Santos da casa fazem milagres (1)


Rui Rocha,

 

Levanta-te e anda

 

Na SIC Noticias Rúben de Carvalho indignou-se contra o “servilismo português” e a “arrogância alemã”, isto porque o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, “se manteve sentado” a conversar com o seu homólogo, Vítor Gaspar, enquanto o português estava debruçado. “Schäuble não teve a delicadeza (de se levantar)”. Há aqui um pequeníssimo detalhe: o ministro das Finanças alemão senta-se numa cadeira de rodas desde o atentado que sofreu em 1990.

Helena Ferro de Gouveia, aqui.

O acordo ortográfico visto de Angola


Rui Rocha,

“(…) Uma velha tipografia manual em Goa pode ser tão preciosa para a Língua Portuguesa como a mais importante empresa editorial do Brasil, de Portugal ou de Angola. O importante é que todos respeitem as diferenças e que ninguém ouse impor regras só porque o difícil comércio das palavras assim o exige. Há coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios, por mais respeitáveis que sejam, ou às “leis do mercado”. Os afectos não são transaccionáveis. E a língua que veicula esses afectos, muito menos. Provavelmente foi por ter esta consciência que Fernando Pessoa confessou que a sua pátria era a Língua Portuguesa.
(…)

Ninguém mais do que os jornalistas gostava que a Língua Portuguesa não tivesse acentos ou consoantes mudas. O nosso trabalho ficava muito facilitado se pudéssemos construir a mensagem informativa com base no português falado ou pronunciado. Mas se alguma vez isso acontecer, estamos a destruir essa preciosidade que herdámos inteira e sem mácula. Nestas coisas não pode haver facilidades e muito menos negócios. E também não podemos demagogicamente descer ao nível dos que não dominam correctamente o português.

(…)

Falar é outra coisa. O português falado em Angola tem características específicas e varia de província para província. Tem uma beleza única e uma riqueza inestimável para os angolanos mas também para todos os falantes. Tal como o português que é falado no Alentejo, em Salvador da Baía ou em Inhambane tem características únicas. Todos devemos preservar essas diferenças e dá-las a conhecer no espaço da CPLP. A escrita é “contaminada” pela linguagem coloquial, mas as regras gramaticais, não. Se o étimo latino impõe uma grafia, não é aceitável que através de um qualquer acordo ela seja simplesmente ignorada. Nada o justifica. Se queremos que o português seja uma língua de trabalho na ONU, devemos, antes do mais, respeitar a sua matriz e não pô-la a reboque do difícil comércio das palavras.”

 

* retirado do editorial de ontem do Jornal de Angola.

O frio polar em Lisboa


Rui Rocha,

 

Previsão de descida de temperaturas a partir de hoje. Uma das televisões generalistas (confesso que não as distingo) cumpre o ritual da reportagem sobre o frio polar em Lisboa. Arrepio-me no sofá só de imaginar a superfície solidificada do Tejo e as piruetas dos patinadores a exibirem-se no gelo, mesmo ali à frente do Cais das Colunas. Por momentos, admito até que ainda possa aparecer algum pinguim. Afinal de contas, não seria a primeira vez que eu próprio, com estes que a terra há-de comer, veria tais criaturas na capital. Se bem me recordo, da última vez a coisa aconteceu em pleno Oceanário. Corro a preparar um chá. Bebo-o a escaldar para me recompor. No regresso ao sofá, previno-me. Luvas, cachecol, gorro e, para me enroscar, o cobertor eléctrico que a Tia Marquinhas nos ofereceu pelo casamento. Protegido, arrisco uma consulta ao site do Instituto de Meteorologia. De facto, em Lisboa vai fazer um frio de rachar. Já em Bragança deve estar prestes a abrir a época balnear nas praias fluviais do Rio Fervença que, como o próprio nome indica, é uma quentura. Deve ser por estas e por outras que os jovens e menos jovens quadros das empresas lisboetas usam, entre Outubro e Abril, para além do fato esticadinho, da gravata estreitinha à Guardiola e do sapato engraxadinho, um sobretudo indispensável nos Invernos agrestes destas latitudes. Já a suar as estopinhas, dou por mim a pensar, enquanto tiro o gorro, as luvas e o cachecol e ponho o cobertor eléctrico na máquina de lavar, que as coisas de facto mudaram. Houve um tempo em que a comunicação social só dava relevo ao que se passava em Lisboa. Agora, ocupa-se das possíveis consequências em Lisboa daquilo que, na verdade, se passa em outros pontos do país.

