Os cavaquistas anónimos têm dificuldade em ser sóbrios.
Tal como o próprio nome indica
Rui Rocha,
Os cavaquistas anónimos têm dificuldade em ser sóbrios.
Não faltam vozes de escândalo perante a intenção da Alemanha de impor um comissário que passaria a decidir as questões orçamentais gregas. Vejamos então:
– Que soberania existe em precisar de dinheiro emprestado para pagar aos médicos, professores e polícias?
– Alguns dos que agora se indignam passam os dias a clamar contra as vergonhas do nosso país (nomeações de boys, desperdício de dinheiros público, regabofe na Madeira, buraco das autarquias, evasão fiscal, desigualdade na tributação em favor dos de sempre, parcerias público-privadas, privilégios do BES ou da MOTA ENGIL, etc). Estão errados? Claro que não. Tudo isso acontece. Na Grécia é pior.
– Não falta quem aponte as questões estruturais de concepção do Euro (défices de balança comercial da periferia) como única causa do descalabro grego. Talvez fosse bom recordar que a adesão à moeda única foi voluntária (soberana). Se a escolha foi errada… E, para dizer tudo, essa visão esquece todas as desgraças que ninguém nega (as situações descritas no ponto anterior são meros exemplos e existem em dobro na Grécia). Estamos então a defender a soberania do país ou a corporacia dos interesses para os quais é essencial que tudo fique na mesma, lá como cá?
– Em certos discursos parece ser que a única soberania que merece protecção é a dos países devedores. Quando se trata de usar os impostos dos cidadãos para socorrer os devedores, a ideia de soberania some-se. Os interessados não devem pronunciar-se.
Esta é uma questão que vai até ao osso. A ideia de criar um comissário orçamental é péssima. Mas, a sua recusa não se pode fundamentar numa soberania ancorada em factos folclóricos passados porque estes são igualmente péssimos. Só pode fundamentar-se num certo futuro: o de um país responsável, com cidadãos adultos e políticos exemplares. Capazes de libertar o Estado das dependências, vícios, teias e ilusões em que se deixou envolver. Se acreditarmos nisto, percebo a defesa sem concessões da soberania. Se não for assim, o discurso inflamado reduz-se a berrar que os nossos são uns bastardos, mas são os nossos bastardos. Não me importo de participar. Mas, nesse caso, apresentemo-nos todos com a bandeira, à guisa de barrete, enfiada até às orelhas.
A propósito do episódio da alteração do apelido do líder cessante da CGTP no ticker das notícias da SIC, os comentadores mais entendidos nestas matérias salientaram exclusivamente a importância do “v”. Defenderam todos eles que a ausência da dita consoante seria decisiva na deturpação do sentido da palavra. Por acaso, não concordo. Procurarei concretizar o que pretendo afirmar através de um exemplo. Tomemos o apelido Silva. Façamos cair o “v”. Fica Sila, certo? Pois é. Não fica nada de especial. Ora exactamente o mesmo se passa em Carvalho. A corrupção do apelido e a sua transformação naquilo que vocês sabem está relacionada com a queda do “v”, claro. Mas, tal facto, só por si, seria absolutamente irrelevante se antes e depois dessa consoante não existisse no apelido o que existe. Isto é, o car (antes) e o alho (depois). É pois de elementar justiça que se reconheça a importância do car_alho. Permita-se então que aumente em relevância e que ocupe o seu devido lugar.
De entre os feriados obrigatórios previstos no Código do Trabalho parece-me que os seguintes são os que estão exclusivamente relacionados com a nossa história (coloquei-os por por ordem cronológica para não ferir susceptibilidades, mas bem sei que poderia ter começado do fim do ano para o princípio, ou ter utilizado ordem alfabética ou ter começado do mais antigo para o mais recente ou vice-versa) :
Se virmos bem, são poucos. Escusam de vir com a conversa de que temos mais do que outros. Os países em causa não têm oito séculos de história e uns quebrados. Ou me engano muito, ou dá menos que 0,5 feriados por cada século. Deve mesmo ser o rácio mais baixo da Europa. Por isso é que, chegada a hora de escolher os feriados que acabam, nos custa tanto. Como é que podemos dizer adeus à comemoração de qualquer um deles de ânimo leve? Não é possível. Assim, se dermos de barato que a eliminação de alguns feriados representa um benefício em termos de competitividade da economia, só nos restam duas alternativas. Uma delas é reduzir mais feriados religiosos. Confesso que o tema é estimulante, mas não me apetece ir por aí. Esta semana já fiz posts sobre a monarquia e o Mourinho e não consta que me tenham calhado sete vidas como aos gatos (e, para dizer tudo, ainda tenho vontade de gozar muitos feriados). A outra possibilidade é aumentar o número de feriados para depois os podermos reduzir. Claro que não vai ser fácil chegar a um consenso. Os monárquicos quererão celebrar umas datas, as mulheres outras, os republicanos aquelas, os maçons estas e por aí fora. Mas, se formos capazes de nos unirmos como povo para escolhermos os feriados adicionais provaremos ao mundo e aos credores que conseguimos enfrentar os maiores sacrifícios. Depois, bastará eliminar rapidamente os novos feriados criados. Antes de nos afeiçoarmos a eles.
