Sem pôr em causa o mérito académico (teórico, portanto) de Paul Krugman, convém não esquecer que os textos que publica no seu blog ou nos jornais são, antes de mais, colunas bem escritas de opinião política. E que essa opinião tem uma posição marcada quer no âmbito da discussão das opções internas americanas, quer quanto às relações entre os EUA e a Europa (e o dólar e o euro). Depois, importa perceber que aquilo que Krugman defende, bem ou mal, é uma solução geral cuja viabillidade só pode ser aferida perante situações concretas. Ora, os estímulos que preconiza dependem de eléctrodos. Que são, no caso, aquilo com que se compra os melões. Coisa que manifestamente nós não temos. Da mesma maneira que não temos dinheiro para pagar aos funcionários públicos se não nos emprestarem. O que Krugman nega é a via da austeridade como solução para a Europa globalmente considerada. Na sua visão, os Estados com contas públicas equilibradas (isto é, a Alemanha e poucos mais) devem adoptar uma política expansiva. Mas, como aqui reconhece implicitamente, esse já não era o caso de Portugal nem da Grécia em 2008. Isto para dizer que invocar Krugman como voz autorizada contra as políticas de austeridade concretamente aplicadas em Portugal é como defender que a escolha do vestuário a usar no Verão deve ser feita tendo em conta as temperaturas médias do Alaska no mês de Dezembro. Aliás, o próprio Krugman admitiu recentemente que (…) il faudrait que, disons d’ici les cinq prochaines années, les salaires baissent, dans les pays européens moins compétitifs, de 20 % par rapport à l’Allemagne. Infelizmente, para Portugal a austeridade não é uma escolha. É, antes de mais, uma imposição da realidade e, depois, daqueles de quem dependemos para comprar os melões. Significa isto que não há espaço para a crítica e para opções de política interna? Claro que há. Ao alcance dos decisores continua a questão do combate ao desperdício e da gestão racional e eticamente aceitável dos escassos meios que existem. A escolha, agora mais do que nunca dramática, coloca-se, por exemplo, entre a captura de rendas pelos poderes instalados e a existência de uma barreira de protecção mínima para os que se afogam na enxurrada e precisam realmente de apoio. Ou entre a compressão de alguns direitos adquiridos e a necessidade de dar resposta a 30% de desemprego entre os jovens. São estas as decisões políticas que o governo deve fazer e é por elas que deve ser julgado.
Não invocarás o nome de Krugman em vão
Rui Rocha,

Rui estou inteiramente de acordo contigo. Por isso, com menção de autoria e origem, vou republicar-te, lá no meu domínio.
Obrigado pelo destaque, Helena. Embora não me chame Costa.
O Krugman diz uma coisa e o seu contrário quando lhe convém políticamente. Nos EUA diz que quer ainda mais estímulos apesar das contas dos EUA estarem um desastre já há algum tempo.
Não me espanta o Krugman, ele sempre esteve no topo da bolha com apoios ás GSE do crédito imobiliário: Freddie Mae e Freddie Mac, esteve metido na Enron. Tal como outro compagnon de route : Stiglitz. Espanta-me outras pessoas
Começando pela esquerda que condenam o suposto capitalismo de casino que levou à bolha mas parecem viciados nos resultados -temporário- mas que durou bastante para pensarem que não o é, daquilo que chamam capitalismo de casino. Tanto que querem voltar a ter os mesmos níveis de rendimento que o capitalismo de casino proporcionou.
Ora a bolha proporcionou receitas record para os Estados e foi precisamente por causa disso que existiu e se manteve durante tanto tempo e atingiu as dimensões que tomou. A bolha foi criada pelos políticos por essa razão.
Isto não é só em Portugal e na Esquerda.
O Ambrose Pritchard do Telegraph e muitos outros da Direita apesar de condenarem a bolha do crédito não tiram as consequências dessa afirmação, parece que continuam a ambicionar as receitas e o nível de transação que existia no topo bolha. Como se uma situação anormal não tivesse existido e essa frequência de transações fossem o normal.
No fundo o que quase todos temos é medo das soluções alternativas. As políticas expansionistas dão-nos a ilusão de ganhar tempo. E isso não é pouca coisa quando a corda começa a apertar a garganta. O problema é que Portugal já está pendurado na árvore.
Com juros demasiado altos, quer-me parecer que é quase matematicamente impossível sair deste cenário, com qualquer tipo de política, mesmo tendo crescimentos económicos na ordem dos 5%.
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Só é impossível se você não conceber défice zero.