Alguém dá mais?


Rui Rocha,

No leilão ontem levado a cabo nos órgãos de informação relativamente ao valor do prémio ou bónus de Horta Osório foram apresentados, até ver, os seguintes lances:

 

Expresso: Horta Osório rejeita bónus de 2,3 milhões de euros.

Jornal de Negócios: Horta Osório renuncia a prémio de 2,75 milhões de euros.

RTP: Horta Osório renunciou a prémio de 2,8 milhões de euros.

Económico: Horta Osório abdica de prémio de 2,9 milhões de euros.

 

Uma coisa é certa. Ainda bem que Horta Osório renunciou, abdicou e rejeitou. Imagine-se o cabo dos trabalhos que não seria para determinar o valor do prémio ou do bónus se o homem calha de aceitar. Um stress.

O adiantado mental, a filha dele e o avô dela


Rui Rocha,

  

Invistamos então um par de minutos na leitura do próximo parágrafo que aqui transcrevo com uma vénia que praticamente me faz tocar com o nariz na tijoleira e que acumulo com a devida genuflexão (posição que, como compreenderão, é assaz incómoda e não poderei manter durante muito tempo):

 

“O Dr. José Brissos, testamentário do homenageado, apresentou a exposição depois de enaltecer a “cultura de lembrança” e o papel decisivo que nela tem a universidade. Agradeceu à artista “pelo seu ousado exercício de decifração do mundo humano de Jorge Borges de Macedo, através da lente performativa – como hoje se diz – da obra de arte” acrescentando que a presença enigmática do mocho, escolhido como símbolo da Exposição, proscreve qualquer ideia convencional e constitui uma espécie de advertência de complexidade, muito eficaz e sintomática para a leitura de imagens indiciais que nos é oferecida.” Afirma ainda estar certo que o homenagenado reagiria a esta leitura socorrendo-se “do lado caústico do seu humor, para nos convidar a olhar para o mundo em que viveu, de modo a enquadrar o homem no seu tempo.”

 

Tomemos uns momentos para nos recompormos, situemo-nos e vejamos então quem é quem. Jorge Borges de Macedo foi Jorge Borges de Macedo e até aí tudo bem. A exposição referida no emotivo parágrafo evoca-o e chama-se Jorge Borges de Macedo Privado e Público. Foi promovida pelo IICT (Instituto de não sei quê e Investigação Tropical). O Instituto tem como missão dedicar-se ao Saber Tropical,  desenvolvendo investigação científica tropical nas áreas das Ciências Humanas e Naturais, aumentando a capacitação científica e técnica dos países com que coopera e promovendo a preservação do Património. Este laboratório de Estado do Ministério dos Negócios Estrangeiros (sublinhado meu) tem por missão trabalhar em prol dos países das regiões tropicais, em particular, da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

 

Uns quantos, com os nervos já em franja, perguntarão, neste momento, qual a especial relação de Borges de Macedo com o Saber Tropical. Deviam ter mais calma. Isso agora não importa nada. O que está em causa é a preservação dos laços familiares. E isso foi conseguido. O Presidente do Conselho Directivo do Instituto que promoveu a exposição é Jorge Braga de Macedo, filho de Borges de Macedo. A artista plástica responsável pela instalação é Ana Macedo, filha de seu pai, que calha ser Braga de Macedo e neta do seu avô que… pois. O sucesso foi tão grande que a exposição teve derivações para outros espaços e conceitos. Por esta altura, já todos podemos imaginar qual a dimensão pública da exposição Jorge Borges de Macedo Privado e Público.

 

É claro que podíamos falar da instalação que Ana Macedo fez em Moçambique com o apoio do Instituto dirigido pelo filho do avô. Mas, o JPT já o fez aqui com toda a propriedade e o assunto foi também abordado pelo Daniel Oliveira. Pela minha parte, prefiro realçar a importância pública de homenagearmos os nossos pais e avós. Posto isso, agora que Jorge Braga de Macedo foi escolhido pelos accionistas privados da EDP, sem nenhuminha intervenção do governo no assunto, resta-me esperar que Ana Macedo seja convidada para, com a sua lente performativa, embelezar as facturas da electricidade. Entretanto, confesso que me continua  a inquietar a presença enigmática do mocho.

Boys, boys, boys


Rui Rocha,

Tenho, desde muito pequeno, a mania de associar músicas, videoclips ou filmes às mais diversas situações. No momento actual da vida política, o primeiro impulso é o de ilustrar certas nomeações com o Boys Don’t Cry dos The Cure. Todavia, analisados os clips disponíveis no Youtube, parece-me que a coisa não funciona. O Roberth Smith é demasiado soturno para ilustrar a felicidade de pessoas que estão bem na vida. E a letra também não ajuda. Tudo somado, o mais fiel ao momento talvez seja o da Sabrina. De todos os que conheço, é o que melhor conjuga boys, alegria, uma dose assinalável de mau gosto e mamas:

 

Teoria geral dos inconvenientes das marés baixas


Rui Rocha,

 

Há quem diga que o problema das marés baixas é ficarem as pedras à mostra. Ora isso até pode constituir um momento muito interessante quando estamos comodamente sentados em terra, a assistir ao espectáculo. A porra é quando o refluxo da maré nos apanha dentro de água e temos de caminhar sobre elas, com os pés descalços, para chegar à praia:

 

Cavaco Silva pode receber subsídios de férias e de Natal do BdP.

