Confiança, hipocrisia, mentira, segredo, Soares dos Santos e a maçonaria


Rui Rocha,

As relações sociais pressupõem um conhecimento mínimo daquilo que podemos esperar daqueles com quem interagimos. É por isso que certas profissões utilizam sinais distintivos. O cidadão em apuros identifica, na multidão indiferente, indiferenciada e apressada, um polícia fardado. Tipicamente, reconhecerá que, de entre todos os outros, este será aquele de quem poderá esperar uma ajuda mais eficiente. Da mesma maneira, quando se estabelece uma relação incipiente entre desconhecidos, o passo inicial é o da apresentação: o nosso nome e, em termos mais ou menos profundos, quem somos, de onde vimos, para onde vamos e o que queremos. A troca de informação que se processa nesses momentos não tem como único objectivo dar satisfação a uma curiosidade que se esgota em si mesma. A informação que passamos aos outros e a que recebemos e a que nós e os outros recolhemos de outras fontes permitem-nos ir construindo uma imagem que se situa algures entre a ideia, a realidade e os nossos pré-juízos, experiências e circunstâncias. Há pois nessa imagem uma parte de conhecimento efectivo e de ilusão (ou desilusão). Não sendo possível aspirar ao conhecimento total sobre os outros (conhecem-se, eles próprios, integralmente a si mesmos?), a relação social pressupõe uma base de confiança que tem tanto de indispensável como de frágil. Tão dependentes de confiança nas relações humanas como de alimento para a sobrevivência, toleramos todos um certo nível de hipocrisia uma vez que não é viável, a cada momento, em cada circunstância da vida, a cada interacção, pretender fazer a prova de um princípio de desconfiança. Todos já nos aproximámos alguma vez, mais ou menos, da percepção de que não se pode confiar em ninguém (polícias, juízes, políticos, família, amigos, companheiro/a) e sabemos que isso arde como se estivéssemos no inferno. Este estado de frágil equilíbrio sustenta-se, então, numa boa parte de verdade e num certo dever de hipocrisia. Assim estruturada, a confiança é definitivamente posta em causa em três tipos de situações: a) violação do dever de hipocrisia, acrescentando mais verdade do que aquela que estamos dispostos a aceitar; b) mentira c) segredo. Vem tudo isto a propósito de dois factos dominantes da semana que acaba. A primeira, a deslocalização das participações sociais da família Soares dos Santos. Digo que esta põe em causa a nossa confiança pela via da mentira. Soares dos Santos criou uma imagem através dos seus sermões. O seu comportamento, inquestionável do ponto de vista da decisão empresarial, é incoerente com a imagem que pretendeu passar-nos. Interpretá-la como mentira é uma conclusão óbvia e leva à degradação do capital (nunca melhor dito) de confiança.  A outra é a da maçonaria. Quem guarda segredo, pretende afastar os outros do (de um) conhecimento. E isso só pode minar a confiança. Sendo esse um comportamento deliberado, é inaceitável por parte de quem exerce funções políticas, por definição orientadas pela transparência e pela participação. E o mesmo se diga, por exemplo, na função judiciária. O único segredo a que um político deve estar obrigado é o que é imposto pelo interesse do Estado, na interpretação que lhe é dada pelos cidadãos que representa. E o único segredo que um magistrado deve aceitar é o devido à justiça.

Pedro, se não te importas não bebo mais espumante


Rui Rocha,

Eu sei que é dia de festa, mas parece-me que já estou a ver coisas:

 

a) “As projecções sugerem que alguns países europeus estavam numa trajectória orçamental insustentável muito antes da crise financeira de 2008-09, caso da Grécia, Portugal e Reino Unido; ao invés, outros estavam numa trajectória sólida, caso de Espanha, Irlanda e Itália”.

Paul Krugman (sim, o Paul Krugman inspirador dos órfãos de Sócrates), a propósito deste trabalho de Gianluca Cafiso;

 

b) “Portugueses já pensam Sócrates volta, estás perdoado.“

Domingues Azevedo,  Bastonário dos Órfãos da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas;

 

c) Portugal é a selecção que mais gastará em alojamento no Euro 2012;

d) alteração do aspecto gráfico do DELITO.

 

Mais um copo e ainda acabava a ver Zorrinhos cor-de-rosa.

O inferno são os sogros


Rui Rocha,

 

Que as relações entre sogros e genros ou noras podem tornar-se num inferno não é segredo para ninguém. Muito menos para os genros. Agora que os sogros de Isaltino Morais tivessem chegado ao extremo de transferir avultadas somas para a conta do genro só para o incriminar é que já ninguém esperava. O facto de a irmã de Isaltino ter participado no arranjinho vem apenas demonstrar que o pântano das tricas familiares pode engolir qualquer um.

