E se Cavaco estivesse a reinar?


Rui Rocha,

As desastradas declarações de Cavaco Silva (e o desastre da governação do país nos últimos anos) têm sido aproveitadas pelos promotores da causa monárquica para salientar os benefícios da forma de organização política que defendem. Ora, não seria preciso procurar muito para encontrar situações em que são os membros da família real que desprestigiam a monarquia. Para não ir muito longe que o gasóleo está caro, fiquemo-nos pelo caso de Iñaki Urdangarin, genro do Rei de Espanha. Isto para dizer que, antes de tudo, estão as pessoas. E palermas, faroleiros, loucos, corruptos, bandidos ou assassinos não se distinguem por usar coroa ou não. Isto dito, e sendo a humanidade o que é, a comparação entre a monarquia e as alternativas democráticas de escolha do Chefe de Estado deve fazer-se pela facilidade com que em cada um dos sistemas é possível pô-los a andar. Concretizando, se Cavaco fosse Rei, teríamos que aguentá-lo toda a vida (os mais atentos dirão que andamos lá perto). Como felizmente não é, o próprio sistema encarrega-se de o despachar através do mecanismo da limitação de mandatos. E, mesmo que não o fizesse, em devido tempo ser-nos-ia devolvido o direito de decidir. E é sempre melhor incorrer no risco de escolher mal sabendo que mais tarde poderemos tentar corrigir uma má decisão do que, pura e simplesmente, não poder escolher.

Uma pergunta muito simples


Rui Rocha,

Eh, pá. A sério. Não quero saber. Não, não vale a pena. Problemas já eu tenho. Não acho piada nenhuma à partilha com desconhecidos de aspectos privados das nossas vidas. Incomoda-me a exposição despropositada dos interstícios da existência alheia. Ainda se fôssemos amigos… ou família. Mas, não é o caso. É que para além do mais, não posso fazer nada para ajudar. Certo, desabafar ajuda. A si. A mim não. Bastam-me as pedras no meu caminho. Não estou interessado em carregar também as suas dificuldades. É que, para além do mais, não contribuí em nada para isso. Tratei da minha vidinha, não dei conselhos a ninguém, não fiz avisos à navegação e cumpri as minhas obrigações de cidadania. Enfim, cada um carrega a sua cruz como pode. De facto, não há mesmo necessidade, Sr. Presidente. Não sou curioso. Pronto, tudo bem. O que ganha não lhe chega. Teima em dizer-mo contra a minha vontade. Olhe. Já lhe disse que não quero saber disso para nada, mas já que insiste na conversa, que me envolve no assunto, que me vem perturbar com a ladainha, que quer encharcar o meu lenço com as suas lágrimas, que põe a sua vida às minhas costas contra a minha vontade, agora sou eu que lhe pergunto: o que raio faz ao dinheiro?

Alguns conselhos para ajudar o Presidente a não viver acima das possibilidades


Rui Rocha,

 

Anote todas as despesas

Só assim poderá perceber onde cortar.

Faça uma lista de compras
Quando precisar de ir ao supermercado, faça uma lista de compras onde apenas constem os bens que são estritamente necessários.
Compre apenas o que precisa
Uma vez no supermercado, não se deixe seduzir pelas cores e campanhas de marketing. Compre apenas quando os produtos fazem parte da lista que elaborou em casa. Caso haja promoções, aproveite, mas apenas para produtos com validade alargada (azeite, arroz, etc), pois poupa a médio prazo.
Aposte nas marcas brancas
Experimente as marcas brancas, pois regra geral são mais baratas e de igual qualidade.
Não compre refeições pré-cozinhadas
Para além de serem mais dispendiosas, são menos saudáveis.
Compre a granel
Quando vai à secção dos vegetais, fruta ou charcutaria, compre sempre a granel, pois normalmente sai mais barato do que aqueles já embalados.
Cozinhe e congele as refeições
Quando tiver tempo disponível faça umas quantas refeições e coloque-as no congelador. Assim evita o chegar a casa sem paciência para cozinhar e ir ao supermercado comprar algo pré-congelado.

Reutilize os sacos de plástico para ir e guardar as compras.

Sobretudo se faz compras em supermercados que cobram os sacos
Tome o pequeno-almoço em casa

Dizem os nutricionistas que esta é a principal refeição do dia, pois agora os economistas juntam-se a este coro. Se todos os dias úteis gastar dois euros nesta refeição, são €40 a menos na sua conta bancária ao final do mês.
Leve o almoço para o trabalho
Nos dias que correm praticamente todos os locais de trabalho estão munidos com um micro-ondas e uma copa para quem opta por levar a sua marmita, em vez de almoçar fora. Com isto, está a poupar pelo menos €100 todos os meses.