O sal nas minhas mãos


Rui Rocha,

 

Esfregou os olhos e leu em voz alta: “quem sou eu”. O recorte esbatido da luz projectada pelo monitor engoliu o tremor que lhe percorreu as  pernas. Largou o rato e apoiou os cotovelos na mesa de trabalho. A cabeça desfaleceu-lhe em direcção às mãos. De olhos fechados, regressou à pequena e escura arrecadação da casa dos avós maternos onde tinha passado as férias de Verão dos cinco anos. Aquele tinha sido o seu refúgio sempre que os primos, mais velhos, ameaçavam dobrar-lhe as orelhas para depois as coserem com as agulhas e linhas do avô alfaiate. Imóvel na escuridão, passava os dedos pelos olhos. Depois, lambia-os para ter a certeza de que estava a chorar. Sim,  o que escorria pela sua face não era apenas o suor provocado pelo pânico e pela correria da fuga. Associar o choro à dor ou ao sofrimento reconfortava-o. As lágrimas permitiam-lhe confrontar o mundo com a injustiça da sua circunstância, mesmo que, naquele momento, esse mundo não fosse mais do que um apertado e negro esconderijo a tresandar a naftalina. Lambeu as mãos demoradamente. Húmidas e salgadas. Tal como quando era criança, a certeza do choro acalmou-o.

Estampou-se


Rui Rocha,

 

Passos Coelho devia saber que quando se refere aos portugueses está a designar uma abstracção. A entidade abstracta os portugueses responde, quando muito, a  uma identidade colectiva mais ou menos afirmada pela existência de uma história partilhada, de uma cultura comum e de uma língua utilizada como meio preferencial de comunicação. É claro que os portugueses (ou o povo) são invocados a propósito de tudo e de nada, de qualquer par de botas e dos respectivos atacadores. Reconheça-se, todavia, que para lá de um mais intuído do que palpável sentir colectivo, que por natureza será sempre difuso e apropriável pelo primeiro da fila, os portugueses enquanto entidade abstracta, não têm sentimentos. Esses são exclusivo de pessoas reais e da sua circunstância. Sob a designação portugueses encontraremos então realidades tão díspares como a de Ricardo Salgado ou a da Maria de Lurdes que ontem perdeu o emprego. Estão reunidos debaixo dessa etiqueta 700.000 desempregados e 700.000 funcionários públicos que viram os seus salários reduzidos em mais de 20%. O rótulo aplica-se tanto aos alucinados que clamam contra o fim da tolerância de ponto no Carnaval, como àqueles outros que já hoje não sabem como vão chegar ao fim do mês. Entendamo-nos. Há portugueses que são uns sacaninhas de primeira extracção, outros que são felizes, uns que sofrem, muitos que desesperam, alguns que se agarram à esperança, vários que erraram, outros tantos que cumpriram. Por isso, o Primeiro Ministro comete um erro grave quando pede, em termos genéricos, aos portugueses para serem menos piegas. Não há ponta de pieguice no sofrimento de muitos. Nestes, tais palavras só podem gerar raiva e indignação. Na melhor das hipóteses, aconselharão o Primeiro Ministro a aprender a medir as palavras. Na pior, dirão em resposta ao pedido de menos pieguice que Passos Coelho deve ter mais vergonha. Custe o que custar.