Os últimos dias marcam um momento de viragem na Europa. Trata-se da erupção ou afirmação de tendências que serão marcantes na evolução da crise actual. No que diz respeito à União Monetária, o desenho das novas fronteiras está a tornar-se muito nítido. Parece cada vez mais evidente que, a Oriente, a Zona Euro ficará aquém da Grécia. E isso levanta a grande interrogação do momento. Esta diz respeito à fronteira a Ocidente. Isto é, diz-nos respeito a nós. À medida a que cresce a probabilidade de a Grécia ser deixada à sua sorte, menos o nosso destino na União Monetária é uma questão interna de Portugal. Sabe-se que não há regra sem excepção. A excepção da Zona Euro será a Grécia. Embora ninguém consiga prever exactamente as consequências que tal terá, é possível admitir que os danos provocados pela sua saída da moeda única possam ser controlados. A saída contemporânea ou subsequente de Portugal abalaria definitivamente a viabilidade do projecto. Duas excepções seriam, neste caso, uma multidão. É pois sobre a posição de Portugal dentro ou fora do perímetro da União Monetária que a incerteza permanece e é sobre este ponto que incidirá boa parte da atenção nos próximos tempos. Por mal dos nossos pecados, estamos no centro de decisões fundamentais para o futuro da Europa. Não é uma posição confortável, mas tem algum ponto forte. O elo mais fraco define a força de uma cadeia. É também do interesse dos elos mais fortes contribuir para aumentar a resistência do elo mais fraco. O outro ponto significativo de viragem diz respeito ao isolamento da Alemanha. Como aqui se diz, a perda do rating triplo A pela França deixou Merkel sozinha aos comandos da Europa. Qualquer pretensão de paridade de posição da França com os germânicos ficou definitivamente comprometida. Por estes dias, o poder mede-se pelo Estado e pela sua circunstância. A circunstância de cada Estado é o rating que lhe é atribuído. Por isso, as questões relacionadas com as políticas orçamentais de cada um dos membros tornaram-se agora capítulos da política interna da Alemanha. Todavia, o isolamento alemão pode estar a abrir portas para uma alteração da abordagem europeia à crise. A união dos Estados excluídos momentaneamente da condução dos destinos da Europa em torno da necessidade de adoptar políticas que não se reconduzam à austeridade parece estar a ganhar consistência. A substituição de Berlusconi por Monti alterou o valor facial da Itália. A nova credibilidade adquirida torna-a fundamental na definição dos novos equilíbrios. Poderá ser esse o empurrão necessário para alterar o equilíbrio de poder na União Europeia.
Ao fim de nove partidas, nove, Mourinho encontrou o caminho. Nada de muito complicado, elaborado ou transcendente. Basta jogar futebol. E o futebol não se joga de autocarro. Foi por jogar de autocarro na 1ª mão que Mourinho perdeu a eliminatória. Mas hoje, tendo empatado no resultado, ganhou o jogo mais importante. O psicológico. Desta vez, dentro de campo. O Real Madrid mostrou que não deve nada ao Barcelona. Não se trata já de ser igual. Pode mesmo ser superior. Perdendo na Copa del Rey, Mourinho pode muito bem ter encontrado o combustível anímico indispensável para ganhar La Liga. É bom ter de volta o Special One. Retomando a via do futebol jogado, para ser o melhor do mundo falta-lhe apenas aprender a sorrir e a pôr de parte aquela cara de vinagre. Se lhe faltarem outros motivos, pode sempre rir-se da exibição vergonhosa do árbitro.
* publicado também aqui.
Jardim o pândego, o desbragado, o espalhafatoso, o incontinente verbal, vem a Lisboa (ao terreno do inimigo, portanto) assinar o acordo de assistência financeira da Madeira. Entra mudo e sai quase calado. Por uma vez na vida, a sua maior ambição parece ser a de tornar-se invisível. Não há cerimónia de assinatura. Se dependesse de Jardim, não haveria imagens. Platão dirigiu-se a Fedro para lhe dizer que as figuras pintadas têm a atitude das pessoas vivas, mas se alguém as interrogar permanecerão gravemente caladas. Jardim sabe que cada uma das imagens da capitulação lhe estreita a oportunidade de contraditório. De apresentar a sua própria versão dos factos e das consequências. Encenará um dos seus números no regresso à Madeira. Qualquer aficionado sabe que a crença natural de um touro, mesmo do mais destrambelhado, está em refugiar-se em tábuas. Alguns povos primitivos acreditam que as fotografias roubam a alma. A de Jardim ficou hoje em Lisboa. Ali a vendeu àqueles de quem dizia serem o próprio diabo.
Se existe um bufo no Real Madrid, há uma coisa que espero dele: que antes de começar o jogo de hoje nos informe que Mourinho escolheu para a equipa jogadores que possam fazer um futebol de ataque e que a táctica passa por encarar o Barcelona olhos nos olhos. Isto seria sinal de que Mourinho, ao contrário do que fez no último clássico, decidiu finalmente prescindir da caceteirice e da ronha. O autocarro, já se viu, só foi solução uma vez. E aquele que ascendeu por mérito próprio ao topo da elite dos treinadores deve a si mesmo fazer tudo para ganhar jogando futebol. E se ainda outra vez tiver de perder, que seja assim e não de outra maneira. Porque também é possível perder sem deixar de ser grande.