Esqueça o cartão de crédito

Pague tudo a pronto. Incluindo acções e obrigações.

Opte pelo carsharing

Partilhe a viatura com a família do motorista. Não utilize transportes públicos pois aos preços a que estão são má opção.

Feche a torneira

Quando toma banho, lava os dentes ou se barbeia faça uma utilização racional da água.

Cordas novas para as costas de Mourinho


Rui Rocha,

Num jogo disputado no Dia Internacional do Riso, era bom de ver que só o Barcelona podia ser feliz. Nos embates com a equipa catalã, Mourinho entra sempre condicionado pela história. Se o seu traço característico é o desplante, frente à equipa de Guardiola o Special One transpira medo e frustração. Por isso, refugia-se em tábuas. Acossado pela memória de desastres recentes, monta a equipa com base na tensão muscular. O seu estandarte é Pepe. Um futebolista sem cabeça e sem razão. O método baseia-se na presença, em doses iguais, de ignorância futebolística e pancada, ronha e retranca, contra-ataque e contenção. Nestas ocasiões, o Real Madrid de Mourinho tanto pode ser uma equipa de futebol como um grupo de assentadores de ladrilhos que enfrenta o destino com os dentes cerrados e um rol de queixas do patrão. É claro que um dia por outro lá pode calhar uma vitória.  Foi assim quando Mourinho orientava o Inter do Milão. Pode voltar a ser na 2ª mão desta Copa del Rey. Nunca será, nessas condições, filha do mérito, mas a prova contextual de um axioma organizador da contingência ludopédica: um autocarro parado em frente a uma baliza tem razão duas vezes numa década. Fora disso, o trilho escolhido leva inexoravelmente ao insucesso. Bem pode Pepe resfolegar durante toda a partida. Basta que Messi respire por um segundo, que se distraia da apneia, e logo a arte invadirá o espaço restrito onde não chega o machado do lenhador luso-brasileiro. Consumado o desequilíbrio, já poderá o argentino mergulhar nas profundezas da vulgaridade consentida, como realmente fez durante todo o jogo. Tal como na vida, na bola a condição essencial para ser feliz é querer ser feliz, ousar o sorriso, ansiar pela gargalhada. Ter como único objectivo ceifar as pernas do adversário poderá, pontualmente, levar ao sucesso. Mas, nunca levará à felicidade. Por isso, este Mourinho que começou o jogo a rosnar Ai se eu te pego, acabou a partida a murmurar Nossa, você me mata. Foi exactamente isso que Abidal recordou aos presentes quando festejou o segundo golo do Barça coreografando a canção do insuportável Michel Teló. Por essa altura, já as costas de Mourinho tinham trocado as tábuas pela cordas.

 

 

* publicado também aqui.

Em breve, numa autarquia perto de si


Rui Rocha,

 

Permuta-se:

 

Autarca a concluir o terceiro mandato consecutivo pretende permutar Presidência de Câmara moderadamente sobreendividada, com Presidentes de Junta bem arregimentados, detentora de participação maioritária em órgão de informação local, com excelentes relações com o clube de futebol mais representativo do concelho, com as empresas de construção civil e obras públicas mais relevantes do distrito e com a maioria esmagadora dos padres das paróquias, dotada de interessante portfolio de empresas municipais, de outros mecanismos de desorçamentação e das mais diversas infra-estruturas como rotundas, pavilhões gimnodesportivos e piscinas olímpicas cobertas em todas as freguesias com mais de cem habitantes, por Presidência de Autarquia com condições equivalentes.

 

Assunto sério. Motivo à vista. Preferência por autarquias de concelhos limítrofes. A cor partidária não é factor eliminatório. Serão consideradas as respostas recebidas até ao final do primeiro trimestre de 2013.

Follow the leader, er, well… Obama


Rui Rocha,

A Gallup segue diariamente a taxa de aprovação de Obama pelos eleitores americanos:

 

Pelo visto, dos últimos oito Presidentes, apenas Bill Clinton apresentava um resultado pior, sendo certo que, como se sabe, este último não valia, por aquelas alturas, um charuto: 

 

Querendo, pode acompanhar a evolução aqui. Não é uma actividade muito estimulante, mas sempre tem mais interesse do que acompanhar as primárias republicanas.

