedades no novo ano. Palavra puxa palavra e a estas leva-as a boca. E quantos ouvidos as ouviram, assim as seguiram. Hoje em dia, antes da ceia de Natal, os milhares de pessoas que partilham esse momento já não cabem na Rua do Souto. Mas, ninguém se lamenta. A multidão estende-se em direcção ao Jardim de Santa Bárbara, o segundo mais belo da Europa (deixemos ainda aos de Versalhes a primazia, que aqui ninguém tem os tacões do Sarkozy). Os que chegam ao balcão do Bananeiro, celebram o feito com o Moscatel e a Banana. Os outros, prevenidos, levam o copo e a garrafa de casa. Acaso o leitor, ávido do pormenor picaresco, pretende que eu adentre pelo mistério de um célebre banco que acompanha o balcão do Bananeiro? Ou de um outro e não menos famoso licor ali também disponível? Pois tudo isso deve ser conquistado. Acotovelando, com espirito natalício de partilha, a turba de risos e bochechas rosadas que atropelam a calçada. Rogo-lhe só que, por fortuna e arreganho ali chegado, tenha cuidado com o sítio onde se senta. Siga o dia que se fez noite. Depois da alegria da rua, o aconchego da Ceia. O bacalhau demolhado no brilho dos olhos dos meninos. Com todos. Também com os que já partiram e nos adoçam a saudade. Antes dele, o polvo. Tentacular, no seu molho roubado à vizinha Galiza! Os mexidos e os bolinhos de jerimú. E as rabanadas. Estas de vinho. Fino! Ainda o bolo rei escangalhado que tem por aqui o morbo de uma acção judicial em que se discutiu a sua paternidade. Depois, os sinos que tocam, eu sei lá, em mais de não sei quantas igrejas. Nestas missas, o galo canta sincopado. Com corações aconchegados do frio que se fez lá fora. Coisa de empurrar um ateu dos quatro costados a querer beijar a cruz. E a abraçá-la. E a ficar por aí pois que se desenha já uma sobrancelha de desaprovação no rosto consolado do Cónego de serviço. Acredito profundamente nesse Natal. Esse em que, a cada ano, nascem por essas horas milhares de meninos. Aqueles que todos nós temos ainda cá dentro.

11 comentários em “O Natal em Braga”

  1. Mais um belo texto do Rui (não o conheço, mas permita-me que o trate assim)! Que nos lembra os sentidos e os sentimentos, feitos dos cheiros e dos sabores que alimentam as nossas memórias e, com elas, as nossas vidas. E os nossos valores, mesmo quando no nos pregam algumas partidas e se atravessam nas nossas convicções.
    Feliz Natal, Rui (e daqui levanto o meu Moscatel … sem banana)!

  2. Um gajo aqui a torrar nos trópicos, mortinho por chegar a casa e dá de caras com um post deste calibre!? Isto não se faz!
    Agora mais a sério, adorei o relato e aguçou-me a curiosidade.

  3. Que belo texto, Rui!
    Não conhecia essa tradição de Braga, mas gosto muito de um bom moscatel (sem banana, de preferência) e ainda mais de um bom vinho fino.
    Bom Natal para ti e para a tua família.

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