O acordo ortográfico visto de Angola


Rui Rocha,

“(…) Uma velha tipografia manual em Goa pode ser tão preciosa para a Língua Portuguesa como a mais importante empresa editorial do Brasil, de Portugal ou de Angola. O importante é que todos respeitem as diferenças e que ninguém ouse impor regras só porque o difícil comércio das palavras assim o exige. Há coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios, por mais respeitáveis que sejam, ou às “leis do mercado”. Os afectos não são transaccionáveis. E a língua que veicula esses afectos, muito menos. Provavelmente foi por ter esta consciência que Fernando Pessoa confessou que a sua pátria era a Língua Portuguesa.
(…)

Ninguém mais do que os jornalistas gostava que a Língua Portuguesa não tivesse acentos ou consoantes mudas. O nosso trabalho ficava muito facilitado se pudéssemos construir a mensagem informativa com base no português falado ou pronunciado. Mas se alguma vez isso acontecer, estamos a destruir essa preciosidade que herdámos inteira e sem mácula. Nestas coisas não pode haver facilidades e muito menos negócios. E também não podemos demagogicamente descer ao nível dos que não dominam correctamente o português.

(…)

Falar é outra coisa. O português falado em Angola tem características específicas e varia de província para província. Tem uma beleza única e uma riqueza inestimável para os angolanos mas também para todos os falantes. Tal como o português que é falado no Alentejo, em Salvador da Baía ou em Inhambane tem características únicas. Todos devemos preservar essas diferenças e dá-las a conhecer no espaço da CPLP. A escrita é “contaminada” pela linguagem coloquial, mas as regras gramaticais, não. Se o étimo latino impõe uma grafia, não é aceitável que através de um qualquer acordo ela seja simplesmente ignorada. Nada o justifica. Se queremos que o português seja uma língua de trabalho na ONU, devemos, antes do mais, respeitar a sua matriz e não pô-la a reboque do difícil comércio das palavras.”

 

* retirado do editorial de ontem do Jornal de Angola.

31 comentários em “O acordo ortográfico visto de Angola”

  1. Excelente, sábio e comovente texto. Destaco este longo trecho: «O importante é que todos respeitem as diferenças e que ninguém ouse impor regras só porque o difícil comércio das palavras assim o exige. Há coisas na vida que não podem ser submetidas aos negócios, por mais respeitáveis que sejam, ou às “leis do mercado”. Os afectos não são transaccionáveis. E a língua que veicula esses afectos, muito menos. Provavelmente foi por ter esta consciência que Fernando Pessoa confessou que a sua pátria era a Língua Portuguesa.»

    1. «Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente. Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

      Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m’a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.»

      Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, ed. de Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Ática, 1982 vol. I, págs. 16-17

        1. Muita gente tem usado esse argumento – que é enganador. À excepção de “escripta” (que não faria mal nenhum que se escrevesse daquela forma, diga-se) trata-se de substituições por outras letras, como o ph para f e não o desaparecimento de consoantes que são efectivamente pronunciadas por quem sabe falar como deve de ser.

          1. Vasco, as palavras com consoantes que se pronunciam vão ter grafia dupla. Eu tenho tentado informar-me, recomendo-lhe que faça o mesmo.

          2. Agradeço o conselho, mas não me interessa conhecer a nova ortografia. E o problema é outro: a maioria das pessoas vai tirar as consoantes todas indiscriminadamente – inclusivamente em palavras que não era suposto haver alterações. Como, de resto, já tenho observado.

          3. Se não lhe interessa conhecer a nova ortografia seria pedir muito que evitasse escrever mentiras sobre um assunto que desconhece? Muito obrigado.

          4. Bem, o que vale é que felizmente esta trapalhada vai ser abolida antes de o tempo me dar razão 😉

          5. Já agora: aconselho-o a ser menos arrogante. Isto para a gente não se chatear e acabarmos aqui à bofetada. Já tenho a minha dose de meninos das avenidas.