De acordo com fontes bem informadas (não confirmo nem desminto que estas incluam o acesso a intelligence preparada pelas nossas secretas), Fernando Lima, ex-assessor e actual consultor de Cavaco Silva (não, ó ociosos e distraídos leitores, não escrevi censor pelo que se foi isso que leram tal se deve exclusivamente a um pré-juízo de que são Vexas. os únicos responsáveis não sendo justo imputar-me, como estão a tentar fazer neste preciso momento, qualquer intencionalidade de avaliação da conduta do dito ex-actual) é o mais que provável vencedor do prémio anual para o desempenho absolutamente excepcional em matéria de dons divinatórios. A confirmar-se o teor da fuga de informação (não arrancarão de mim nadinha que possa levar a concluir que esta me chegou por email), Fernando Lima sucederá a ilustres vencedores do galardão: Professor Bambo (2011), Professor Karamba (2010), Professor PorraParaIstoQueOSocasVaiGanharOutraVezAsEleições (2009) e Medina Carreira (2008). As referidas fontes asseguram que a atribuição do prémio estará relacionada com este extraordinário e premonitório pensamento da autoria de Lima:
“Uma informação não domesticada constitui uma ameaça
com a qual nem sempre se sabe lidar.”
Tivesse o ex-actual Lima dito, em devido tempo, umas palavrinhas que nos prevenissem sobre o Paco Bandeira e levava também o prémio de carreira.
Pelo visto, a iniciativa “Traz uma moeda pró Cavaco” foi um fracasso. A presença de duzentas ou trezentas pessoas resultou na angariação de um pacote de cereais e outro de leite, um pão, um cigarro, um pacote de arroz e algumas moedas. Ainda bem que foi assim. Em matéria de combate à pobreza, mais importante do que dar o peixe é ensinar a pescar.
Este post suscitou algumas reacções entre os defensores da causa real. Em jeito de desabafo, direi que, em consciência, me é mais fácil manifestar oposição à monarquia do que defender uma república de anonas conduzida por bananas. E isto leva-nos a um ponto importante neste terçar de armas. Há aqui um desequilíbrio na discussão que importa termos presente. A argumentação dos realistas organiza-se em torno de uma idealização. Na ausência em Portugal de uma monarquia concreta e actual que possamos avaliar, o sistema proposto tende a apresentar-se com uma capa de perfeição própria de tudo aquilo que só existe no plano das teorias. Falta-lhe, portanto, a camada de incumprimento, de dúvida, de erro, de falhanço que é própria das soluções concretamente aplicadas. Não encontraremos na argumentação dos monárquicos ponta de fuga para o Brasil ou de descalabro na gestão dos fartos cabedais provenientes dos territórios ultramarinos. Em contrapartida, a defesa da república tende a ser condicionada pela realidade, por este presente de pântano e lama. Ora, para a comparação ser justa, esta deverá colocar em pé de igualdade as propostas e a única forma de o fazer é comparar os modelos enquanto tais. Por outro lado, se bem entendo a tese realista, a base sobre a qual esta se constrói encontra-se no pressuposto de que alguém nascido para ser Rei terá uma preparação diferente (melhor) para exercer como Chefe de Estado. Respondo dizendo que, tal como alguns monárquicos, acredito na predestinação. Mas, para além disso, acredito ainda que esta está presente na realidade na mesma dose que o acaso. Isso leva-me a concluir que alguém predestinado para ser idiota pode por acaso genético nascer para ser Rei. E um idiota preparado não deixa, por isso, de o ser. Se o Rei serve apenas de adorno, como sucede em algumas monarquias contemporâneas, a solução não me convence. Agrada-me a possibilidade de mudar a decoração de vez em quando. Se o que se pretende é atribuir-lhe poder político efectivo, deve ver-se para lá da aura de sonho e de fábula que envolve as propostas monárquicas. As vantagens apresentadas pelos monárquicos são, em rigor, questões de fé, mesmo no que diz respeito à pretensa independência do Rei. A defesa da república faz-se, no meu caso, com uma boa dose de cinismo sobre a natureza humana. É, portanto, bastante mais pragmática. O erro é condição essencial de homens e mulheres. A presença prolongada no poder corrompe e aumenta a probabilidade do erro. Às naturais limitações humanas deve corresponder um poder limitado pelo tempo e pelo poder de homens e mulheres, iguais no erro e na dignidade, o renovarem ou fazerem cessar. Lamentavelmente, não acredito no Príncipe Perfeito. Nunca me esqueço que quem envenenou a Branca de Neve foi a Rainha Má. E sempre me pareceu que o papel mais importante na história era o dos anões.
* Envio um abraço realmente forte ao João Gomes de Almeida e ao Pedro Quartin Graça. E também ao Nuno Resende. E ao Samuel Paiva Pires.