A figura do dia


Rui Rocha,

 

Fustigado impiedosamente nos últimos dias (circunstância para a qual, reconheça-se, muito contribuiu), sempre apontado como o elo mais fraco do Governo, candidato permanente ao sacrifício numa eventual remodelação, o Álvaro obteve, ao princípio do dia de hoje, uma importante vitória pessoal. O acordo obtido na Concertação Social marca uma nova etapa nas relações do trabalho em Portugal. Não acompanho os que falam numa revolução por dois motivos: o imperativo constitucional da justa causa permanece e a interpretação que os Tribunais farão das novas normas em matéria de inadaptação será sempre limitada por esta e pela tendência de protecção da posição do trabalhador que é maioritária em termos de jurisprudência.  Todavia, o acordo introduz, de facto, um novo equilíbrio no mundo do trabalho, diminuindo de forma significativa a esfera de protecção dos direitos dos trabalhadores. Numa primeira análise, o acordo permitirá  efectivamente reforçar a flexibilidade do factor trabalho e diminuir o seu custo (veja-se, a título de exemplo, a redução do preço directo e indirecto do trabalho suplementar). A partir de hoje, o ónus da prova da competitividade passa definitivamente para a órbita da entidade patronal. Os álibis para o défice de gestão das empresas portuguesas são cada vez menos credíveis. Para além disso, a solução final envolve a UGT, isolando a CGTP e reduzindo o potencial de conflitualidade social. Num país que precisa cada vez mais de medir o sucesso pelos resultados, o Álvaro ganhou, desta vez, por goleada. Duvido que o futuro do país passe pela exportação de pasteis de nata. Mas, deve reconhecer-se que o Álvaro fez a sua parte para facilitar a vida aos empresários que queiram investir no negócio.

Se o arrependimento matasse, este caía fulminadinho junto à mãezinha dele


Rui Rocha,

 

O arrependimento é um sentimento muito humano. Pelo menos tão humano como a mentira ou a dissimulação. A investigadora Leanne ten Brinke decidiu por isso desenvolver um estudo com o objectivo de ajudar a distinguir o arrependimento genuíno de comportamentos simulados. Os resultados do estudo são muito importantes, por exemplo, para os magistrados que devem decidir a graduação das penas tendo em conta se certos arguidos estão a enunciar um acto de contrição honesto ou apenas a chorar lágrimas de crocodilo. Pelo visto, os que fingem arrependimento apresentam instabilidade emocional, alternando momentos de raiva e de alegria. Trata-se, como se vê, de um mero indício que será muito difícil de identificar na maior parte das situações. Por isso, na falta de outros sinais mais evidentes, é sempre boa ideia dar uma volta nas redondezas dos Tribunais para ver se existe por lá algum jornalista agarrado aos países baixos.

 

Cavaco corrige Dante


Rui Rocha,

 

É claro que não faltará por aí gentinha maldosa a criticar o estilo do Senhor Presidente. Vejamos então um clássico:

 

Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança.

 

Percebe-se? Mais ou menos. Não é claro. Falta ali a palavra futuro. Só esta daria consistência ao pensamento de  Dante. Sem essa precisão cirúrgica, o leitor poderia ser levado a pensar que se trata da esperança do passado ou até do presente.  Imaginemos agora que a Divina Comédia tinha sido escrita não pela pena errática de Dante, mas pela mão segura e inspirada de Cavaco:

 

Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança do futuro.

 

Pois é o que digo. O pensamento torna-se límpido. E até colorido e refrescante. O próprio ritmo da frase é outro. E assim, a todos aqueles que estão mortinhos por comentar este post dizendo que Cavaco podia ter feito mais com menos (isto é, mais correcção na utilização da língua com a palavra futuro a menos), digo que poder podia, mas que não era a mesma coisa. No fundo, não seria tão divina a comédia.

 

Blogue da semana


Rui Rocha,

Um farol para estes dias em que as brumas parecem embaciar-nos a razão e em que a memória tropeça na agitação do tempo? Sim, há ainda um ou outro por aí. Um deles é o Entre as Brumas da Memória da Joana Lopes. Um espaço em que a escrita acutilante não deixa incólume a actualidade nacional e internacional e nos empurra para uma visão crítica, inquieta, incómoda e desassombrada do mundo. Razões mais do que suficientes para que seja este o nosso blogue da semana.