Em Teerão: luzes, câmara… condenação


Rui Rocha,

Jafar Panhai (na foto) é um cineasta iraniano. Foi preso pelo regime de Teerão em Fevereiro deste ano. Sob a acusação de rodar um filme sem autorização (sic) e de incitar os protestos oposicionistas com a sua obra. Há um par de dias foi conhecida a decisão de condenação a 6 anos de prisão e de 20 anos de interdição de qualquer actividade cinematográfica. Na mesma altura, foi igualmente condenado Mohammad Rassoulof que com ele colaborava.

O cineasta, já premiado em Cannes e Veneza tem, para além de talento indiscutível, hábitos nada recomendáveis em certas paragens onde o iluminismo das sombras é de tal forma intenso que ofusca: o de pensar pela sua cabeça e o de exteriorizar o que pensa. Na verdade, Jafar Panhai apoiou o candidato da oposição ao regime nas últimas eleições presidenciais e manifestou publicamente a sua posição política. Estes são alguns dos argumentos da defesa que apresentou ao Tribunal:

 – “I do not comprehend the charge of obscenity directed at the classics of film history, nor do I understand the crime I am accused of,”

– “If these charges are true, you are putting not only us on trial but the socially conscious, humanistic and artistic Iranian cinema as well,”

– “My case is a perfect example of being punished before committing a crime. You are putting me on trial for making a film that, at the time of our arrest, was only 30 percent shot,”.

A condenação de Panahi por Delito de Opinião confirma, se necessário fosse, a obscenidade de um regime incapaz de conviver com os princípios mínimos da decência. Para além disso, priva-nos do contacto com uma sociedade iraniana que, para lá da cortina de ferro do fundamentalismo teocrático, se apresentava em alguns filmes de Panahi com modos de vida simples que deixavam imagens de simpatia  e de gente comum. Isto porque os filmes de Panahi sempre foram retratos sociológicos e nunca questionaram de forma directa o poder político ou a religião. Trata-se, pois, de mais uma cena de barbárie rodada em Teerão. Perante factos como este, todas as tentativas de branquear o regime que os encena são filmes. Da pior qualidade.

* o texto integral da defesa de Panahi pode encontrar-se aqui (em inglês).

12 comentários em “Em Teerão: luzes, câmara… condenação”

    1. Ao lado, é como quem diz… o Renato Teixeira, e outros como ele, defendem este regime aberrante no conforto e na segurança dos seus sofás ocidentais. Não têm de pagar as consequências da sua muito apreciada liberdade de expressão, como acontece aos iranianos que se atrevem, como eles, a ter opiniões próprias.

      Estes regimes assentam no medo. Sem ele, apoiado em sanções pesadas e exemplares para “crimes” de todas as espécies (mesmo os de simples opinião), o poder dos fundamentalistas desapareceria num ápice.

      1. Já noutros regimes é possível, inclusivamente, alardear a mais completa estupidez, Ana. A tal que, pelo visto, tem assento no sofá de que falavas.

  1. Mas o Irão é um Estado democrático para se estranhar agora a condenação do cineasta por “Delito de Opinião”?
    Se os seus filmes (não conheço) são retratos sociológicos não é essa a prova de que o poder iraquiano precisa para condenar o perigoso cineasta?
    Desde quando os regime antidemocráticos vivem bem com a verdade e com a divulgação vivida da sua realidade?
    Estarei atenta e procurarei, pela cinematografia de Jafar Panhai , ver a realidade que ele nos quer demonstrar, embora não acredite que vá descobri algo que já não saiba em relação ao poder iraniano.

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