Os pontos da discórdia


Rui Rocha,

Na sequência das declarações em que António José Seguro afirmou não concordar com alguns pontos do Memorando de Entendimento com a Troika, estamos em condições de informar os leitores que os pontos em causa são os que se encontram assinalados com a bolinha vermelha no texto infra. O observador mais atento notará que se trata, em todos os casos, de pontos finais.

 

Louçã, o Rei Momo de 2012


Rui Rocha,

A tradição já não é o que era. Já se sabia. Agora o que não se esperava é que Jardim, candidato natural a rei de todos os carnavais, fosse destronado no Entrudo de 2012 por Francisco Louçã. Todavia, esta frase permite entronizá-lo como Rei Momo indiscutível dos carnavais deste ano:  “A existência de uma tolerância de ponto, de um dia em que não se trabalha no Carnaval, é um direito das pessoas, não é um baile, é um direito das pessoas fazerem o que querem, é um dia em que não são obrigadas a trabalhar de graça pela força do Governo”. Não se trata do acto revolucionário de exigir o respeito pelos direitos adquiridos. Não. Agora entramos numa fase mais avançada da luta. A do respeito pelas tolerâncias adquiridas. A tolerância é um direito. Se tudo correr bem, a expectativa, mesmo a mais carecida de protecção, vai tornar-se um dia um direito potestativo. No mínimo, será protestativo. Saliente-se, entretanto, que o Carnaval não é um baile. Registado. Não sei bem o que será. Mas, qualquer mente progressista, com um lenço tipo Arafat ao pescoço, estará em condições de afirmar que é uma manifestação cultural. O Estado paga 50.000.000 por ano para subsidiar filmes que são vistos por 2.000 pessoas? Então o Carnaval, cultural como só ele, também deve ser subsidiado. Para quê? Para investir em carros alegóricos, pagar aos cabeçudos e dar umas mamas novas (que não sejam PIP) às gajas despidas que vão nos cortejos a bater o dente. Mas, a vertigem destrambelhada continua:  o Carnaval é um dia para as pessoas fazerem o que querem. Por exemplo, Louçã quer armar-se em patarata com pose e pretensão moralista. Pode. É Carnaval. Ninguém leva a mal. O problema não está no que faz nesse dia, mas no que diz ao longo do resto do ano. Entretanto, para o final está reservado o melhor: as pessoas são obrigadas a trabalhar de graça pelo Governo. Claro que alguém que não pretenda andar disfarçado de palhaço responderá que as pessoas têm um salário mensal. E que, se é assim, cada uma delas que vai ao Carnaval está a obrigar quem lhes paga a que o faça sem a contrapartida natural: o trabalho. Aliás, como o David Levy refere, por cada dia de tolerância, o Estado paga 700.000 dias de salário para nada receber em troca. 700.000 dias de salário para financiar o Carnaval de Ovar, de Loulé, do Funchal e do CaraçasMaisVelho. A menos que me queiram convencer que 1 dia de trabalho de 700.000 funcionários públicos não tem utilidade, a conta sai baratinha. Ainda veremos alguém decretar Carnaval todo o ano para estimular a economia. Ou me engano muito, ou será Louçã. 

E já agora, se não for utilizado o acordo ortográfico cai algum “C” ao Centro Cultural de Belém?


Rui Rocha,

Vasco Graça Moura sempre disse o que pensava do coiso. E agora que assumiu novas funções, agiu em coerência com as suas convicções. Digam o que quiserem sobre o enquadramento de tal acto no âmbito da gestão de uma fundação de direito privado e interesse público. Repito, fundação de direito privado. D-i-r-e-i-t-o p-r-i-v-a-d-o. Repitam as vezes que quiserem até, por muito que custe, se convencerem. Digam o que quiserem. Sobre um ponto penso que estaremos de acordo. Sim, de acordo. Um acordo desses que pressupõe o encontro de vontades livres e esclarecidas. Um acordo a sério. Em matéria de acordo Vasco Graça Moura não é mudo. Nem é consoante.