 

* título alternativo: qualquer citação sobre a equidade na repartição dos sacrifícios.

 

MAMAOT (pronuncie-se mama hot)


Rui Rocha,

A propósito de certas nomeações, formulo algumas perguntas, identifico certas evidências através de frases feitas e deixo ainda um aviso que, dizendo respeito à gestão dos comentários, acaba também por ser uma reflexão sobre o país:

 

A Primeira Pergunta:

No caso das nomeações de Manuel Frexes e Álvaro Castello-Branco para a Águas de Portugal, o primeiro dos quais Presidente da Câmara do Fundão que, como se sabe, tem um litígio por dívidas com aquela entidade, ainda vale a justificação, utilizada a propósito da EDP, de que as escolhas são imputáveis aos accionistas privados?

 

A Segunda Pergunta:

O facto de o Ministério da Agricultura, Mar, Ambiente e Território responder pela sigla MAMAOT (pronuncie-se mama hot) corresponde apenas a uma apropriada descrição do que está a acontecer por estes dias em termos de nomeações ou deve atribuir-se-lhe um alcance mais vasto de previsão da actuação governamental nos próximos anos?

 

A Terceira Pergunta:

O Primeiro-Ministro Passos Coelho pretende ser avaliado pelo teor facial da promessa que fez de não colonizar o aparelho do estado e adjacências com boys ou pela capacidade de a cumprir?

 

As Evidências: a situação não está para brincadeiras, esta merda está um barril de pólvora e não convém chegar fogo ao rastilho, é fundamental não perder a ligação ao país, à mulher de César não basta e tal, bem prega Frei Coiso e não é nada boa ideia meter a mão no vespeiro.

 

O Aviso: por motivos higiénicos, reservo-me o direito de não responder a comentários que tenham como único objectivo branquear o passado por comparação com o presente ou desculpar o presente contrapondo-o ao passado.

Antes quebrar que torcer


Rui Rocha,

Sempre fui um tipo de convicções. De levar as coisas até ao fim. Já em criança era assim. Recordo-me de ter para aí cinco anos e de, indignado com um episódio doméstico, ter decidido sair de casa. Sem contemplações, abri a porta e fiz-me à estrada. Ainda dei uns bons 50 passos. Acreditem ou não, fui para lá da casa da Rosa da Russa. Na verdade, foi já pertinho do cruzamento do Sisto que decidi, de forma irreversível e irrevogável, voltar para trás. E mantive-me inflexível. Contra tudo e contra todos. Estava cheio de saudades da minha mãe.

Matemática, economistas brilhantes, desvios orçamentais e lagares de azeite


Rui Rocha,

Há uma contradição na nossa sociedade que é urgente esclarecer. Como se sabe, os estudantes portugueses são, em geral, muito mais versados em lagares de azeite do que em matemática. Entretanto, Portugal apresenta um dos rácios de economistas brilhantes por habitante mais elevados do mundo. Ora, isto não deixa de ser estranho, uma vez que está mais ou menos provado que qualquer economista brilhante deve saber resolver, pelo menos, duas em cada sete equações do 2º grau que lhe sejam apresentadas, competência cuja ausência só a muito custo será possível compensar com uma especial proficiência na análise da problemática da moenda da azeitona. Encontro para o facto duas explicações possíveis. A primeira diz que o conhecimento matemático exigido a um economista brilhante é, em todo o caso, muito menos profundo do que aquele que é pedido, por exemplo, a um engenheiro (dos legítimos, entenda-se). E se isto faz algum sentido (é menos grave um desvio nas previsões do défice no orçamento de estado do que o desabamento de uma ponte, sendo que o primeiro se resolve facilmente com o lançamento de mais um imposto), é já um início de explicação de muita coisa. A segunda é um pouco mais radical. Baseia-se na conclusão, para muitos evidente face às circunstâncias, de que pode haver mão invisível, mas não há milagres. Isto é, se os estudantes não são capazes de contar o número de maçons que existe no Parlamento por estes não caberem em duas mãos com 5 dedos cada uma, quando mais tarde se formam em Economia devem-no exclusivamente ao conhecimento sistemático e científico do fruto da oliveira. Quer isto dizer que só são brilhantes devido à acumulação anormal do ácido oleico próprio do sumo da azeitona  e a uma particular conjugação de um exacerbado e absolutamente injustificado amor próprio com a benevolência da generalidade dos pategos que percebem da coisa tanto ou menos do que eles. Convenhamos, entretanto, que esta é a única hipótese que lança alguma luz sobre tudo aquilo ( e não é pouca coisa) em que a primeira explicação não revela qualquer utilidade.