Ano novo, jornalismo velho


Rui Rocha,

 

O Público dá hoje um enorme destaque, em primeira página, a um número não menos enorme: 53% de aumento, seja lá do que for, é uma variação que impressiona. Se estivermos a falar de despedimentos colectivos, o impacto da notícia será certamente muito maior. Todavia, se analisarmos o seu conteúdo, verifica-se que, apesar de o número de empresas que desencadeou despedimentos colectivos ter crescido os referidos 53%, o número absoluto de trabalhadores despedidos através deste processo aumentou 6,6%. Isto é, relativamente a 2011, terão sido despedidos em igual período mais 420 trabalhadores. Se tivermos em conta que o desemprego em Portugal atinge actualmente cerca de 700.000 pessoas, com tendência para subir, concluiremos que quer o número absoluto de trabalhadores abrangidos por despedimentos colectivos (6.917), quer o crescimento de 6,6% de 2010 para 2011, não são propriamente as razões fundamentais da preocupação colectiva que o desemprego deve provocar na nossa sociedade. O ano de 2012 trará muitos motivos para alarme. Não faltarão manchetes deprimentes para fazer ao longo dos próximos 364 dias. Por isso, não é aceitável que se embarque no alarmismo sem fundamento, reproduzindo para os leitores ondas de angústia que a situação concreta noticiada não justifica.

O melhor texto dos últimos tempos


Rui Rocha,
 
A nossa Ivone Costa, na sua A Ronda dos Dias. 

O som dos nomes antes de os saber escrever


Rui Rocha,

Não sei se também vos aconteceu… No meu caso, antes de aprender a ler, os nomes de algumas pessoas soavam de maneira bem diferente daquela que vim a descobrir ser a forma correcta de os escrever. Por exemplo, para mim, Zeca Afonso era Zé Cafonso. Lembro-me também do Omar Xerife (na minha imaginação de menino, naturalmente, um herói do velho oeste) ou do Igreja Isqueiro (Igrejas Caeiro). A maior desilusão foi todavia o Sam Peque em Paz. O nome real de Sam Peckinpah não lhe servia nem para moço de recados.

Chávez, o fim da vida em Marte e os drones que provocam cancro


Rui Rocha,

Hugo Chávez, o tiranete que, com a lucidez que o caracteriza, admitiu no passado que a vida em Marte possa ter sido destruída pelo sistema capitalista, especula agora sobre a possibilidade de os EUA terem desenvolvido um método para provocar cancro nos líderes da América latina (a doença foi também diagnosticada a Lula, Rousseff, Lugo, Kirchner e, quem sabe, a Fidel Castro). Embora não tenha aprofundado a questão no que diz respeito ao método utilizado, não é difícil imaginar um esquadrão de drones, apetrechados com armas que disparam raios cancerígenos e invisíveis e que, com precisão cirúrgica, atingem os corpos dos líderes progressistas daquelas paragens. Enquanto tudo isto se passa na cabeça de Chávez, há entretanto um aspecto que importa realçar como dado da realidade (e não apenas como elemento de teorias da conspiração mais ou menos delirantes): ninguém como Chávez, e numa segunda linha, como os outros líderes da América latina referidos, adoptou de forma tão despudorada um comportamento de aproveitamento político da doença. É evidente que a doença de Chávez, para o tomarmos como exemplo, é um assunto fundamental para a Venezuela. Sem Chávez não há chavismo. Uma doença grave do autor de tal programa político pode implicar uma mudança fundamental da situação do país. O que está em causa, todavia, é transformar uma doença real numa encenação teatral destinada a fortalecer a posição do tiranete e a abafar a oposição interna. Fazer de uma doença um golpe publicitário não é, na Venezuela, uma cabala perpetrada pelos inimigos do socialismo populista e delirante de Chávez. É o exemplo último da farsa em que Chávez converteu o debate político no seu país.

Estes comunistas são impagáveis!


Rui Rocha,

 

Enquanto a natureza continua a chorar a morte de Kim Jong-il (convém recordar aqui os episódios da ave branca maior do que uma pomba que limpou a neve de uma estátua do Querido Líder, do grou que voou três vezes em redor de uma outra, das pombas que choraram meia-hora ou do ruído ensurdecedor do  quebrar do gelo no monte Baekdu), coisa que aliás não é surpreendente se tivermos em conta que o nascimento do agora defunto foi anunciado por um arco-íris duplo e por uma nova estrela no firmamento junto ao monte Paektu, o dito cujo foi transportado para a derradeira morada numa americaníssima limusina Lincoln. Caso para dizer: so long, buddy!

Em directo do Hospital da Luz


Rui Rocha,

Se é possível induzir fenómenos de comoção colectiva como aqueles que foram observados na Coreia do Norte a propósito da morte de Kim Jong-il por forma a que a adesão às sessões de choradeira pública tenha natureza aparentemente espontânea e não resulte de mera encenação ou actuação teatralizada? Pois, não tenho a certeza. Mas, às vezes pergunto-me até onde seríamos capazes de chegar com mais meia dúzia de reportagens em directo sobre a doença do Eusébio.