Menos de meio feriado por cada século de história ou fracção


Rui Rocha,

De entre os feriados obrigatórios previstos no Código do Trabalho parece-me que os seguintes são os que estão exclusivamente relacionados com a nossa história (coloquei-os por por ordem cronológica para não ferir susceptibilidades, mas bem sei que poderia ter começado do fim do ano para o princípio, ou ter utilizado ordem alfabética ou ter começado do mais antigo para o mais recente ou vice-versa) : 

  • Dia da Liberdade – 25 de Abril
  • Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas – 10 de Junho
  • Implantação da República – 5 de Outubro
  • Restauração da Independência – 1 de Dezembro

Se virmos bem, são poucos. Escusam de vir com a conversa de que temos mais do que outros. Os países em causa não têm oito séculos de história e uns quebrados. Ou me engano muito, ou dá menos que 0,5 feriados por cada século. Deve mesmo ser o rácio mais baixo da Europa. Por isso é que, chegada a hora de escolher os feriados que acabam, nos custa tanto. Como é que podemos dizer adeus à comemoração de qualquer um deles de ânimo leve? Não é possível. Assim, se dermos de barato que a eliminação de alguns feriados representa um benefício em termos de competitividade da economia, só nos restam duas alternativas. Uma delas é reduzir mais feriados religiosos. Confesso que o tema é estimulante, mas não me apetece ir por aí. Esta semana já fiz posts sobre a monarquia e o Mourinho e não consta que me tenham calhado sete vidas como aos gatos (e, para dizer tudo, ainda tenho vontade de gozar muitos feriados). A outra possibilidade é aumentar o número de feriados para depois os podermos reduzir. Claro que não vai ser fácil chegar a um consenso. Os monárquicos quererão celebrar umas datas, as mulheres outras, os republicanos aquelas, os maçons estas e por aí fora. Mas, se formos capazes de nos unirmos como povo para escolhermos os feriados adicionais provaremos ao mundo e aos credores que conseguimos enfrentar os maiores sacrifícios. Depois, bastará eliminar rapidamente os novos feriados criados. Antes de nos afeiçoarmos a eles.

5 comentários em “Menos de meio feriado por cada século de história ou fracção”

  1. «não vai ser fácil chegar a um consenso»
    Defeito ou confusão, sobre economia e democracia.
    Quando a “Liderança” está ausente, sobra a anarquia.
    Impossível, é que alguma solução razoável possa vir dos 230 inúteis de S. Bento.
    Há poucos anos, umas senhoras propuseram a junção dos feriados com os fins de semana.
    Não sabemos se por surdez ou estupidez, ninguém naquela casa se dignou ouvir.

  2. Isto é só o português a buscar um escape para justificar não mudar nada de significativo: O Estado vai continuar a crescer.

    “As coisas têm de mudar para tudo ficar na mesma”
    Il Gattopardo.

  3. há um indivíduo que vem da british columbia, lá no canadá, que tem 9 feriados públicos, e que acha que em portugal também devemos ter 9 feriados, porque isso é bom para a competitividade da nossa economia.
    e é daqui que partimos.
    o que é que lhe interessa a história e por aí fora?
    assinou há meia dúzia de dias um compromisso que estabelecia que os feriados seriam reduzidos em 3 ou 4, mas rapidamente se decidiu por 4 (grande surpresa para o proença!!!).
    para além de ter estabelecido o número a reduzir, também estabeleceu que seriam 2 feriados civis e 2 religiosos.
    chegados aqui, com esta matemática toda, qual o sentido de estar o escolher quais os feriados a abater?
    façam um sorteio, com tômbola, vendam apostas e deixem-me em paz.

    1. Acho importante contestar o “lóbi” da Igreja na sociedade. Pelos censos, 80% da população diz-se católica, não sei qual a questão, mas presumo que sejam apenas pessoas que se identificam com a religião, acreditam em Deus, Cristo, foram batizados, etc, mas só uma pequena parte deve ser mesmo praticante da religião. Ou seja, quantas portugueses “comemoram” os feriados religiosos, além do Natal? E como é que se comemora, vai-se à missa? Não é possível, para os praticantes, compatibilizar a vida pessoal com a vida profissional, ou conseguir alguma tolerância dos patrões?

      É-me indiferente acabarem com o 5 de Outubro e 1 de Dezembro, são apenas simbólicos, mas mesmo assim têm uma muito maior relevância que os religiosos. Dentro da simbologia e inutilidade, os feriados históricos ao menos dizem respeito a todos os portugueses.

      Antes de acabarem com o 5 de Outubro e 1 Dezembro, que todos sabemos que são, perguntem aos portugueses o que é, e quando e como se comemora, o Corpo de Deus, Assunção de Maria, Dia de Todos-os-Santos, Sexta-Feira Santa, Imaculada Conceição.

  4. Os portugueses de uma maneira geral são avessos à mudança, e esta historia dos feriados é mais um exemplo. A esquerda está piursa porque vai acabar o 5 de Outubro. Mas o que são nos tempos que vão correndo as comemorações do dia da Republica? O PR vai à varanda da CML, asteia a Bandeira Nacional, faz um discurso perante umas dezenas de pessoas, e vai-se embora. Então o país tem que parar para isto? Esta cerimonia não pode ser feita num normal dia de trabalho?
    Quanto ao 1º Dezembro dia da Restauração, é a mesma coisa, e hoje este feriado apenas é celebrado pelos monarquicos, que tambem podem fazer as juras de fidelidade ao Sr D. Duarte num dia de trabalho.
    Os dois feriados catolicos que tambem vão ser extintos, parece não estarem a levantar grandes polemicas, porque não dizem nada à esquerda.
    Os que estão contra as extinções do feriados, se tivessem de os pagar, se calhar estavam bem caladinhos.

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