 

Golden Chairs


Rui Rocha,

 

Afinal, ainda não acabaram. Nem criticar o presente implica qualquer branqueamento dos protagonistas do passado, nem o passado justifica práticas criticáveis do presente:

Pedro Santos Guerreiro no Jornal de Negócios

Meia-desfeita à portuguesa


Rui Rocha,

 

Almoçámos em Amares. O restaurante é um velho conhecido. Sem pretensões e com preço a condizer. Durante um par de anos, foram-nos apetecendo outras baixelas. Agora, que temos um futuro glorioso perdido algures no passado, impõe-se o regresso a porto seguro. Pronto, porra. A uma conta que não se aproxime dos três dígitos. Estivéssemos em 2009 e as duas salas apresentar-se-iam, num Domingo, a rebentar pelas costuras. Reencontramo-lo com uma delas fechada e a outra meia-cheia. Isto digo eu. Cliente exigente, ambiciono o mínimo preço, a máxima qualidade e o proporcional recato. Mas, se por um momento abandonasse o estreito caminho dos egoísticos interesses e, por humana empatia, me colocasse na posição do prestável proprietário, logo concluiría, vendo tal e qual como vêem os seus olhos que a terra há de comer, que a dita estava meia-vazia. Sente-se então connosco, leitor, como se lá estivesse estado. E partilhe a nossa refeição. Pegue num rojãozinho de entrada, vá. Mas, proteja-se do pingo de gordura. Se vir que tal, previna-se com um guardanapo de pano entalado entre o pescoço e o colarinho. Vá saboreando, enquanto ouvimos involuntariamente a conversa do amável estalajadeiro  com os comensais da mesa ao lado. Que noutros tempos é que era. Que teve até de construir um estacionamento descomunal para poder aparcar os autocarros. E tantos eram. E traziam fregueses aqui conduzidos pelas juntas de freguesia. Com refeiçõezinhas pagas em cheque visado pelos nossos impostos. E assinado pelo Sr. Presidente da Junta, assim chamado porque, entre outras coisas, ali juntava muita gente. Dias com facturação de mais de 40.000 euros e o diabo a sete. Com as suas chatices, é certo. Como foi o caso de uma dolorosa pranchada do fisco. Que se soubesse o que sabe hoje em lugar de desviar tanto, muito mais teria desviado. Pois se a pranchada veio na mesma… Que agora há que aguentar. Que bom ano e muitas propriedades. Que igualmente e coisas assim. Permita-me, leitor, agora que as despedidas ali ao lado já se fazem, que o traga de volta à nossa mesa. Não terá reparado, mas entretanto chegou o bacalhau. Neste caso, à Braga. Sendo que ali ao lado, como pôde constatar, se serviu outro prato típico. A meia-desfeita. À portuguesa. Agora, todavia, esqueça-se disso. Concentre-se no que temos na travessa. Não vá engasgar-se com alguma espinha ou calhar-lhe a parte da badana.

A incontornável decadência da CIA


Rui Rocha,

Longe vão os tempos em que a CIA infligia pesados danos aos opositores do imperialismo americano. Não é que a rapaziada da agência não se empenhe nas diversas acções empreendidas. O problema é que estas são cada vez menos eficazes. O último exemplo é a desesperada tentativa de provocar cancro a diversos líderes incómodos do continente americano que Hugo Chávez, sempre o primeiro a desmascarar as piores intenções de Washington, intuiu há não muito tempo. O problema é que a coisa não correu nada bem. Ora vejamos. O cancro provocado a Dilma surgiu ainda antes de esta ser eleita. O cancro de Lula, por seu turno, foi diagnosticado já depois de este ter sido substituído por Dilma. Ou seja, o cancro de Dilma surgiu antes de tempo e o de Lula fora de prazo. Um falhanço. Agora, é Cristina Kirchner que, tendo sido vítima da cabala, acaba por declarar que afinal não tinha cancro. Um desastre para a CIA, claro. Espera aí, dirão alguns. Então e o cancro do Chávez não conta, não é essa uma evidência de que os serviços secretos americanos ainda conseguem atingir os seus objectivos em alguns casos? Digo que não. Vejamos. Chávez foi eleito em 1998. Isto é, está há 13 anos em exercício de funções. Não sei se percebem, mas num país democrático um líder dificilmente aguenta mais de 10 anos no poder. Até Sócrates, esse génio da governação, foi despachado para Paris ao fim de 6 anos. Quer isto dizer que, a terem corrido as coisas normalmente, Chávez já não estaria no poder há um bom par de anos. Ora, mais um atraso na activação das células cancerígenas não é resultado de que a CIA se possa orgulhar, pois não? Enfim, o essencial é que Chávez se mantenha atento. Quanto ao mais, haja saúde.