Hip hop do Djaló (featuring Boss AC)


Rui Rocha,

A inveja é um sentimento muito feio
Mete na cabeça que ele não vai competir num único torneio
Vai andar aos empurrões e nunca será o primeiro

Ser verdadeiro não é acreditar no que dá na Canal Benfica  o dia inteiro
Não é por ele ter contrato com o Benfas que vai chegar ao céu
Tu não sabes metade do que já lhe aconteceu
O Djaló não é banda sonora de nenhum time
E se pensas que estar junto à águia vitória impressiona, enganas-te deprime
Se pensas que para chamar a atenção tem de usar o cabelo assim
Enganas-te outra vez porque isto não funciona assim
Djaló é dar pontapés na atmosfera à segunda e à terça
Djaló é ouvir este granda beat e falhar de cabeça
Breakdance, Graffiti, DJ, MC
Beatbox, street wear, rimar no m.i.c.
O Estádio da Luz a deitar por fora, o people sempre a assobiar
O Jesus a mixar e a Luciana a aplaudir

 

refrão – Hip Hop don’t stop, traz a tua crew, Djaló já a sair
DJ, B-Boy, ouvinte ou mc, Hip Hop sou eu e és tu
Hip Hop don’t stop, todos  a assobiar, sente o beat
He throws is hands down and he is never fit
O Djaló já saiu e és tu a sorrir, yo.

 

* publicado também aqui.

Não invocarás o nome de Krugman em vão


Rui Rocha,

Sem pôr em causa o mérito académico (teórico, portanto) de Paul Krugman, convém não esquecer que os textos que publica no seu blog ou nos jornais são, antes de mais, colunas bem escritas de opinião política. E que essa opinião tem uma posição marcada quer no âmbito da discussão das opções internas americanas, quer quanto às relações entre os EUA e a Europa (e o dólar e o euro). Depois, importa perceber que aquilo que Krugman defende, bem ou mal, é uma solução geral cuja viabillidade só pode ser aferida perante situações concretas. Ora, os estímulos que preconiza dependem de eléctrodos. Que são, no caso, aquilo com que se compra os melões. Coisa que manifestamente nós não temos. Da mesma maneira que não temos dinheiro para pagar aos funcionários públicos se não nos emprestarem. O que Krugman nega é a via da austeridade como solução para a Europa globalmente considerada. Na sua visão, os Estados com contas públicas equilibradas (isto é, a Alemanha e poucos mais) devem adoptar uma política expansiva. Mas, como aqui reconhece implicitamente, esse já não era o caso de Portugal nem da Grécia em 2008. Isto para dizer que invocar Krugman como voz autorizada contra as políticas de austeridade concretamente aplicadas em Portugal é como defender que a escolha do vestuário a usar no Verão deve ser feita tendo em conta as temperaturas médias do Alaska no mês de Dezembro. Aliás, o próprio Krugman admitiu recentemente que (…) il faudrait que, disons d’ici les cinq prochaines années, les salaires baissent, dans les pays européens moins compétitifs, de 20 % par rapport à l’Allemagne. Infelizmente, para Portugal a austeridade não é uma escolha. É, antes de mais, uma imposição da realidade e, depois, daqueles de quem dependemos para comprar os melões. Significa isto que não há espaço para a crítica e para opções de política interna? Claro que há. Ao alcance dos decisores continua a questão do combate ao desperdício e da  gestão racional e eticamente aceitável dos escassos meios que existem. A escolha, agora mais do que nunca dramática, coloca-se, por exemplo, entre a captura de rendas pelos poderes instalados e a existência de uma barreira de protecção mínima para os que se afogam na enxurrada e precisam realmente de apoio. Ou entre a compressão de alguns direitos adquiridos e a necessidade de dar resposta a 30% de desemprego entre os jovens. São estas as decisões políticas que o governo deve fazer e é por elas que deve ser julgado.