        2. Esses bons tempos são os de hoje em Inglaterra, USA, França, Alemanha…. Toda aquela gente escreve philosophy, philosophie ou philosophia.
          Claro está que não têm autores importantes. Em compensação, o mundo estuda e reflecte sobre a produção filosófica portuguesa e brasileira.
          Sobre o assunto: «Os ingleses escrevem “physics” e “philosophy” e no entanto a sua fonética é muito diferente da fonética do latim ou do grego antigos. Exactamente em que sentido é que “filosofia” e “philosophia” são foneticamente divergentes? Parece que o próprio objectivo de aproximar a ortografia da fonética é uma ideia com credenciais lógicas duvidosas. A simplificação da escrita é tanto uma aproximação à fonética como a simplificação da notação musical é uma “aproximação” aos fenómenos acústicos — duas notações diferentes exprimem os mesmos fenómenos acústicos, a simplicidade da notação nada tem a ver com a relação entre notas e sons. Nem sequer podemos afirmar, portanto, que com os reformadores passámos à “ditadura da fonética”: a fonética de “filosofia” é compatível com uma ou outra grafia, a menos que no tempo de Eça de Queiroz os utentes do português pronunciassem “philosophia” como se estivessem a ler grego antigo. Tão-pouco os utentes do inglês pronunciam “philosophy” com a fonética grega antiga. Não lembra ao diabo que em inglês haja ou tenha havido uma cisão entre a fonética e a ortografia, porque simplesmente não há leis “fonográficas” estritas. É tão disparatado afirmar que escrever uma palavra com menos letras aproxima a grafia da fonética como afirmar que imaginar um cisne com menos penas torna a nossa imagem mental do cisne mais “próxima” do cisne real.»
          Vitor Guerreiro, in http://criticanarede.com/ed1.html

          1. “Esses bons tempos são os de hoje em Inglaterra, USA, França, Alemanha…. “

            c., vá ler o Shakespeare ou o Montaigne no original e depois diga-me que os ingleses e franceses continuam a escrever como nos velhos tempos.

            Inventam-se muitos argumentos nesta discussão.

        1. Queria dizer que o Brasil não é conhecido por ser uma escola de edificação de virtudes, mas que isso nunca foi usado para distrair as atenções do problema em si, nem apontado por ninguém como impeditivo fosse do que fosse.
          Angola foi o único país interveniente no acordo que enviou filólogos seus a todos os países de língua oficial portuguesa para fazer um levantamento dos problemas da língua portuguesa (talvez por não considerarem que o acordo “não é uma questão linguística, é uma questão política, uma questão muito importante do ponto de vista da política de Língua no âmbito da Lusofonia”, como afirmou malaca casteleiro).
          A posição do Jornal de Angola tem a vantagem de tornar obsoleta a máquina de propaganda acordista, dirigida aos que em Portugal se opunham ao «acordo» e eram apelidados de «reaccionários», e «donos da língua».

    1. Este texto é sobre o acordo ortográfico.
      Falar de textos hipotéticos sobre outros assuntos é um exercício conhecido de desconversa, mas em nada nos ajuda em relação ao que está em questão.
      Em relação a este texto tem algum defeito a apontar?

  2. Cum caneco! Agora fiquei a pensar que isto é um verdadeiro quebra-cabeças! Os dialetos são tantos, mas a escrita é só uma, claro! A ser assim, já perdemos muito daquilo que seria a Língua Portuguesa no seu original! Hum… Temos aqui um verdadeiro problema, temos! Perca de identidade! Sou sincera, já adotei o Novo Acordo, porque odeio dar erros! Vistas bem as coisas, têm toda a razão! Eu própria acabei por contribuir para a perda deste “património imaterial da cultura” (adoto a expressão), sem dúvida! Acho que as pessoas não têm a noção disso! Eu não tinha, até ao momento em que li este post, confesso! Como poderão ter, então, aquelas pessoas que têm pouca escolaridade?! Andarei eu assim tão distraída?!! Será que a sensibilização, levada a cabo pelos meios de comunicação social, entre outros, foi eficaz?!! Falar que se contesta e não explicar devidamente as razões pelas quais se está contra alguma coisa é meio caminho andado para que o “povo”, no qual me incluo, não perceba nada do que se está a passar.

    Obrigada pelo contributo. Já me sinto menos ignorante!!

    A anónima que anda muito distraída!
    Cristina Silva

    1. A sua sorte, Cristina, é que ainda não aboliram os pontos de exclamação. E já que não gosta de dar erros, experimente escrever “perda” e não “perca”. Perca é um peixe. Do Egipto.

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